Tu és o meu mundo

Tu és o meu mundo

Sento-me junto à cama da Leonor, sem conseguir desviar o olhar do seu rostinho tranquilo enquanto ela dorme. Deitada de lado, com a boca ligeiramente entreaberta, respira baixinho, tão suave, que quase nem se percebe esse arfar na quietude do quarto. As pestanas longas lançam sombras delicadas nas bochechas rosadas, e o cabelo dourado está todo espalhado pela almofada. Não resisto a sorrir. Nestes momentos, parece-me um anjinho, tão frágil, como se tivesse caído do céu só para mim.

Lá fora, a noite cai devagar sobre Lisboa. O céu azul-escuro já começa a salpicar-se de estrelas primeiro discretas, quase invisíveis, depois cada vez mais brilhantes e numerosas.

Ao fitá-las, a mente foge-me para trás no tempo. Há três anos, tudo era diferente. O riso quente e musical da Ana enchia sempre este espaço. Ainda sinto como, só de entrar, iluminava a casa, tornando tudo mais terno; o toque suave das mãos dela, o olhar onde cabia o mundo inteiro, cheio de cuidado e amor. Agora restam apenas as memórias e a Leonor, que me obriga a continuar de pé, mesmo quando não tenho forças.

A doença entrou na nossa vida sem darmos por ela, sorrateira como um ladrão. Primeiro, a Ana queixava-se de cansaço dizia que era do trabalho em excesso, que só precisava de repouso. Depois vieram as dores de cabeça, que ela atribuía ao stress e à falta de sono. Andámos de médico em médico, fizemos exames atrás de exames, mas nunca era nada de concreto, e os tratamentos pouco ajudavam. O tempo passava, e ela só piorava.

Quando o diagnóstico chegou, já era tarde demais. Não hesitei nem um minuto. Larguei o emprego numa multinacional no Saldanha, apesar das tentativas dos colegas de me convencerem a não tomar uma decisão tão definitiva diziam que conseguiria conciliar tudo. Mas sabia: o mais importante era estar com a minha mulher. Por sorte, tínhamos algum dinheiro guardado do tempo em que poupávamos para trocar de carro esse pé-de-meia manteve-nos à tona nos primeiros tempos.

A partir daí a minha vida virou-se do avesso. Dias e noites fluíram entre corredores de hospitais, esperas, exames e tratamentos. Conduzia-a à consulta, sentava-me ao lado dela, segurava-lhe a mão enquanto ela tremia de medo ou impaciência. Em casa, lia-lhe livros, quando já mal conseguia sair da cama. E, muitas vezes, limitava-me a ficar ali, quieto, atento ao som do seu respirar, tentando não perder nenhum sinal da sua presença. Descobri então o que é o verdadeiro amor: não só felicidade e riso, mas a coragem de permanecer, de dar tudo por quem nos é tudo, mesmo quando achamos que já não podemos.

Depois da partida da Ana, a minha vida congelou dentro de um nevoeiro triste e sem cor. Os dias passavam iguais a si próprios, entre o cansaço, noites em branco e manhãs amargas. Já mal percebia o mundo à minha volta. Toda a minha atenção era para a Leonor era preciso que ela sentisse, com toda a certeza, que o pai estava ali, que nunca a deixaria.

Logo depois do funeral, apareceu a mãe da Ana Dona Lídia. Entrou silenciosa, mas os olhos dela perceberam tudo num instante: os brinquedos espalhados pela sala, loiça por lavar, a cama por fazer Ajustou a alça da mala no ombro, e anunciou com voz firme:

Ó Manuel, tu precisas de descansar. Vou levar a Leonor comigo. Assim não dá.

Eu estava sentado junto da cama da Leonor, e mal levantei a cabeça. Fiquei a apertar o canto do lençol, e respondi, já sem hesitações:

Não. A Leonor fica comigo.

Dona Lídia aproximou-se. Os olhos brilhavam de angústia.

Mas tu vês como estás? a voz dela subiu um tom, sem querer. Já nem pareces tu próprio. Vais ao espelho e vês um estranho. E a Leonor precisa de um lar calmo, de conforto. Aqui e varreu o quarto com o olhar.

Levantei-me devagar e olhei-a de frente. Ela recuou um passo, impressionada pela dor e pela certeza que me enchiam. Falei baixo, mas cada palavra era certa:

Sou o pai. E vou criá-la. A Ana queria isso. Prometi-lhe que íamos ficar juntos, acontecesse o que acontecesse.

Ela ficou calada. Viu o cansaço no meu rosto, as mãos a tremer, mas percebeu que era inútil discutir. Que havia em mim uma força teimosa, impossível de dobrar. Suspirou fundo e só murmurou:

Se precisares telefona. A qualquer hora, ouviste?

Olhou ainda mais uma vez à volta, com aquela melancolia dos que se despedem, e saiu, os passos abafados pelo chão de madeira. Quando a porta fechou, voltei a ficar sozinho com o silêncio e Leonor a dormir.

A serenidade voltou a tomar conta do quarto, quebrada apenas pelo respirar dela. Sentei-me novamente ao lado da cama, peguei-lhe na mão pequenina. O calor daquela pele, o cheirinho doce do sono davam-me o que precisava para continuar. Sabia que vinham dias difíceis, mas a minha missão era clara: cuidar da Leonor e guardar nela o calor que a Ana espalhava.

A casa ficou reduzida a dois: eu e ela. No início, as manhãs eram feitas de confusão e medo. Olhava para a Leonor tão pequena! e tudo o que antes era simples tornou-se uma aventura. Era uma trabalheira trocar-lhe a fralda sem que começasse a resmungar, acalmá-la de noite, inventar uma refeição que não fosse apenas ovos mexidos.

Os primeiros meses foram só erros e descobertas. Andava a pesquisar tudo na internet, lia conselhos, lia fóruns. Às vezes telefonava à Dona Lídia à socapa, só para ouvir um conselho, mas tentava disfarçar o quanto estava perdido. Sempre que conseguia um pequeno feito aquecer a água do banho na temperatura certa, vestir-lhe as calças sem meter as pernas trocadas, fazer um creme de legumes sem deixar pegar ao fundo sentia-me como um verdadeiro herói.

Pouco a pouco, fui aprendendo tudo: separar roupinhas, dobrá-las, aquecer o biberão na temperatura certa, cozinhar purés e sopinhas. À noite, embalava-a com canções de embalar que inventava na hora, ou lia-lhe contos tentando dar vida às vozes. Quando cresceu um bocadinho, aprendi a entrançar-lhe o cabelo (no início, só me enganava).

Agora, com quatro anos feitos, a Leonor é uma força da natureza: curiosa, irrequieta, cheia de perguntas para as quais nunca tenho resposta pronta. O riso dela é a melhor coisa que tenho: quando ela se desfaz a rir das minhas palhaçadas ou das histórias, sinto que afinal consigo ser o pai que ela merece

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Numa dessas noites, sentado na sala, deixei-me embalar pelas recordações. Via a mim e à Ana a escolher a caminha, a rir porque nenhum de nós sabia mudar fraldas, a sonhar no tipo de pessoa que Leonor se tornaria. Os pensamentos iam-me levando para longe, até que uma voz alegre me chamou à terra:

Papá! Leonor estava toda sorridente na cama, de braços no ar. Brincamos?

Sorri-lhe e cheguei-me a ela, peguei-a ao colo e abracei-a:

Claro, minha princesa. No que queres brincar hoje?

Às princesas! respondeu ela, batendo palmas Eu sou a princesa e tu és o cavaleiro!

Comecei a rir. Levantei-a alto e rodopiei até ela encher o quarto de gargalhadas.

Então temos de encontrar um castelo! Onde vai ser?

Ela escolheu logo, apontando para um canto onde tinha os brinquedos:

Ali! É o meu castelo!

Sentámo-nos no tapete a construir castelos com cubos coloridos. Eu levantava muralhas, ela decorava as torres. De repente já tínhamos dragões, feiticeiras, fadas e eu inventava histórias, fazendo as vozes, enquanto ela acrescentava detalhes.

Vi-lhe o brilho nos olhos, aquela alegria simples de estar comigo, e pensei com ternura: A Ana teria orgulho em nós. Com essa certeza, dei por mim a sorrir sim, estamos a conseguir, juntos.

Quando chegou a hora do passeio, preparei tudo sem pressa: pus o lanche de Leonor na mochila, garrafa de água, um brinquedo ou dois. Ela, entusiasmada, quis vestir o seu casaquinho sozinha Eu faço!, dizia, puxando o fecho com mãos teimosas.

Ajudei-a, ajeitei-lhe o gorro, enfiei-lhe os ténis, e lá fomos, de mãos dadas:

Pronta? perguntei-lhe.

Pronta! respondeu ela, quase a saltitar.

Atravessámos o bairro até ao jardim da Estrela; entre as mães com carrinhos de bebé, avós atentas, crianças mais velhas a correr. Rapidamente me habituei às atenções: uns olhavam com pena, outros com curiosidade, e havia sempre quem cochichasse. Mas deixei de ligar o melhor é a Leonor sentir-se bem ali.

Logo que entrámos, vi logo o casal de senhoras no banco do jardim, a cochicharem:

Olha, lá vai ele outra vez sozinho com a miúda…

Coitado. Aposto que a mãe a deixou e ele ficou sozinho

Não, acho que ela morreu ouvi qualquer coisa disso

Apertei a mão da Leonor, sem reagir. escolhi um lugar mais afastado, junto à caixa de areia.

Papá, quero fazer bolinhos com as formas! disse ela. Os olhos brilharam ao ver as pazinhas e os moldes coloridos.

Força encorajei, entregando-lhe os brinquedos.

Fiquei sentado à beira da caixa, a vê-la encher os moldes, apinhá-los de areia, alisar com a pá, desmontar o bolinho mostrando-o, orgulhosa:

Vê, papá, lindo, não é?

Lindo mesmo, parece um bolo de pastelaria elogiei.

Ela riu alto e depressa se atirou a outro.

Nessa serenidade, esqueci olhares e conversas. Havia só a felicidade da minha filha a brincar.

Instantes depois, sentou-se ao meu lado uma mulher simpática, de sorriso aberto, e um menino ao lado dela.

Boa tarde! Eu sou a Sofia. Costumamos vir sempre aqui. Vejo-vos quase todos os dias. A tua filha é tão engraçada!

Sou o Manuel. Sim, a Leonor adora brincar aqui.

Sofia sentou-se e vigiou o filho, que entretanto já interagia com Leonor.

Vem sempre com ela sozinho…? perguntou, delicadamente.

Sim. disse, sereno. A minha mulher faleceu há três anos.

Lamento. Sofia corou, a voz suavizou-se Mas admiro-o. Nem todos conseguiriam.

Faço o que tem de ser dei de ombros. Não imagino de outra maneira. Ela é tudo para mim.

O meu ex-marido nem sequer quer o nosso filho aos fins-de-semana Diz que não aguenta. E o senhor nota-se que faz tudo por ela.

Preferi não comentar. O olhar voltou-se para Leonor, agora a ensinar o rapaz a encher o molde certo de areia.

Se quiser um dia vir ao jardim connosco, diga! propôs Sofia, sem falsas intenções. É mais fácil a dois, e os miúdos agradecem.

Olhei-a com atenção. Era uma mãe carinhosa, simpática, mas não senti vontade de aceitar. Talvez um dia, mas não agora:

Obrigado, Sofia, mas neste momento, a Leonor é tudo o que importa. Quero dar-lhe tudo o que conseguir, e só penso em protegê-la.

Ela anuiu, compreensiva:

Quando quiser conversar, estou por aqui. Venha, se precisar.

Obrigado.

Sofia foi chamar o filho, e juntos arrumaram os brinquedos e despediram-se.

Foquei-me de novo nela Leonor montara uma fila de bolinhos de areia só para mim.

Vê, papá, são TODOS para ti!

Inclinei-me, examinei-os e peguei num bolo cuidadosamente:

Lindo, Leonor. É provavelmente o melhor do mundo!

Ela desatou a rir, começou logo um novo. E eu, ao ver o seu riso, pensei: A Ana também teria rido, teria tido orgulho em nós. Imaginei-a ali, ao meu lado, a aprovar.

Quando à noite Leonor já dormia, eu sentei-me sozinho na cozinha, ligando o candeeiro fraco sobre a mesa. Enquanto o bule de chá apitava, tirei o álbum velho da estante. Passei as páginas devagar: ela em bebé no hospital; a Ana, radiante, encostada a ela; nós os três, a dar o primeiro passeio, ela enrolada num cachecol, eu com Leonor ao colo, os dois a olhar para ela cheios de ternura.

Numa foto, a Ana sorri para a câmara enquanto segura a filha a felicidade no olhar, ambas tão frágeis e belas. Detive-me ali muito tempo e murmurei:

Estamos a dar conta do recado, Ana Juro que sim. Aprovarias.

A chuva caía miudinha nos vidros de Alfama, trazendo um embalo suave. A casa cheirava a chá e bolo ainda quente. Fechei o álbum, bebi um gole e olhei lá para fora. Amanhã há mais pequeno-almoço de papa com canela, jogos de esconder, risadas quando a lanço ao ar no parque. É isso que quero estar perto dela, simplesmente viver

********************

No dia seguinte, voltámos ao jardim. Leonor correu para os baloiços queria voar alto, ouvir o vento nos ouvidos. Aguentei-a firme, empurrei-a, ela soltava gritinhos alegres e implorava por mais.

Sofia estava por ali, sentada com o tricô, a vigiar o filho. Limitou-se a sorrir ao de longe, sem se impor.

Ela notou como eu explicava à Leonor a segurar-se bem, ria das tentativas dela de se baloiçar sozinha, vigiava cada movimento. Viu também como ela me procurava com o olhar, certificando-se de que estou mesmo ali, e só depois voltava à brincadeira, feliz.

Nessa altura, Sofia percebeu: eu não preciso de consolo nem de ajudas. O que tenho a Leonor, o nosso mundo minúsculo mas tão pleno basta-me. Mais do que suficiente

**********************

Os meses foram passando. Setembro, com o seu calor suave, deu lugar aos primeiros frios de outubro. As folhas caíam douradas no Rossio, a chuva miudinha tornava as manhãs húmidas, e nos passeios cedo se sentia o gelo matinal. Vieram os primeiros cachecóis, as botas, a roupa quente.

Preparava Leonor para as caminhadas casaco grosso, gorro de lã, cachecol, luvas presas por fitas para não as perder. Caminhávamos pouco, mas era tão importante ela adorava pisar folhas, brincar com gelos fininhos nas poças, apanhar as primeiras gotas de chuva fria.

Num desses fins de manhã frios, quase à porta de casa em Campo de Ourique, ouvimos alguém chamar:

Manuel!

Voltei-me. Era a Dona Lídia, enrolada num casaco grosso, gorro, e uma sacola pesada. Aproximou-se, ainda ofegante:

Olá trouxe umas coisas para a Leonor. Roupa para o inverno, comprei uns livros novos e fiz um bolo de maçã aquele de que gostas.

Limitei-me a acenar. Nunca ficámos muito íntimos. No fundo, ela ainda duvidava do caminho que escolhi, por vezes criticava silenciosamente, medindo os meus métodos pelos olhos da filha, mas começou a aceitar. Viu que faço tudo por Leonor, que dou o que posso.

Obrigado. Leonor, diz à avó obrigada.

Obrigada, avó! gritou logo ela, de olhos na sacola. Livros! Olha, papá, tem um sobre um coelhinho!

Dona Lídia sorriu, sentando-se ao nosso lado para lhe mostrar os presentes.

Roupa para trocares, se precisares. Escolhi livros com desenhos grandes, vais gostar, não vais?

Leonor assentia, radiante.

E o bolo está embrulhado, levo para dentro? Tomamos já um chá?

Hesitei só uns segundos, depois aceitei. Sim, vamos. Ajuda a avó, Leonor.

Ela pegou nos livros, a avó trouxe as roupas. Subimos, cheios de frio, mas a casa cheirava a sopa acabada de fazer. Leonor instalou-se com os livros; na cozinha, a avó ajudou-me a pôr a mesa, cortar o bolo.

Enquanto aquecia o chá, reparei nos olhares da Dona Lídia. Atenta ao cuidar, à rotina, ao modo como escutava a Leonor. Subitamente, percebeu: por muito que duvidasse, dou tudo à minha filha. Não sou perfeito, mas dou tudo.

Quando terminou de servir, sentou-se e olhou-me com ternura frágil:

Tenho de pedir desculpa. Por tudo o que disse naquele dia, quando engasgou-se quando a Ana se foi. Tive medo que não fosses capaz, que a Leonor ficasse sem aquilo de que precisa. Mas tu consegues. Melhor do que imaginei.

Fiquei em silêncio. Ouvia a Leonor na sala, folheando os livros, os seus murmúrios doces. Falei baixinho:

Apenas faço o que prometi à Ana. Quero que a Leonor nunca se esqueça do amor da mãe. E sente o meu, todos os dias, mesmo que sejamos só nós os dois.

Ela enxugou um canto do olho, envergonhada pela lágrima.

Obrigada, Manuel. Fui injusta. Se quiseres, posso vir buscá-la um fim de semana ou outro. Para ela sentir que tem família.

Pensei um pouco; não queria largar a responsabilidade, mas sabia o bem que lhe faria. Concordei.

Só se a Leonor quiser.

Quero sim, papá! disse ela, sem levantar a cabeça do livro. Avó, contas-me histórias?

Claro, minha querida. Quantas quiseres.

E senti, ali, uma calma nova. Como se algum peso ficasse mais leve, ao aceitar ajuda, permitir à Leonor mais laços, mais amor à volta dela.

Nessa noite, sentei-me a seu lado, mostrando-lhe uma fotografia: a Ana a segurar a Leonor recém-nascida. Dois sorrisos tão diferentes, mas ambos tão cheios de esperança.

A mãe está a olhar por nós, não está, papá? murmurou, já com o sono a levar-lhe a voz.

Está sim, filha. Sempre. Vive em ti, no riso, nos olhos, nas histórias e nos castelos de cubos.

Eu gosto dela.

Ela adora-te, Leonor. Mais do que tudo. Não te esqueças.

Ela acenou com a cabeça e adormeceu feliz. Fiquei a ouvi-la respirar, ainda uns minutos, e ao sair, olhei a foto na mesa de cabeceira. Tranquilizou-me pensar: havemos de conseguir. Juntos.

Quando a Leonor dormia, percorri a casa em silêncio, como quem faz um balanço secreto do que se é e do que se tem. Na cozinha, liguei o fervedor, procurei bolachas só restavam Maria, mas servem. O luar caía devagar sobre os telhados de Lisboa; as primeiras chuvas do inverno desenhavam rios nos vidros.

Fiquei junto à janela, chá morno nas mãos, a ver a noite. Três anos passaram tantas mudanças, tantos medos. Recordei as noites em claro, sem saber como acalmar a filha, as primeiras aventuras na cozinha, o pânico de não chegar para tudo. O que me inquietava era não substituir a mãe, mas aprender apenas a existir, a dar-me inteiro.

Na mesa, o caderno onde anoto as pérolas da Leonor: as frases, os progressos, as descobertas. Abri na última página:

15 de outubro. A Leonor aprendeu finalmente a atar os atacadores sozinha. Mostrou-me orgulhosa e disse: Já sou crescida! Depois abraçou-me e murmurou: Mas continuo a ser a tua menina. Sorri o resto do dia.

Fechei o caderno. Vi-a, mentalmente, ajoelhada à porta a lutar com os cordões, os olhos a brilhar. Bastava aquele momento, aquela frase simples, para tudo fazer sentido.

Arrumei a chávena, desliguei a luz, escutei o pulsar da casa. Amanhã há mais: pequeno-almoço de cereais, passeios, brincadeiras, abraços, choros, gargalhadas, histórias ao adormecer. Com tudo o que é difícil, com tudo o que é bom.

Com vida. Com amor.

É isso que conta. E chega perfeitamente.

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