Um ano inteiro a dar dinheiro aos filhos para pagar um empréstimo! Não vou dar mais um cêntimo extra…

Um ano inteiro a dar dinheiro aos filhos para pagarem um empréstimo! Não vou dar mais nenhum cêntimo!

Hoje preciso desabafar neste diário, porque me sinto esgotada e confusa. O meu marido e eu temos apenas um filho, já adulto. Agora, ele já construiu a sua própria família e tivemos a alegria de nos tornarmos avós.

Cresci em Portugal nos anos 70, numa sociedade tradicional onde uma mulher solteira de 30 anos era automaticamente rotulada de solteirona. Era quase impensável não casar cedo e não ter filhos. Sentia-se uma pressão enorme, como se não ter descendência fosse uma vergonha impossível de suportar.

Lá me casei, aos trinta anos, com o António. Desde cedo decidimos ficar apenas com um filho. Como pessoas instruídas, percebíamos o custo de criar uma criança e sabíamos que quanto mais filhos, mais despesas. Por isso, sempre sustentámos que um filho era mais do que suficiente. Demos o nosso melhor ao Vasco, garantindo-lhe uma boa educação e uma base para a vida.

Mas o Vasco cresceu com uma outra mentalidade. Casou-se cedo com a Andreia e, pouco depois, anunciaram a gravidez do nosso primeiro neto. Como ainda não tinham casa própria, acabaram por contrair um empréstimo para comprar um apartamento. De início, desenrascaram-se, cada um a trabalhar e a pagar as prestações.

Quando Andreia engravidou do segundo filho, não resisti e perguntei-lhes como iriam gerir duas crianças e o empréstimo por pagar. Ficaram aborrecidos comigo, insistindo que conseguiriam desenrascar-se. Não insisti se dizem que conseguem, que assim seja.

Durante algum tempo até conseguiram. Mas a Andreia, com a segunda gravidez avançada, deixou de trabalhar. Depois o Vasco perdeu o emprego. Como solução, pediram para se instalarem no nosso apartamento, aquele que nós costumávamos alugar. O António decidiu que devíamos ajudá-los pagando a dívida do apartamento, então durante um ano inteiro sustentámo-los, convencidos de que estávamos a resolver o problema e a apoiar os filhos como bons pais portugueses.

A desilusão veio de rompante. Recentemente descobri que o empréstimo não tinha sido pago como combinado estavam seis meses em atraso. Para onde foi parar o dinheiro todo que enviámos? O António está revoltado, diz que não aguenta mais esta situação. Eu sinto-me perdida, incomodada, magoada. Sempre ajudei os nossos filhos, mas eles pareceram contentar-se a viver às nossas custas, entregues a um certo comodismo.

E agora, escrevo estas linhas e nem sequer sei que atitude tomar. Sinto o peso da tradição, da família, do dever mas questiono-me: até onde devemos ir?

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