Três novas chaves
Estás tão pálida, mulher. Outra vez com essas tuas dietas? a voz da minha sogra ecoou logo no corredor, sem sequer um bom dia educado.
Eu estava de avental velho, de costas para a porta, a mexer as papas de aveia na cozinha. Pensava para mim mesma: finalmente um sábado só meu, inteiro. Das oito da manhã até tarde da noite. O Augusto foi à pesca com o Rui, do segundo esquerdo, disse que só voltava para o jantar. Já tinha planeado tudo na minha cabeça: pequeno-almoço calma, depois uma caminhada até à beira-rio, talvez sentar num banco a ler um romance sem pressas. Dias desses, cá em casa? É raro, é quase um eclipse solar.
Pois.
Virei-me para trás. Dona Etelvina já entrava na cozinha, a tirar o casaco pelo braço, e atirou-o para uma cadeira num gesto quase dramático. O casaco caiu no chão, claro. Nem viu.
Bom dia, Dona Etelvina, respondi num tom tão calmo que até me surpreendi. Aprendi isso com a prática.
Sim, sim, bom dia… Onde está o Augusto?
Foi à pesca.
Parou no meio da cozinha e olhou para mim como se eu tivesse anunciado que ele se alistou na marinha mercante.
À pesca? E não me disse nada.
Deve ter-se esquecido, e voltei a mexer na panela.
A papa borbulhava, baixei o lume. Lá fora, o céu de outubro era daquele cinzento típico, mas pelo menos não chovia. Meia hora antes, jurei a mim mesma que ia passear, cheirar as folhas a apodrecer. Agora, já só pensava na papa. O sábado já não era meu.
Dona Etelvina finalmente apanhou o casaco do chão, pendurou-o na entrada e voltou, sentou-se e retirou, da sua sacola de supermercado, um saco enorme de plástico.
Fiz uns pastéis de massa tenra, com couve. O Augusto adora.
Obrigada.
Prova pelo menos um, vá, não torças já o nariz.
Eu não torcia nada. Apenas mantinha as costas direitas, a encher o prato da papa. As mãos tranquilas. Por dentro era como uma mola prestes a saltar, mas por fora, nada. Sete anos de treino.
Senta-te e come comigo, e saiu-me automático.
Já comi. Só preciso de um chá.
Pus água no fervedor, servi-me, sentei-me à frente dela e peguei na papa de aveia. Dona Etelvina estudava-me o prato.
Só comes isto? Papa de água?
De leite.
Na mesma… pelo menos deu uma fatia de pão ao Augusto antes dele sair, espero?
Não faço ideia. Ele saiu às seis, ainda dormia.
Ela abanou a cabeça. Uma coisa tão clássica que eu já previa, tipo batata frita com bife acebolado: vejam lá, a mulher que dorme enquanto o marido sai em jejum.
Eu comia, olhava pela janela, um pombo a passear pelo parapeito. O bicho andava a bicotar coisas invisíveis. Muito dele.
Já devias era trocar essas cortinas, estão cinzentas, sem vida, comentou ela com aquele ar de quem acha que é dona desta cozinha.
A mim agradam-me.
A ti agradam-te, pois. O Augusto gosta de casas mudadas.
O Augusto nunca se meteu nessas coisas. Na minha frente, nem uma palavra. Talvez a ela. Quem sabe, numa daquelas conversas onde se fala sobre mim e sobre a casa nunca comigo presente.
O chá ficou pronto, servi-lhe uma caneca, pus o açucareiro, a colher.
Obrigada, disse, a mexer o chá. Diz ao Augusto que cá estive.
Está na pesca, Dona Etelvina. Nem há rede naquele sítio.
Sem rede? Onde é que ele foi, ao fim do mundo?
Ele é que disse.
Lábios apertados, bebeu gole de chá, olhou para o saco dos pastéis.
Arranja aí um prato decente, ao menos.
Pus-lhe o prato, sentou-se comigo, foi alinhando os pastéis, todos grandotes, coradinhos. Noutro dia, noutra vida, até provava um. Hoje nem para cheirar.
Diz-me lá, menina, vocês conversam mesmo, tu e o Augusto?
Claro que sim.
Ele liga-me todos os dias, conta muita coisa. Tu ficas sempre calada.
E o que é que ele conta?
Parou uns segundos, a organizar devaneios. Continuou.
Que está cansado. Que a casa anda tensa.
Pousei a colher.
Tensa repeti só para ouvir.
Nota-se. Sinto um certo desconforto entre vocês. Sou mãe, percebo.
Levantei-me, lavei o prato, olhei para o pátio. Um senhor passeava um cão, daqueles baixotes, ferrugem. Cão impaciente, a puxar para os arbustos, o homem atrás dele, uma paz.
Irina, chamou-me Dona Etelvina (sim, Irina, nome só nosso, português a sério! Nem me peçam ruskas aqui).
Sim?
Não ficas sentida comigo, pois não?
Virei-me. Ela olhava-me com aquela expressão de quem espera o não, Dona Etelvina, que ideia! Só para poder continuar.
Não fico.
Pronto então. Sou tua inimiga, não sou. Quero tudo bem entre vocês.
Sei disso.
Pois, tenho quarenta e oito, ele cinquenta e um, ela setenta e três; sete anos de casamento, ambos no segundo. Achava eu que o segundo era com maturidade. Combinava-se tudo, sabia-se o que se queria. Aparentemente, depende das pessoas.
Ela acabou o chá, levantou-se.
Mostra lá o que tens no frigorífico.
Para quê?
Já abria a porta do frigorífico com todo o à vontade.
Quero ver com o que faço o jantar para o Augusto, vem da pesca esfomeado.
Dona Etelvina…
O quê?
Fiquei em silêncio. Depois disse:
O jantar faço eu, obrigada.
Ficou meio surpreendida.
Irina, quero só ajudar…
Eu sei. Mas consigo sozinha.
Estás sempre com isso. O Augusto emagreceu.
Ele come o que lhe apetece.
É homem não faz nada sozinho.
Mas não vive sozinho.
Ficámos ali, frente a frente, ela com o frigorífico atrás, eu ao lava-louça, dois metros de linóleo aos quadradinhos entre nós, aquele que escolhêramos ainda antes de casar, eu a apontar, ele ia dizendo que sim. Agora pela voz da mãe, tudo precisava mudar, claro.
Está bem, como quiseres…
Ela começou a arrumar a bolsa. Achei que se ia embora que grande engano.
Vou ficar por cá até o Augusto chegar. Não tenho pressa.
Pronto. A mola interior voltou a apertar.
Em vez de ir embora, sacou do novelo de lã e agulhas de tricot e acomodou-se bem na cadeira. Instalada de armas e bagagens.
Fiquei só a olhar.
Peguei na chávena, meti-me na sala. Sentei-me no sofá, pernas cruzadas, olhos na parede. Quadro pequeno e pitoresco, comprei-o numa feira, retrato de um campo com um chorão à beira de água. Tanta serenidade. Eu gostava mesmo daquele quadro.
Da cozinha vinha só o barulho de tricot.
Mandei uma mensagem à Tamara: Ela voltou. Tamara, minha amiga de infância, respondeu logo: Sem aviso? E eu: Tem chave, lembra-te. Tamara mandou aquele emoji de olhos revirados: Irina, até quando? Um dia falas com o Augusto como deve ser?
Guardei o telemóvel.
Já tinha falado. Primeira vez foi uns dois anos depois de casarmos e percebi que Dona Etelvina vinha à casa do filho, não à nossa. Pedi ao Augusto: Quando a tua mãe quiser vir, avisa-me. Ele: Ela já está habituada. Eu: Mas isto é a nossa casa. Ele: Deixa-a vir, não faz mal. E pronto, eu exagerava…
Segunda conversa, quando reorganizou os frascos das especiarias enquanto eu não estava. Cheguei, e cinco minutos, especada no meio da cozinha sem perceber porque raio aquilo me doía tanto. Eram as minhas prateleiras. Agora, já não sabia onde estava nada.
Muda outra vez disse-me ele não é isso que importa.
Não era sobre especiarias. Não consegui explicar, ou já nem tentei.
Terceira vez, entrou quando eu não estava e limpou a casa toda. Parece loucura, mas custou-me. Porque podia entrar sempre. Via a minha roupa, o meu livro de cabeceira, os meus chinelos. Augusto: Ela só quer ajudar. Eu: É o ter a chave. Ele: É o meu apartamento.
A frase: não sei o que queres.
Sete anos depois.
Voltei para a cozinha. Dona Etelvina cortava cebola.
Que está a fazer?
Caldo verde. O Augusto adora.
Pedi para não mexer.
Irina, é caldo verde, qual é o drama?
Também tenho direito a decidir nesta cozinha.
Ela largou a faca, fixou-me.
Nesta tua cozinha…
Sim.
Sabes, voltou ao corte deixa para lá.
A faca martelava na tábua, como se nada lhe tivesse dito.
Peguei na tábua das mãos dela.
Por favor, não mexa.
Ficámos bem perto, vi-lhe as rugas, o maxilar rígido. Um olhar afiado.
Proíbes-me de cozinhar?
Peço-lhe que respeite.
Espaço? Fizeste-te moderna a ver programas americanos na televisão.
Afastei-me dela.
No parapeito já não havia pombos. No pátio, as folhas amontoavam-se, castanhas e escorregadias.
Irina, chamou em tom mais suave. Não fiques assim. Eu só quero ajudar.
Sei.
O Augusto definha sem comida caseira.
Faço quando posso.
Então pronto, deixa-me ajudar.
Ela só ouve o que lhe interessa. O resto? Para o lado.
Fechei-me no quarto. Deitada de livros em punho. Tentei ler, não entrou uma linha.
Telefonei à Tamara:
Vai fazer caldo verde.
Na TUA cozinha.
Exacto.
Irina, hoje tens mesmo de falar com o Augusto. Hoje.
Já tentei…
Não vale de nada. Faltar dizer, é diferente de dizer.
Ela tinha razão. Eu sabia.
Cheiro a caldo de couve pela casa. Outro tempo, eu teria ficado feliz.
Pensei: tenho quarenta e oito anos, trabalho deixa-me cansada e, mesmo assim, cozinho. Tenho a minha vida, os meus hábitos, a minha ideia do que é um sábado. Nunca pedi caldo verde ou que alguém mexesse nas minhas especiarias.
Fiquei um bocado assim, olho fixo no tecto com a racha lá ao canto.
Duas horas mais tarde, ela já tinha a mesa posta: três pratos, três colheres, pão, pastéis.
Senta come, disse ela. O caldo está pronto.
Obrigada. Como depois.
Vai ficar frio.
Eu aqueço.
Ela olhou-me. A mágoa escorria-lhe pelo olhar.
Irina, então o que é que está mal?
Nada.
Não está nada. Ficaste o dia inteiro fechada. Que te fiz eu?
Fiquei junto ao frigorífico, tirei água, enchi um copo, respirei fundo.
Dona Etelvina disse eu vamos ser honestas.
Vamos.
Entrou sem avisar, como sempre. Porque tem chave. Quando chego a casa nunca sei se já cá está.
Mas eu sou da família!
É familia dele. Para mim é sogra. É parecido, não igual.
Ela endireitou as costas.
Que conversa é essa? Somos família!
A família conversa, pergunta, avisa que vai a casa.
E agora tenho de pedir permissão à nora?
Basta telefonar e perguntar: Irina, posso ir sábado? Amável, não é humilhação.
Venho ao meu filho!
Que não está.
És tu que cá estás.
Por isso mesmo. Quero saber quem entra cá em casa.
Ela levantou-se. Tirou o prato. Arrumou as coisas. Os dedos tremiam, não era quebranto era despeito.
Está bem disse. Está bem.
Dona Etelvina, não quero guerra.
Já ouvi.
Quero relações normais.
Normais é avisar e pedir permissão…
Não é pedir permissão. É avisar.
Ela fechou o casaco. Recolheu os restinhos de pastel do prato.
O caldo está no fogão, o resto deita fora, se quiseres.
Saiu sem fazer barulho. Que coisa. Doía mais assim.
Fiquei sozinha. Fui buscar uma malga de caldo, comi calada. Estava muito bom, não negava.
Lavei loiça. Tapei os pastéis.
Sentei-me, escrevi à Tamara: Falei.
Tamara: E?
Eu: Ficou chateada.
Tamara: Problema dela. Fizeste tu bem.
Guardei o telemóvel. Faltavam horas para o Augusto. Ele ia chegar, ver o caldo, os pastéis, perguntar. E lá vinha a conversa comprida, ele a ligar para a mãe antes de tirar o casaco, tudo outra vez. O porquê assim, eu responder como assim. Só quer ajudar. Eu sei. Então qual o drama.
Peguei no livro da sala, desta vez consegui mesmo ler.
Chegou Augusto, por volta das sete. O habitual: embirração com as chaves, barulho do caixote de pesca, entra na cozinha, cara de criança feliz ao ver a panela.
Oh, caldo verde! A mamã veio cá, não foi?
Veio. Senta, aqueço para ti.
Já despia o blusão, punha no cabide com aquele ar de satisfação. Augusto é um homem grande, de gestos largos e sorriso fácil, mas logo fechado quando a coisa lhe foge ao que espera. Sete anos disto.
Aqueço o caldo, ponho-lhe à frente. Ar de festa ao ver os pastéis.
Com couve. Provaste algum?
Sim.
São bons?
São.
Começa a comer, eu nem, só chá. Ele fala da pesca, que o Rui apanhou um barbo e ele nada, que o ar estava óptimo, Irina, aquilo é vida.
Eu à espera.
A mamã ficou triste?
Um pouco.
Falaste com ela?
Falei. Augusto, temos mesmo de conversar…
Parou a colher, olhou.
O quê?
Sobre as chaves.
Silêncio.
Irina…
Peço-te que lhe peças as chaves de volta.
É a minha mãe.
Eu sei. Por isso mesmo devia avisar. É o mínimo. É respeito por nós.
Ela vem cá para nos ver.
Ela entra sem avisar, mexe, cozinha comida que ninguém pediu.
Mas é comida, qual é o problema?
Augusto Parei, respirei fundo. Quero que me oiças. Não a ela, a mim. Não sinto que isto é casa minha. Vivo sempre à espera dela entrar. É errado. Não pode ser assim.
Encostou-se atrás, braços cruzados.
Exageras.
Fechei os olhos um segundo.
Dizes sempre o mesmo.
Porque fazes sempre um caso. Ela vem, ajuda…
E eu?
E tu complicas por nada.
Augusto, ela vem sem avisar, com chave, entra no nosso espaço, arruma as minhas coisas, cozinha onde não permiti. Não é acaso é crónico.
Agora é drama.
Augusto, quero que lhe digas: telefona antes de vir.
É velha. Está habituada.
Tem setenta e três, não noventa e três. Sabe ligar.
Pedes que fique sem chave.
Peço, não exijo. Peço.
Levantou-se, vai ao lavatório, enche o copo de água, fica à janela, calado.
Irina, sabes bem que ela ficou só. Meu pai morreu há oito anos. Só me tem a mim.
Eu entendo.
Ter chave é segurança para ela. Como quem diz estou próxima.
Há outras formas de não estar só.
Disseste: apartamento estranho a ela.
Digo: é nosso, não dela.
É meu.
Isto, dizia raramente. Ainda assim, era sempre a carta final.
É, admiti, baixo. É teu.
Silêncio.
Não lhe tiro as chaves.
Está bem.
Está bem? Surpreso, como se eu fosse rebentar.
Está. Já percebi a tua decisão.
Irina, não tens de ficar fria.
Não sou fria. Só percebi.
O quê?
Peguei na caneca.
O que escolheste.
Não escolhi nada. Só não quero magoar a mãe.
E a mim? A mim posso magoar.
Ninguém te magoa.
Augusto alguma vez pensaste como seria, viver numa casa onde pode entrar qualquer um, sem aviar? Não pensaste. Porque sabes a resposta.
Saí para a sala. Ele ficou na cozinha.
Ouvi-o a discar o número. Voz baixa e doce: Oh mãe a Irina é assim, sabes como ela é Claro que podes vir quando quiseres
Pois: claro que pode vir quando quiser. Sempre.
Continuei ali. Dentro de mim estava um silêncio estranho. Não ruim, só silêncio.
Ele entrou.
Irina…
Sim?
Não fiques assim.
Como?
Calada.
Sentou-se ao lado. Eu, imóvel, olho nas mãos.
Ligaste-lhe?
Liguei. Para acalmar.
Ficou magoada?
Um bocadinho.
Percebo.
Irina, eu entendo. Mas podias ser mais suave.
Suave.
É sozinha, é velha, preocupa-se.
Augusto… Fui suave para além da conta. Seis anos de paciência. Sempre deixa estar, sempre ela não faz por mal. Agora chega. Ela continua igual, cozinha igual, diz igual. E tu dizes-lhe sempre: claro, mamã, vem sempre.
Tirou a mão.
Não queres facilitar.
Cansei de ir só eu na direção do meio.
Então? Queres separar?
Isto já foi ameaçazita.
Não disse nada.
Irina. Estou a perguntar.
Ouvi.
E?
Não vou responder a uma pergunta feita de propósito para me assustar.
Não é para assustar.
É, sim. É para eu ficar calada outra vez.
Levantou-se.
Tu complicas.
Pode ser.
Por causa de uma chave.
Não é a chave, é aquilo que ela simboliza. Mas não queres ouvir.
Falo contigo e explico.
Não falas. Só justificas porque devo calar.
Silêncio.
Não sei o que queres.
Sete anos disto.
Vesti o casaco, peguei nas chaves, carteira.
Vais aonde?
Arejar.
Irina.
Preciso respirar.
Saí, rua molhada, cheiro a cozido no prédio inteiro, as folhas pretas espalhadas.
No parque, bancos encharcados, árvores indiferentes. Sentei-me, sem vontade de voltar para casa. Era novo. Antigamente fugia da discussão, mas nunca de casa. Casa era abrigo.
Agora não.
Mandei mensagem à Tamara: Ele disse à mãe: podes vir quando quiseres.
Ela ligou logo.
Conta-me, pediu.
Contei tudo, seco.
Depois de ouvir, ficou pensativa:
Irina, digo-te uma coisa que pode doer: enquanto moras na casa dele, serás sempre convidada, nunca dona.
Percebo.
Não. Se entendesses, resolvias. Ele nunca vai tirar a chave à mãe. Porque a chave não é sobre ela. É sobre ti seres a de fora. Se ele quiser voltar a estar sozinho, pode. Tu não.
Fiquei calada.
Irina.
Estou a ouvir.
O que vais fazer?
Não sei, Tamara.
Não decidas hoje. Pensa.
Depois fui dar uma volta. Passei numa drogaria ainda aberta. Não ia para nada, mas vi os expositores com fechaduras. Fiquei ali minutos de chaves na mão.
Comprei um bom canhão com três chaves.
Em casa, Augusto via televisão. Perguntou pelo que comprei, coisas pequenas, disse eu. Guardei o saco.
O resto da noite, morno. Ele tentou, com aquele ar: Sermos adultos, aceitar como é. Aceitar? Ela entra, muda, faz caldo verde? Não, Augusto.
Então não sei. Se é tão mau, se calhar pensa se deves ficar.
Vou pensar.
No quarto, silêncio absoluto. Televisão calada, só respiração dele a adormecer. Vira-se. Dorme num instante.
No dia seguinte, cedo, foi com o Rui à terra. Eu bebi café, olhei para o fecho novo. Escrevi ao senhor Armando, do rés-do-chão, que faz uns serviços em troca de uns euros.
Sr Armando, muda-me a fechadura à porta, hoje pode?
Daqui a duas horas passo aí. Já tem o material?
Já.
Até já.
Meio-dia. Veio o senhor de ferramentas na mão.
Mostre, D. Irina.
Aqui está, alemão e tudo…
Boa escolha. Fica porreiro.
Trinta minutos, velha fora, nova dentro. Testei. Funcionava como manteiga.
Deixo a velha?
Não.
Paguei em euros. Ele saiu, porta nova fechada, silêncio no corredor.
Liguei à Tamara.
Troquei. Agora só três chaves.
Ele sabe?
Não.
Quando volta?
Hoje.
Irina, sabes… já não se trata de uma chave. É outra conversa.
Eu quero portas que só abrem com minha permissão.
É casa dele.
Eu sei. Por isso, também já penso no próximo passo.
O divórcio.
Sim.
Vou dar-te um contacto de advogada.
Anotei.
Tamara? demorei. Não estou com medo. Era para estar. Mas não estou.
Sinal que há muito chegaste aqui dentro. Só faltava dizer alto.
Talvez. Fiquei no hall, a segurar as chaves: três. Não há agora chave a mais.
Augusto chegou às seis, subiu escadas, tentou a velha. Não dava. Tentou outra vez.
Campainha.
Irina, isto não abre!
Eu sei. Troquei.
Silêncio.
O quê?
Troquei a fechadura, Augusto.
Abre.
Abri. Ele olhava-me, mala de pesca na mão, ar perdido.
Trocastes a fechadura.
Troquei.
Na MINHA casa.
Sim.
Porquê?
Deixei-o entrar. Tudo devagar.
Irina? Isto… agora?
Troquei.
Queres divorciar-te.
Quero.
Por causa de uma chave?
Não é a chave. É por sete anos de escolha de mãe tua, por me dizeres para aceitar. Por me perguntares se devia Pensei nisso sim.
Olhou para mim, sentado, como derrotado.
Desta vez não estás a brincar.
Não.
Falamos? Normalmente. Por favor.
São sete anos de conversa, Augusto. Cansada.
Não é só assim! Não se acaba assim!
Não é de repente. Tu é que não viste.
Levantou-se. Passeou na cozinha.
E agora?
Advogada. Os teus papéis são teus, preciso arranjar casa.
Já tinha pensado nisto?
Já.
Silêncio.
A mãe…
Explica-lhe. É o teu direito.
Eu fui para a sala. No escuro, a cidade lá fora a passar, carros, risos, portas. Preparei a mochila com algumas coisas. Arrumei devagar.
Oiço através da parede a conversa dele ao telefone, voz baixa, imagino as explicações.
No hall, as chaves novas. Uma delas era, verdadeiramente, a minha. Pela primeira vez em sete anos.
Tamara: Como estás?
Pensei. Escrevi: Silenciosa.
Ela: Silêncio é começo.
Talvez. Amanhã tratava-se do resto.
Vi Augusto à porta.
Irina, tens a certeza?
Olhei-lhe para a cara larga e ombros caídos, mãos nos bolsos.
Tenho.
Está bem.
E a palavra ficou entre nós, algures no ar com a fechadura nova, as três chaves e o casaco pendurado. Não sei o que significa: aceitação, cansaço ou outra coisa qualquer.
Peguei na mala.
Vou dormir à Tamara.
Está bem.
Fechei a porta. O estalido do novo canhão era suave. Teutónico, garante senhor Armando.
Irina, murmurou ele pelas minhas costas.
Virei-me.
Vais ligar-me?
Fixei-o.
Ligo, sim.
E desci a escada, passo seguro, cada chave a prometer silêncio. Talvez, finalmente, minha casa.







