Um Prazer Caro

Um Luxo Caro

Beatriz, outra vez? Até quando? Sinto que trabalho só para manter o teu gato!

O gato, que Beatriz tentava de todas as formas enfiar na transportadora, desenrolou-se dos braços dela, caiu desajeitado ao chão, e correu a esconder-se num canto do hall de entrada, a soltar miados profundos de lamento. Pelo ar desconfiado, parecia determinado a só ceder a troco de uma vida bem avaliada e paga mesmo que o João, namorado de Beatriz, achasse que, no fundo, nem valia tanto assim.

Já lá vão muitos anos desde que Beatriz, num impulso, deu ao bichano o nome de Camões mas, entre amigos, era tratado carinhosamente por o Camô. O tempo passado era tanto que Beatriz já não sabia ao certo a idade do gato, pois resgatara-o adulto, ainda jovem, das ruas de Lisboa, numa tarde chuvosa, no bairro da Graça.

Nessa altura, Teresa, mãe da Beatriz, correu com a filha para a clínica veterinária da Avenida de Roma, o gato todo embrulhado num cobertor de bebé, já mais lavado e velho que propriamente macio.

Ajudem-no, por favor!

De onde vem este pequeno terrorista? a jovem veterinária levantou um sobrolho. Parece mesmo um gato dos contentores…

E depois? Agora é meu! Tratam-no ou não? O dinheiro que eu tenho é diferente do das pessoas que aqui entram com gatos de raça?

Teresa não era de ceder nem a meio argumento, e por sorte, a veterinária percebeu rapidamente que o melhor era não discutir.

Teresa Maria Antunes era daquelas mulheres para quem a vida não concedia tréguas. Criar uma filha sozinha, tomar conta dos pais idosos e tudo a ganhar o ordenado mínimo de educadora de infância dava-lhe garra e coração como poucas. Se precisava, defendia-se e aos seus até ao fim. E, se muitos se assustavam com o tom firme, mais se surpreendiam com sua capacidade de escutar o outro e desmontar discussões só com uma palavra certa no momento certo.

Tinha este dom curioso: enquanto para estranhos encontrava sempre tradução possível, lá em casa a coisa não resultava tão bem.

O marido fugiu-lhe ao fim de uma semana de casamento. A mãe ainda gracejou durante uns anos que até tinham durado demasiado.

Teresa ficou de coração partido, claro. Mas ao descobrir pouco depois que estava grávida, deixou-se de lamentos e virou-se para a vida. Homem não dá à luz, pensou. E lá foi, entre festas cinzentas e alegrias pontuais, a preparar-se para o nascimento da Beatriz, contando apenas consigo, e um pouco, com a força intransigente da mãe.

Vale a pena, Teresa? Vais meter-te numa bela trabalheira… És bonita, jovem, até com algum futuro. Mas vais ficar presa a uma criança. Estás pronta para viver à base de massa e arroz? Os miúdos são um luxo caro, Teresa! Um dia vais entender.

Mas, mãe, não foi assim que sempre vivemos?

Pois, filha… Era necessário? Olha o resultado!

Desta vez, contudo, Teresa não conseguiu calar o impulso interior. Bastava pensar em não prosseguir com a gravidez para sentir o peito apertado de tal angústia que nem respirar conseguia.

A avó Cecília, sentindo o drama, apareceu sem aviso à porta do apartamento, xepeira de lenço domingueiro posto, e disse de rajada:

Tem o bebé, Teresa! Eu ajudo-te!

Avó, mas o avô está sozinho na aldeia…

O teu avô ainda é mais teimoso do que eu! E se não se aguentar sozinho, trazêmo-lo também. Olha, trouxe isto.

A avó pôs um embrulho na mesa: o seu pano bordado de linho, recheado de notas e algum ouro. O dinheiro da venda da casa do avô, que ia ser demolida para abrir estrada nova na zona de Ourém, mais as poupanças de uma vida.

Uma fortuna destas nunca toquei. Não posso, avó…

Podes sim! Se fazes por ti, fazes pela criança! Quem há-de olhar por ela?

Aquela decisão criou uma fratura irreparável entre Teresa e a mãe, mas abriu caminho para a vida nova: casa comprada, obras dirigidas pela incansável avó Cecília, que pechinchou cada tostão, e, no dia em que viu berço no quarto, Teresa chorou sem vergonha.

Porquê choras, tolinha? Vai-te alegrando ralhou a avó, limpando-lhe as lágrimas.

Beatriz nasceu antes do tempo. Teresa estava nervosa, mas tudo correu bem. A menina crescia saudável, meiga e com uma confiança fora do comum muito por turbilhão de afeto e doçura que faltou a Teresa em menina.

A avó é tua favorita, claro. Comprou-te a casa e anda sempre atrás de ti. E eu pareço invisível… lamentava a mãe, volta e meia.

Mãe, vem quando quiseres, só não faças barulho. A Bea assusta-se.

As discussões eram inevitáveis. Teresa, porém, decidiu: com a filha não ia repetir os erros do passado.

Criar uma filha equilibrando afeto e firmeza não era fácil, e Beatriz era decidida: negociava tudo.

Mamã, posso comer um rebuçado?

Bea, só depois do almoço.

Mas mesmo só um?

Não.

Então depois posso dois, se comer tudo?

Teresa ria e lá acabava por lhe dar dois, depois do prato limpo reconhecendo que aquela miúda sabia o que queria. Daquelas pequenas batalhas, Beatriz aprendeu a negociar sem dramas. Até a avó, com os seus sermões, era desarmada:

Não refiles, avó! Olha que as rugas ficam feias e tu és tão bonita! Anda cá!

Sentava a avó, esticava-lhe a pele do rosto com os dedos minúsculos e sorria um dos seus sorrisos que derretiam corações.

Foi assim que a harmonia, aos poucos, voltou à casa.

O avô acabou também por vender tudo e juntar-se em Lisboa. Quando a avó adoeceu, Teresa sentiu o mundo fugir-lhe dos pés. Os médicos, evasivos, e ela já entendia o que isso significava.

Avó, e se fôssemos ao Porto? Há bons médicos lá.

Não, filha. Vivi o que bastava, não me custa partir. Só me custa deixar-vos. Não deixes o avô sozinho.

Entretanto, Beatriz chega um dia a casa com um pequeno gato assanhado ao colo: o Camô. O velho Camô passou a ser parte da família, resgatado de um grupo de cães que lhe fizeram a folha junto à escola.

A menina entrou em casa a chorar. Teresa só lhe perguntou: Estás bem, filha? E ela soluçou: Mãe, é ele que está mal. Ajuda-o!

Transportaram o gato à pressa para a clínica veterinária perto da Praça de Londres. O Camô não estava assim tão mal, felizmente. Alguns pontos, muito mimo, e estava pronto para voltar a casa.

A conta, essa, foi amarga. Teresa pagou a consulta e em dinheiro que mal dava para o resto do mês. Entre medicamentos, presentes para o aniversário da Beatriz, e os cuidados com a avó, os euros foram-se.

Na noite seguinte, a menina apareceu, pé ante pé.

Mamã, não peças nada para o meu aniversário. Só quero poder ficar com o Camô. Ele é o meu presente.

E assim ficou decidido. O Camô deitou-se ao lado dela, ignorando caixas e caminhas, sempre junto do calor do cobertor e dos afetos da casa.

O tempo passou. Surpreendentemente, o gato de telhado adaptou-se ao conforto do lar lisboeta, tornou-se próximo dos avós, fiel a Beatriz, sempre presente nas alegrias e nas primeiras perdas: a despedida inevitável dos avós, o casamento inesperado de Teresa com um bom homem que, finalmente, lhe deu o respeito e o amor que merecia e até a sogra ganhou: agora a mãe de Teresa desfilava pelo bairro com ares de rainha, sempre orgulhosa do genro e do automóvel à disposição.

Beatriz amadureceu, entrou na universidade, dividiu-se entre duas casas mas preferiu ficar naquele T4 de Campo de Ourique onde crescera. Ali levou também o namorado, Miguel, e o Camô, já velho, sempre de olho arregalado aos estranhos. Miguel e o gato, esses, nunca se entenderam. O gato não suportava o namorado; Miguel apanhava o Camô para longe, às escondidas de Beatriz.

Ao fim de um ano, celebraram o casamento. Mas pequenas rachaduras começaram a multiplicar-se na relação. Miguel implicava com tudo, e Beatriz começou a ouvir as mesmas críticas que Teresa ouvirá noutros tempos:

Que mulher és tu, Beatriz? Nem cozinhar sabes direito! Isto não é caldo verde, é água suja!

O único motivo de queixa, contudo, veio quando Camô precisou de ida à clínica.

Mas o que é isto?! Este valor? Eu não gasto assim comigo! É só um gato! bufou Miguel.

O Camô não é só um gato, é família!

Minha não! Se tornar a acontecer, ponho-o na rua!

Beatriz, naquele dia, acabava de saber que ia ser mãe. Mas calou-se, engoliu a mágoa e preparou-se para dialogar.

Pela manhã, ao preparar-se para mais uma ida à clínica com o velho gato, Miguel retornou do jogging e, perdendo a calma, atirou o ténis à parede:

Já chega! Vejo-me a sustentar um animal inútil e a aturar isto tudo por um trapo de gato! Ou ele, ou eu!

Beatriz respondeu firme, talvez por cansaço, talvez por instinto:

Então os dois. Não fico onde não respeitam aquilo que amo.

Miguel insistiu, mas ela não mudou. Não lembrou que a casa era dela. Pegou nas chaves, abriu a porta e, virando-se, disse:

Estou grávida. Não quero stress, não vou entrar em discussões. O Camô entende, tu não. Vais sair, por favor. Mais tarde conversamos, se quiseres. Tenho que ir ao veterinário. Ele precisa de mim. Está doente, está velho, mas é parte de mim. Quando alguém tão facilmente lhe vira as costas, o que fará quando eu incomodar? Eu entendi. Obrigada por tudo, Miguel. Mas é por aqui. Podes recolher as tuas coisas mais tarde.

Miguel engoliu seco, pegou no que pôde e saiu batendo a porta.

Beatriz sabia que ele não escutara sequer o anúncio da gravidez. O único “problema” era o gato.

Com a transportadora aberta, Camô entrou, sem protestos. Era outro tempo entre os dois.

O velho gato recuperou. Ainda haveria idas à clínica, agora para ser acarinhado por uma miúda de olhos vivos, filha de Beatriz, que herdaria dos nomes nem Camões nem Teresa, mas sim Leonor. Teresa advertiu:

Escolhe em conjunto. Não vão estar juntos, mas é filha dos dois. Façam por ela melhor do que nós.

Beatriz seguiu o conselho da mãe e Miguel, surpreendido, aceitou tudo.

Assim, Leonor cresceu entre duas casas. Dois quartos, dois coelhos de peluche, uma avó Teresa e uma avó Maria, mãe de Miguel. Mas, acima de tudo, cresceu envolta num amor simples, sem dramas nem ciúmes, mostrando com naturalidade aos adultos que não havia do que dividir.

Apenas o gato velho conhecia toda a história. Mas como nunca soube falar, guardou-a só para si.

Afinal, toda a gente sabe: se a gata é carinhosa, os gatinhos logo serão felizardos. E, com Leonor, nunca faltou mimo. Um dia, também ela embalará o seu bebé, com o mesmo toque de mãos, e dirá baixinho:

Olá, meu pequenino. Estava desejosa de te conhecer…

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