Não conseguirei viver sem vocês
Beatriz, perdoa-me, apaixonei-me por outra pessoa. Estou a partir, o apartamento fica para vocês. Desculpa sair assim, tão silencioso, sem avisar antes. Não conseguiria ver as tuas lágrimas, por isso decidi deixar esta carta. Acredita, também não está a ser fácil para mim E dá um beijo ao nosso filho por mim
***
Solzinho, acorda! Beatriz chamou o filho, Tiaguinho, enquanto, ligeira, encaminhava-se para o quarto onde estava o marido, Rui.
Amor, olha que já está quase na hora de ires trabalhar! Levanta-te! disse ela, entre risos, fazendo cócegas no pé que Rui tinha de fora do cobertor.
Rui acordou a custo, resmungando. Sempre teve dificuldades em levantar-se, ao contrário de Beatriz, que saltava da cama mal entrava a luz da manhã pela janela. Ainda antes que os seus dois homens, como lhes chamava, abrissem os olhos, já ela tinha o pequeno-almoço pronto, tinha-se arranjado e adiantado as tarefas da casa. Também sempre se deitava cedo, cansada dos dias cheios.
Sentada na cozinha, Beatriz viu Tiago aparecer, quase a tropeçar no sono, vindo do quarto.
Primeiro lavar a cara e os dentes, só depois há pequeno-almoço indicou-lhe ela, apontando para a casa de banho.
O rapaz, obediente, foi tratar da higiene matinal. Minutos mais tarde, estavam já os dois na mesa quando Rui apareceu no vão da porta, o rosto pálido.
Escuta, hoje fico por casa. Vou ligar ao escritório a avisar disse, com voz meio arrastada.
A palidez do marido alarmou Beatriz.
O que se passa? Estás doente?
Dói-me a cabeça e ando enjoado Rui apoiou-se no batente.
Beatriz levantou-se de rompante, encostou a mão à testa dele e tentou procurar sinais de febre nos olhos.
Não pareces quente Se calhar fico contigo.
Não, Bia, vai trabalhar, leva o Tiago à escola. Eu fico aqui a descansar, pode ser que passe tentou sorrir.
Se precisares liga-me, ouviste? advertiu ela.
Claro, até logo, querida.
Nesse dia, Beatriz esteve sempre com o coração apertado, inquieta pelo marido doente e abatido. Aquela fadiga estranha parecia vaticinar alguma coisa ruim, como se a vida estivesse prestes a mudar.
Pediu ao patrão para sair mais cedo e foi buscar o filho, que estava em casa de um amigo depois das aulas. Durante o caminho para casa, a ansiedade apertava-lhe o peito, e Tiago olhava para ela, intrigado.
O que se passa, mãe? Vieste-me buscar mais cedo e estás muito pálida. Estão os dois doentes?
Beatriz lançou-lhe um olhar terno. Apesar de já estar a crescer, ainda era um rapazinho, e não queria preocupá-lo mais.
Tiago, só estou preocupada com o teu pai. Não se sentia bem Quero ter a certeza de que está tudo bem.
Ele encolheu os ombros e nada mais disse. Chegaram finalmente ao prédio, subindo de elevador, com Tiago a arrastar a mochila. A mãe, nervosa, entrou de rompante, abrindo a porta com mãos trémulas. Achou a casa estranhamente silenciosa; Rui não estava em lado nenhum.
Correu os quartos e, já de regresso à sala onde ficara Tiago, viu-lhe o rosto branco, nos olhos um brilhozinho de lágrimas. Reparou que o filho tinha nas mãos uma folha, que já lera.
Que é isso? Dá cá!
A voz de Beatriz fraquejava, e Tiago limitou-se a entregar-lhe o papel.
Beatriz, perdoa-me, apaixonei-me por outra. Vou-me embora, o apartamento é vosso. Desculpa ter saído assim, sem avisar. Não conseguiria ver as tuas lágrimas, por isso deixo esta carta. Acredita, para mim também é muito difícil E dá um beijo no nosso filho por mim
Cobarde sussurrou Tiago.
Não digas isso, é o teu pai! Beatriz olhou-o, sem saber o que dizer.
Ele abandonou-nos! Odeio-o!
Tiago correu para o quarto e bateu com a porta. Sentia-se traído, incapaz de perceber como tudo mudara tão de repente. A mãe leu a carta uma e outra vez.
Conheci a Raquel há dois anos, e só agora tive coragem de me afastar de vocês. Espero que um dia me perdoes. Por favor, não mostres isto ao Tiago, não quero que ele pense mal de mim.
Beatriz riu, amarga. O filho percebera tudo sozinho. Não precisava de mais conselhos ou explicações para saber o que pensar do pai.
Vagueou pela casa, entrou no quarto vazio. Ao aperceber-se da ausência de roupa de Rui, colapsou no chão e chorou convulsivamente. Toda a vida desabava, de repente, sem aviso. Não soube quanto tempo ficou ali, de dor apertada no peito. Queria desesperadamente poder voltar atrás, ficar em casa naquele dia, prender Rui ali. Mas havia uma certeza amarga: se ele decidira partir, nada o prenderia. Se ao menos tivesse coragem para encarar o que fazia, mas Rui fugira cobardemente, sem enfrentar a despedida.
Levantou-se, lavou a cara e tentou recompor-se para ir ter com o filho. Tiago estava deitado, olhos no tecto, resquícios de choro no rosto.
Mãe, porque é que ele fez isto?
Meu querido, não sei. Deixou de me amar, mas a ti não. Tu continuas a ser o filho dele.
Não, mãe. Ele disse que tinha de ir embora. Deve ser porque a mulher dele está grávida. Eu já percebo tudo. Então também já não gosta de mim? Fui demasiado chato? Ele prometeu irmos à bola ao domingo, depois ao café Se calhar cansei-o. Pedi-lhe de mais
Beatriz ouvia a dor do filho, coração apertado. Sabia bem o que ele sentia. Mas também sabia que Tiago precisava daquele pai, apesar de tudo. Rui voltaria a procurar o filho um dia. Por isso, acariciou-lhe a mão, ensinando-lhe ternura:
Tiago, não te fartaste dele, sei isso. O teu pai não queria que lesses a carta. Ele encontrou outra pessoa, mas vais estar sempre no coração dele. Vais ver, ele vai querer estar contigo.
Mas ele traiu-te disse Tiago, sombrio.
A dor do filho espelhava a sua. Também a revolta morava agora em Beatriz; Rui mentira dois anos, olhou-a nos olhos, falou-lhe de amor, e afinal tinha outra mulher.
Os dias seguintes foram de silêncio amargo. Beatriz tratou do divórcio, Tiago recusava perdoar o pai. Já era crescido demais para não compreender. Beatriz ouvia-o chorar baixinho de noite, embora fingisse estar tudo bem.
Com o tempo, foram aprendendo a viver só os dois. Rui, por fim, afastou-se completamente dizia não ter tempo, que agora tinha outra família. Tiago mostrava-se magoado, revoltado, mas deixava-se consolar, mesmo a tristeza durando meses.
Uma tarde, ao regressar do trabalho, Beatriz ouviu vozes levantadas na escada. Apurou o passo e viu Tiago a discutir com Rui, junto à porta de casa. O rapaz, despenteado, estava furioso.
Vai-te embora! Não tens direito de estar aqui! Odeio-te! A mãe também já não gosta de ti.
Tiago, ouve-me, filho
Vai embora!
Beatriz apressou-se a ir ter com eles. Mal a viu, Tiago acalmou, Rui deu um passo na sua direção, ansioso.
Bia, voltei. O Tiago não me deixa entrar, mas tu vais perdoar-me, não vais?
Mãe, não! Tiago implorava, mas era tão firme quanto zangado.
Beatriz observou Rui. Antigamente, acreditava que não conseguiria viver sem ele. Agora sabia, perante a traição, que mesmo que perdoasse, nunca mais seriam família.
Então como fica? Rui abriu um sorriso hesitante, aproximando-se. Deixas entrar o pai e marido?
Foste isso há meio ano, Rui. Agora já não tens direito à nossa casa. Se quiseres metade do apartamento, reclama no tribunal. Mas nós já não somos família.
O quê? Vais expulsar-me? Bia, por favor! Não sei o que me passou. Não sei viver sem vocês!
Já te perdoei, mas não vou voltar a ser tua mulher.
Atravessou a porta, fechando-a atrás de si. Tiago sorriu-lhe, sentindo-se aliviado, apesar da tristeza de manter o pai à porta.
Não fiques triste por causa dele, mãe. Estamos bem assim, nós os dois.
Beatriz retribuiu-lhe o sorriso, limpando discretamente uma lágrima. Espreitou pela óculo; Rui permaneceu à porta, olhando em silêncio para a madeira fechada, até por fim se afastar. Sentiu nas profundezas da alma um alívio leve, por ser capaz de fechar a porta a quem a trocou e enganou. Está na hora de seguir em frente, pensou.
Tiaguinho, portaste-te como um homem piscou-lhe o olho, orgulhosa.
Então, que dizes a pedirmos uma pizza? Para festejar? Pode ser com sobremesa, mãe?
Tiago percebeu que aquele tempo difícil dava lugar a dias melhores.
Claro! E com bolos.
Naquele momento, Beatriz viu de novo um brilho de alegria no filho. Ele sorria com aquela felicidade que há muito não se via. Sabia, com certeza, que tudo ficaria bem para ambos. Mesmo que demorasse, o pior já tinha passado.







