Um Passo até ao Altar

Um passo até ao altar

Era impossível desviar o olhar do espelho: ali estava eu, Mafalda, rodopiando devagar no centro do quarto, vestida no meu próprio vestido de noiva. Sorria sem conseguir controlar, surpreendida pela felicidade que me inundava a saia ampla mexia-se a cada movimento; o tecido parecia escorrer-me pelo corpo como um abraço suave. De vez em quando levantava a bainha, visualizando o caminho até ao altar. Como seria esse dia? Tentei imaginar-me, mas a ansiedade deixava-me presa àquele reflexo, maravilhada.

A porta semiabriu-se e Laurinda, a minha irmã mais velha, apoiou-se no portal com os braços cruzados, mostrando aquele seu sorriso meio trocista, tão típico nela.

És mesmo bonita, Mafalda, olha que estás mesmo concedeu, não conseguindo esconder o riso. Mas vais precisar doutro vestido, de certeza. Não aguentas desde a cerimónia até ao fim da noite com essa saia cheia de armação. Só de te imaginar na pista de dança nesse aparato sem conseguir mexer-te!

Parei e olhei realmente para o vestido. As palavras dela ficaram-me na cabeça. Tinha razão, claro: o vestido era perfeito para as fotos e para a igreja, exatamente como sempre imaginei; requintado e solene, o verdadeiro vestido de casamento. Mas para dançar, para o copo-d’água animado com amigos e família, talvez fosse melhor algo prático. Um vestido branco, curto, confortável, pelo joelho sim, conseguiria mover-me sem medo.

Achas mesmo? perguntei, olhando para o volume da saia. Pronto, se calhar tens razão. Ajudas-me a escolher?

Laurinda fez que sim com determinação.

Claro! Já te conheço bem. Se fores sozinha, vais experimentar roupa até ao fecho da loja e no fim não compras nada. Estou admirada é como conseguiste decidir-te por este vestido!

Encolhi os ombros, rindo-me.

Mandei fazer por medida Levei à costureira os desenhos todos. Se fosse experimentar numa loja de noivas, ainda lá estava Tanta escolha, tantos detalhes! Fiquei completamente baralhada.

Afastei-me do espelho e sentei-me na ponta da cama, olhando para Laurinda com esperança.

Amanhã tens tempo para irmos às lojas? Sem ti, perco-me de certeza.

Ela aproximou-se, ajeitou uns vincos imaginários no vestido e sorriu com carinho.

Por ti adio tudo! Não é todos os dias que a minha irmãzinha se casa. Vamos encontrar o vestido perfeito para a pista!

*******************

Já caía a noite e eu, sentada à mesa da cozinha, estava quase perdida no meio de convites brancos, envelopes imaculados e uma caneta de tinta azul. As luzes quentes da cozinha davam àquela tarefa um ar acolhedor. Dobrava cada convite, escrevia calmamente o nome dos convidados em letra redonda, tentando dar um toque pessoal. Insisti em recusar sugestões de mandar imprimir tudo: queria o gesto único, quase artesanal, porque acreditava que trazia alma ao momento.

A mãe e Laurinda ofereceram ajuda, mas fui firme: É o meu casamento! Ao menos isto faço eu.

Só faltam uns quantos murmurei, sentindo uma pequena dor no pulso, resultado de horas de escrita. Os dedos quase me tremiam. Já não estou habituada a tanta caneta

Laurinda entrou e, sem dizer nada, sentou-se na minha frente. Observou o meu ar aplicado e abanou a cabeça, a sorrir.

Queres mesmo que eu não te ajude? perguntou baixinho, inclinando-se para a pilha de convites por fazer. Ainda faltam tantos Aliás, porque é que o Tiago não ajuda? Metade dos convidados são da parte dele!

Larguei a caneta, mexendo os dedos doridos.

Ele tem estado cheio de trabalho, sabes como é, expliquei, passando a mão pela pilha já pronta. Está a adiantar o máximo antes das férias, para sair descansado. Sabes como é: temos de deixar tudo encaminhado.

Sorri, imaginando o mais importante: a nossa lua-de-mel. Uma viagem curtinha para algum sítio soalheiro e calmo, onde possamos começar a nossa vida de casados longe do barulho da cidade.

Mas olha, assinar meia dúzia de convites não lhe matava o tempo, contrapôs Laurinda, mantendo a voz calma.

No fundo, sabia que Laurinda nunca foi grande fã do Tiago. No início, pareceu-lhe distante, demasiado calmo, até distante demais. Mas eu só via o lado bom: sempre solicito, sempre pronto a apoiar e animado com tudo o que tinha a ver com a organização.

Ou será só o meu lado de irmã galinha, sempre preocupada? pensava, enquanto Laurinda ficava absorta nas dúvidas. Nem todos demonstram as emoções da mesma maneira

Apesar disso, o receio pairava. Laurinda tinha aquela sensação esquisita de que o Tiago, apesar do entusiasmo inicial, ficava às vezes meio alheado das pequenas discussões de futuro, como se estivesse ali porque sim, sem grande compromisso.

Por outro lado, foi ele quem insistiu logo no casamento. Ao fim de apenas três meses de namoro! Ele organizou quase tudo, e defendia que o evento merecia ser especial para toda a família.

Não podemos fazer só um casamento pequenino, Mafalda, dizia, a escolher os tons das flores e a alinhar as ementas do restaurante Os meus vêm de Lisboa e do Porto. Não faria sentido não convidá-los É assim que se deve celebrar!

Eu ficava encantada, deixando-me levar. Não via os pormenores que Laurinda notava, como a ausência dele em conversas sobre o futuro, ou como voltava a falar dos detalhes materiais cada vez que não sabia o que responder.

Laurinda desconfiava do entusiasmo; sentia que por vezes parecia uma encenação. Mas tentava não pensar nisso: nos casamentos, às vezes os nervos traem-nos. Certo? Então, por enquanto, o melhor seria apoiar-me. O tempo diria.

***********************

Tudo estava a correr melhor do que o esperado. O Tiago ficara responsável pelas despesas maiores: restaurante, fotógrafo, viagem depois da boda. Eu só tinha de escolher vestido, cabelo, maquilhagem e tratar de mais uns detalhes. Um alívio. Eu agradecia-lhe isto, sentia-me apoiada.

Certa noite, à mesa, Laurinda não resistiu:

Não achas que estão a avançar rápido, Mafalda? Estão juntos há pouco tempo Não teriam vantagem em viver juntos antes? Ganha-se outro à-vontade Depois, daqui a uns meses, faziam festa a preceito!

Não me ofendi. Sabia que a preocupação dela era genuína. Sorri, sentindo o calor no olhar dela.

Não te preocupes, Laurinda. Vai correr tudo bem, vais ver! Sei cozinhar, adoro organizar a casa dá-me prazer arrumar, limpar, transformar tudo num espaço acolhedor. Sei que o Tiago não vai poder ajudar sempre por causa do trabalho, mas não faz mal, eu desenrasco-me! Se for preciso, chamo alguém.

Bebi um gole de chá, sentindo-me mais segura:

Eu gosto mesmo dele. Nunca senti isto antes por ninguém Sinto que encontrei aquilo por que sempre esperei. E não vou perder esta oportunidade!

O rosto de Laurinda suavizou. Sabia que para mim, nunca nada pareceu tão claro. Era talvez assim que a confiança e a esperança se sentiam um brilho nos olhos e a convicção de que qualquer problema era apenas um detalhe.

Tens mesmo essa certeza? inquiriu Laurinda baixo, ainda a digerir tudo.

Absoluta, respondi firme. Pode parecer cedo, mas sinto que é ele. Somos compatíveis, damo-nos bem, queremos o mesmo da vida. Queremos construir uma família.

Laurinda sorriu, resignada, apertando-me a mão.

Se tu estás feliz, só me resta apoiar-te, Mafalda. O que eu quero mesmo é isso.

Obrigada, Laurinda, sussurrei. Sei que só queres o melhor para mim. Mas acredita, agora estou verdadeiramente feliz. Acho que isto é só o começo de algo muito bonito.

Se há coisa que não se podia negar, era a dedicação do Tiago. As colegas do escritório eram todas testemunhas: todos os dias aparecia o meu café preferido, com xarope de amêndoa e natas, entregue na receção com um recado escrito: Para a minha mais linda. Ficava corada de cada vez. Para além disso, levava-me de carro sempre que podia de manhã, ao fim do dia e fazia questão de abrir a porta, puxando-me para o seu lado com um sorriso sempre tranquilo.

As colegas troçavam, meio invejosas:

Que cavalheiro o teu, Mafalda! Onde é que o encontraste?

Ria-me. Às vezes parecia irreal, até para mim.

Laurinda observava de longe e punha-se a pensar se estaria a ser dramática. Zangava-se com ela mesma por duvidar: tudo parecia perfeito. E no entanto, cá dentro, o desconforto não passava. Algo faltava, mas era incapaz de explicar o quê.

Uma noite, confrontou-me:

Mafalda, é tudo muito bonito Mas não achas tudo perfeito demais? Não sei Fico nervosa, parece-me estranho.

Olhei para ela, surpreendida:

Laurinda, não percebo O Tiago é tão atencioso, tão querido. Faz tudo para me ver feliz.

Não duvido. Só olha bem, vê como é nos momentos difíceis, quando o imprevisto aparece. É nesses momentos que se vê mesmo quem temos ao lado.

Fiquei a pensar, mas acabei por sorrir, confiante:

Tu és mesmo a racional desta família. Deixa-te disso: estou feliz. E acredito que vamos ser muito felizes juntos.

Laurinda suspirou, resignando-se:

Vamos ver só quero o teu bem.

Mas aquele sexto sentido dela continuava inquieto. Nem imaginava quão importante ele seria em breve.

***********************

Naquele fim de tarde, fui a casa do Tiago cheia de entusiasmo. Trazia os papéis cheios de anotações: queria fechar os últimos pormenores com ele, decidir músicas, convidados, detalhes para a decoração, planear juntos, como de costume. No fim, comer uma pizza e descansar no sofá.

Assim que entrei, percebi logo que algo estava errado. Ele estava à minha espera no corredor, mas não me abraçou, nem sorriu. Mãos nos bolsos, o olhar distante, duro. Nem parecia ele.

O que queres dizer com não vai haver casamento? consegui murmurar, sentindo as pernas perderem força. A voz saía frágil. O que aconteceu, Tiago? Estás tão frio Fui eu? Diz alguma coisa

Demorou a responder: levantou o olhar, mas já não era o mesmo olhar doce. Só havia uma dureza estranha, quase desprezo.

O que fizeste tu Nada de especial. Nasceste mulher, só isso. As mulheres são todas iguais, a correr atrás do dinheiro. Basta aparecer outro melhor e largam-nos logo. Odeio isso.

Congelei. Aquilo era real? Eu nunca, nem uma vez Tinha abdicado dos meus planos, das minhas amigas, do meu próprio tempo para preparar um dia perfeito para nós. Só pensava nele.

Tiago, não entendo balbuciei, os dedos brancos de tanto apertar as folhas de papel.

Ele virou costas, desdenhando:

É sempre a mesma coisa. Pensas que não vejo como sorris aos outros? Como olhas quando estão por perto?

O nó apertou-me a garganta. Quis explicar-lhe como tudo aquilo era mentira, mas nem voz tinha. À minha frente estava um estranho, não o homem de quem me apaixonei.

Mas eu nunca nunca te tentei de novo, a voz quase a falhar.

Poupas-me? És como todas as outras. Eu pensava que eras diferente. Enganei-me.

Fiquei parada, sem chão. Uma infinidade de perguntas girava-me na cabeça, mas nenhuma resposta. Como tudo se tinha desmoronado assim, num instante?

Eu amo-te. Não preciso de mais ninguém. Por favor, acredita, tentei, a voz embargada.

Ele desviou o olhar. Vi-lhe nos olhos outra dor não era só raiva, era mágoa antiga, ainda aberta.

Já acreditei uma vez, Mafalda. E olha no que deu Investi tudo, tempo, dinheiro, esperança. E ela deixou-me à porta da igreja a saber, à última da hora, que tinha arranjado melhor. Isso dói. Vais agradecer que te diga agora, e não com tudo montado.

Foi como uma bofetada. Engoli em seco, sem lágrimas nem força nem palavras. Apanhei as minhas coisas e saí.

A porta fechou-se atrás de mim, deixando-o sozinho. Logo percebi que, no fundo, estava tão perdido como eu. Talvez mais.

**************

No sofá, o Tiago sentou-se, mão na cara, tentando afogar o que sentia. Se calhar preciso mesmo de ajuda, pensou, com amargura. Gostava de mim, sabia-o; mas cada vez que o relacionamento se tornava sério, via nela outra pessoa a antiga noiva, a história dolorosa, a traição. Revivia tudo, como quem vê um filme repetido. O medo mandava nele. Dava por si a pensar que nunca seria suficiente.

Pegou no telefone, sacudiu a indecisão e marcou um número.

Olá, preciso de conversar Não consigo livrar-me da ideia de que vai voltar a acontecer, que vou ficar sozinho Quero mudar, balbuciou.

Ouviu do outro lado uma voz tranquila:

Fizeste bem em ligar. Quando podes vir?

Tiago olhou para o céu escuro da janela.

Amanhã.

**********************

Um ano depois, entrei de braço dado com o Tiago no salão, agora banhado de luz e alegria, rodeados por todos. O vestido o mesmo que tinha sonhado assentava-me como uma promessa. A música envolvia tudo. Senti-lhe a mão quente e decidi confiar um bocadinho mais.

No centro da pista, sorrindo-me, dançou comigo.

E então, marido, como te sentes? murmurei, a fixar-lhe o olhar.

Estranho mas diferente. Sinto que agora é real, sem peso nem medo.

Sorri-lhe. Lembrei-me do dia em que tudo desabou como me parecia impossível recuperar daqueles instantes. Mas fui ter com ele no dia seguinte disposta a lutar. Não com mágoa, nem discussão. Mas com a verdade:

Não vou a lado nenhum enquanto não conversarmos com honestidade. Não acho justo desistirmos do nosso futuro só porque o passado te assusta. Vamos procurar ajuda juntos.

Ele foi cedendo. Fomos, pela primeira vez, a uma consulta de psicologia. Falámos, ouvimo-nos, chorámos. Passou a confiar, eu aprendi a ter paciência.

Ali estávamos: marido e mulher, embalados na pista, finalmente livres de fantasmas.

Ainda bem que não desististe de mim, disse ele baixinho.

E eu de ti, respondi, encostando-me porque agora sei: só se vence o medo ao lado de quem se ama.

A dança podia abrandar, mas aquele momento era nosso sereno, cheio daquela felicidade calma, só nossa, de quem lutou e venceu.

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