Na fábrica, os colegas de trabalho sempre faziam piada com o apelido de Martim. E as mulheres, então, dava até vontade de rir, principalmente quando ouviam o sobrenome pela primeira vez.
Foi o que aconteceu esta manhã quando surgiu uma nova segurança na portaria, uma mulher de quarenta anos, com ar despachado. Ao registar o cartão de Martim, ela leu o apelido dele e não conseguiu conter o sorriso:
Ah! Toinhinho! Jura que há mesmo pessoas com esses nomes?
Ora, está a ver. Martim falou logo à vontade, já que a segurança parecia mais nova até que ele. Existem e são muitos.
E sabe de onde veio esse nome estranho na tua família, Toinhinho? ela continuou, visivelmente curiosa.
Martim já estava habituado a estas perguntas e já tinha resposta pronta:
Dizem que a minha trisavó, lá para trás, um dia portou-se mal com um duende da aldeia. E, pronto, depois nasceu-lhe um filho dele. E foi assim que apareceu esse nosso apelido.
A mulher, em vez de rir, fez uma cara tão espantada que o próprio Martim desatou às gargalhadas.
Está mesmo a falar a sério? segredou ela, notoriamente assustada.
Claro! continuou ele a brincar. Desde então, todos os Toinhinhos ficaram com poderes especiais. Por isso, não vale a pena embirrar comigo, menina bonita. Olhe que apareço-lhe em casa à noite, mesmo com ar de duende, e não a deixo dormir!
A segurança lançou-lhe um olhar atravessado e respondeu, já em tom de ordem:
Não me venha com sustos! Olhe que até para duendes há maneira de lidar. Siga, não atrase o pessoal.
Já ao final do dia, quando Martim ia de saída, tornou a encontrar-se com a segurança na portaria. Ela, assim que o viu, fez logo uma cara de poucos amigos.
Então, menina bonita, porque é que está com esse ar rabugento? disse ele, bem-disposto.
Olhe, não sou sua menina bonita, chamo-me Ermelinda Vaz! ripostou ela. E não me fique a olhar. Siga.
Pronto, pensou Martim, acho que arranjei uma inimiga. Não percebe nada de brincadeiras, esta mulher
No dia seguinte, Ermelinda já não estava na portaria logo de manhã. Mas à hora de almoço, ela própria foi ter com Martim à cantina da fábrica. Sentou-se diante dele enquanto ele se esmerava a atacar o puré de batata com bife de novilho, e sussurrou, para ninguém ouvir:
Vá lá, confessa, Toinhinho! Aquilo de ontem à noite… foste tu, não foste?
Martim até engasgou com o assombro.
Mas… o que é que está para aí a dizer, dona Ermelinda? tossiu ele, mudando logo para o tratamento formal. Foi obra minha o quê?
Não te faças de novo, Toinhinho! Não me venhas com histórias! Tu próprio avisaste…
Avisar do quê?
Que não se brinca contigo.
E então?
Disseste que vinhas a minha casa em forma de duende durante a noite! Disseste?
Oh, valha-me Deus! exclamou Martim, já quase a pedir misericórdia. Ontem estava só a brincar!
Está bem, está! Brincadeira! insistiu ela. Então, quem é que me puxou a perna à noite?
Puxou?
Ora! Mal adormeci, à meia-noite, comecei logo a notar o cobertor a sair-me dos pés. Depois, senti uns dedos a puxarem-me levezinhos pelo tornozelo! Ia tendo um ataque de nervos!
Oh dona Ermelinda, nem sei o que dizer! Está a imaginar que fui eu que entrei pela sua janela para a puxar pelas pernas?
Já nem quero saber como entrou bufou ela , mas a sua mão senti-a, disso dou-lhe certeza.
A minha? Martim já nem sabia para onde virar a conversa. Olhe que se calhar foi o seu marido a brincar consigo…
Qual marido, homem? Estou divorciada há cinco anos! Só pode ter sido o senhor!
Mas porquê eu?
Porque é Toinhinho! Porque tem um trisavô duende! Disse-o o próprio!
Mas era só uma piada! Digo isso a toda a gente e toda a gente ri, menos a senhora…
Pois, e agora olhe no que deu… já lançava labaredas com os olhos. Por sua causa não preguei olho a noite inteira. Sempre que adormecia, ouvia logo coisas a mexer nos cantos do quarto!
Isso são só impressões suas tentou Martim acalmar Ermelinda. Juro-lhe por tudo que não fui eu.
Mas ela abanou a cabeça com determinação:
Não, Toinhinho. Não se vai safar assim. Armou confusão, agora vai ter de me ajudar.
Como assim? Ajudar ao quê? perguntou Martim, de olhos bem abertos de espanto.
Ora, já me disseram por aí que não é casado…
E daí?
E daí, hoje à noite vai-me fazer companhia. Ninguém há de dizer-lhe nada, pois não?
Mas… quer mesmo que vá aí a casa? Que pretende?
Quero que enxote os seus parentes, ora! Os Toinhinhos! Preciso de dormir descansada, mas tenho medo do escuro. E à luz acesa não consigo adormecer. Percebeu?
Percebi… assentiu Martim, já meio assustado, percebendo que não tinha como escapar. E a que horas quer que apareça?
Assim que acabar o turno, vou consigo. Dou-lhe jantar, prepara-se para dormir e às nove acorda, para passar a noite a vigiar-me!
Nem é preciso dizer que depois dessa noite, Martim nunca mais se afastou de Ermelinda Vaz. Ela revelou-se uma mulher fantástica um pouco nervosa, receosa, mas muito carinhosa e, surpreendentemente, doce. E o que há de melhor para um homem do que carinho e compreensão? Nada mais importa.







