Valéria ia a caminho do trabalho quando percebeu que se tinha esquecido do telemóvel em casa. Resolveu voltar atrás, entrou no elevador e o elevador parou logo no oitavo andar! Sentou-se no chão do elevador a aguardar que alguém a socorresse, quando ouviu de repente a voz do marido, Gonçalo. Ele conversava no corredor com uma mulher. Meu amor, dizia ele suavemente. Mal posso esperar pelo momento em que estaremos juntos de novo! Hoje à noite estaremos, respondeu a mulher. Espero por ti depois das dez. O teu marido está de novo de turno à noite? Vai estar toda esta semana de noite, disse a mulher com doçura. Valéria não quis acreditar no que ouvia.
Valéria apercebeu-se de que tinha deixado o telemóvel em casa mesmo à saída do prédio.
Voltou para trás e ficou presa no elevador ao oitavo andar.
Enquanto estava sentada, à espera, ouviu a voz de Gonçalo o marido.
Ele estava com uma tal Vitória.
Vitu, minha querida, ouvia-o dizer. Tu não sabes o quanto te amo e o quanto sonho pelo próximo momento juntos.
Hoje à noite já estaremos, disse Vitória. Espero por ti depois das dez.
O teu marido faz mais um turno nocturno hoje?
Esta semana toda, respondeu Vitória, ternamente. Sai às nove e meia, volta nessa hora da manhã. Aliás, ele está quase a chegar, temos de nos despachar.
Mas porque não anda este elevador? resmungava Gonçalo.
Demoraram uns quatro minutos à conversa, à porta do elevador. Só depois perceberam que ele estava avariado. Quando perceberam, lá foram eles pelas escadas abaixo.
Durante a conversa, além do que já disse, Gonçalo ainda agradeceu a Vitória pelos momentos de felicidade que partilharam.
Ao início, Valéria pensou que não era o marido. Podia ser qualquer vizinho. Mas quando ouviu Vitória dizer Gonçalo e, além disso, mencionar também o nome Valéria, ficou tudo claro estava a ser traída pelo próprio marido com a vizinha do lado. Da casa 40.
Ela mal acreditava no que ouviu.
Então era isto! pensou Valéria. Fazes-te de inocente, e afinal a vizinha do oitavo é a tua dose de ar fresco. Agora já sei porque é que andas sempre a apanhar ar à noite. Pois bem, vais ver o que é ar fresco. Vais lembrar-te por toda a vida
Pouco depois, chegaram os técnicos e abriram o elevador. Mas a cabeça dela já fervilhava de planos
Eram quase dez da noite quando Gonçalo, como de costume, anunciou que ia dar uma volta e apanhar ar.
Vá Valéria, disse ele. É só uma horita.
Mas está a chover lá fora! exclamou Valéria.
A chover?
Não queres antes ir à varanda, apanhas o ar na mesma.
Não serve. Eu preciso mesmo de caminhar. Caminhar faz-me bem ao coração. E na varanda não se anda.
Mas está mesmo a chover.
Vou levar o guarda-chuva. Assim não me molho.
Como queiras. Eu cá só aconselho. Mas se fosse a ti não ia.
Porquê?
Hoje não é o teu dia, Gonçalo.
Não acredito nessas tuas previsões e superstições. Pronto! Vou dar a minha volta. Daqui a uma hora, hora e meia estou em casa.
Meia hora depois, ali estava Gonçalo à porta de casa. O marido de Vitória tinha recebido uma chamada alguém contou-lhe que a mulher o andava a trair com o vizinho!
Valéria abriu a porta só com a corrente posta.
E o guarda-chuva? perguntou ela, entreabrindo a porta. Onde está o casaco, o fato, os sapatos?
Uns tipos apareceram-me na rua! exclamou Gonçalo. Imagina! Ficaram com tudo, até com os sapatos. Valéria, deixa-me entrar, estou gelado!
As tuas coisas estão prontas, avisou Valéria. Estão ao pé do lixo. E dá cumprimentos à Vitória.
A quem?
À do oitavo andar.
Valéria fechou a porta e foi ver televisão.
Ainda bem que os nossos filhos já são grandes e têm vida própria, pensou. Não presenciaram tamanha vergonha.
Gonçalo foi a correr até ao lixo e lá encontrou uma mala. Vestiu-se, abriu a porta do prédio e saiu.
Olhou à volta. Resolveu chamar um táxi para ir para a casa da mãe.
Só então percebeu que tinha deixado o telemóvel em casa da amante. Voltou para trás, queria pedir o telefone emprestado a Valéria, mas acabou por ficar preso no elevador. Cortaram a eletricidade em todo o prédio! Como Valéria, também ficou no oitavo andar
Quando finalmente voltou a eletricidade e Gonçalo conseguiu sair do elevador, Valéria já tinha saído para o trabalho. E como o apartamento era dela, ele nem chave tinha para entrar.
Ao descer, precavido, pelas escadas, encontrou Vitória também junto ao elevador de mala na mão, à espera.
O meu telefone está contigo? perguntou Gonçalo.
Está, respondeu ela, nervosa. E as tuas coisas também.
Ainda bem
Desceram juntos no elevador. Mas no final, cada um seguiu para seu lado, em táxis diferentesNo silêncio desconfortável, trocaram olhares cúmplices e silenciosos, partilhando agora, mais do que nunca, a culpa mal disfarçada e o inesperado fracasso da aventura. O elevador chegou ao rés-do-chão com um estremecimento. Cada um saiu para o seu lado, debaixo da primeira luz fria da manhã.
Lá fora, uma ligeira garoa caía e Gonçalo hesitou, olhando para o céu cinzento. Quando se virou para pedir boleia à ex-amante, viu Vitória já a afastar-se decidida, sem olhar para trás, a mala a balouçar furiosamente.
Ao fundo, Valéria passava, de passo leve, apanhando um táxi, sorrindo subtilmente ao ver o ex-marido encalhado nas suas escolhas. Naquela manhã, sentiu-se finalmente livre do peso da traição, pronta para recomeçar. Pela primeira vez em muito tempo, o ar parecia-lhe realmente fresco.






