Um Luxo Caro
Joana, outra vez? Até quando? Parece que eu só trabalho para o teu gato!
O gato que Joana tentava enfiar na transportadora deu um jeito e escapou dos braços dela, caindo no chão e depois se enfiando num canto do corredor, miando de forma lúgubre e lastimosa. Pelo aspecto, o gato a quem Joana tinha dado, há mil anos, o nome romântico de Camões parecia decidido a vender a sua, na opinião do Rui, inútil vida pelo preço mais alto que conseguisse.
Foi há muito tempo, porque o Camõezinho como Joana lhe chamava, num mimo, ao seu amigo de quatro patas já vivia com ela há uns bons dez anos. No fundo, Joana não sabia ao certo que idade tinha o bicho. Resgatou-o da rua, e nem foi quando ele era gatinho já era adulto, mas novo, segundo disseram à mãe de Joana na clínica veterinária.
Lembro-me tão bem: a dona Helena, a mãe da Joana, voou para a clínica com a filha e um gato embrulhado num cobertor velho de bebé, segura como se transportasse o tesouro nacional.
Dêem um jeito nele!
Mas onde é que arranjaram este monstro? rosnou a veterinária, franzindo o nariz. Isto é mesmo gato de rua!
E qual é o problema? Agora é meu! O meu gato, está a perceber? Ele está mal, ajudem-no! O dinheiro que tenho na carteira vale menos por não vir com pedigree?
A Dona Helena estava tão furiosa naquele momento, que a veterinária decidiu que o melhor mesmo era não se meter com ela. E fez bem.
Helena Fernandes era mulher de fibra, das que não largam. A vida tinha-lhe dado pancada suficiente: criar sozinha uma filha sem pai, cuidar dos pais idosos, e tudo isso a viver do salário de educadora de infância. Ganha-se calo!
Defender-se ela sabia, mas nunca lhe faltava coração. Adorava crianças e gatos e até tinha algum jeito para cães, se bem que, desde menina, lhes tivesse uma ponta de medo sem razão aparente.
Não dava tréguas a ninguém: nem vizinhas, nem outros pais no infantário, nem desconhecidos que, por vezes, pensavam que aquela mulher franzina era presa fácil.
Mas o engraçado era que a Dona Helena nem precisava levantar a voz nem ser desagradável. Bastava dizer a coisa certa para, de repente, o que ia ser o maior bate-boca virar quase uma sessão de terapia. O outro ouvia, abria-se, queixava-se da vida, partilhava o difícil E ela ficava ali, a ouvir, a acenar enquanto a tempestade passava. Quase sempre acabavam por lhe pedir desculpa, agradecer e ir à vida.
Como fazia isto? Ninguém sabia ao certo. Era como se tivesse o dom mágico de escutar os outros de verdade. Talvez funcionasse justamente porque ela fazia mesmo questão de ouvir.
No entanto, esse dom parecia funcionar só com estranhos. Em casa era outra conversa.
O marido fugiu, uma semana depois do casamento. A mãe de Helena até gracejava, foi um recorde ele aguentar tanto. Feriu, claro, mas ela acabou por lhe dar razão talvez não fosse mesmo feita para família. O marido, quando bateu com a porta, deixara-lhe bem claro: De ti nunca será feita uma mulher. Tal como de mim nunca será feito um bailarino!
Ficou triste, normal. Uns meses depois, descobriu que estava grávida e o ânimo voltou. Mulher, afinal de contas. Como dizia a própria, homem não engravida!
A espera pela filha Joana era maior do que a espera pelo Natal ou pelo próprio aniversário. Naquela vida tão simples, poucas eram as festas, e esta era daquelas que mudavam tudo!
A mãe de Helena, claro, não apoiou a ideia.
Para quê isso, Helena? Olha o trabalho! Ainda és nova e até tens uma cara engraçadita. Se tivesse outra cabeça, fazias o teu caminho. Agora vais ter um filho, é para te enterrar numa vida de massa e arroz outra vez! Filhos são um luxo caro, minha filha! Tu não entendes agora, mas um dia vais perceber.
Ó mãe, mas nós Não vivemos sempre assim?
Exatamente! E qual é o bom nisso?
Ficou a pensar. Sempre ouvira a mãe, mas pela primeira vez não conseguia aceitar aquela resposta fácil.
Bastava imaginar a vida sem a filha para lhe faltar o ar. Como arrancar algo que já era dela? Não era só o embrião, menos ainda um filho que ela nem conhecia, era o sentir que podia ser não só mulher, mas também mãe. E rejeitarem-lhe isso nem pensar, nunca aceitaria.
Depois, foi a avó a bater-lhe à porta. Chegou à cidade, toda composta no lenço colorido que só usava nas festas especiais e lançou: Vai em frente, Helenezinha, vou-te ajudar!
Mas, avó E o avô, sozinho na aldeia?
O teu avô, filha, ainda é rijo! E não for, trago-o para cá. Pronto!
Deixou um embrulho na mesa e Joana logo reconheceu o pano mais bonito da avó, aquele que ela própria bordara nos anos antigos.
Conheces? Abre lá!
Dinheiro. Dinheiro como Helena nunca vira antes.
O avô vendeu a casa do pai. Vão passar a estrada lá pela terra, os terrenos agora valem ouro. E ainda pusemos aqui as economias todas. Dá para um apartamento. Agora, desenrasca-te tu, filha!
Avó, eu não posso
Podes tudo, Helenezinha! Para ti, para o bebé. Quem vai cuidar dele se não for a mãe?
Aquilo foi a gota dágua no fosso entre Helena e a mãe.
Ora essa! Quando eu te pedi dinheiro, não havia! Agora, com a neta, já aparece um prato cheio?! Pronto! O que hei de dizer?
A avó puxou Helena do quarto e discutiu longamente com a filha. Mas nunca a conseguiu convencer. Parecia impossível que Helena, com todos os seus disparates, tivesse ganho tudo ajuda, apoio, casa. Mais do que isto só ganhando o Euromilhões!
O que havia de tão diferente nela, Helena nunca soube. Não era desleixada, não era inconsequente. Teve uma filha do marido. E, como a avó dizia, quem não aguenta, os dois têm culpa; numa parelha, não é só um a puxar.
O apartamento, que a avó arranjou, era incrível. Quatro divisões, num prédio antigo, precisava de obras, mas a avó tratou de tudo, barganhou com quem era preciso e pôs a casa num brinco.
Não ficas admirada, querida? Anos no mercado, a vender couves e batatas, serviram para alguma coisa! Saber vender é mais difícil do que semear!
Joana nasceu antes do tempo. Helena teve susto, mas tudo correu bem. E a menina cresceu saudável, cheia de força e doçura. Nada estranho, para quem tinha mãe e avó de mão cheia. Passou a Helena não fazer aos filhos o que a mãe lhe fizera a ela.
A avó é que está sempre convosco! Com a casa, com a menina E eu, que mal entro na tua casa!
Mãe, só não venhas com discussões. A Joana assusta-se, ainda é pequenina.
Que susto? O mundo dela anda às cambalhotas, não está para se assustar com o barulho!
Não é isso, mãe, mas tu, às vezes, gritas
A conversa nunca acabava bem. E a Helena pensava: Eu nunca vou ser assim.
Dizer é fácil. Fazer, um bico dobra.
Não sabia se estava a educar bem a Joana, mas fazia o melhor. A rapariga até tinha um feitio forte, sabia bem o que queria, mesmo em pequenina.
Mãezinha, posso comer um doce?
Joana, só depois do almoço.
Nem um bocadinho?
Não pode.
Pronto, depois posso dois? Juro que como tudo!
A mãe ria e, claro, depois do prato limpo, lá vinha o mimo.
Joana era rápida a perceber o jogo birras não a levavam a lado nenhum. Até a avó controlava com graça:
Avó, não ralhes! Não ficas bonita assim. E tu és linda! Anda cá!
Sim, meu anjo?
A velha derretia-se toda e a Joana passava-lhe os dedinhos pela testa:
Assim! Já vês como ficas sem rugas? Ficas linda de novo!
A Helena ficava calada a ver, mas feliz.
Com o tempo, a família entrou nos eixos. Helena trabalhava, avó e avô ficavam com a Joana.
Foi complicado quando a avó adoentou-se. Os médicos encolhiam os ombros e Helena percebeu tudo sem precisar de palavras.
Avó, e se formos a Lisboa, procurar mais ajuda?
Para quê, filha? Já cá estive o tempo que tinha de estar. O pior é deixar-vos.
Não digas isso!
E foi mais ou menos nessa altura que a Joana apareceu em casa com um gato.
Nessa tarde, a Joana não voltou a casa como de costume. O avô, que a ia buscar à escola, desencontrou-se dela por minutos. Sumiu do caminho para casa e todos entraram em pânico colegas, mães, até a avó saiu de casa.
Joana voltou sozinha, com uma cara lavada em lágrimas e, enrolado na manta, um gato meio morto-bem-morto.
Estás bem, Joana?
Estou, mas o gato está mal, mãe!
Foram a correr à clínica veterinária. No caminho, a Helena já sabia que ia ficar com o gato. E assim foi: o Camõezinho sobreviveu, só à conta de muito veterinário e uma conta que arrepiava.
Com esse dinheiro, comprava-se dois gatos de raça murmurou ela, mas pagou.
Já em casa, depois de esvaziar a carteira, percebeu: não chegava até ao fim do mês. Eram remédios para o gato, para a avó, e ainda o presente de anos da Joana que vinha aí.
Mãe, só uma coisa? Em vez de presente, posso ficar com o Camões? Ele é o melhor presente
Helena, claro, não resistiu e cedeu. O gato, de rua e cheio de traumas, adaptou-se de repente à casa. Nunca deu problemas. E adorava os velhos não largava a avó um segundo!
Curiosamente, foi o Camões que mudou as coisas em casa.
Depois daquele investimento, a Helena fartou-se. Estava de rastos, a viver do ordenado e das pensões. Ganhou coragem, despediu-se do infantário e foi trabalhar como ama numa família amiga, recomendada por uma colega.
Nunca mais teve falta de trabalho. De boca em boca, passaram-na de família em família, e com cada mudança o ordenado subia.
À noite, fazia festas à orelha do Camões.
Camõezinho, obrigada! Se não fosses tu
O gato, deitado no colo, punha-lhe a pata na mão, ronronava e espreitava a Joana. Se a adorava! Passava a vida atrás dela. Só aceitava ser afastado quando a avó o chamava para o quarto dela. O resto do tempo era para a Joana.
Ficou com ela durante todos aqueles anos: nos estudos, nas noites em que chorava à porta do quarto da avó quando a perdeu, nos meses seguintes quando morreu o avô. A Helena conheceu, de repente, um novo amor, casou-se outra vez e percebeu que era capaz de ser feliz. O marido, o senhor António, tratava-a como uma rainha e rapidamente conquistou também a mãe da Helena, oferecendo-lhe boleias para o campo e para onde mais quisesse.
O genro vem buscar-me. Vai levar-me à quinta dizia, emproada, às vizinhas.
A Joana, já no instituto politécnico, era perfeitamente independente. Deu-se bem com o padrasto, mas optou por continuar a viver no apartamento da infância.
Foi aí que levou o namorado.
Uau, Joana, que palácio!
Diz antes uma casa velha
É enorme! Olha aquele Eh pá, o que é isto?
O Camões, já velhote, saiu da toca a bufar, lançou-se ao primeiro cheiro a estranho e encantou a peça, perseguindo Rui até que Joana acudiu.
Gato e namorado nunca se deram bem. Rui fazia tudo para o gato não lhe aparecer à frente.
Um ano passou, casaram-se. Mas algo mudou. Rui começou a tratar Joana como a mãe da Helena a tratara um dia.
Que raio de mulher és tu?! Isto é jantar? Parece sopa de água. És uma nulidade na cozinha, que esposa és tu?
Rui não tinha razão nenhuma: Joana cozinhava que se fartava, aprendia desde pequena. Mas ora, só arranjava desculpas até ao dia em que o Camões adoeceu.
Quanto está a consulta?! Joana, perdeste o juízo?! Gastei menos no mecânico do carro. Isso é só um bicho!
O Camões não é um bicho, é família!
Da tua, não da minha! Se voltares a gastar assim, quem vai para a rua sou eu ou ele!
Joana, que nessa manhã descobrira que ia ser mãe, não respondeu. Segurou-se. Mas logo a seguir, o Camões teve uma recaída e ela preparou tudo para levá-lo de novo ao veterinário, momento em que Rui chegou do ginásio.
Chega! Ou o gato, ou eu! Eu não sustento luxos inúteis!
Então vai tu! Eu e o Camões ficamos. Não te devo nada.
Foi um instante. Rui mal largou a conversa, agarrou a pasta, saiu porta fora. Nem se apercebeu que, no meio do surto, Joana lhe dissera que estavam grávidos.
Joana pegou no gato, enfiou-o na transportadora e murmurou:
Pronto, Camões. Vamos mudar de vida. Começamos pelo teu tratamento!
O Camões recuperou, com recaídas aqui e ali. A transportadora tornou-se presença assídua lá em casa e, um dia, já muito velhote, o Camões permitiu que Joana lhe apresentasse a neta, que o acarinhou de tal forma que ninguém tinha direito.
A pequena Matilde era igualzinha à bisavó Helena. Joana até pensou chamá-la Helena, mas a mãe dissuadiu-a.
Fala com o pai da criança; é dos dois lembrou. Não vão viver juntos, mas a menina vai ter sempre os dois. Lutaram para fingir que estava tudo bem; é hora de fazerem melhor. Não é fácil, mas pela vossa filha, vale bem a pena.
Joana ouviu, para espanto de Rui.
Engraçado, nunca te imaginei tão sensata.
Cresci, só isso. Vais ajudar?
Vou. A sério!
A pequena Matilde passou a viver entre as duas casas, feliz da vida. Duas caminhas, dois coelhinhos de peluche, duas avós Helena e Dona Graça, mãe do pai. E no amor não faltava de nenhum lado. Para ela, a certeza era simples: com tanto amor partilhado, todos tinham um pouco de família.
Só o velho Camões sabia o segredo daquela menina, mas nunca o contaria não por falta de língua, é que não havia mesmo necessidade nenhuma.
Afinal, toda a gente sabe: se a gata é meiga, também os gatinhos vão sair assim. Foi assim com a Matilde e quando também ela tiver filhos e passar os dedos na cara do bebé, como as mulheres da sua família sempre fizeram, sussurrará:
Olá, meu pequenino! Esperei tanto por tiE assim, no pequeno grande apartamento onde tudo começou, com cheiro a café pela manhã e passos miúdos ao despertar, Matilde cresceu entre histórias de avós, gatos e mulheres destemidas. Na última tarde do Camões, quando o sol entrou oblíquo pela janela da sala, a menina, de mãos pequeninas e decididas, sentou-se ao lado dele e fez-lhe festas no pêlo gasto.
A mãe e a avó cochichavam memórias à mesa, riam baixinho de peripécias antigas, e a vida prosseguia, feita de rotinas simples, desencontros e reencontros de luxos caros e de outros, mais valiosos, que não custam nada mas por vezes custam tudo.
Quando Matilde soube pela primeira vez o que era perder, chorou baixinho com a cabeça na almofada, como em tempos fizera a mãe. E, como a avó fizera antes, escutou, sem perguntar, só ouvindo. Descobriu que amor não se mede em coisas nem contas, mas nos laços invisíveis que seguram as histórias, os risos, e até as ausências.
E num desses dias, ao escurecer, enquanto fechava as janelas e arrumava brinquedos, Joana virou-se para a filha com ternura, sorrindo apesar do cansaço.
Matilde, sabes qual é o maior luxo da nossa família?
A menina pensou, olhos brilhantes de curiosidade.
É o amor, mamã.
Joana sorriu, abraçou-a forte e sentiu como sempre sentira Helena que, entre luxos e carências, perdas e ganhos, a história continuava, novinha em folha, de geração em geração, como um manto bordado à mão, herança feita de coragem, mimoseada até no mais pequeno gesto. E naquele abraço, estava tudo: tudo o que foi, tudo o que viria a ser.







