Três anos de obras sem convidados
Sílvia pousou a chávena no parapeito da janela e ouviu o Nuno parar no corredor. Sentiu-o nas costas, mesmo estando de frente para o vidro. O silêncio era tão denso que parecia possível afogar-se nele.
Puseste a chávena no parapeito disse ele, finalmente. Não perguntou. Constatou.
Sim, Nuno. Pus a chávena no parapeito.
Aquilo é madeira envernizada. O quente deixa marca.
Eu sei.
Então porquê?
Sílvia virou-se. Ele tinha quarenta e oito anos e aparentava exatamente isso. Nem mais, nem menos. Estava à porta da cozinha, com a sua t-shirt cinzenta de andar por casa, e com um nível na mão. O nível estava-lhe sempre colado às mãos aos fins de semana, como outros agarram o telemóvel.
Porque não tenho onde mais a pôr respondeu. A mesa está coberta com plástico. A outra cadeira está de pernas para o ar. O chão do corredor ainda não secou do primário. Eu bebo chá de pé à janela, Nuno. Já há três anos que bebo chá de pé à janela.
Ele olhou para a chávena. Depois para ela. Depois novamente para a chávena.
Eu coloco um suporte.
Não é preciso suporte.
Mas vai ficar marca.
Deixa ficar.
Ele semicerrrou os olhos. Assim olhava sempre que não percebia se ela estava a brincar ou não. Sílvia já nem ela própria sabia.
Sílvia, mas que…
Chega disse ela baixinho, e a palavra caiu no silêncio como uma pedra no poço. Chega, Nuno.
Ele demorou a perceber. Voltou a perguntar:
“Chega” o quê?
Estou a fazer as malas.
O silêncio foi longo. Lá fora, ao longe, uma buzina de carro, depois silêncio. Nuno baixou lentamente o braço com o nível.
Por causa do parapeito?
Não. Não é por causa do parapeito.
Sílvia acabou o chá e pousou novamente a chávena sobre a madeira envernizada. De propósito, com firmeza, sem um pingo de arrependimento.
Ela tinha quarenta e cinco anos. Trabalhava como contabilista numa pequena empresa, gostava de ler antes de dormir, mantinha um pequeno cacto na secretária do trabalho, a que chamava Filipe, e já há muito, muito tempo não convidava amigas a casa. Muito mesmo. Três anos, para ser exata.
Foi para o quarto.
Três anos antes, quando compraram este T2 num quinto andar de um prédio de tijolo numa rua calma de Lisboa, Sílvia estava feliz. Verdadeiramente, fisicamente feliz. Lembrava-se de estar na sala, ela e o Nuno, no meio dos compartimentos vazios cheios de papel de parede descascado e soalho gasto, e de olhar pela janela para as acácias douradas do outono. Pensava: “É isto. É a nossa casa”.
Nuno, nessa altura, era outro. Ou parecia-lhe isso. Percorria as divisões, media as paredes à fita métrica, anotava tudo num bloco. Os olhos brilhavam-lhe com aquele mesmo fogo que ela, há muitos anos, lhe tinha admirado: o brilho de quem sabe o que quer e o faz com as próprias mãos.
Sílvia, olha dizia-lhe, estendendo-lhe um papel quadriculado com esboços. Aqui vamos fazer a divisão: cozinha e sala em open space. Estantes embutidas do chão ao teto, vês? E ali luzes embutidas, com dimmer, para poderes regular.
Vai ficar lindo dizia ela, e era sincero.
Fazemos tudo devagar, mas bem. Uma vez, para sempre.
Aquela frase uma vez, para sempre devia tê-la escutado melhor. Havia ali mais do que a vontade de poupar nos empreiteiros.
Os primeiros seis meses pareceram uma aventura. Viveram ali, em cima do pó das obras. Sílvia fazia comida no fogão elétrico, porque o gás ainda não estava ligado. Dormiam num colchão no chão, não havia sitio para a cama. Usavam pratos descartáveis porque o lava-loiça ainda não estava funcional. Era incómodo, um pouco romântico, perfeitamente suportável. Na altura.
Depois foi tudo mudando. Devagar, como quando o solo se desloca debaixo dos alicerces.
Nuno pegava em obras todos os fins de semana, e até durante a semana, se tirava uma folga. Era encarregado de obras e sabia de materiais e técnicas melhor do que muitos profissionais. Isso era ótimo. O problema não era esse.
O problema era que ele não conseguia parar.
Ao início, Sílvia nem notou. Só percebeu passado uns oito meses, num café com a amiga Maria, quando ela perguntou:
Então, já está quase tudo? Quero ir a tua casa, prometeste-me caldeirada!
Falta pouco sorriu Sílvia. O Nuno disse que até ao Natal está pronto.
O Natal chegou em modo de obras. Não chamaram ninguém para jantar, porque a sala tinha varão e placas de pladur pelo chão. Comeram bacalhau sozinhos na cozinha, quase pronta. Quase.
Nuno, para o ano organizamos isto como deve ser? disse Sílvia, servindo espumante.
Claro disse ele. Quando acabar o teto da sala e colocar o soalho, fazemos.
Acabou o teto em março. Mas descobriu então que teria de refazer o sistema da casa de banho, porque o canalizador lançou os tubos mal e Nuno não aguentava ver aquilo. Depois foi o bloco da varanda: a espuma de montagem encolhera, ficou um vão de três milímetros entre o caixilho e a parede. Nuno detetou com uma palheta.
Sílvia ainda fazia piadas. Dizia às amigas: O meu marido luta contra três milímetros. Elas riam. Ela ria com elas. Parecia-lhe genuinamente divertido.
Em maio, puseram o soalho na sala quando já se podia ter as janelas abertas. Sílvia carregava as réguas, passava ferramentas, limpava o pó com o aspirador. Nuno trabalhava calado e concentrado como um cirurgião. Verificava cada fileira com o nível e a régua laser. Chegou a levantar tábuas já colocadas para as alinhar melhor.
Nuno, sequer se nota? perguntou ela.
Eu noto respondeu sem levantar a cabeça.
Nesse instante, as palavras dele deixaram-na inquieta. Não magoaram, mas estagnaram-na. Ela ficou, trapo na mão, a olhar-lhe a nuca curvada, sentindo uma estranha realização: como se tivesse entendido algo essencial, mas sem saber o quê.
Acabaram o soalho em junho. Ficou mesmo bonito. Carvalho claro, linhas perfeitas, geometria irrepreensível. Sílvia passou-lhe a mão e admitiu:
Está lindo.
Falta envernizar disse Nuno. Vou usar um verniz alemão, anti-riscos.
Quando?
Próxima semana.
Na semana seguinte descobriu que o rodapé de um canto afastava-se meio milímetro. O verniz ficou para depois.
Naquele junho, Sílvia ligou à Maria e foi ter com ela a uma esplanada, chá gelado na mão:
Então, quando é que te posso visitar?
Em breve respondeu Sílvia. E calou-se.
Passa-se alguma coisa?
Não… Tu sabes, Maria, começo a achar que ele nunca acaba.
Isso é típico deles. Arrastam até ao fim dos tempos.
Não é arrastar. Ele não quer acabar. Enquanto houver obras, há justificação. Não convida ninguém, não arruma nada definitivamente, não vive de verdade.
Maria olhou-a a sério.
Já lho disseste?
Tento. Ele responde sempre: falta pouco e fica perfeito.
Tu queres perfeito?
Sílvia demorou a responder.
Eu quero é casa acabou por admitir. Só casa, Maria.
Nessa noite, o Nuno mostrava-lhe vinte amostras de branco para as paredes. Tudo branco, tons ligeiramente diferentes.
Este é quente, com toque creme. Este é frio, mais cinza. Este tem azul. Pequenas diferenças, mas cruciais à luz do dia. Eu escolhia este.
Sílvia só via branco. Um branco em várias versões.
Nuno, tanto me faz.
Ele olhou-a como se tivesse ouvido um disparate.
Como pode ser igual? Vamos viver nisto.
Pois. Vamos viver. Pessoas reais em casa real. Não andam a distinguir brancos.
Distinguem. Só não se apercebem.
Pronto, escolhe tu.
E ele escolhia. Sempre escolhia. Aos poucos, deixou-lhe de perguntar opiniões. Se Sílvia gostava de um azulejo, ele contestava com argumentos técnicos. Se queria um sofá nalgum sítio, ele sacava do telemóvel um desenho a provar que estragava a divisão. Se ela dizia gosto disto, ele respondia mas o correto é assim.
Ela deixou de dizer que gostava.
No segundo outubro, o Nuno recebeu o velho amigo Jorge, de Aveiro, que vinha de passagem e pediu para pernoitar. Sílvia ficou verdadeiramente feliz. Comprou comida, pôs a mesa, limpou tudo.
Nuno disse-lhe que não dava supostamente estavam obras no quarto.
Obras nenhumas. Só a mobília habitual. Sílvia sabia.
Nuno perguntou ela que obras são essas?
Hesitou:
Falta ajustar o soalho. O cheiro. O Jorge não iria gostar.
Que cheiro? Não há cheiro nenhum.
Para quê mostrar a casa neste estado?
Que estado?
Inacabada.
Sílvia sentiu o chão fugir-lhe dos pés. Não figurativamente mesmo fisicamente. Ali compreendeu: Nuno tinha vergonha. Vergonha da casa que ele próprio fazia, porque não correspondia ao seu ideal. E pelo tal ideal, mentia a um amigo antigo.
Está bem deu ela. Não insistiu.
Jorge veio, ficou três horas à mesa, chá, saiu ao jantar com o Nuno, dormiu num hotel. Sílvia jantou sozinha.
Nessa noite, deitada, olhou o teto pintado de branco perfeito, imaculado, sem falha. Cama perfeita, quarto perfeito dois anos sem visitas.
No inverno, a mãe de Sílvia adoeceu, apenas uma gripe, mas ela era sozinha. Sílvia foi vê-la duas vezes por semana, por vezes dormia lá. Nuno não se importava; estava ocupado a pintar a varanda com um material especial em duas demãos.
Uma noite, chegou a casa cedo e viu-o sentado no corredor, lupa na mão, a inspeccionar o rodapé.
Passa-se alguma coisa?
Aqui está um vão nem levantou a cabeça.
Ela não perguntou quanto. Já sabia que viria a resposta em milímetros.
Nuno disse , já comeste hoje?
Pausa.
Não me lembro.
De manhã?
Deve ter sido.
Foi fazer massa, estrelou um ovo. Ele só apareceu quando já ela acabava de comer. Sentou e olhou o prato.
Obrigado.
De nada.
Comeram em silêncio. A neve caía lá fora. Uma revista com ferragens de armário em cima da mesa.
Nuno disse ela.
Hmm?
Conta-me uma coisa. Não das obras.
Olhou-a sem entender.
O quê?
Qualquer coisa. Como foi o dia, o que pensas, o que te preocupa ou diverte. Qualquer coisa sem ser vãos e materiais.
Ficou a pensar, muito a sério. Por fim:
Hoje, um operário fez a betonilha sem ferro. Mandei-o embora.
Isso é trabalho.
Pois.
E mais nada?
Ele esforçou-se visivelmente. Por fim:
Não me lembro.
Depois daquele dia, Sílvia ficou horas a olhar o escuro: quando se transformou ele apenas num somatório de funções? Sempre fora assim e ela não viu? Não. Lembrava-se do outro Nuno: nas viagens de carro à Serra da Estrela, ele a apontar as constelações. Estava tudo ali, as estrelas, o céu.
Onde pararam as Plêiades?
No terceiro ano, Sílvia deixou de prometer às amigas que tudo ia acabar em breve. Porque não era verdade. As obras acabavam e recomeçavam. Nuno achava sempre outra imperfeição. Uma azulejo não era suficientemente resistente, uma tinta dava a tonalidade errada, uma maçaneta perfeita rangia no frio. Tudo era mote para um novo ciclo.
Ela comprou um candeeiro de mesa, simples, abat-jour de tecido. Pôs na mesa de cabeceira. Nuno olhou:
De onde veio isso?
Comprei.
Para quê? Íamos pôr focos embutidos.
Quero ler à noite.
Focos são melhores.
Quando?
Não respondeu.
Exacto disse ela. Os focos virão quando vierem. Eu preciso de luz agora.
O candeeiro durou uma semana. Depois Nuno foi buscar um abajur metálico, dizendo que dava mais luz.
O da Sílvia foi para o canto. Depois para a estante. Um dia, ela encontrou-o na arrecadação, ao lado dos sacos de primário.
Não disse nada. Só o levou de volta à mesa de cabeceira.
Nuno voltou a mudá-lo.
Ela voltou a pôr.
Calados, nenhum cedeu.
O candeeiro ficou na mesa de cabeceira. Uma pequena vitória, e ao mesmo tempo, uma pequena tragédia porque numa casa normal, entre pessoas normais, não seria nem vitória nem tragédia: seria só um candeeiro.
Na primavera do terceiro ano, em abril, Sílvia mandou mensagem à Maria: Maria, queres ir passar uns dias fora? Tipo uma pousada ou casa de campo? Só uns dias sem maridos.
Maria respondeu logo: Quero! Quando?.
Foram em maio. Quatro dias numa pequena pensão perto de Sintra. Sílvia tirou férias. Nuno achou estranho, mas não comentou; estava a refazer a casa de banho.
Na pensão, o quarto de Sílvia tinha móveis de pinho, roupa de cama florida, uma janela pequena onde entrava o cheiro a pinhal húmido. Estava tudo gasto, riscado, ligeiramente empenado. E Sílvia apercebeu-se: estava feliz ali. Deitou-se na colcha florida, olhou a racha no teto junto ao candeeiro e chorou baixo.
Maria estava na cama ao lado. Não perguntou nada.
Vivo num museu confessou Sílvia, olhos no teto. Num museu bonito, perfeito, morto.
Maria ficou em silêncio. Depois sugeriu:
Já pensaste em terapia, a dois?
Ele não vai. Nuno acha que só quem tem problemas reais precisa de terapia. O dele é só obras.
Ficaram ali, em silêncio. E Sílvia pensou: era isto. A janela entreaberta, aroma a mata, a racha no teto. A vida, assim.
Voltou quatro dias depois. Cheirava a massa corrida. Nuno esperou-a à porta:
Refiz o nicho da casa de banho, quero mostrar-te.
Ela descalçou-se, pousou a mala, deu um olhar ao nicho.
Está bem.
Agora tudo simétrico. Antes, o lado direito era um centímetro e meio mais largo.
Eu vejo.
Andei a semana toda a tentar não partir os azulejos já prontos, mas consegui.
Fizeste bem.
Foi para o quarto, mudou de roupa, deitou-se, olhou o teto perfeito.
Em junho, houve conversa que nunca esqueceu. Domingos, oito da noite, Nuno pintava na arrecadação. Sílvia fazia o jantar, ouvia-o lá dentro com fita-cola de pintor.
Nuno! gritou ela.
O quê?
Daqui a vinte minutos o jantar.
Ok.
Pôs a mesa. Passaram vinte, quarenta minutos. Bateu à porta.
O jantar arrefece.
Mais cinco minutos.
Nem cinco, nem dez. Ela jantou sozinha, limpou tudo. Nuno saiu perto das onze.
Perdi a noção do tempo disse ele.
Eu sei.
Queres que aqueça?
Aqueces tu.
Foi deitar-se. Pegou num livro.
Quando ele entrou, perguntou, sem desviar os olhos:
Nuno, tu és feliz?
Longa pausa.
Bem… Acho que sim.
Tens a certeza?
Sílvia, pergunta estranha.
Só uma pergunta.
Deitou-se ao lado, calado. Por fim:
Quando acabar a arrecadação passo ao resto da varanda. Falta só o isolamento. E fica tudo pronto.
Ela fechou o livro.
Percebes que me respondeste com a varanda quando perguntei se eras feliz?
Ele não respondeu. Ficou ali, calado.
Boa noite, Nuno.
Boa noite.
A luz ficou acesa muito tempo. Ela olhou o teto. Pensou: noutro tempo, noutra vida qualquer, a esta hora conversávamos. Sobre qualquer coisa. Uma série. A mãe que disse uma piada. O novo menu do café favorito. Só conversávamos.
Aqui havia silêncio. Perfeito. Como o teto.
Lembrou-se dessa conversa ao pôr a chávena na janela hoje de manhã. Percebeu: o chega já estava há muito dentro dela. Só precisava de uma chávena para sair.
Arrumou as coisas sem lágrimas, com método. Levou só o que era seu: alguns livros, maquilhagem, roupas, candeeiro de tecido, o cartão do cidadão, papéis, carregador, o pequeno cacto Filipe, que trouxe do emprego, pois em casa não havia planta viva. Nuno nunca se importou com o cacto. O cacto não deixava marca.
Nuno ficou à porta do quarto, observando-a.
Sílvia.
Sim.
Não queres falar?
Sobre o quê?
Estás a arrumar as coisas.
Estou.
Por causa da chávena?
Nuno, por favor. Sabes muito bem porquê.
Não sei. Juro que não sei.
Ela parou. Olhou-o de frente. Estava à porta, alto, sem nível, perdido como nunca ela o vira.
Nuno disse , vivemos aqui há três anos.
Sim.
Nunca fizemos um jantar de amigos. Nem um. Em três anos.
Porque a casa ainda não está…
Porque nunca estará pronta. Percebes?
Ele ficou calado.
Vais sempre achar algo para refazer. Não é mau. Mas eu não aguento viver numa obra permanente.
Está quase…
Não. Disse isto calma, mas firme. Não se trata do tempo. Não é esperar um pouco. Vivi três anos tua hóspede na minha própria casa. Andei de pontas, com chávenas em suportes, a esconder o meu candeeiro, sem convidar amigas porque tinhas vergonha das obras. Eu…
A voz trémula, precisou de parar uns segundos.
Só quero viver. Com riscos no chão e manchas no parapeito. Com amigos ao domingo. Com o teu casaco velho na cadeira. Tudo aquilo que faz uma casa viva. Aqui nunca foi casa.
Longo silêncio.
Para onde vais?
Para casa da minha mãe.
Por muito tempo?
Não sei.
Fechou a mala, pegou no Filipe, passou por ele, vestiu o casaco, calçou os ténis, tentando não olhar para o soalho perfeito.
Sílvia chamou ele.
Sim?
Eu… não sabia que era assim.
Sabias, Nuno. Só nunca pensaste.
A porta fechou-se com um clique suave. Como tudo ali.
Ficou.
Nuno ficou ainda um minuto parado no corredor, depois foi à sala e sentou-se no sofá. Demorou três meses a escolher tecido. Era bom, resistente, não apanhava cotão. Sentou-se. Olhou à volta.
O apartamento era bonito. Mesmo bonito. Paredes claras, num tom quente preciso. Soalho sem falha. Estantes embutidas certas. Luz perfeita, sem sombras mal calculadas. Varanda sem vãos. Casa de banho com azulejos alinhados.
Aquilo, porém, não lhe dava orgulho. Sentia-se… enjoado. Não era no estômago. Era cá em cima, mais fundo.
Na estante, estavam livros que ela não tinha levado. Tentou lembrar-se da última vez que a viu ler sentada, à luz perfeita, de verdadeiro domingo. Há quanto tempo?
Ergueu-se. Na cozinha, a chávena ainda estava no parapeito. Nem marca tinha. O chá frio.
Limpou, pousou-a no escorredor. Ficou ali. Depois foi para o quarto. Apesar de tudo, deitou-se de roupa, nunca fazia isso. Olhou o teto.
Era perfeito.
Deitou-se uma hora. Ou duas. O tempo perdeu-se. Levantou-se e foi à arrecadação. Ali, baldes de tinta, rolos de fibra de vidro, packs de primário, ferramentas às milímetros. Tudo ali, no devido lugar. Só ele a mais.
Pegou numa pequena amostra de azulejo, usada um dia no trabalho para comparar. Pesou-a na mão. Pousou-a outra vez.
Na arrecadação só sobrava ele.
Jantou algo do frigorífico, sem sabor. Silêncio absoluto. Antes, havia sempre ruído: mãos, cola, cheiros a verniz. Agora nada. Só o silêncio nas divisões perfeitas.
Tentou ver TV. Viu vinte minutos de um filme, não percebeu nada, desligou.
Depois ficou a olhar o nome dela no telemóvel, sem coragem de ligar. Pensou.
Pensou não em como a trazer de volta. Pensou nas palavras dela. Nos convidados. No candeeiro. No viver como hóspede em casa própria. Essa palavra ecoou-lhe. Hóspede. Em casa.
Lembrou-se do Jorge. Da mentira das obras no quarto. Porquê? Nessa altura já soube a verdade: a casa estava habitável há demasiado. Só nunca era a casa ideal da cabeça dele. Aquela que sempre lhe prometera.
Prometera o ideal. Fazia-o, meticuloso. Mas nunca chegava lá, porque o ideal nunca se alcança. Nunca é um teto: é horizonte. Por mais que se ande, está sempre além.
A Sílvia percebeu antes. Ele não.
Ou não quis perceber.
Ligou as luzes todas das divisões. Parou na sala. Olhou as estantes.
Tudo milimetricamente alinhado: livros por altura, decoração espaçada. Era o seu princípio: tudo no lugar, sem excesso, funcional e belo.
No meio da terceira prateleira estava um pequeno coração de vidro. Avermelhado, tosco, feito à mão. Sílvia comprou-o numa feira há dois anos. Ele resmungou: Para quê isso? Só serve para apanhar pó. Ela: Gosto. Ficou ali. Ele tolerou, resignado.
Agora pegou-lhe. Aquela textura morna, humana. Ou parecia-lhe.
Pensou nisso durante três dias. Três dias sem fazer nada, a vaguear pelo apartamento, sem fome, nem sono. No escritório, errou cálculos num cliente, teve de refazer tudo. O colega perguntou-lhe: Está tudo bem, Nuno? Sim, tudo.
No quarto dia, escreveu-lhe.
Sílvia, podes falar?
Ela respondeu uma hora depois: Posso.
Ligou. Ela atendeu ao segundo toque.
Olá.
Olá.
Como estás?
Bem. Na minha mãe está tudo tranquilo.
Pausa. Só se ouvia a respiração dela. Nunca soubera começar conversas assim. Era ela quem sabia.
Sílvia, estive a pensar.
Notei.
Sabes o que te vou dizer?
Mais ou menos.
Eu percebi que… que deixei passar algo importante. Ou melhor, que… calou-se, a procurar palavra procurei sempre o que não era essencial.
Ela ficou calada.
Falaste nos convidados. No candeeiro. Em tudo isso. Agora compreendo. Não compreendia antes, ou fazia que não.
Estás a dizer isto porquê?
Porque quero que voltes para casa.
Longa pausa.
Nuno…
Não peço já. Só quero dizer isto sem enganar: quero que voltes. E quero tentar fazer de outro modo. Não sei se consigo. Mas quero tentar.
Ela ficou muito tempo sem falar. Ele ouviu ruído talvez ela pousando uma chávena, no parapeito ou na mesa.
Percebes que só dizer que tentas não chega? perguntou, por fim.
Percebo.
Percebes que não volto para viver igual?
Percebo.
Não sei se percebes mesmo. Vais dizer as palavras certas porque estás assustado, mas não mudas só porque decides. Não é como pregar um prego.
Eu sei que não é.
Então, o que propões?
Hesitou.
Primeiro, encontrarmo-nos. Falar a sério. Não por telefone.
Está bem disse ao fim de um momento. Vamos conversar.
Encontraram-se num café banal, mesas bambas, menu em ardósia. Sílvia apareceu com o velho casaco bege, cansada mas serena.
Pediram café. Nuno olhou-a há anos que não a via assim, só a olhar, sem pensar em juntas nem ângulos.
E a tua mãe?
Melhor. Plantou flores novas, ocupou-se das sementeiras. Ficou feliz de me ter lá.
Fico contente.
Silêncio breve.
Nuno começou ela preciso que entendas uma coisa. O problema não são as obras, nem o teu perfeccionismo. Isso é uma qualidade. Mas tornaste a casa num fim em si própria, não num meio.
Sim.
Estás a concordar só para agradar ou entendes mesmo?
Entendo.
Como posso saber?
Pegou na chávena, segurou-a. Pousou-a.
Não podes saber. Eu próprio não sei quanto mudo. Só sei que assim não dá. Quando foste embora, a casa ficou uma caixa bonita.
Sílvia olhou-o.
Uma caixa bonita repetiu.
Sim.
Ainda bem que percebes.
Vais voltar?
Ela ficou a olhar a chuva fora da janela, transeuntes molhados, um vaso de tulipas vermelhas numa loja.
Vou tentar disse enfim. Com condições.
Diz.
Primeiro: um mês sem obras. Nada de pregos, amostras ou catálogos. Só vivemos.
Feito.
Segundo: próximo domingo convidamos a Maria, o Mário e o Jorge se puder. Fazemos jantar, conversamos. Nesta casa, seja como estiver.
Ele anuiu.
Terceiro: se voltares a transformar cada risco numa crise, aviso-te e tens de me ouvir.
De acordo.
Isto não são só palavras? perguntou ela. É mesmo difícil.
Sei. Para mim, é difícil. Mas vou tentar.
Ela encarou-o como quem procura ver o que é verdade. Depois disse:
Está bem.
Voltaram a pé, apesar da chuva. Iam lado a lado, não de mãos dadas, mas próximos. Ela levava o Filipe no bolso, ele com a mala dela. À entrada, ela olhou o prédio o quinto andar.
Que prédio bonito murmurou.
Sim admitiu ele.
Subiram. Ele destrancou a porta, ela entrou. Passou à sala, colocou o Filipe no parapeito, sem base.
Nuno olhou o cacto. Olhou a madeira envernizada.
Nada disse.
Ela foi à cozinha. Ouvia o som de água, depois o clique da chaleira.
Ele foi à sala, sentou-se no sofá. Olhou a estante. O coração de vidro estava no mesmo sítio, ligeiramente fora do alinhamento planeado.
Não o mexeu.
No domingo, ligaram à Maria. Finalmente, riu-se ela, audível a alegria. Jorge não pôde vir, mas prometeu uma próxima vez. O Mário trouxe vinho, ela bolo, Sílvia fez a prometida caldeirada há três anos.
A mesa, na sala. Nuno olhou e pensou copos desalinhados. Ajustou um, depois parou. Deixou ficar.
À mesa, confusão boa. Maria deu um encontrão ao copo, vinho tinto manchou a toalha. Todos exclamaram. Nuno sentiu o velho nervosismo e olhou Sílvia.
Ela olhou-o serena, simples. Apenas olhou.
Pegou em papel, limpou.
Não faz mal.
Maria suspirou de alívio. Sílvia sorriu-lhe de canto.
Ficaram a conversar até tarde, riram, beberam chá. Já deitados, Sílvia lavava e ele enxaguava a loiça. Silêncio, mas outro.
A nódoa vai sair disse ele sobre a toalha.
Pode não sair respondeu ela.
Não faz mal.
Ela olhou-o. Passou-lhe um prato.
Nuno.
Sim.
Foi bom hoje.
Foi.
Arrumaram tudo e foram à sala. As chávenas na mesa. A mancha de vinho. O coração de vidro. O Filipe no parapeito.
Nuno hesitava amanhã teria de tratar da nódoa, pois senão secava demasiado; o vaso sem base deixaria marca; uma chávena estava torta.
Pensou então que Sílvia rira duas vezes naquele dia uma, a ouvir a piada sobre o gato da Maria, outra com o brinde do Mário. Como antes, no tempo em que sentia: é ela.
Ela passou ao quarto. Parou à porta:
Vens?
Já vou.
Ele olhou mais uma vez a sala: a mancha, o cacto, o coração.
Apagou a luz.
Deitou-se. Ela lia já. O seu candeeiro de tecido iluminava suavemente. Nuno olhou o teto.
Sílvia.
Hmm?
Ouves-me quando começo a falar dos níveis e milímetros?
Ela baixou o livro e olhou-o.
Ouço.
E pensas o quê nessas alturas?
Ela pensou. Mesmo pensou.
Penso que tu, naquele momento, estás longe.
Sim confessou ele. É isso.
Ela voltou ao livro.
Nuno pensou se seria possível. Três anos era muito, mudou-a, mudou-o. Como uma fissura: pode-se tapar, mas nunca é o mesmo material. Ele sabia bem.
Pensou, até adormecer quase. E por fim, um último pensamento, entre sono e vigília: amanhã pegaria no Filipe e punha-o numa base para não ficar marca na madeira.
Abriu os olhos, ainda uma vez.
O teto estava igual. Absolutamente perfeito, sem uma fissura.
Sílvia ao lado, silenciosa, virava a página.
Nuno tornou a fechar os olhos. O Filipe continuaria ali. O Filipe podia esperar até amanhã.







