Ela Não Se Enganou

Ela não se enganou

Soraia terminava de limpar a casa quando ouviu a campainha tocar. Lavou as mãos à pressa e foi abrir a porta. À entrada estava a sua sogra, D. Otília Marques. Soraia achou que viu um leve sorriso malicioso nos lábios da sogra, que entrou logo pelo apartamento adentro.

Olá… então por aqui? Soraia lá conseguiu recuperar.

Vim só fazer uma visita a senhora nem se deu ao trabalho de cumprimentar como deve ser.

Mas eu estou ocupada! Porque é que não avisou antes? Isto de aparecer assim de repente…

Otília Marques soltou uma risada:

E tenho de pedir-te licença para vir ao meu próprio apartamento? Pois sim?

Soraia ficou vermelha ao lembrar-se de que viviam ali apenas de favor. Otília tinha emprestado aquela casa ao filho e à nora mas fazia sempre questão de lembrar que estavam ali a título precário e, por vezes, ameaçava expulsá-los.

Foi assim: o Rui tinha entrado numa dívida considerável e agora ele e Soraia faziam das tripas coração para conseguir pagar. Não tinham possibilidades de pagar renda e Otília, vendo o aperto do filho, acabou por se comover. Como tinha dois apartamentos um próprio, outro para arrendar acabou por lhes ceder aquele gratuitamente, apenas pagando as contas da luz e da água.

Então, como vão as coisas? Otília já estava na cozinha, tirando uma chávena do armário como se fosse dela.

Vai-se andando resmungou Soraia, terminando a limpeza e indo para a sala, onde a sogra já se sentara.

Otília lançou-lhe um olhar crítico, estranhando ver a nora tão pálida. Não era propriamente fã de Soraia, mas respeitava a escolha do filho embora, às vezes, fizesse pouco dela abertamente.

Estás bem? Não estás com bom aspeto

Está tudo bem repetiu Soraia com voz abafada.

Estás sempre tudo bem, tudo bem. Não sabes dizer mais nada?

A jovem encolheu os ombros. No fundo, não se sentia muito bem, mas não tencionava admitir isso à sogra.

Então e planos para hoje? Otília insistiu.

Ainda não sei Talvez vá ao Pingo Doce buscar umas coisas. Depois tenho de trabalhar.

Pois, pois Otília acenou, lembrando-se que Soraia era contabilista a partir de casa. O assunto morreu e Otília deixou-se ficar aborrecida no silêncio.

Queres companhia para ir ao supermercado? Estou com o carro, levo-te. Não tenho nada que fazer mesmo.

Soraia pensou recusar. Ir às compras com a sogra era meio caminho para ouvir críticas, mas depois lembrou-se do peso das compras e assentiu.

Não era má ideia.

Então anda, despacha-te! Pareces uma lesma!

Soraia vestiu-se rapidamente, ouvindo logo uma piada da sogra:

Olha, se não fosses tão demorada ainda dava para eu fazer uma sestinha!

A jovem ignorou. Sentia-se maldisposta e discutir era a última coisa que queria.

E então, para onde é que vamos?

Soraia indicou um par de lojas ao acaso e Otília arrancou. A verdade é que Otília nem precisava de nada do supermercado, mas detestava a solidão do seu apartamento. O marido já tinha partido e, apesar de não o dizer, Rui e Soraia davam-lhe companhia, mesmo sem querer. Sabia bem esconder as suas fragilidades.

Mas por que é que compras sempre essas coisas baratas? Otília olhou de lado para os produtos do discount nas mãos de Soraia.

Por enquanto não dá para mais, respondeu com dignidade. Acho que sabe dos nossos apertos: estamos cheios de dívidas.

Otília fez um gesto indiferente. A verdade é que não se lembrava ou, pelo menos, nunca ligava muito à questão.

Olha, e se fossemos lanchar a uma pastelaria? Eu pago.

Tinha-se voltado para Soraia quando viu que a nora cambaleava. Por pouco não caiu ali mesmo no parque de estacionamento. Felizmente, estavam junto ao carro e Otília conseguiu sentá-la a tempo.

Soraia, o que é que tens? Acorda! Valha-me Deus…

Pulverizou-lhe o rosto com água da garrafa e Soraia retomou os sentidos.

Estás bem? O que foi isto agora?

Foi só uma fraqueza, fico assim quando estou cansada.

Otília abanou a cabeça. Suspeitava do que se passava, mas manteve-se em silêncio.

Vamos mas é para casa.

Mas ainda preciso de ir à mercearia… arriscou Soraia.

Mas Otília já estava decidida e, ao chegarem a casa, nem lhe deixou carregar os sacos.

Vai tu à frente, não atrapalhes.

Em casa, Soraia recuperou melhor e atirou-se às arrumações: pôr a compra no armário, preparar o almoço e depois ia trabalhar.

Soraia, isto de desmaiar acontece-te muitas vezes?

O quê, no supermercado? Raramente, não é nada.

Otília levantou as sobrancelhas.

A mim só me aconteceu isso quando estava grávida do Rui. Andava sempre enjoada, caía para o lado…

Mas eu não estou grávida! corou Soraia. Agora não pode mesmo ser, temos de pagar o que devemos. E um bebé são despesas…

Otília, de repente, ficou séria.

Um filho não é só despesa, é uma bênção.

Agora não, obrigada murmurou Soraia. Não é o momento certo.

Se já lá estiver, não há como dar a volta.

Soraia enervou-se:

D. Otília, não invente. Não estou grávida!

Não me fales assim! Se tens dúvidas faz o teste, mas não descarregues em mim.

Afinal, veio cá fazer o quê? Chatear-me?

Olha que até te ajudei no supermercado e ainda te valho se não te sentes bem! Discute é com o Rui, decidam o que vão fazer.

O que há a decidir? Trabalhar.

Otília suspirou alto. Não era costume ouvir aquelas respostas de Soraia. E então intuiu que era mesmo hormonas e, portanto, gravidez. Preferiu guardar os seus palpites. Já se imaginava avó, de volta a pegar num bebé ao colo.

Porque é que está a sorrir tanto?

Já pensaste em nomes? Para menino e para menina?

Soraia ficou de boca aberta e depois zangou-se.

Já disse que não estou grávida! Pare de disparatar, se faz favor. Vá para casa, não tenho paciência!

Eu vou mas recorda-te: se vierem netos, ajudo com tudo.

Soraia não respondeu, só revirou os olhos.

Assim que Otília saiu, Soraia foi direita ao armário dos medicamentos. Não queria muito uma gravidez naquele momento, mas sabia que era possível. Só não queria dar razão à sogra. E tinha medo, muito medo.

Temia tudo: a maternidade, a dor, a responsabilidade. Não se via como mãe e aterrorizava-a falhar.

Pegou no teste de gravidez que tinha comprado há meses por precaução, sem nunca o usar. Agora fazia sentido.

Esperou o tempo indicado e viu, com mãos a tremer, as duas riscas. O trabalho ficou esquecido. Soraia sabia que o que mais importava era aquela nova vida a crescer dentro dela.

Quando Rui chegou à noite, Soraia quase lhe pôs o teste nas mãos, nervosa.

Que é isto? perguntou ele, surpreendido.

É… eu estou grávida murmurou Soraia.

Os dois não estavam preparados, mas Rui sorriu, ainda que hesitante.

A sério? Vamos ter um filho?

Sim! Mas… e as dívidas? O trabalho?

Depois resolvemos. A minha mãe ajuda, sabes como ela é com crianças!

Acomodou-a no sofá, percebendo a importância do momento. Quando Soraia se desfez em lágrimas, confessou os seus medos.

Rui, tenho medo. Ouvi dizer que dar à luz dói tanto! E se não souber pegar num recém-nascido? E se o deixar cair?

Calma Rui abraçou-a com ternura, eu estou contigo. Vamos aprender juntos.

No seu ombro, Soraia acalmou-se e, mais tarde, acabou por ligar à sogra para dar a notícia. Otília ficou mesmo feliz.

Daquela experiência, Soraia percebeu que por vezes o inesperado assusta mas a vida, mesmo cheia de desafios, tem maneiras únicas de mostrar novos caminhos e de fortalecer laços. O essencial é não deixarmos o medo decidir o nosso futuro: quando se partilha o caminho com quem se gosta, tudo se torna menos pesado.

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