Traíste-me — O Casamento Está Cancelado

Mariana, minha querida, que disparate é esse agora? respondeu Vítor com desdém, mal olhando para a fotografia. Sabes bem que só te amo a ti, não preciso de mais ninguém. Isto é certamente uma montagem.

A sério? E quem, acha tu, teria tal interesse? Mariana sentiu-se ainda mais magoada com a indiferença de Vítor. Nem sequer se dava ao trabalho de se justificar com convicção.

O salão de beleza herdado da avó nunca lhe despertou grande entusiasmo.

O que a Mariana lhe dava verdadeira satisfação era ensinar pintura às crianças na escola de artes de Lisboa. Não rejeitou, claro, a herança.

O salão oferecia-lhe uma bela renda, era bem gerido por uma senhora dedicada.

Assim, Mariana dedicava-se ao que amava e nada lhe faltava. Faltava-lhe apenas uma família.

Após o falecimento da avó, a vida de Mariana, então com vinte e sete anos, tornou-se demasiado silenciosa. Só um ano depois, na exposição da Fundação Gulbenkian, conheceu Vítor.

Um homem simpático, sorriso tímido, cativou-a logo com a sua delicadeza e gentileza.

Dois meses depois, Vítor apresentou-a ao padrasto, o senhor Joaquim Batista.

O meu pai morreu quando eu era muito pequeno contou Vítor, baixando o olhar. A minha mãe só voltou a casar dez anos depois.

O senhor Joaquim nunca foi meu pai, mas sempre nos demos muito bem.

Quando a minha mãe morreu há dois anos, fiquei a viver com ele.

O senhor Joaquim impressionou Mariana. Elegante, ar de quem sabe o que diz, nem parecia ter já cinquenta e seis anos.

Parece que também gostou da Mariana.

Tiveste sorte, ó Vítor brincou Joaquim, beijando a mão da futura nora com requinte. Levaste uma moça que vale ouro!

Mas porquê tanta sorte, senhor Joaquim? Vítor fez-se de ofendido, sorrindo.

Porque um homem a sério não se fica a trabalhar como gestor numa loja de hobbies respondeu o padrasto, divertido. Mas pronto O mais importante é a noiva maravilhosa que arranjaste!

Mariana ficou tímida no princípio, depois não conteve as gargalhadas com as piadas do velho Joaquim até Vítor mostrou sinais de ciúme.

Seis meses depois, Vítor pediu-lhe em casamento. Mariana estava perdidamente apaixonada e feliz, afundada em sonhos de uma vida a dois nem percebeu logo que fotos estranhas lhe tinham chegado pelo telemóvel.

Quando viu bem, não queria acreditar: era Vítor, abraçado e a beijar outra rapariga, sempre com aquele sorriso envergonhado.

A data na imagem deixava claro que fora há pouco mais de duas semanas.

Amor, que disparate é esse? repetiu Vítor, olhando por alto as imagens. Sabes que só te amo a ti. Isto é claramente uma montagem.

Achas? Quem ganharia com isto? Mariana sentiu o coração despedaçado com tamanha displicência.

Sei lá encolheu os ombros. Há sempre gente desequilibrada, não?

Mariana quase perdeu a cabeça. Outro, no lugar dele, defender-se-ia, juraria amor, ameaçaria dar uma lição a quem ousasse ofender a sua noiva Mas Vítor, além de a trair, nem arrependido se mostrava.

És um traidor! Não vai haver casamento! chorando, Mariana saiu da casa, debaixo do olhar surpreso do noivo.

Chorou dias inteiros em casa, nem à rua foi nessa semana, de baixa médica. Pensou, suspeitou, duvidou Vítor, note-se, nem se dignou a procurá-la. Até que ganhou coragem e decidiu agir.

E se, de facto, as fotos fossem falsas? Hoje em dia, com as tecnologias e montagens, tudo é possível E ela caiu tão facilmente na armadilha.

Estranhamente, a rapariga das fotos existia mesmo. Bastou procurar online e encontrou-lhe logo três perfis: chamava-se Filomena e não demorou a aceitar um encontro.

São fotografias antigas riu Filomena, após ouvir Mariana e olhar para as imagens. Já vai mais de um ano.

Como? Mariana ficou sem chão. Esta data aqui

Isso de datas é o mais fácil de inventar sorriu-lhe Filomena, com pena. Se alguém quiser muito, até muda o calendário inteiro.

Foste tu?

Eu? Para quê? Eu e o Vítor acabámos há uma eternidade, e namorámos só uns meses, não resultou. Aliás, vou casar daqui a pouco.

É? E nem uma foto do noivo na tua página? Estranho Mariana ficou desconfiada.

A felicidade gosta de silêncio retorquiu Filomena. Mas depois mostro as fotos do casamento.

Parecia então que alguém quisera de facto tramar Vítor e Mariana acreditou de imediato, ofendeu-o injustamente. Sentiu que precisava de reparar o erro.

Mandou-lhe mensagens, ligou-lhe Vítor não respondeu. Dois dias depois, decidiu ir casa dele, resolver tudo.

Chegou ao entardecer e viu Vítor sair do carro da sua antiga rival Beatriz.

Mariana e Beatriz cresceram no mesmo bairro em Lisboa, foram amigas um tempo, mas depois Bia tornou-se demasiado intensa, algo conflituosa, até distante.

Quando Mariana herdou o salão, Beatriz insistiu para que lho vendesse queria instalar lá um centro de massagens, visto que já detinha dois e aquele ponto era de luxo.

Mariana sempre recusou. Bia ficou ressentida? Teria querido vingar-se, ficando-lhe com o noivo?

Enquanto pensava nisso, viu Beatriz e Vítor despedirem-se de forma afectuosa, e Bia desapareceu carro fora.

Ora vês? Eu bem te disse que o Vítor nunca foi grande coisa Marian estremeceu com a voz calma ao lado, era o senhor Joaquim.

Olá, senhor Joaquim disse, nervosa.

Olá menina! Sabes, se calhar ficas melhor sem o rapaz. Devias casar era comigo disse, rindo-se, embora com olhar sério.

Agora não posso, desculpe respondeu Mariana e fugiu quase a correr.

Encontrar Beatriz foi fácil, mal Mariana chegou ao bairro, Bia acabava de estacionar.

Apropriaste-te do meu noivo? Mariana olhou-a nos olhos. Mas nas fotos meteste a pata na poça! Desmascarei-te!

Que fotos? Do que é que falas? Beatriz parecia mesmo genuinamente surpreendida.

Vais negar que mandaste aquelas imagens do Vítor com outra mulher? Não planeaste tu, para ficares com ele?

Estás bem, Mariana? Eu não mandei nada! Foi o Vítor que me procurou há uma semana. Achei que tinham acabado

Mariana olhou-a fixamente parecia sincera. Precisava repensar tudo, sozinha e com calma.

Achava eu que ias vender-me o salão! atirou Beatriz, mas Mariana já não respondeu.

Chegando a casa, depois de recuperar o fôlego, ligou novamente a Vítor. Para sua surpresa, ele atendeu.

Podes vir cá disse ele, sem entusiasmo. Estou meio doente, nem me sinto bem.

Nem foi preciso repetir-lhe.

Vítor, enganei-me. Perdoa-me, por favor. É só porque te amo tanto, fiquei com ciúmes, as imagens pareciam reais Desculpa, meu amor.

Está bem, deu de ombros ele. Já passou.

És fantástico! Mariana abraçou-o. Amo-te tanto!

Mas Vítor afastou-a suavemente.

Amigos, Mariana. Só amigos.

Como assim? Íamos casar

Mariana, fez uma careta, vou casar com a Beatriz.

Como? Juraste-me amor! Ias casar comigo

Chega, não suporto mais estes dramas. Por isso é que mudei de ideias. Não quero uma vida feita de explosões emocionais.

Além disso, a Beatriz tem negócios melhores, ganha mais do que tu. Preciso pensar no meu futuro.

Mariana ficou muda. Sentiu-se usada, descartada.

Saiu apressada, correu pelas escadas, mas as pernas faltaram-lhe ao chegar à rua e caiu num banco.

Cinco minutos depois, ao seu lado, sentou-se o senhor Joaquim.

Minha pobre menina afagou-a ternamente. Ainda vais agradecer ter descoberto tudo agora

Mas por que é que me fizeram isto? Mariana chorou de novo, inconsolável.

Eu murmurou Joaquim, cabisbaixo.

O senhor? Porquê? até parou de chorar, atónita.

Apaixonei-me por ti desde o jantar cá em casa. Decidi logo que eras a mulher da minha vida, embora nunca tenhas reparado em mim.

Só ouvia Vítor, Vítor Não sei o que vês nele.

Mas o senhor é mais velho e eu eu pensava que amava o Vítor

Eu só queria abrir-te os olhos. Ainda ouvi o Vítor a gabar-se com amigos: lá arranjei uma noiva de boas posses. Percebi que, se não fosse contigo, ia atrás de outra qualquer. Por isso, resolvi agir Joaquim fez um gesto vago. Tive oportunidade, usei-a, não interessa agora.

Não percebe? Destruiu a minha vida!

Salvei-a. No futuro irias sofrer muito mais, acredita. Casa-te comigo, Mariana?

O senhor não está bom da cabeça! Mariana levantou-se, determinada, e regressou a casa.

Dias depois, abandonou Lisboa. Joaquim, contudo, procurou-a vezes sem conta, apenas como amigo. Afinal, tornaram-se companheiros de conversa.

Um ano depois, Joaquim morreu e deixou-lhe tudo. Mariana não se alegrou: já se tinha habituado à presença tranquila do padrasto do ex-noivo.

Vítor, entretanto, indignou-se com a perda do apartamento, mas a Mariana já nada lhe dizia respeito.

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