Um gato tropeça num telemóvel perdido: Uma história de encontros insólitos, chamadas misteriosas com…

Gato tropeçou num telemóvel por acaso

Hoje foi um dia daqueles. O dia nem parecia trazer grandes surpresas, mas vejam só como a vida nos prega partidas inesperadas. Estava tudo normal até ao momento em que um gato, malandro como só ele, deu de caras com um telemóvel largado junto a um banco de jardim. O aparelho ainda cheirava a pessoa e estava incrivelmente quente. O bichano, num instante, aninhou-se à volta dele, abraçando-o com as patas e deitou-se em cima e o smartphone, como que por magia, ligou-se só com aquele toque felino.

Filipa nem sequer teve tempo de apreciar em condições o seu novo smartphone antes de lhe sair tudo ao contrário. Mal o tirou da caixa, percebeu que vinha com defeito: aquecia por qualquer coisa. E, logo depois, nem sabe bem como, acabou por perdê-lo. Custou-lhe Era um ótimo telemóvel: ecrã enorme, bateria duradoura mas foi mesmo isso que a tramou, no final. Agora, nem reaver o dinheiro era possível o telemóvel tinha desaparecido mesmo.

Na cabeça, chamava-se de parva, agarrou-se ao velho Nokia que ainda morava numa gaveta, e marcou o próprio número. O toque soava, mas ninguém atendia do outro lado. Em desespero, foi buscar gotas de valeriana num armário da cozinha precisava de se acalmar. Tentou recordar por onde tinha andado ao longo do dia. Se refizesse o trajeto, talvez o encontrasse. Ainda mal tinha pousado a cabeça na almofada, algo vibrou na mesa de cabeceira estavam a telefonar-lhe. O número, claro, era o seu.

Estou? Quem fala?
Só se ouviu o som abafado de passos, respirações breves e de repente:
Miau

Filipa desligou, nervosa. Só pode ser alguém a gozar connosco, pensou ela. O mais chato é que nem password tinha posto e agora havia quem se divertisse com o seu telemóvel. O aborrecimento foi interrompido por novo telefonema. Do outro lado, os mesmos suspiros, o mesmo arranhar de som e outro miado, curto, mas claro.

Parem de me ligar! exclamou, frustradíssima.
Mas as chamadas não paravam. Exasperada, decidiu que não podia ficar pior. Vestiu o casaco, saiu de casa e começou a refazer caminho, ligando sempre para o seu número na esperança de finalmente perceber o que se passava. Subitamente, ouviu a sua própria melodia de chamada a soar perto do jardim público. Filipa precipitou-se para o local, já mentalizada para umas palavras duras ao engraçadinho responsável por aquelas chamadas.

O gato, entretanto, aninhado ao calor do estranho aparelho, via aquilo a acender-se, a falar e a tocar. Cheirou-o de alto a baixo, mas o telemóvel só fazia barulho. Ficou confuso, por isso decidiu responder educadamente à sua maneira um pequeno miau. O aparelho calou-se. Intrigado, tocou-lhe de novo e o aparelho voltou a falar. E, claro, quanto mais quente ficava, mais confortável era para o bichano, por isso resolveu voltar a tocar-lhe com a patinha.

Foi nesse instante que o telemóvel começou a tocar uma música alta, que assustou o gato. Tentou calá-lo com umas patadas, mas a música não parava. No meio desta dança, não reparou na figura que se aproximava. Ali, debaixo de uma oliveira, Filipa preparava-se para dar uma bronca bem dada a quem estivesse a brincar com a sua paciência, mas o cenário que encontrou fez-lhe desaparecer toda a braveza: ali estava, com aquele ar de desalento, um gato amarelo, a dar patadas no telemóvel como se lhe rogasse silêncio. Assim que o viu, correu para ela como se a conhecesse desde sempre.

Nunca pensei que um gato de rua me pudesse conquistar assim. Ele ronronava, enroscava-se nas minhas mãos, como quem pede colo e mimo. Parecia impossível resistir àquele ataque de ternura tão genuíno. O pelo quente afagava-me a cara, como se o bichano me enchesse de beijos tendres. Notei logo: ele estava gelado, claro que procurava o aconchego em cima de um telefone quente.

Voltei para casa com o telemóvel resgatado dentro do bolso e o gato, já batizado de Bartolomeu, nos braços. No caminho, ia pensando na sorte de uma paixão à primeira vista. Nunca tinha sentido nada assim com um animal de rua, mas não resisti a aquela demonstração de afeto inesperado. O Bartolomeu, todo contente, rebolava-se no meu colo, esfregava-se na minha cara, e apesar dos meus protestos, aquilo só me fazia sorrir.

Só mais tarde percebi o grande segredo por trás de tanto entusiasmo O Bartolomeu estava completamente entorpecido com o aroma da valeriana que eu própria tinha deixado espalhada pela roupa. Às vezes, pequenos acasos mudam o nosso dia. Hoje, aprendi que, com um pouco de sorte e um toque de ingenuidade, tudo se pode transformar em encontro feliz e que o amor pode mesmo aparecer ao virar da esquina, ou atrás de um banco de jardim, disfarçado de um simples miau.

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