Uma senhora idosa tinha um cãozinho de estimação.

Numa noite enevoada, uma senhora de idade caminhava pelos meandros de Lisboa dos sonhos, entre ruas que ondulavam como rios e edifícios que flutuavam como barcos. Chamava-se Dona Ermelinda, e na sua vida recente tinha sido mergulhada numa solidão tão densa que tudo à sua volta parecia em tons de cinzento. O seu filho, preocupado com a tristeza que se colava à alma da mãe como musgo a uma pedra, apareceu-lhe numa tarde de luz dourada com um presente embalado em fitas verde-esmeralda: uma cadelinha minúscula, delicada como uma pérola de alcagoita e fresca como o vento vindo do Tejo. Chamou-lhe Pituxa, diminutivo irónico por ela mal caber num bolso.

Pituxa era tão pequena que parecia quase invisível, mas saltava de alegria por qualquer motivo, e a sua ternura era infinita, feita de lambidelas, cambalhotas e suspiros. Ermelinda recuperou ânimo. As paredes do seu apartamento voltaram a mostrar cores suaves; caminhava pelas ruas da antiga Alfama com Pituxa numa coleira tão fina que parecia ter sido tecida por aranhas com fios de luar, ou então transportava-a numa bolsa de chita florida, como quem leva um segredo ao peito. A vida resplandecia de novo.

Uma tarde, enquanto o céu se tornava líquido, quase derretendo sobre a cidade, Ermelinda e Pituxa passeavam junto ao Miradouro de Santa Catarina. Parou junto a um carro preto que parecia saído dum postal antigo. De dentro, um rapaz de olhos cor de azeitona e uma rapariga de caracóis louros sorriram e pediram, com vozes cheias de doçura, para acariciar Pituxa. Ermelinda hesitou, presa entre o pudor e a vergonha de recusar. Ergueu Pituxa com ambas as mãos. Num instante surreal, como se Lisboa parasse de respirar, a rapariga agarrou a cadelinha e o rapaz acelerou o carro, desaparecendo na calçada ondulante como um peixe-fantasma.

Ermelinda começou a correr atrás da máquina negra, as pernas trémulas, a gritar como a própria fadista à beira dum desgosto profundo. Caiu sobre as pedras, ferida, as cores do mundo desvanecendo-se, e deixou-se engolir por uma sombra. Os vizinhos figuras esbatidas à janela ligaram para a ambulância. Levaram-na ao Hospital de Santa Maria, onde ficou deitada, pálida como a cerâmica, os lábios tremendo, dizendo baixinho: Pituxa, Pituxa Uma lágrima escorreu-lhe pela face como um rio esquecido.

O filho, Vasco, surgido como quem atravessa o nevoeiro, ouviu a história retalhada pelos vizinhos. Um deles recordava o brilho das jantes do carro e lembrou-se de já o ter visto a estrelar-se diante de um palacete, numa das avenidas largas do Restelo. Vasco chamou amigos da PSP, que multiplicaram as pistas. Descobriram o dono do carro vivia num palacete onde os espelhos eram maiores que as portas, o jardim era um labirinto e o cheiro a rosas se espalhava como perfume antigo.

Vasco invadiu aquele palacete onírico, não interessando como, avançando entre corredores que giravam como carrosséis de feira. Encontrou Pituxa: a cadelinha encolhida, sem conseguir soltar um único latido, murmurando apenas suspiros de saudade. Desde o rapto não comera nem bebera; só chorava, triste como um poema de Pessoa em dia de chuva.

Conseguiu resgatá-la, não interessando de que maneira, guiado pelo amor que faz mover montanhas e distorcer os espaços dos sonhos. Os jovens ladrões já se haviam cansado da responsabilidade, e Pituxa não lhes trazia alegria, apenas dava trabalho e tristeza. Para eles, a cadelinha era só um objeto fora do lugar.

Ermelinda sarou, como as árvores que voltam a florir depois dum incêndio. Pituxa renasceu, ainda mais cautelosa, escondendo-se sempre que desconhecidos se aproximam. Agora, nos passeios surreais em Lisboa líquida, andam sempre juntas, atentos aos passos, ligadas por um laço invisível.

Tudo terminou como num fado feliz. E, sabes, há uma lição que desliza debaixo da pele destas noites lisboetas: não se deve roubar a felicidade alheia nem o amor dos outros. A alegria de uma pessoa pode ser apenas um cãozinho minúsculo, um velho caderno, uma cadeira de baloiço à janela, um jardim de três metros quadrados ou um par de moedas de vinte cêntimos perdidas no fundo da gaveta… É nessas coisas microscópicas que a vida respira e se segura.

Não roubes, nem por brincadeira, o que para o outro é o coração. Porque mesmo a alma, dizem, pesa só algumas gramas. Mas é nela que cabe o universo inteiro de quem sonha.

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Uma senhora idosa tinha um cãozinho de estimação.