Como assim, pagamento em atraso? Deve haver engano, não temos nenhum crédito Sim, somos os Cardoso, sim, essa é a nossa morada, mas Quanto? Não pode ser. Em nome de quem é esse crédito? espantou-se Margarida.
Em nome de António Cardoso, responderam do outro lado.
Sim, é o meu marido, mas como foi isso? E para quê? já completamente confusa, Margarida.
Lamento muito, o tom da pessoa suavizou mas as regras são para todos: prazos ultrapassados, hoje aviso, de seguida vêm outras medidas.
Margarida já nem sabia como foi a dar à sala e abrir o computador: provavelmente o choque deixou-a meio zonza. Não, tinha de perceber sozinha donde vinha aquela dívida.
Cartão de crédito o António nunca teve pelo menos ela nunca viu portanto o dinheiro não foi para a família. Que raio andava a acontecer? O trabalho ficou em stand-by; os pensamentos só giravam em torno daquela chamada. Margarida mal aguentou até o António chegar a casa.
Foste tu que pediste esse dinheiro? Para quem foste buscar crédito?! disparou ela, mal o marido atravessou o corredor.
Nem tive tempo, ligaram mesmo resmungou o António, irritado por ter sido apanhado. E percebendo que já não havia volta a dar, atirou-se à mulher: Olha lá, para que estás a olhar assim? Para a minha mãe, foi para a minha mãe. Pediu ajuda, vive sozinha
E para que raio era uma quantia dessas? Nós com muito menos nos safamos, e trabalhamos os dois!
Para férias, simples. Queria ir de férias, pronto!
Onde é que ela vai, para as Maldivas ou pensa que é a Dona de Cascais?
A minha mãe criou-me sozinha, tem direito a alguma coisa. E não esperava isso de ti
E o António, com cara de cão amuado, foi-se enfurnar no sofá de costas para o mundo. Fazia sempre este teatro de menino magoado quando queria dobrar a esposa. Só que desta vez, Margarida nem se deu ao trabalho de responder.
A verdade é que a sogra já há muito que ultrapassara todos os limites da intervenção saudável. Irene Cardoso era um caso: gostava de pedir, ordenar e intrometer. Desde o primeiro encontro era assim. Mal viu os brincos nas orelhas da jovem Margarida, arregalou os olhos e perguntou em tons de fidalga: São verdadeiros ou isso é só armar ao pingarelho?
Quando lhe garantiu que não usava bijutaria, Irene suspirou como se tivesse ouvido uma heresia:
Que disparate, gastar tanto dinheiro em luxo! Era melhor comprar qualquer coisinha útil para casa…
Foi uma prenda explicou Margarida, tentando controlar o choque.
Ah, bom! Sendo assim, não digo mais nada.
Na semana seguinte, António pediu à mulher, constrangido, que não usasse aqueles brincos quando fossem visitar a mãe. A senhora apanhava desgosto, dizia ele, por não poder ter iguais. E comprar-lhe uns semelhantes, era coisa que lhe fugia ao orçamento.
Essas pequenas cenas começaram a acumular-se. Mas Margarida, ainda apaixonada, ignorava os maus presságios. Depois veio o casamento. Irene brilhou: fato chique, presente pomposo Só que Margarida descobriu depois que tudo tinha sido comprado pelo António. Recusava-se a aparecer de outra forma no casamento do filho.
E seguiu-se a saga: ora um televisor igual ao da vizinha, ora um secador que faz milagres, igual ao da prima, ora sessões no cabeleireiro, e assim continuava o rol de exigências. E se não fosse tudo imediatamente, começava a dramatizar, a fazer-se de coitadinha, inventar maleitas. António ficava sem saber onde se meter e corria logo a satisfazer a mãezinha.
É a mãe Como posso deixar de ajudar?
O problema era que agora tinha uma família oficial e o dinheiro mal chegava para os três. Margarida já não sabia como era possível: ganhavam bem, mas o orçamento era sempre curto. Quando desabafava, António encolhia os ombros:
Se calhar ainda não sabes gerir bem a casa. Tinhas era de aprender com a minha mãe…
A lição, Margarida não queria. Aquele perfil de matriarca rainha já lhe era demasiado familiar e preferia manter distância.
Eis a gota que fez transbordar o copo: Irene exigiu férias, e a quantia que António foi buscar ao banco só para a sogra abalou Margarida. Dava para pagar três tranches de hipoteca, mobilar a casa de alto a baixo e ainda festejar num bom restaurante em Lisboa com o troco.
Era claro que António não tencionava mudar nada: para a mãe, tudo e mais alguma coisa. Margarida até era capaz de entender: mãe só há uma, também faria muito pela sua. Mas assim, às escondidas? E se algo corresse mal? Quem ficava com a dívida? Hum…? Pois, ela e a Irene, essa, nem piu.
Estava na altura de ter a conversa com o marido: ou ele decidia quem era a família dele, ou explicava à mãe que já não tinha idade para fazer birras. Conversa ficou por ter: António virou bicho e chamou-a insensível e mesquinha.
Eu já paguei, pago tudo, e tu não paras de implicar! Sim, a mãe não quer cá parques de campismo baratos, quer do bom e do melhor. Ela merece! Deu-me tudo agora não posso dar-lhe umas férias decentes?
E que tal se explicasses à tua mãe que não somos um banco?
Antes explico-te a ti: a mãe é sagrada!
Margarida percebeu que ali não havia vontade de mudar. E, para dizer a verdade, nunca duvidou que Irene preferia ver o filho solteiro e de volta à mama. Porque de manhã à noite, dona Irene marcava, ligava, suplicava visita; e o António atravessava Lisboa para ir fazer-lhe os recados.
Depois de um serão daqueles, foram trabalhar sem darem paz. Perto da hora de almoço, Margarida começou a sentir-se mal.
Colegas preocupados insistiram para que fosse ao centro de saúde. Aí, grande notícia: vinha aí um bebé! Era hora de partilhar o momento com o futuro papá. Margarida achou com alguma esperança, confesso que este seria o grande argumento para reverem prioridades.
Puro engano. António só faltou desmaiar: não estava nos planos. Pediu-lhe para pensar melhor (leia-se: para desistir). E quem começou a ligar depois? Dona Irene. Só que a sogra não pedia, exigia:
Eu não quero ser avó já! Mas tu pensas o quê? Prenderes o meu filho com um filho? Olha que ele não fica, não!
Mas está a falar de quê, Dona Irene?
Eu sou mãe, conheço-o bem. Ele anda há séculos a pensar fugir de ti. Faz o que ele diz, senão nem pensares em pensão de alimentos!
A visão turvou-se, Margarida acordou no hospital.
Então, Margarida, já acordou ouviu a voz da empregada de saúde, a Dona Amélia, que era vizinha da sogra.
Oh Dona Amélia, não fazia ideia que trabalhava aqui
Pois, e ainda bem que não sabia! Julgaram que era preciso escolher: tu ou o bebé
Como?!
Tranquila, correu tudo bem. Mas diz-me, que diabo se passa para ficares assim?
Percebendo o drama, Dona Amélia não teve meias palavras:
Larga esse pessoal, muda de vida. O António não vai mudar, e a mamã dele vai infernizar todas as nora que aparecerem. O pai dele morreu a tentar agradar à Irene; e o filho saiu igual. Nunca foi de contrariar a mãe.
Mas ele quis casar-se!
Minha querida, mais te valia saber as histórias das namoradas anteriores. Fugiram todas! Bem, decide tu. Ah, ele tem mesmo vontade de ser pai?
Depois de ouvir a resposta, Dona Amélia soltou, baixinho, uns impropérios bem portugueses dirigidos ao menino da mamã. E, talvez fosse mesmo mágico, porque foi depois disto que Margarida finalmente decidiu: ia seguir em frente sozinha. António, mesmo sem saber, já tinha feito a sua escolha.
Assim que voltou ao trabalho, deu entrada do divórcio. António não contestou, nem perguntou pela gravidez. Margarida também não fez questão de contar nada.
…Passou um ano desde que recuperou a liberdade. Margarida agora passeava descansada, de mão dada com a filha, pelo jardim do bairro.
Oh, que coincidência ouviu de repente aquela voz inconfundível E porque não me deixa ver a minha neta?
Porque ela não é sua neta respondeu Margarida, pacífica. Aquela criança Pois, aquela, como sugeriu você (e o seu António), não nasceu. Esta, esta é só minha. E já tem avó a minha mãe.
Como se atreve
Atrevo, sim senhora. Se quer tanto ser avó, arranje outra candidata ao título para o seu menino.
Com um sorriso rasgado, Margarida afastou-se, ignorando as lamúrias lançadas a plenos pulmões nas costas dela. Sabia que tinha feito tudo certo ao deixar para trás um marido dependente da mãe e uma sogra sem limites. E não se arrependia de nada.







