Tu enganaste-me! gritou o Manuel, parado no meio da sala, vermelho de raiva.
Em que sentido é que te enganei?
Tu sabias! Sabias que não podias ter filhos e mesmo assim casaste comigo!
Vais ser a noiva mais bonita disse a minha mãe, ajustando cuidadosamente o véu. A Leonor sorriu ao ver o seu reflexo no espelho.
O vestido branco, renda nos punhos, o Manuel de fato escuro tudo estava exatamente como ela sonhava desde os quinze anos: um grande amor, casamento, filhos. Muitos filhos. O Manuel queria um rapaz, ela queria uma menina, e no fim combinaram ter três, para agradar a ambos.
Daqui a um ano já ando com os netos ao colo repetia a minha mãe, enxugando uma lágrima de alegria.
A Leonor acreditava em cada palavra.
Os primeiros meses de casamento passaram num nevoeiro de felicidade. O Manuel chegava do trabalho, ela recebia-o com o jantar pronto, adormeciam abraçados, e todas as manhãs ela olhava o calendário com o coração apertado. Algum atraso? Não, apenas impressão. Mais um mês. Mais outro. Mais outro.
Quando chegou o inverno, o Manuel deixou de perguntar e então? com esperança no olhar. Agora olhava em silêncio sempre que a Leonor saía da casa de banho.
Se calhar devíamos ir ao médico sugeriu ela em fevereiro, quase a fazer um ano de casados.
Já devíamos ter ido resmungou o Manuel sem desviar os olhos do telemóvel.
A clínica cheirava a lixívia e a desalento. A Leonor sentou-se na fila com outras mulheres de olhar apagado, folheava uma revista sobre maternidade feliz, pensando que devia haver algum erro. Com ela estava tudo bem. Apenas ainda não tinha tido sorte.
Análises. Ecografias. Mais análises. Exames. Os nomes dos procedimentos misturavam-se numa corrente interminável de cadeiras frias e rostos indiferentes de enfermeiras.
As probabilidades de engravidar de forma natural são de cerca de cinco por cento disse a médica, olhando para os papéis.
A Leonor acenava com a cabeça, escrevia qualquer coisa no bloco de notas, fazia perguntas. Por dentro, contudo, sentia-se gelada.
O tratamento começou em março. E tudo mudou.
Outra vez a chorar? perguntou o Manuel à porta do quarto, com mais irritação do que compaixão.
São as hormonas.
Já vai no terceiro mês? Isto é demais! Chega de fingir, já estou farto!
A Leonor queria explicar que era assim que funcionava a terapia, que precisava de tempo, que os médicos prometeram resultados em seis meses a um ano. Mas o Manuel já saíra, batendo com a porta.
A primeira fertilização in vitro foi marcada para o outono. Durante duas semanas, a Leonor quase não saiu da cama, com medo de estragar o milagre.
Negativo disse secamente a enfermeira pelo telefone.
A Leonor deixou-se cair no corredor e ficou ali sentada até o Manuel chegar.
E quanto já gastámos nisto tudo? perguntou ele, em vez de um como estás?.
Não fiz contas.
Eu fiz. Quase cem mil euros. E para quê?
Ela não respondeu. Não havia resposta.
Segunda tentativa. Agora o Manuel aparecia depois da meia-noite, a cheirar a perfume estranho, mas a Leonor já não perguntava nada. Não queria saber.
Novo resultado negativo.
Se calhar chega o Manuel disse-lhe, sentado à frente dela na cozinha, agarrado a uma chávena vazia. Até quando isto vai durar?
Os médicos dizem que à terceira é de vez.
Os médicos dizem o que lhes pagam para dizer.
Na terceira vez, praticamente fez tudo sozinha. O Manuel ficava a trabalhar todas as noites. As amigas já não ligavam cansaram-se de consolar. A mãe chorava ao telefone, lamentando o destino da filha tão nova e tão bonita.
Quando, pela terceira vez, ouviu o infelizmente da enfermeira, a Leonor nem chorou. As lágrimas tinham acabado entre o segundo tratamento e outra discussão sobre dinheiro.
Tu enganaste-me! gritou o Manuel, de novo no meio da sala.
Em que sentido?
Tu sabias! Sabias que eras infértil mas casaste comigo!
Eu não sabia! O diagnóstico chegou um ano depois do casamento, tu próprio estavas na consulta…
Não mintas! E avançou para ela, obrigando-a a afastar-se. Montaste isto tudo de propósito! Foste arranjar um otário para casar e depois: surpresa! Não há filhos!
Manuel, por favor…
Basta! Pegou numa jarra e atirou-a à parede, estilhaçando-a em mil pedaços. Eu mereço uma família de verdade! Com filhos! Não isto…
Apontou-lhe o dedo como se fosse um monstro, um erro da natureza.
As discussões tornaram-se diárias. O Manuel chegava maldisposto, calado, explodia por tudo e por nada: o comando fora do sítio, a sopa com demasiado sal, a respiração alta.
Vou pedir o divórcio anunciou ele, numa manhã.
O quê? Não! Manuel, podemos adotar uma criança, li sobre isso…
Eu não quero filhos de outros! Quero os meus! E uma esposa capaz de os dar!
Dá-me mais uma oportunidade! Por favor. Eu amo-te.
Eu já não te amo.
Disse isto com uma frieza que doeu mais do que todas as discussões anteriores.
Faço as malas e vou-me embora avisou ele numa sexta ao fim da tarde.
A Leonor sentou-se no sofá envolta num cobertor, a vê-lo atirar camisas para a mala. Mas não conseguia ficar calado.
Vou embora porque és estéril. Vou arranjar uma mulher a sério.
Ela ficou em silêncio…
Quando a porta bateu, a casa ficou mergulhada no silêncio. Só então chorou a sério uivou de dor até ficar sem voz.
As primeiras semanas após o divórcio fundiram-se num borrão cinzento. Levantava-se, bebia chá, voltava a deitar-se. Às vezes esquecia-se de comer, às vezes nem sabia que dia era.
As amigas iam lá a casa, levavam comida, limpavam, tentavam conversar ela assentia, dizia sim a tudo, para depois voltar ao silêncio e ao seu cobertor.
Mas o tempo foi passando. Dia após dia, semana após semana. E numa manhã, Leonor acordou e pensou: já chega.
Levantou-se, tomou banho, deitou todos os medicamentos no lixo e inscreveu-se no ginásio. No trabalho, pediu para ficar num novo projeto desafiante, de três meses, que requeri dedicação a cem por cento.
Ao fim de semana, começou a fazer excursões, depois pequenas viagens. Lisboa, Porto, Évora. A vida não parou.
Conheceu o Gabriel numa livraria estendiam ambos a mão para o último livro novo do Saramago.
As senhoras primeiro sorriu ele, recuando.
E se eu ceder e tu me convidares para um café? saiu-lhe, surpreendendo-se a si própria.
Ele riu-se, um riso tão cálido que a fez sentir-se leve.
Durante o café, contou-lhe sobre a Matilde a filha de sete anos que criava sozinho há cinco, desde que a mãe da menina morrera.
Sobre como, nos primeiros meses, Matilde chorava à noite pela mãe e como ele aprendera a fazer-lhe tranças vendo vídeos no Youtube.
És um excelente pai disse Leonor.
Faço o meu melhor.
Não quis esconder-lhe nada. No terceiro encontro, quando entendeu que o Gabriel não era apenas uma distração, disse-lhe tudo.
Não posso ter filhos. Diagnóstico oficial, três FIV falhadas, o meu ex-marido foi-se embora. Se isto é importante para ti, é melhor saberes agora.
O Gabriel ficou em silêncio.
Eu tenho a Matilde respondeu-lhe. O que preciso és de ti, mesmo que nunca tenhamos filhos em comum.
Mas…
Vais conseguir interrompeu ele com uma frase enigmatica.
Em que sentido?
Ser mãe. Vais conseguir, se quiseres. Disseram o mesmo à minha mãe. E cá estou eu. Às vezes acontecem milagres.
A Matilde recebeu-a surpreendentemente bem. Na primeira vez, olhou-a de esguelha e só respondia por monossílabos. Mas, ao perguntar pelo livro favorito, animou-se e falou meia hora sobre o Harry Potter. No segundo encontro, já lhe pegou na mão. No terceiro, pediu a Leonor para lhe fazer tranças como as da Elsa.
Gosta de ti constatou Gabriel. Nunca aceitou ninguém tão depressa.
Dois anos voaram. Leonor mudou-se para casa do Gabriel, aprendeu a fazer panquecas ao sábado, sabia de cor todos os episódios da Patrulha Pata e encontrou forças para amar de novo sem medo, nem desconfiança.
Na noite de Ano Novo, à meia-noite, Leonor fez um desejo. Sem querer, murmurou: Queria um filho.
Teve medo dessa frase não valia a pena reabrir velhas feridas mas o desejo já subira aos céus.
Um mês depois, surgiu um atraso.
Não pode ser murmurou, olhando para as duas linhas do teste de gravidez. Deve estar estragado.
Segundo teste. Duas linhas.
Terceiro, quarto, quinto!
Gabriel saiu da casa de banho a tremer. Eu… acho… não sei, é possível que…
Ele percebeu antes dela acabar a frase. Pegou nela ao colo, rodou com ela pela sala, beijou-lhe o cabelo, o nariz e a boca.
Eu sabia! repetia ele. Eu disse que tu ias conseguir!
Os médicos da clínica olharam-na como se fosse uma raridade. Reviraram exames antigos, refizeram testes, marcaram mais exames.
É impossível dizia o médico a abanar a cabeça. Com o seu diagnóstico… nunca vi nada assim em vinte anos.
Mas estou grávida?
Está. Oitava semana! E tudo normal.
A Leonor chorou de felicidade.
Quatro meses depois, encontrou, por acaso, um amigo do Manuel no supermercado.
Ouviste falar do Manuel? perguntou o homem, olhando-lhe a barriga arredondada. Já vai no terceiro casamento. E nada. Não consegue.
Não consegue?
Pois. Ter filhos. Nem com a segunda, nem com a terceira. Os médicos dizem que o problema é dele. Vês? E ele sempre pôs tudo sobre ti.
A Leonor não soube o que responder. Por dentro, não sentiu nada. Nem gozo, nem tristeza. Só um vazio no lugar onde dantes havia amor.
…O filho nasceu em agosto, numa manhã luminosa. Matilde esperava com o Gabriel no corredor, nervosíssima.
Posso pegar nele? perguntou Matilde, entrando de fininho.
Com cuidado disse Leonor, entregando-lhe aquele pequeno embrulho. Apoia-lhe a cabecinha.
A Matilde olhou o irmão com olhos redondos, depois olhou para Leonor.
Mãe, ele vai ser sempre assim tão vermelho? Mãe…
A Leonor chorou, o Gabriel abraçou-as, Matilde olhava de um para o outro sem perceber porque estávamos todos a chorar.
E eu, Leonor, compreendi então uma verdade simples: às vezes, basta ter a pessoa certa ao nosso lado para acreditar no impossível.







