Um Luxo Caro

Que vida, Susana! É sério, há dias em que sinto que passo a vida só a trabalhar… para o teu gato!

Vê só, a Susana ali a tentar enfiar o gato na transportadora, mas ele que se chama Balzac, nome pomposo que ela lhe pôs quando o trouxe para casa, mas que de mim recebe sempre um simples Bazico lá conseguiu libertar-se, caiu do colo dela, desandou para um canto do hall, e começou a miar num tom tão sentido e profundo que só me deu vontade de revirar os olhos. Parecia mesmo que estava a desempenhar o papel de vítima para ver se lhe dávamos mais valor.

O Bazico já vive com a Susana para aí há dez anos, imagina. Nunca ninguém soube ao certo a idade do bicho. A Susana, na altura, pegou nele na rua, e tinha ar de gato já adulto. Não era um gatinho pequenino, mas também não era velho, e foi o que disseram ao ir com ele à veterinária assim que foi resgatado.

A mãe da Susana, a Dona Helena, foi com ela ao veterinário nesse dia. A mãe ia com o gato enrolado num cobertor velho, mais aflita do que qualquer mãe com filho doente.

Acalmem-se, que está aqui em boas mãos! disse a assistente, mas com uma expressão de nojo, olhando o Bazico como lixo doméstico.

E então? atirou a mãe. É apenas um gato da rua. Não interessa, é nosso, precisa de ajuda. Ou têm preço diferente para gatos vips e gatos pobrezitos?

A rapariga do balcão bem que percebeu que não valia a pena discutir com a Dona Helena. E fez ela muito bem. A mãe da Susana era mesmo dessas pessoas teimosas, das que não largam o osso já dizia a vida: cria uma filha sozinha, cuida de dois idosos, tudo com o ordenado de educadora de infância… Ninguém lhe pode passar por cima facilmente!

Mas a Dona Helena, de coração doce, não se ficava só pela casca dura. Tinha amor para dar aos filhos, aos gatos, e às vezes até aos cães, apesar de desde miúda lhes ter medo.

Metia respeito na vizinhança, entre os pais das crianças lá da creche, até entre desconhecidos que por vezes confundiam a sua fragilidade com fraqueza. Mas ninguém a ouvia aos gritos. Bastava trocar meia dúzia de palavras com ela e pronto, qualquer bronca virava chá das cinco. Usava aqueles argumentos certos, ia buscar uma ternura ao fundo do peito, e quem começava a discutir acabava a desabafar. Por vezes, vinham depois agradecer-lhe e pedir desculpa!

Era como se tivesse um dom. A Dona Helena sabia ouvir e, se calhar por isso, resolvia tanta coisa.

Mas, curioso, sabia conversar com toda a gente, menos com os mais próximos. Com o ex-marido nem valeu a pena fugiu logo na semana seguinte ao casamento. A mãe de Helena ainda goza com isso até hoje Mas a Helena, em vez de se amargurar, arregaçou as mangas. Pouco tempo depois descobriu que estava grávida e pensou: Pode ser que não sejam homens a nascer bebés, mas mulheres são de certeza!. Ganhou um novo ânimo quando soube que vinha aí uma menina.

A própria mãe dela não achou piada nenhuma à ideia. Ai, filha, tás-te a meter num sarilho Vai ser só sopa de feijão e massa cotovelo, vais ver! Mas para a Helena isso nunca foi obstáculo. Claro que, sempre fiel ao seu jeito, ficou na dúvida só porque a mãe implicou.

Até que apareceu a avó Papolina, que chegou da aldeia de lenço domingueiro e tudo, e foi logo de rompante:

Tens de ter essa criança, Helena! Se precisares, eu ajudo!

E sabes o que fez? Vendeu um pedaço da terra que havia herdado, trouxe o dinheiro escondido num pano bordado, e tudo para ajudar a neta. Até arranjou uma casa antiga, um achado, dizia ela, que só precisava de pintura e jeitinho. Juntou uma equipa de malta boa, daqueles rapazes de olhos negros e cheios de força, e fazia de capataz! Renovaram tudo, e a Helena chorou de alegria quando viu o quartinho do bebé pronto.

A Susana nasceu antes do tempo. Mas cresceu saudável, um docinho, tão delicada! Talvez por isso a Helena quis sempre tratar a filha com mais afeto do que sentiu em casa. Lá em casa, com a mãe era sempre tudo aos berros; a Dona Helena prometeu a si mesma que não ia repetir aquilo.

Como Susana cresceu bem, esperta, não era miúda difícil, mas tinha personalidade para dar e vender. Sabia negociar: Oh mãe, posso um docinho? Depois do jantar, Susana! Mas dois? Vá, dois depois do comer todo. Era só rir, confesso.

Passarinhos sobre a avó? Era vê-la com a Dona Helena, alisando-lhe as rugas à mão e dizendo: Vês, avó, assim ficas toda gira outra vez!. Grandes memórias.

A vida seguiu, a Helena a trabalhar, e os avós a ajudar a criar a Susana. Tudo a correr dentro dos possíveis até que a avó adoeceu. Todos sentiram o aperto no peito, mas ela nunca deixou de tranquilizar: Não se preocupem, a vida já me deu tudo.

Foi nessa altura que a Susana apareceu em casa com um gato esfarrapado. Tinham acabado de viver o susto de quase perder a Susana um desencontro ao vir da escola, miúda perdida durante horas que pareceram anos, mas no fim voltou para casa com um ar choroso a pedir: Mãe, ele precisa de ajuda!.

Foram a correr para o veterinário, trataram do Bazico, e a Helena, depois de pagar a consulta, olhou para a carteira. Isto bem que era dinheiro para um gato de raça… mas pronto!. Ficaram a contar trocos para o resto do mês, mas filho é filho, gato também, e as prioridades reordenam-se, não é?

A Susana pediu para ficar com o gato como presente de aniversário. E assim foi Bazico tornar-se parte da família.

Sabes que esse bicho trouxe uma onda de mudanças? A Helena fartou-se da vida apertada e mudou de trabalho. Trocou a creche pelo trabalho de ama numa família com posses recomendada por uma amiga. Correu tão bem que nunca mais lhe faltou serviço, recomendada de casa em casa, sempre a aumentar o ordenado. E todos os dias, ao voltar a casa, fazia festas no Bazico: Se não fosses tu, quem sabe?.

O gato, velhote mas fiel à Susana, fazia-lhe companhia dia e noite, desde os deveres da escola até aos piores momentos quando morreram os avós e ficaram só as duas. O Bazico era sempre o conforto.

Anos mais tarde, a Helena reencontrou o amor e casou-se. O marido, o António, adorava-a e, vê lá tu, até deu simpatia à sogra: ofereceu-lhe o carro com motorista, dizia a Dona Helena cheia de vaidade no prédio, toda senhora.

A Susana, já maior de idade, decidiu ficar a viver na casa da infância mesmo depois do casamento com o Miguel. O Miguel era boa pessoa, mas nunca se deu bem com o Bazico, que detectava logo quem não lhe agradava! O gato, ciumento que só ele com o novo dono a rir-se, sempre a correr atrás dele, a bufar, a dar investidas no corredor.

Pronto, as coisas acabaram por correr mal. O Miguel não lidava com despesas, e quando soube o preço das consultas do gato, passou-se:

Estás a enlouquecer, Susana? Isto é só um gato, não é um filho!

A Susana tentou justificar, mas o Miguel perdeu as estribeiras.

Ou escolhes o gato ou a mim!

E vê lá, nesse mesmo dia, a Susana soube que estava grávida. Não contou, ficou ali, calada, mas no coração já sabia o que queria: nem era o Miguel, nem escândalos. Pegou nos chaveiros, abriu-lhe a porta e pediu-lhe para sair. Sem escândalos, sem culpas.

Olha, eu estou grávida. Não vou estragar-me com discussões. Se não entendes que família inclui o Bazico, também não vais entender quando a vida complicar. Preciso de escolher por quem me importa.

Miguel saiu, ela ficou, e nesse dia, levou o gato de novo à veterinária. Era hora de cuidar dos dois: do Bazico e dela própria.

O Bazico sobreviveu, ficou velhote mas sempre criança com a filha que nasceu chamaram-lhe Margarida, depois de conselho da Dona Helena: Dá um nome bonito e luso, Susana! Falem-se para decidir, o Miguel também é pai!. E assim os dois, separados mas civilizados, partilharam a Margarida entre duas casas, como se fossem grandes amigos.

A avó Helena e a avó Emília (mãe do Miguel) foram parte do crescimento da Margarida. O amor nunca faltou, apesar dos arrufos adultos. E a Margarida, danada de esperta, percebia com naturalidade que famílias são feitas de amor não de receitas tradicionais.

E o Bazico, velho matreiro, sabia todos os segredos da neta, e nunca contou nada a ninguém. Não precisava, porque mesmo sem falar, tudo se entendia: a casa onde há uma mãe-gata assim, há sempre cria feliz.

A Susana? Trinta anos depois, já mulher feita, há de repetir o gesto da mãe e da avó: um afago, um sussurro junto ao berço, um Olá, meu pequeno Esperei tanto por ti. Isso, amiga, é mesmo coisa de família portuguesa de verdade.

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