Derrotados pela Liberdade: A História de um Frasquinho
Com o Duarte, somos amigos há muitos anos, mas a amizade verdadeira nasceu mesmo há uns dois anos. Na altura, os dois estávamos a sair de divórcios complicados os nossos segundos casamentos. Não nos afundámos no álcool, pelo contrário: desporto, bicicletas, corridas matinais. O que une os homens não é a bebida é a liberdade. E o medo de a perder outra vez.
O Duarte saiu do casamento arrasado, como se não tivesse sido um tribunal, mas um rolo compressor a passar-lhe por cima. A ex dele transformou tudo numa guerra por bens, emoções e até por cada colher de prata. Comigo foi mais tranquilo, mas também nada para festejar. Libertámo-nos quase ao mesmo tempo, como se tirássemos sacos de cimento das costas.
Lembro-me bem daquela noite em que estávamos a pedalar pelas alamedas do Parque da Gulbenkian, e de repente o Duarte largou o guiador, abriu os braços e gritou para o bairro inteiro:
Liberdaaade!
Os cães de rua ladraram, as velhinhas fizeram o sinal da cruz, e nós rimos como dois fugidos de um manicómio. Mas era felicidade. Pura, barulhenta, sincera.
Vivemos um ano como homens livres: sem compromissos, sem lamúrias, sem tretas domésticas. Emagrecemos, rejuvenescemos, acordávamos com o sol. A vida a dois, afinal, não só envelhece a alma também engorda. E a liberdade cura.
Certa noite, fui a casa do Duarte ele tinha comprado uma bicicleta nova e queria mostrar. Mexemos na corrente, que estava cheia de óleo, e fui lavar as mãos à casa de banho. E lá estava. Um frasquinho cor-de-rosa na prateleira. Creme. De mulher.
Duarte! gritei, desconfiado. Que bruxaria é esta?!
Ah, isso é da Inês! respondeu ele, como se fosse a coisa mais normal.
Que Inês?!
Não te falei? Então, conheci uma rapariga Inês, advogada, trabalha muito. Às vezes passa a noite aqui. Deixou o creme para não andar sempre a levar.
Apertei os lábios:
Começou
O quê?
A invasão. É o primeiro sintoma. Como no “Alien”: primeiro o ovo, depois o viscoso, depois o monstro que te arranca o peito.
O Duarte ria-se. Eu, não. Porque sabia: as mulheres não atacam, infiltram-se. Não precisam de gritar ou partir nada entram na vida de um homem como fumo debaixo da porta. Primeiro o creme. Depois a escova de dentes. Depois os chinelos. Depois ela.
Uma semana depois, chamou-me para jantar e apresentá-la. A Inês era bonita, calma, com brincos elegantes e um casaco de cashmere caro. Serviu-nos massa e pizza com ananás. Quando fui lavar as mãos, vi duas escovas na casa de banho e mais um frasco. Só comentei: “O vírus está a espalhar-se.”
Depois, houve a noite em que o Duarte não quis vir pedalar.
Hoje não dá disse.
Fui sozinho, irritado, decidido a tirá-lo daquela armadilha.
Ele abriu a porta de roupão. Roupão! Um homem que, um mês antes, só usava calções e ténis sem meias!
Zé, podias ter avisado
Do quarto ouviu-se:
Duarte, quem é?
É o Zé. Veio buscar a bomba da bicicleta.
Fui lavar as mãos. E percebi: a casa de banho já não era dele. O aftershave e a pasta de dentes estavam encurralados num canto. O resto era um mundo cor-de-rosa em frascos. E brincos na prateleira. Derrota total.
Depois, fui lá ajudar a montar móveis. Parafusos, prateleiras, guarda-roupa. A Inês dava ordens:
Isto vai para a varanda. Isto para o lixo. E isto também, tirem daqui.
O Duarte tentou protestar. Inútil. A certa altura, ela virou-se para mim:
Queres ficar com a bicicleta? Aqui só ocupa espaço.
Pronto. A liberdade não se rende com gritos. Morre em silêncio ao som do roçar de um vestido e do cheiro do creme. A mulher chega e conquista cada centímetro: uma prateleira, um cabide, a janela, o armário. Depois, a alma.
Passou um ano. Eu e o Duarte trocávamos mensagens raras. A bicicleta cobriu-se de pó. Ele respondia menos. Eu pedalava sozinho. Triste. Mas livre.
Até que ela chegou à minha vida. E, um mês depois, a pergunta tímida:
Posso deixar aqui o meu creme?
E não disse “não”. Sorri. Como um parvo. Porque já estava apaixonado.
Agora é isto. O frasquinho já está lá. O padrão da invasão é idêntico.
Estou perdido. Acabou.
Adeus, liberdade.






