Nivelei o terreno. Fiz canteiros para as flores da Filipa. Construi-lhe uma pérgola no quintal. Dentro de casa notava-se logo o toque rijo de um homem. Não, a Filipa fez muito bem em casar comigo. Completamente certo. E ainda por cima eu, António, trabalhava, trazia dinheiro para casa. Estava sempre a tentar surpreender a Filipa com prendas.
Tu nunca me amaste Casaste comigo sem paixão. Agora vais-me deixar, agora que estou doente
Não te deixo, António! respondeu a Filipa e abraçou-me. És o melhor marido! Nunca te deixaria
Eu mal podia acreditar que era mesmo verdade. O meu ânimo estava em baixo naquele tempo…
A Filipa foi casada durante vinte e cinco anos e, todo esse tempo, continuou a atrair os olhares dos homens. Já em jovem era das raparigas mais cobiçadas.
Nem era só quando era nova! Na escola, quase todos os rapazes andavam atrás dela. E vá-se lá saber, a Filipa nem era propriamente uma beleza.
Nunca se separou do primeiro marido, ainda que o Vasco fosse um tipo algo complicado.
Não, a Filipa ficou ao lado do Vasco até ao fim dos seus dias. Criaram juntos a filha, Leonor, e até a viram casar e mudar-se para Itália com o marido. Agora recebiam fotografias bonitas e convites para ir visitá-los, mas a viagem nunca se alinhavou… Talvez um dia a Filipa fosse. Mas o Vasco já não podia.
O marido da Filipa morreu num acidente de carro. Tão estúpido… Depois, disseram-lhe que provavelmente lhe tinha dado uma coisa má ao volante. O coração fraquejou, ficou confuso, perdeu o controlo do carro.
Pode ter desmaiado? aventei.
Agora já ninguém vai saber. suspirou a minha amiga, médica, a Mariana. Causa da morte: lesões múltiplas, incompatíveis com a vida.
A Filipa ficou em estado de choque. A Mariana tratou de organizar tudo.
Foi ela que investigou tudo pelos contactos dela. O Vasco foi enterrado e a Filipa ficou sozinha naquela casa grande que tinha demorado uma vida a erguer com o marido.
Para dois já não era pequena, e quando vinha família parecia até pouco. Mas para uma só pessoa uma mulher sozinha era uma carga.
Casa é casa. Num lar sente-se logo a falta de mão de homem…
A Leonor veio despedir-se do pai. Falou com a mãe em vender a casa, comprar um apartamento, talvez até mudar-se para lhes fazer companhia em Itália.
Ora nem penses! gritei eu, indignada. Não foi para vender que construi esta casa. E não quero ir para essa tua Itália. Já lá fui…
Ó mãe!
Tu és tão ingénua, Leonor! sorriu a Filipa por entre as lágrimas. Estou só a brincar, filha.
Se é brincadeira, então pode não ser tudo assim tão negro.
A verdade é que a situação não era simples, como não fora o Vasco em vida. Por um lado, era atencioso e carinhoso. Por outro, tinha dias… Quando estava com o humor em baixo, conseguia exasperar a Filipa até ao tutano. Depois arrependia-se e pedia desculpa, e a Filipa não se demorava nessas coisas. E foram vivendo assim. Vinte e cinco anos! Uma eternidade…
A Leonor ficou alguns dias. Depois voltou para junto do marido ele trabalhava muito e ela queria manter o lar aceso. Fiquei eu e a Filipa a sós.
Mas a Filipa conhecia-se bem e sabia que isso não ia durar.
E de facto não durou. Chorou um meio ano, e quando já estava recomposta, já tinha uma pequena legião de pretendentes à sua volta.
Até a mãe da Filipa se admirava com aquela sorte toda de pedidos.
Mas afinal o que é que eles vêem em ti? Ficam todos derreados! Nem és uma rapariga bonita… Ou será que sou eu que não entendo nada disto?
Ó mãe, não digas disparates, respondia a Filipa, pintando os lábios. Isso da beleza não conta para nada. Uma mulher tem de ter presença, ser carismática, com um toque especial.
Vai lá tu, minha filha, diverte-te, ria-se a mãe. Ou ainda te levam o noivo.
Vem outro, dava de ombros a Filipa, despreocupada.
Já lá iam quase trinta anos dessa conversa com a mãe, e nada mudara. As mulheres continuavam a reclamar que não havia homens livres, que aos quarenta já não havia casamento para ninguém.
A Filipa não percebia onde estava o problema. Aos quarenta e seis, veja-se, tinha dois pretendentes, ambos de bom nível.
No fundo, a Filipa sentia-se mais atraída pelo Ricardo. Muito parecido com ela nos gostos e nas conversas, elegante, inteligente. Era bom de conversar e, se era para sair, não envergonhava.
Só que o Ricardo era mestre a falar, e pouco dado ao trabalho de casa. Pela idade, a Filipa bem percebia que ele não era homem para a sua casa grande.
O outro, o Manuel, era um tipo simples, de braço forte. Daqueles que numa festa são capazes de beber o que houver, mas trabalha como ninguém, tudo lhe corre bem nas mãos. Marido com M grande, paciente, mas com fibra por dentro.
Para a mulher era dócil, quase um cordeirinho, mas movia montanhas se fosse preciso. O problema é que Manuel atraía menos a Filipa questões de coração, e não de cabeça.
Ele não era dado a palavras românticas. Só falava muito se bebesse, aí sim, contava piadas, animava a malta.
Sim, o Manuel tinha mão para a bebida, mas no dia seguinte estava pronto para tudo. Jogava água fria ao corpo e ia à luta. Pouco palavroso, mas eficiente. Foi o que a Filipa escolheu.
O Ricardo ficou sentido as palavras bonitas não chegaram, foi-se embora.
A Filipa casou comigo, e eu fiquei nas nuvens. No casamento, bebi de mais, cantei e dancei até cair.
És terrível, Filipa. disse-lhe a Mariana, a rir. Mal fez um ano da morte do Vasco, e tu já casada de novo. Está tudo igual! As outras mal conseguem arranjar homem com lanterna de dia, e tu mal sais à rua…
Ainda vais perguntar o que é que eles vêem em mim, se nem sou bonita.
Não digo nada, mas sempre foste muito procurada, tenho de admitir.
Eu própria não sei o que eles encontram em mim, Mariana. Vai perguntar à minha mãe!
A Filipa piscou-me o olho e foi dançar comigo. Enquanto dançávamos, despedia-se das últimas dúvidas.
Ora e que importa que eu, o Manuel, seja um tipo direto? Tenho força, jeito para tudo, sou bem-parecido. Se não falo muito, talvez seja até bom.
Se tivesse escolhido o Ricardo, o que era da vida dela? Palavras não enchem barriga.
Em poucos meses, transformei o quintal da Filipa num jardim de sonho. Arranquei árvores desnecessárias.
Aterrejei o terreno, fiz-lhe canteiros, construí uma pérgola. Dentro de casa, sentia-se segurança de um lar bem cuidado.
Não, a Filipa fez bem em escolher-me. Fez muito bem.
Além disso, eu ainda ganhava bem. Não parava de lhe levar presentes.
Ela comparou aqueles meses comigo com os vinte e cinco anos do primeiro casamento, e confessou-me devia ter-te encontrado mais cedo, Manuel. És ouro sobre azul!
No verão, grelhávamos ao fim da tarde e jantávamos na pérgola, onde pus uma mesa de madeira e bancos feitos por mim.
A Filipa, de barriga cheia de entrecosto, fechava os olhos como um gato satisfeito. Eu sorria de alegria ao vê-la assim.
O que foi, Manuel?
Nada, estou só contente.
A minha primeira mulher era enfadonha. Já nem esperava encontrar alguém como a Filipa.
Fomos felizes assim, durante quatro anos, até que comecei a sentir-me esquisito.
Cansei-me mais depressa. Comecei a emagrecer. Quando bebia, então, sentia-me muito mal.
Manuel, tens de ir ao médico! exigiu a Filipa. Isto não está certo.
Ora deixa-te disso, Filipa! Isso passa!
Que mentalidade esta! E se não passa? Escondes-te porquê? Como todos os homens, tens medo dos médicos?
Não é isso.
Não queria revelar-lhe o meu maior medo: temia que, se estivesse realmente doente, a Filipa me largasse. Não ia ela ficar com um marido doente.
Tinha noção de que a Filipa casara comigo mais por sensatez do que por grande paixão. Mas eu… eu amava-a! Contra tudo e contra todos.
Vi-a uma vez confusa no supermercado, à procura da carteira na mala, e enamorei-me. Aquelas hesitações tocaram-me de uma maneira súbita.
Aparecia vontade de agarrar nela, protegê-la sempre. Mas a minha mãe, quando a conheceu, disse:
Ó filho, vais ter de viver com as tuas escolhas. Não vejo o que vês nela. Não é bonita! Já não é nova! Qualquer rapariga mais nova dizia logo que sim…
Mas eu não queria ninguém, só a Filipa. E se agora estivesse mesmo doente, também ela ainda ia querer-me?
Por mais que insisti, não fui ao médico. Era sábado, vieram jantar a Mariana e o marido, o Jorge. O Jorge e eu estávamos a grelhar carne, a Mariana na cozinha ajudava a Filipa.
O Manuel está doente? perguntou Mariana.
Sei lá! gritou a Filipa, aflita. Peço para ir ao médico e não quer! Tu és médica, Mariana, tu vê se não notas diferença.
Está mais magro, o rosto já nem tem cor, está amarelado…
Oh, meu Deus! Mariana, convence-o tu! A ver se a ti te ouve!
A Mariana olhou-me a sério:
Filipa, tu amas este homem? Só me lembro das tuas dúvidas no início…
A Filipa mordeu o lábio, não respondeu.
A Mariana ainda não tinha tido tempo de me convencer, nesse jantar perdi os sentidos. Chamaram o INEM. A Filipa foi comigo.
Fui logo operado.
Tumor no fígado.
Cancro?! assustou-se a Filipa.
Estamos à espera dos resultados.
Felizmente era benigno, mas já grande. Os médicos proibiram quase tudo, e avisaram que a recuperação ia ser lenta. Com sorte, talvez não ficasse igual já não era novo.
Caí na tristeza. No hospital, visitei-me a minha mãe, a Dona Teresa.
A Filipa estava a trabalhar, a minha mãe trouxe-me comida própria, que pouco era.
Ó filho! Reconheço-te nem te reconheço Devias estar feliz, venceste o cancro. Toma lá estas almôndegas de frango.
Não quero comer.
É preciso! E a Filipa tem vindo cá?
Tem vindo… por enquanto, sim.
Tens medo que te deixe? Seria uma parva! Afinal, viveste e aos cinquenta já ficas a falar assim?
Já não sirvo para nada! Não posso trabalhar, não posso beber, aos cinquenta e estou inválido. Quem precisa de mim?
O que se passa aqui? perguntou a Filipa, ao entrar. Estás a berrar para todo o hospital. Boa tarde, Dona Teresa!
Vou andando. Olá, Filipa.
Que conversa é esta?
A mãe acenou e saiu. A Filipa lavou as mãos e aproximou-se de mim na cama.
Ó grande inválido, o que é isso? Tens braços e pernas, és inteiro! O resto há de sarar. Sabias que o fígado se regenera?
Como assim?
Se tiveres cinquenta e um por cento do fígado, ele trata de voltar ao normal. E tu ainda tens mais de sessenta por cento funcional. Dá-lhe tempo.
Tempo… será que tenho?
Então, Manuel?
Não é nada…
Recebi alta. Começou a fase mais dura da minha vida. Bastava meter mãos ao trabalho que logo me sentia cansado. Era o que mais me doía.
E vinha aí o aniversário, que só de pensar me deprimia. Não podia comer nada, nem sequer beber um copo. Viva!
A Filipa parecia não notar que eu me cansava rápido, e comia comigo as refeições especialíssimas, como se tudo fosse normal.
Filipa… arrisquei. O que é que agora vai ser de nós?
Como assim? perguntou, surpreendida.
Estou lento a recuperar. Vais deixar-me, não vais? Diz já, antes que perca tempo.
Deixar-te, porquê? Eu gosto muito de ti.
Era quando eu tratava de tudo, era bom. Agora, nem eu gosto de estar comigo.
Deixa-te de coisas. Toca a ganhar ânimo!
Tento! Mas basta pegar no martelo duas vezes e já fico morto.
A Filipa aproximou-se e abraçou-me por trás. Encostou a face às minhas costas.
Eu amo-te. E nunca te vou deixar. Recupera ao teu ritmo, não apresses nada.
Amas mesmo?
Claro que sim.
A Filipa não me deixou. Fui recuperando, pouco a pouco.
Organizou-me o aniversário sem bebidas alcoólicas, para eu não sentir falta.
Vieram alguns amigos, estivemos na pérgola, jogámos às cartas.
Tiveste sorte com a tua mulher, Manuel elogiaram-me os amigos.
Agora vão, vão beber à minha saúde, não é? brinquei.
Rimo-nos todos. À noite, só eu e a Filipa, sentados na escada a olhar as estrelas. Felizes. Nessa noite, pela primeira vez em meses, senti-me melhor.
Acreditei que ia recuperar. E que a Filipa, de facto, não me ia deixar. Abracei-a com força.
O que foi, Manuel?
Está tudo bem! respondi.
Finalmente! sorriu ela e beijou-me na face.
E fomos felizes…







