Vida Depois do Divórcio em Portugal

Vida depois do divórcio

Beatriz, por que insistes tanto nisso? O tom de Leonor, sua mãe, tinha aquela paciência condescendente que sempre a fazia sentir-se pequena, como uma criança teimosa a quem se explica o óbvio. O Ricardo é um excelente homem. Bem-apessoado, inteligente, com um salário bom e um apartamento próprio em Lisboa. O que mais poderias desejar?

Beatriz largou a colher com que mexia o caldo verde e olhou para a mãe. As mãos tremiam levemente rapidamente, escondeu-as sob a mesa, sem querer que Leonor percebesse.

Mãe, ele foi-me infiel disse ela baixinho, encarando os olhos da mãe. Mais do que uma vez, mais do que duas tornou-se sistemático. Casámos há apenas meio ano e já eu tinha provas suficientes para o juiz nem sequer considerar tempo para reconciliação! Percebes? Até alguém de fora reconheceu que o nosso casamento não tinha salvação.

E então? Leonor deu de ombros e endireitou o avental, desvalorizando o que para Beatriz doía fundo. Todos os homens fazem o mesmo. E olha, de um bom lar nenhum homem foge. Tinhas era de te esforçar, filha fazer uns cursos, ir ao ginásio, mudar de aparência. E não correr logo para o divórcio!

Beatriz suspirou, sentindo aquela velha onda de cansaço levantar-se-lhe por dentro. Era, pela décima vez em duas semanas, a mesma conversa. Depois da separação, passara a viver em casa da mãe o seu pequeno apartamento, herdado da avó em Évora, estava alugado até os inquilinos irem embora. Contava os dias para poder recomeçar, respirar livremente naquele espaço pequenino, mas só dela.

******

Quando a campainha soou, aguda e insistente, Beatriz soube instintivamente quem era. Ricardo. Mais uma vez. O coração caiu-lhe ao fundo do peito, as mãos suaram. Leonor, como de costume, parecia convidá-lo propositadamente, ignorando o sofrimento da filha.

Filha, é o Ricardo anunciou Leonor, exultante, espreitando da cozinha, com o rosto iluminado quase de orgulho infantil. Entra, Ricardo! gritou na direção do hall, num tom acolhedor que a Beatriz repugnava.

Beatriz apertou a colher com força, os nós dos dedos brancos de tensão. Um nó formou-se-lhe na garganta, o peito tornou-se pesado.

Mãe, não quero falar com ele murmurou, esforçando-se por manter a voz firme.

E quem te perguntou? Leonor disparou de súbito, um traço de irritação vincando o rosto. A casa é minha, convido quem bem entender. Enquanto aqui vives, cumpres as regras.

Beatriz sentiu as lágrimas a quererem soltar-se, mas engoliu em seco. Levantou-se apressada, quase derrubando a chávena de chá, passou pela mãe e por Ricardo, que se descalçava no corredor, e dirigiu-se à porta da varanda. O cheiro do seu perfume Madeira e citrinos dava-lhe ânsias.

Espera, Beatriz! chamou Ricardo, num tom disfarçado de preocupação que só a irritou ainda mais.

Ela nada respondeu. Abriu a porta de rompante e saiu para a varanda, fechando-a atrás de si com força. O frio do ar portuense atravessou-lhe o casaco e gelou-lhe a pele, mas Beatriz ignorou. Encostou-se ao corrimão, dedos brancos de tanto apertá-lo, e perdeu o olhar nos prédios cinzentos ao longe, nas luzes dispersas, na figura solitária de alguém a desfilar apressado de guarda-chuva.

“Se ao menos ele se fosse embora”, pensava, apertando o cardigan fino contra o frio. Por detrás da porta, ouvia a mãe conversar animadamente com Ricardo na cozinha, pratos a tilintar, água a correr, o riso fácil e quase cru de Leonor como se nada tivesse acontecido, como se a filha não estivesse ali fora, a tremer de raiva e desespero.

Os minutos custavam a passar, grossos e pesados. Beatriz sentia o corpo a gelar, os dedos enregelados, os ombros a tremer. Mas recusava-se a voltar para dentro.

A porta atrás dela rangeu, e com o som, Beatriz estremeceu e virou-se bruscamente. Ricardo acabava de entrar.

Beatriz ficou a poucos passos dela, com as mãos nos bolsos, tentando encontrar-lhe o olhar. Temos de conversar.

Não temos nada para dizer voltou-se novamente para a rua, tentando dominar o tremor.

Ouve, eu percebi os meus erros. Mudei, a sério. Porque não tentamos de novo? Serei outro homem, prometo.

Nem sequer pediste desculpa respondeu Beatriz, sentindo a irritação borbulhar. Só queres que tudo volte a ser como era, porque te convém. Não mudaste, Ricardo. Queres é recuperar o que perdeste.

Beatriz, mas eu

Chega! atalhou ela, o tom agora firme e seguro, surpreendendo-se a si própria. Não quero promessas vãs. Não quero um homem incapaz de ser leal, que põe os desejos acima do respeito. Quero distância.

Tentou abrir a porta de vidro trancada. Uma vez mais, obra da mãe!

Mãe! gritou, a voz a tremer entre súplica e raiva. Abre a porta!

O trinco girou minutos depois e lá estava Leonor, de avental com cerejas, sorriso largo como se celebrassem algo. Na mão, uma caneca de chá cuja fragrância invadia o ar.

O que fazem aqui isolados? colocou a chávena na pequena mesinha que ali dispusera no verão e ajeitou a toalha. Venham jantar, já está tudo pronto. Chá de cidreira, como gostam.

Beatriz passou por Leonor sem olhar, furiosa não só com Ricardo, mas sobretudo com a mãe, que insistia em intrometer-se na sua vida, à revelia dos sentimentos e da dor da filha.

Mãe murmurou no corredor, encarando-a directamente, por favor, basta. Não quero mais vê-lo aqui. Não quero que o voltes a convidar. A minha vida é minha e só eu posso escolher o que é melhor para mim.

Ai filha Leonor deu-lhe uma palmada no ombro, o gesto demasiado familiar para o estado de espírito de Beatriz. Está arrependido! Os homens confundem-se, mas mulher sábia sabe perdoar. És teimosa, devias ser mais doce

Beatriz fechou os olhos, contando até dez. Discutir era inútil. Mesmo assim, as lágrimas picavam. Debruçou-se sobre a sua cama, o ar pesado do quarto a tornar tudo mais difícil. Apertou os punhos contra os joelhos, tentando conter o tremor.

Na cozinha, ainda ouvia a conversa de Leonor com Ricardo, o tom da mãe animado, quase comemorativo, como se tivesse conseguido algo. O de Ricardo era suave, apaziguador aquele mesmo a que recorria sempre que ela o apanhava no flirt inocente, como gostava de lhe chamar, sempre se desculpando. O som dessas conversas revoltava Beatriz, dava-lhe volta ao estômago.

** Como atreveu-se ele a aparecer aqui? pensava, as unhas marcando as palmas. Depois do que fez… Três mulheres em seis meses de casamento, reconheci o padrão. E estas, as de que eu soube. Quantas mais haverá?**

Mais tarde, quando o silêncio finalmente caiu e a porta de entrada bateu surda, ela aventurou-se a sair. O aroma do bolo de laranja e do chá de erva-doce, preparados por Leonor, quase a fez ceder por um instante, sentar-se como dantes e esquecer, sem pensar. Mas reprimiu o ímpeto.

Filha, porque te isolas tanto? Leonor virou-se com um sorriso artificial, colando uma calma forçada ao rosto. O Ricardo está a tentar mostrar que mudou. Eu disse-lhe: Tens de provar à Beatriz que vales a pena.

Não quero provas, nem quero mais nada dele respondeu, encostando-se à ombreira e sentindo a pintura áspera sob os dedos. Quero apenas paz enquanto não me mudo para o meu apartamento. Peço muito?

Leonor sentou-se, os ombros caídos sob o peso do desalento.

Continuas demasiado radical rebateu, o cansaço na voz. Ninguém é perfeito. Sim, errou mas será que tu própria não podias ter feito diferente? Se calhar devias ter dado mais atenção

Ou ele podia ter sido fiel retrucou Beatriz, a voz agora firme. É assim tão difícil? Só quero que alguém não me traia, não minta, não me desiluda. Não é isso que significa ser casal?

******

Ricardo começou a aparecer cada vez mais. Esperava-a junto à porta do prédio, dizia que ia a passar. Trazia doces pastéis de nata da confeitaria na Baixa, flores compradas à pressa no Mercado da Ribeira. Parecia sempre pronto, mas Beatriz percebia as intenções.

Um dia apareceu com um ramo de rosas vermelhas e uma caixa de bombons Regina, dos preferidos de infância de Beatriz. As pétalas estavam húmidas, o brilho da embalagem inconfundível.

São para ti murmurou, pousando o ramo com aquele olhar que um dia foi meigo. O que hoje lhe era artificial, tornado cansado pelo tempo.

Obrigada, mas não devias ter vindo ela recusou flores e chocolates, voz firme.

Eu sei. Só não consigo desistir, Beatriz. Foste tudo para mim.

Foste, Ricardo corrigiu-a, cada palavra a custar-lhe. Foste.

Ele ficou calado, baixou a cabeça. Quando finalmente decidiu ir-se embora, Leonor apareceu, como vinda de propósito.

Ricardo, querido, entra! exclamou insistentemente, um tom forçado de alegria. Beatriz, aceita o teu ex-marido em casa! E repara nas flores que beleza!

Mãe, ele vai sair respondeu o mais calma que pôde, engolindo a revolta. E não preciso de nada dele.

Ora Beatriz! Leonor pegou no braço de Ricardo, que enrijeceu ligeiramente mas não se afastou. Provei um bolo novo senta-te connosco.

Beatriz abandonou a discussão e recolheu-se no quarto. Pela porta, ouviu Leonor dizer:

Ela só está magoada. Continua a tentar. Um dia ela valoriza a tua persistência.

Tapou os ouvidos, mas as palavras instalavam-se como nevoeiro. Queria gritar, dizer tudo, rebentar. Mas, em vez disso, sentou-se e começou a desenhar no velho diário: marés, montanhas, linhas soltas tudo o que traduzisse o seu desalento. O ritmo do traço acalmava-lhe a alma.

******

Meses depois, Beatriz pôde finalmente mudar-se para o seu próprio canto, em Évora. Fez amigas e, entre saídas a cafés, começou a praticar ioga nas manhãs de sábado. Sentia-se mais forte, mais confiante cada asana era como uma raiz que fincava na terra, soltando o passado.

Foi numa dessas aulas que conheceu o David, o instrutor. Uns anos mais velho, sereno, sorriso discreto, olhar atencioso. Trocaram números, combinaram um café, depois outro e Beatriz percebeu que, com ele, sentia-se calma. Não havia promessas de estrelas, nem grandes declarações. David simplesmente estava, firme, paciente. Era seguro estar ali, a conversar sem pretensão.

Quando, finalmente, comentou sobre David com a mãe, Leonor reagiu sem surpresas parecia até esperar por aquele momento.

Quem é ele? O que faz? Tem casa ou vive de renda? as perguntas vinham afiadas como facas.

É instrutor de ioga. Dá aulas num estúdio perto do escritório. Mora no bairro ao lado.

Só isso? Leonor franziu o nariz com desdém. Nem casa própria tem! Queres viver toda a vida a saltar de casa em casa? Ou vai morar contigo? Vais sustentar homem?

Mãe, não me interessa quanto ele ganha. Ele respeita-me, é bondoso respondeu Beatriz, olhos nos olhos.

Respeito O Ricardo também o fazia! Foste tu que não soubeste ver.

Fechou os olhos, contando até dez. Discutir sobre o significado de felicidade com Leonor era inútil: para ela, marido bom era homem de posses e títulos; mulher boa, aquela que perdoa e se molda.

Com David, tudo evoluiu devagar como um rio de primavera, tímido, mas ganhando força. Partilhavam conversas tardias, caminhadas pelo Jardim da Estrela, cozinhavam juntos. O simples facto de ele estar chegava para reacender a esperança num futuro sereno.

Seis meses depois, no jardim, David pediu-lhe que partilhasse a vida com ele.

Beatriz, quero que fiques sempre ao meu lado. Casa comigo?

Olhou-o nos olhos quentes, honestos e um sorriso genuíno nasceu-lhe nos lábios.

Sim, David. Aceito.

Nem hesitou, embora soubesse o que vinha.

Vais arrepender-te! Leonor apareceu no hall de braços cruzados, postura inflexível. Ele não tem eira nem beira. Vais amargurar-te por esta escolha.

Já decidi, mãe Beatriz apertava o casaco, o coração batendo com uma leve euforia tranquila. Estou feliz. Só isso devia bastar.

Não! gritou Leonor, fria e distante. Nunca me deste ouvidos. Sabes lá o que fazes!

******

Casaram de forma modesta como sonharam. Só amigos próximos e dois tios do lado dele. Beatriz escolheu um vestido branco simples, David um fato azul-escuro. Quando trocaram alianças, ficou-lhe a certeza de estar a viver um momento mesmo seu, sem influências.

Leonor não foi; enviou um ramo de lírios brancos com uma fita negra e um cartão: Espero que te arrependas. Beatriz olhou os lírios por muito tempo e afastou-os delicadamente. Sentiu um aperto, mas recusou entregar-se à tristeza.

Ainda houve mais uma surpresa: Leonor convencera Ricardo a aparecer. Beatriz e David saíam do registo civil quando o avistaram encostado ao carro, mãos nos bolsos, olhar indecifrável talvez arrependido, talvez perdido.

Que fazes aqui? perguntou Beatriz, um nervoso já distante, como mágoa antiga.

A tua mãe pediu. Disse que cometias um erro e não tens coragem de admitir.

A minha mãe diz muitas coisas interveio David, de mão dada com Beatriz, seguro. Mas nem sempre tem razão.

Pois então, liga-me se te cansares da pobreza. Aceito-te de volta, nem peço nada em troca.

E foi-se embora, deixando um rasto amargo atrás de si.

Depois do casamento, Beatriz e David planeavam mudar-se para o Porto, onde tinham ofertas de trabalho e novas possibilidades. Beatriz aceitou quase sem pensar. Queria recomeçar longe, onde ninguém lhe lembrasse o passado, onde pudesse desenhar, finalmente, a própria vida.

Antes de partir, despediu-se de Leonor. Encontrou-a à janela, de costas, a olhar para os telhados grisalhos daquele bairro antigo.

Vamos embora, mãe. Para o norte.

E então? Agora foges dos problemas?

Não fujo, mãe. Corro para a felicidade. E gostava que fosses feliz comigo mas só se respeitares as minhas escolhas.

Leonor virou-se, olhos carregados de mágoa, os braços cruzados como uma muralha.

Respeitar-te? Porquê? Vais para longe com um professor de ioga? Que futuro é esse? E o Ricardo, que podia dar-te tudo? Se te arrependes, não digas que não te avisei!

Beatriz sentiu o peso daquela velha tristeza arrastar-se-lhe pela espinha. Quantas vezes já tinham tido esta conversa? Quanto custa explicar que felicidade não é salário, nem casa, nem carro? Fixou o olhar da mãe, agora sem hesitação.

O David dá-me o que nunca tive com o Ricardo confiança, paz. É isso, mãe. Posso finalmente ser eu mesma, ser aceite.

Paz? Leonor riu-se, amarga. Chamas paz a um emprego incerto, casa arrendada, cidade desconhecida? O Ricardo oferecia-te tudo carro, viagens, conforto. Não aceito!

*****

Beatriz desconhecia que Leonor telefonara a David nessa noite.

David, peço desculpa murmurou Leonor, voz cheia de falsa doçura. A Beatriz é impulsiva, não pensa. Quando abrir os olhos, será tarde. És só uma distração, nada mais. Ela ama o Ricardo, mas tem orgulho a mais para admitir.

David escutou em silêncio, a irritação a crescer-lhe por dentro.

Estou agradecido pela preocupação, mas conheço bem a Beatriz. Vi como ela mudou junto de mim. Estou certo dos nossos sentimentos.

Ai, rapaz, és tão ingénuo Achas que ela vai ser feliz longe? Quando estiver sozinha, vai arrepender-se. É o Ricardo quem a vai amparar…

David cortou-lhe a palavra, firme.

Obrigado, mas esse assunto acaba aqui. Beatriz é adulta e fez a sua escolha. Ela escolheu-me e não vou desiludi-la.

E desligou, ressentindo-se por Beatriz ter crescido à sombra de expectativas alheias.

******

No dia seguinte, Beatriz voltou a casa da mãe para um derradeiro adeus. Trouxe uma caixa de broas de mel que Leonor adorava na infância, e um ramo humilde de malmequeres simples e vivos, como ela gostava.

Leonor recebeu-a só com lamentos.

Não queres pensar melhor? Fica ao menos um mês. Dá tempo ao tempo, filha. Talvez mudes de ideias

Já está tudo decidido respondeu Beatriz, exausta. O David e eu já temos casa perto de um parque. Conheci colegas por videochamada, ele fechou contrato Tudo encaminhado.

Foi ele que te convenceu? Para te prender longe? Ele sabe que, se cá ficasses perto de mim e do Ricardo, depressa mudavas de ideias. Ele quer controlar-te!

Beatriz paralisou. Aquilo era absurdo, injusto. Pela primeira vez viu não a mãe amorosa, mas alguém incapaz de reconhecer quem realmente era.

Acreditas mesmo nisso? Achas que o David é assim? Que manipula?

Todos os homens querem controlar. O Ricardo sempre foi sincero, este esconde-se atrás de gentilezas.

Basta, mãe! sentiu lágrimas quentes e rebeldes a quererem cair. Não suporto mais viver sob culpa, condenação, espinhos na carne dos meus próprios sonhos.

Virou-se para sair, mas Leonor segurou-lhe o braço, com força.

Espera havia súplica e desespero. Só quero o melhor para ti.

O melhor é o que eu escolher. Eu escolho o David. E escolho a minha vida, finalmente livre da tua vigilância, sem críticas, sem remorsos. Quero respirar, mãe, respirar sem olhares de censura.

Leonor largou o braço, derrotada. O rosto distorcido de dor, lágrimas a ameaçar cair.

Vais mesmo virar-me costas por um homem qualquer?!

Não é virar costas a ti, mãe. Mas nunca serei a filha que desejavas, imune a dúvidas. Quero só que me aceites como sou. Se não podes é melhor cada uma seguir o seu caminho ver se um dia conseguimos aceitar-nos.

Como queiras Leonor voltou-se para a janela. Quando quiseres voltar, sabes onde estou.

Beatriz ficou um instante ainda, olhando as costas frágeis da mãe, o cabelo grisalho, os dedos cravados no parapeito. O instinto era abraçá-la e dizer que tudo ia acabar bem. Mas seria mentir. Saiu sem ruído, o novo telemóvel guardado no bolso com o número que a mãe não conheceria. Talvez um dia se entendessem. Mas por ora, precisava de espaço o seu próprio espaço, pleno, livre.

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