Um Passo para uma Nova Vida

Um Passo para uma Nova Vida

Beatriz fitava a chuva miudinha através da janela do seu pequeno apartamento arrendado em Lisboa. Os guarda-chuvas coloridos deslizavam pelo empedrado molhado da cidade encarnados vivos, amarelos luminosos, azuis escuros como se fossem retalhos de uma manta a navegar nas ruas antigas do bairro de Arroios. Chovia por terceiro dia consecutivo a melodia ritmada da chuva soava como banda sonora do seu próprio estado de espírito. Segurava uma chávena de chá quase frio; o aroma de limão já se dissipara, restando só um suave travo amargo na boca. O olhar de Beatriz vagueava sem querer pelas caixas por desembrulhar. De uma delas sobressaía a ponta da camisola favorita da universidade, de outra destacavam-se os lombos dos livros que levava sempre consigo.

Será possível que já cá estou mesmo? pensou, ouvindo ao longe o pulsar discreto da cidade: motores de autocarros, buzinadelas ocasionais de táxis, o tilintar do elétrico na curva distante. Ainda um mês antes, Beatriz corria pelo Campo Grande, apressada para as aulas, a reclamar das escadas rolantes do metro de Entrecampos sempre avariadas, a tomar café com os colegas no quiosque da esquina onde o senhor António já sabia o seu pedido: bica e pastel de nata. Agora estava em Lisboa para um estágio numa grande empresa de tecnologia, a tentar adaptar-se a outro ritmo, outros rostos, onde até as placas das lojas pareciam carregar outras línguas e mistérios.

Soltou um suspiro e afastou-se da janela, deixando ficar a marca da palma na vidraça embaciada. Na mesa, um caderno repleto de notas do projeto páginas salpicadas com esquemas, setas, rabiscos nas margens. Ao lado, estava um mapa da cidade com círculos a marcar os cafés, supermercados e a paragem de metro mais próxima. A vida dela mudara num ápice…

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Tens mesmo a certeza de tudo? perguntou, com a voz trémula, Leonor, a mãe de Beatriz, vendo a filha dobrar meticulosamente as camisolas no velho baú. O quarto estava virado do avesso: caixas espalhadas, algumas a transbordar, outras vazias ao alto; na secretária, pilhas de folhas apontamentos, documentos, cartas; fotos emolduradas na janela mostravam a infância de Beatriz em Sintra: de bicicleta com os joelhos esfolados, no baile do liceu, à beira-mar lambendo um gelado.

Mãe, ponderei tudo, respondeu Beatriz, dobrando um casaco com calma forçada enquanto a ansiedade lhe apertava o peito. O contrato já está assinado, os bilhetes comprados. Não há caminho de volta.

Mas porquê agora? insistiu Leonor, quase a chorar. Não queres esperar mais um ano?

É oportunidade única, mãe Beatriz aproximou-se para lhe apertar os ombros, sentindo o tremor da mãe. Sempre desejaste que eu fosse além, que te orgulhasses de mim, lembras-te?

Nesse instante entrou Matilde, a irmã mais velha de Beatriz, e encostou-se silenciosa ao batente. No rosto, uma expressão de cuidado e orgulho. Matilde era o porto seguro de Beatriz: animava-a antes dos exames, consolava-a depois de zangas com amigos, dava sempre o melhor conselho.

Deixa-a ir, disse Matilde assertiva. É a vida dela, a escolha dela. Não podemos protegê-la para sempre. Ela já cresceu.

Obrigada, sorriu Beatriz à irmã, murmurando És a única que sabe a verdade.

A verdade era que Beatriz saía não só pelo estágio. Meses antes, descobrira infelizmente que Rafael o rapaz por quem fora apaixonada desde o liceu ia casar com uma colega de trabalho chamada Sofia.

Beatriz recordava esse dia como se fosse ontem. Entrou no café junto ao Instituto para um galão antes da aula e viu-os: Rafael de mãos dadas com Sofia, a rir e a sussurrar ao ouvido, o anel dourado dela a brilhar ao sol. Beatriz ficou parada, o coração a bater tanto que parecia ecoar no café inteiro. Fugiu, tentando engolir as lágrimas, tropeçando na pressa e quase levando um tabuleiro pela frente. Os dedos tremiam-lhe quando enviou uma mensagem a Matilde: É mesmo o fim. Vai casar.

Nessa noite, enviou um sms cordial a Rafael: Parabéns pelo noivado! Desejo-vos tudo de bom. Ele só respondeu: Obrigado! com um emoji de corações aquele emoji doeu-lhe mais do que qualquer outra coisa.

Desde esse dia, Beatriz evitava cruzar-se com Rafael. Mas era difícil: estudavam no mesmo instituto, cruzavam-se nos corredores, às vezes calhavam na mesma turma. Bastava um olhar dele para que todo o seu mundo desabasse por dentro. Virava-se, fingia estar ocupada, mas o coração, esse, ficava suspenso.

Certa vez, pensou: Se a Sofia simplesmente desaparecesse, será que ele olhava para mim? Essa ideia horrorizou-a. Sentou-se num banco do Jardim da Estrela, de cabeça entre as mãos, a sussurrar: Isto não está certo…

Recorreu, anonimamente, a uma psicóloga. A resposta foi direta: para libertar-se, precisava quebrar o elo. Ou seja, ir para longe o mais longe e depressa possível.

Foi aí que surgiu a oferta de estágio. Beatriz tomou aquilo como sinal do destino.

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O dia da partida chegou, mais depressa do que esperava. Os pais, Matilde, colegas e dois amigos do liceu foram despedir-se no aeroporto de Lisboa. Estava um rebuliço de partidas e chegadas, crianças a correr entre malas, risos, música nos altifalantes.

No meio da multidão, logo viu Rafael. Estava ao lado de Sofia, com ar perdido e os ombros caídos. Sofia dizia-lhe coisas, gesticulava nervosa, mas ele só acenava, olhando de lado para todos os sítios menos para ela.

Então, Bea Rafael aproximou-se para um abraço desajeitado, a camisola cheirando ao perfume de sempre, e por um segundo, Beatriz achou que estava a cometer um erro. Boa sorte lá fora. Escreve, telefona, não desapareças.

Claro prometeu, desenhando o melhor sorriso. Dentro dela tudo tremia, mas manteve-se firme.

Sofia também se aproximou:

Beatriz, fico tão contente! Vais adorar, acredita. Quando voltares, tens de nos contar tudo Portugal é pequeno para ti.

Claro, acenou Beatriz. Envio notícias, prometo.

No íntimo, decidiu: nada de vídeos, poucas mensagens. Assim seria melhor. Só assim conseguiria deixar o passado ir.

Ao ouvirem o anúncio de embarque, Beatriz abraçou a mãe, beijou Matilde, despediu-se dos amigos e rumou à porta de embarque. Por um instante olhou para trás: Rafael estava parado, as mãos nos bolsos, a fixá-la. No olhar dele havia algo que ela não entendeu saudade? tristeza? só um adeus educado?

Será que sente algo por mim? passou-lhe. Afastou logo o pensamento e seguiu em frente.

Está na hora, sussurrou, e deu o passo para uma vida nova.

No avião, Beatriz abriu o caderno e escreveu:

Dia um. Estou a caminho. O coração dói, mas acredito: fiz a escolha certa. É tempo de recomeçar. Aqui, não há Rafael, nem memórias, nem dor. Só eu e as oportunidades. Vou conseguir. Tenho de conseguir.

Fechou o caderno, recostou-se e fechou os olhos. Esperavam-na novas cidades, gente nova e talvez um novo amor. O passado ficou para trás, na cidade à beira-Tejo, junto da mãe, de Matilde, dos amigos, de Rafael. Sentia: isto era só o início, não o fim.

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Os primeiros meses em Lisboa não foram fáceis. Tudo era novidade: outro ritmo, desconhecidos em cada esquina, sorrisos que pareciam forçados ou demasiado distantes. Mergulhou no estágio era desafiante, mas entusiasmante. Os dias passavam entre reuniões e desafios; o tempo para saudades escasseava. Porém à noite, sozinha no apartamento, o silêncio caía-lhe em cima: sentia falta de casa, das vozes da família, do cheiro de terra molhada de Sintra.

Num fim de tarde, já escuro e húmido, entrou num café pequeno perto do escritório. O aroma a café moído e canela enchia o ar, e as luzes eram cálidas. Sentou-se à janela e pediu um galão com toque de gengibre queria encontrar um sabor de casa.

Na mesa do lado, um casal ria e partilhava fatias de bolo, cúmplices, como se vivessem um pequeno conto encantado. O rapaz sussurrava-lhe ao ouvido, e a rapariga ria à gargalhada. Beatriz ficou a observar, emocionada pela leveza do momento.

Tem um ar tão pensativo. Não é daqui, pois não? interrompeu-a a empregada, uma senhora de meia-idade com olhos meigos e rugas de simpatia. Colocou-lhe a chávena à frente. O cheiro quente do café aconchegou-a. Quando cheguei cá da Madeira também me sentia assim como um fantasma, como se ninguém me visse.

Tem razão, respondeu Beatriz, sentindo um nó na garganta. Olho à volta e parecem todos encontrar companhia tão depressa… Sinto-me à parte.

Isso passa! piscou-lhe o olho a senhora. Às sextas temos aqui grupos de estrangeiros. Jogam cartas, contam histórias. Se quiser aparecer na próxima, traga esse sorriso! Vale a pena.

Beatriz hesitou só um segundo, olhando para o rosto aberto da senhora, para o calor do galão, a alegria do casal vizinho. Algo aquecia por dentro, o desalento derretia-se.

Quero muito, obrigada! foi sincera, e sentiu florescer no peito uma esperança ténue, quase esquecida.

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Na sexta seguinte, chegou ao café um pouco antes. Nervosa, mãos frias, tinha o coração acelerado. Ao redor de uma mesa grande já se reuniam jovens de várias partes: uns de baralho na mão, outros a servir chá de uma chaleira fumegante. A sala transbordava energia de convívio, e Beatriz ficou na entrada, a olhar.

Olha, uma cara nova! exclamou um rapaz alto, cacheado, bem-disposto. Aproximou-se e apresentou-se. Eu sou João, aquela é Filipa, este é Manuel, ali Carolina…

Memorizou os nomes, embora tudo lhe soasse ao mesmo. Rapidamente integrou as brincadeiras; riu das imitações de João, discutiu estratégias de jogo com Manuel, contou histórias da Vila de Sintra a Carolina. Filipa era dos Açores e narrava peripécias passadas com um sotaque encantador. Manuel imitava sotaques de norte a sul, pondo todos a rir pelas lágrimas.

Com o tempo, Beatriz viu que já raramente pensava em Rafael. Antigamente, acordava a lembrar-se da infância partilhada de correrem para as aulas, de se esconderem das chuvas de final de verão debaixo do mesmo guarda-chuva, das discussões sobre bandas e músicas. Agora, as memórias não magoavam eram só nostalgia, como fotos a que se volta sem dor.

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Numa tarde, ao passar pelas fotografias antigas no telemóvel, parou num retrato do baile do secundário: ela e Rafael a rir, ele a fazer caretas, ela a fazer menção de lhe bater em brincadeira. O sol iluminava os seus rostos, por trás um mar de balões coloridos e colegas em festa.

Que estranho, pensou, passando o dedo pela imagem, porque sofri tanto por ele? É só o Rafael. Um grande amigo, sim, mas apenas isso.

Abriu o chat e escreveu:

Olá Rafael! Tudo bem? Espero que o casamento tenha sido perfeito. Transmite à Sofia um beijinho meu.

A resposta chegou num instante:

Bea! Que saudades! O casamento foi incrível, a Sofia ainda mostra fotos a toda a gente. E tu? Conta, tudo, do trabalho, da cidade. Sinto falta dos nossos papos!

Beatriz sorriu, começando a escrever um texto longo. Pela primeira vez, falava com Rafael sem mágoa, sem ressentimento. As palavras fluíam, leves. Falou do estágio, das novas amizades, do dia em que quase entornou chá no chefe, pensando que era açúcar. Rafael respondeu com piadas e lembranças do passado.

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Passou mais um mês. Beatriz já conhecia bem Lisboa: sabia onde comprar o melhor pão rústico, em que quiosque serviam o pastel de nata mais estaladiço, qual era o jardim onde melhor se passeava nas manhãs. Fez amigos próximos; ao fim de semana iam juntos ao cinema ou passeavam junto ao Tejo. No trabalho, o chefe elogiou o empenho dela à frente de todos, os colegas aplaudiram, sorridentes. Era raro sentir-se parte de algo tão importante.

Certo sábado, João lançou:

Olha, que tal irmos à praia este domingo? A Carcavelos fica já ali, levamos bola, mantas, lanche e violão. A Filipa vai, e mais alguns. O que achas?

Parece-me ótimo! sorriu Beatriz.

Quando contou os planos a Matilde por videochamada, a irmã fitou-a atenta, depois sorriu.

Estás diferente, Bea. O brilho dos teus olhos é outro. Agora sorris de verdade.

Acho que finalmente percebi uma coisa importante respondeu Beatriz, olhando o rio além janela. O que eu sentia pelo Rafael não era amor. Era medo de perder um amigo. Agora vejo isso: continuamos ligados, mas de outra forma e é melhor assim.

Matilde sorriu, orgulhosa.

Sabes, mereces mesmo ser feliz. Não deixes que nada nem ninguém feche o mundo para ti.

No domingo, o grupo foi até à praia. O sol brilhava, o ar cheirava a maresia, as gaivotas planavam perto das ondas. Beatriz caminhava na areia ao lado de João, ouviu histórias divertidas de infância dele e sentiu-se verdadeiramente leve. O vento brincava-lhe nos cabelos, a felicidade era natural, espontânea.

Vejo-te como parte da nossa família, disse João junto à rebentação. Ainda bem que vieste naquele dia ao café. Trouxeste-nos alegria.

Beatriz corou, cheia de gratidão:

Obrigada. Vocês são já uma família para mim.

Ao fim da tarde, quando recolhiam, Filipa aproximou-se dela:

Notei como mudaste. Chegaste tão tímida, sempre com receio de te aproximares. Agora és tu mesma: divertida, generosa, genuína. Deixas o teu brilho por onde passas.

Beatriz abraçou-a, sentindo lágrimas a correr, mas desta vez, eram de gratidão.

Obrigada, Filipa. Vocês resgataram-me de mim mesma. Sem vocês, continuava a olhar o mundo de dentro da janela.

Filipa apertou-lhe a mão:

Os amigos servem para isso: puxar para a luz e partilhar o caminho.

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À noite, já em casa, Beatriz abriu o portátil para um video com a mãe e Matilde. Do outro lado, a mãe, de robe com flores, e Matilde com camisola do festival de música.

Então, conta tudo! atirou Matilde, sorrindo.

Foi incrível Beatriz aninhou-se no sofá. Jogámos à bola na areia, houve viola a acompanhar, demos grandes passeios junto ao mar. O João levou-nos a um rochedo com vista de cortar a respiração. A Filipa quase caiu ao tirar fotos às gaivotas!

A mãe ouvia, sorriso contido na preocupação:

E tu, filha? Estás feliz?

Beatriz ficou um momento em silêncio, a ouvir-se por dentro. Lembrou-se do riso ao sol, do cheiro do mar, da leveza ao correr pela praia.

Estou, mãe. Estou mesmo. E sabes? Já não tenho medo do futuro. Quero construir a vida aqui. Se calhar vou ficar em Lisboa depois do estágio.

Sabia que sim! exultou Matilde.

A mãe limpou uma lágrima:

Importa é que sejas feliz, minha menina.

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No dia seguinte, Beatriz escreveu novamente a Rafael, desta vez uma carta longa. Desabafou: contou como foi duro, como confundira amizade com paixão, como tivera medo do que sentia. Falou das novas amizades, de redescobrir-se. Terminou:

Obrigada pela amizade de tantos anos. Agora posso finalmente valorizá-la sem ilusões. És um grande amigo, e só isso. E fico feliz por tudo continuar entre nós, à distância.

Rafael respondeu rápido:

Bea, obrigado pela abertura! Não fazia ideia de quanto foi difícil, mas é verdade: a amizade é o que fica. Prometo ligar mais vezes! Quando vieres a Lisboa, a Sofia e eu fazemos-te uma festa que nem te vais lembrar das praias!

Beatriz recostou-se, de alma leve e coração calmo. Olhou o Tejo a brilhar na manhã clara. Ao lado do computador, estava um postal da Carolina: Bem-vinda à família! com o desenho de um boneco vestido de pescador.

Aqui começa a minha nova vida, pensou Beatriz. E ela é exatamente como devia ser.

Moral: Às vezes, para nos encontrarmos, é preciso coragem para partir. Os verdadeiros recomeços não nascem do esquecimento do passado, mas da aceitação e da abertura a novas pessoas e oportunidades. A felicidade encontra-se quando abrimos o coração primeiro a nós próprios, e depois ao mundo.

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