Uma vez por mês
Hoje, ao sair para levar o lixo, apertei o saco contra o peito e parei em frente ao quadro de avisos, ali junto ao elevador. No papel quadriculado, preso por tachinhas, lia-se em letras grandes: “Uma vez por mês para um vizinho.” Embaixo, datas e apelidos; no canto, a assinatura: “Sérgio, fracção 34”. Já alguém tinha rabiscado a caneta ao lado: Precisam-se 2 pessoas para ajudar com as caixas no sábado. Li o aviso duas vezes, quase sem querer, e senti-me invadida por um desconforto, como aquela sensação desagradável de ouvir vozes estranhas no corredor.
Estou neste prédio há dez anos e conheço bem as regras tácitas: um cumprimento se nos cruzamos à porta, e cada um segue o seu caminho. Por vezes, uma pergunta rápida Sabe onde anda o técnico da EDP? , ou Faça o favor de deixar a conta de água. Mas esta ideia de escala de ajuda, com nomes e tachinhas… Lembra-me demasiado as reuniões no meu antigo trabalho, quando fingíamos estar todos juntos, mas cada um puxava para si.
No compartimento do lixo, cruzei-me com a Dona Valéria do quinto andar, sempre com dois sacos, como se temesse que um deles se rompesse.
Viu? Valéria apontou com o queixo para o quadro. Foi ideia do Sérgio. Diz que assim fica mais fácil. Em vez de cada um correr sozinho, fazemos em conjunto.
Em conjunto… repeti, tentando controlar o tom da voz. E se não apetece o conjunto?
Valéria encolheu os ombros.
Olhe, ninguém obriga. Mas às vezes faz falta, para saber a quem recorrer.
Saí para o pátio e dou por mim já a discutir mentalmente com esse Sérgio da fracção trinta e quatro. Quando faz falta o que quer isso dizer? Quem decide? E por que razão é obrigação de todos?
No sábado de manhã ouvi pancadas abafadas e vozes no corredor. Pela porta, percebia-se: Cuidado com o canto! Segure o elevador! Fiquei na cozinha, de pano húmido na mão, incapaz de evitar escutar. Imaginei aquelas pessoas que conheço só de rosto a carregar caixas e sofás alheios, alguém a comandar, outro a resmungar. Não gostei de pensar que ali se expunham vidas em caixas de cartão, e ao mesmo tempo uma inveja sorda: a eles chamaram.
Passada uma hora, tudo ficou em silêncio. À noite, voltando do supermercado, vi ao pé do prédio uma pilha de caixas vazias e fita cola esquecida no banco. Sérgio, alto e de ar cansado, recolhia sacos de lixo.
Boa noite, saudou, como se fossemos velhos conhecidos. Não incomodámos?
Não, respondi. Apenas foi ruidoso.
Percebo. Tentámos acabar antes de almoço. A Tânia do segundo está de mudança, só com o filho… Quer dizer, só… abanou a mão. Olhe, se precisar de algo, escreva no quadro. Não tem de ser mudança. Pode ser qualquer coisa.
O qualquer coisa não permitia discutir. Não insistiu, nem forçou; só disse e continuou a tratar do saco.
Nas semanas seguintes, o quadro de avisos ganhou vida própria. Ao passar, reparava sempre em novas notas: Ao Senhor António do 19 preciso de medicação, quem pode ir à farmácia após operação? Pedir ajuda para colocar prateleira na 27, tenho berbequim. Contribuição de 10 euros para o intercomunicador, quem não tiver troco, acerta depois. Vários caligrafias; uns escreviam com cuidado, outros à pressa e com força.
Não me inscrevia. Sentia que assim estava certo: não me meter. Mas observava.
Certa noite, ao voltar do trabalho, vi junto ao elevador uma adolescente do prédio ao lado, a chorar com a cara escondida na manga. D. Valéria segurava-lhe o ombro e falava baixinho:
Não chores. Vamos encontrar, o Sérgio tem.
Que se passa? perguntei, embora pudesse ter passado indiferente.
O olhar que Valéria me lançou pareceu pesar: já sabia que não iria gozar dela.
É a avó dela, a tensão subiu. Faltam os comprimidos e a farmácia está fechada. Sérgio vai dar dos dele, até de manhã.
Assenti e, já em casa, demorei a despir o casaco. Pensei em como Valéria disse vamos encontrar com tanta naturalidade Não chame o INEM, nem não é da nossa conta simplesmente encontrar. E como Sérgio oferecia o que tinha, sem perguntar se iam devolver.
Dias depois, um pequeno tumulto. Alguém escreveu no aviso do intercomunicador: Sempre a pedir dinheiro. Quem quiser que pague. Assinatura mal feita e sem nome. Ao pé do elevador, duas mulheres discutiam abertamente.
É do terceiro, conheço a letra, insistia uma.
E tu o que sabes? retrucava a outra. Com as pensões baixas, e ainda pedem dez euros.
Passei de lado, sentindo aquele velho sabor de coletividade: aí vem a cobrança, as listas, quem não paga, quem só usufrui. Queria que tudo voltasse ao normal, só avisos de técnicos e coisas impessoais.
À noite, vi o Sérgio junto ao quadro. Retirou o papel rabiscado, dobrou e guardou no bolso. Colocou um novo, limpinho, e escreveu: Intercomunicador. Quem pode, contribui. Quem não pode, não faz mal. O importante é funcionar. Sérgio. Só isso.
Respeitei-o por aquele só isso. Sem discursos, sem ameaças. Só um limite.
A minha vida andava a ranger, como porta mal lubrificada. Primeiro, uma pequena fuga de água na casa de banho; pus uma bacia, apertei, limpei. Depois, o prémio do trabalho atrasou e a chefe nem olhou nos olhos: Por agora, aguente. Eu aguentei, como sempre.
No início do mês, as costas doeram-me como nunca. Não chegou a ser caso de urgência, mas precisava de me apoiar ao levantar da cama. Comprei pomada, aqueci com cachecol, não contei a ninguém. Sempre achei que lamentos só trazem conversa, e conversa piedade.
À noite, regressando com compras, ouvi um ruído estranho à porta uma fricção de metálico. Era a fechadura a emperrar; a chave não queria virar. Forcei, virou com estalido. O coração encostou-se de súbito ao peito.
Descalcei-me, pus o saco sobre a cadeira, fui buscar a chave de fendas, tentei desmontar a fechadura. As mãos tremiam, as costas puxavam. O silêncio pesava mais do que nunca.
No dia seguinte, a fechadura bloqueou de todo. Voltei tarde, carregada, e não consegui abrir. Encostei-me à porta fria, a tentar não entrar em pânico. Pensava: Serralheiro. Chaves. Dinheiro. Noite. Liguei para as emergências do condomínio, disseram-me para esperar duas horas pelo técnico.
Duas horas na escada Humilhante não pelos vizinhos, mas pelo desamparo. Sentei-me degrau abaixo, sacos ao lado, olhei para as minhas mãos secas, gretadas, já tão usadas. Mãos que sempre resolveram tudo.
O elevador abriu, saiu Sérgio. Reparou em mim imediatamente.
Dona Nídia? perguntou, hesitante.
Levantei a cabeça e senti as bochechas queimarem.
A porta, expliquei, curta. Espero pelo técnico.
Demoram muito?
Disseram duas horas.
Sérgio olhou para a porta, para os meus sacos.
Tenho uma mala de ferramentas. Posso tentar, se quiser. Se não funcionar, ao menos vemos o problema. Não se importa?
O não se importa foi importante. Não disse deixe estar, que eu faço, nem o que faz ali sentada?, perguntou.
Quis dizer obrigada, não é preciso. Fazia parte de mim. Mas as costas doíam, o telemóvel estava quase sem bateria, e duas horas ali tornaram-se insuportáveis.
Tente, pedi e, para meu espanto, a voz não falhou.
Sérgio foi buscar uma mala, voltou com jornal, espalhou as ferramentas sobre ele. Reparei: evitava sujar o mosaico, organizava tudo, respeitava o espaço alheio.
Não sou profissional, avisou. Mas já vi umas quantas destas.
Retirou a chapa, aparafusou, guardou para não se perderem. Eu esperava ao lado, a mochila sobre o colo, estranhando sentir que minha vida estava agora numa zona comum e isso não era mau.
Foi a canhão, deve estar gasta, disse Sérgio. Pode-se lubrificar, mas melhor é mudar. Tem chave suplente?
Não, admiti. Nunca pensei nisso.
Ele assentiu, sem comentar.
Passados dez minutos, a porta cedeu. Não à primeira, mas cedeu. Entrei, liguei a luz, senti o corpo relaxar. Voltei-me.
Obrigada, agradeci. E acrescentei, para não parecer fim de conversa: Só preferia que ninguém soubesse.
Sérgio olhou para mim.
Percebo, não digo nada. Mas tem mesmo de mudar a fechadura. Se quiser, amanhã dou-lhe o contacto de quem faz sem conversas.
Assenti. Importava-me que não sugerisse vamos reunir o prédio e mudar tudo. Ofereceu o que era útil e simples.
Depois dele sair, fechei o trinco e fiquei parada na entrada, ouvindo o frigorífico. Deu-me vontade de chorar e rir ao perceber que aquela ajuda não era pena. Era uma ferramenta estendida, porque as minhas mãos estavam ocupadas.
No dia seguinte liguei ao técnico recomendado. Veio à tarde, desmontou, mostrou a peça gasta, pôs uma nova. Paguei, recebi duas chaves, guardei uma numa caixa no armário, escrevi suplente com marcador. Era o meu pequeno reconhecimento: nem sempre consigo tudo.
Uma semana depois, novo aviso no quadro: Sábado, ajudar o Senhor António do 19 a trazer mercearia e remédios, está de recuperação. Precisam-se 2 pessoas, das 11 às 12. Li-o, e subitamente soube que podia.
Saí cedo sábado, na bolsa duas embalagens de bolachas e chá não como esmola, mas para não chegar de mãos vazias. Na escada Sérgio já me esperava.
Também vem? perguntou, sem surpresa, só confirmação.
Sim, respondi. Mas leve o pesado. Sem conversa sobre saúde, está bem?
Ouvi o meu próprio tom não era desculpa, nem pedido, era condição.
Feito, disse Sérgio.
Subimos ao andar do Senhor António. Abriu-nos a porta, vestindo camisola caseira, aparência pálida. Tentou sorrir.
Ora, inspecção, murmurou.
Não inspecção, corrigi e entreguei o saco. Trouxemos compras. E chá, se lhe apetecer.
Pegou com ambas as mãos, receoso de deixar cair.
Obrigado. Eu faria mas as pernas
Deixe os ia, atalhou Sérgio, com gentileza. Diga só onde pôr.
Fomos até à cozinha. Os sacos ficaram na mesa; vi o papel dos medicamentos e uma caixa vazia de comprimidos. Nada perguntei. Limitei-me a sugerir:
Quer que leve o lixo?
Se não se importa, António respondeu, acabrunhado.
Peguei no saco, dei o nó, levei. Ao regressar, notei as costas mais leves não pela falta de dor, mas porque por dentro tudo estava mais sereno.
Na saída, António tentou dar dinheiro ao Sérgio.
Não precisa, recusou ele.
Então António olhou para mim. Venha sempre que quiser. Não mordo.
Acenei, sorrindo.
Venho se precisar. Mas também não tente ser herói; escreva no quadro se for preciso.
Disse e senti, no peito, uma confiança calma: podia falar como Sérgio, não de cima nem de baixo, mas ao lado.
Ao fim do dia parei no quadro de avisos. Alguém deixara um pacote de tachinhas e um pequeno bloco. Peguei na caneta, escrevi com clareza: Fracção 46. Nídia Alves. Se alguém precisar, posso ir à farmácia ou buscar encomendas nos dias de semana após as 19h. Não carrego peso. Prendi o papel, garanti que ficou seguro e guardei a caneta.
Em casa, pus água a ferver, tirei a chave suplente do armário e coloquei num envelope. No envelope, escrevi o número do Sérgio e deixei no móvel da entrada. Não por dependência, mas como seguro uma permissão a mim mesma.
Quando uma porta bateu no corredor e os passos ecoaram, não me sobressaltei. Desliguei o fogão, servi o chá e pensei que uma vez por mês não era sobre multidões. Era saber que não preciso segurar tudo sozinha, se há quem segure ao lado.







