Traí antes do casamento.

Traiu antes do casamento.

João nunca se achou paranóico, nem daqueles desconfiados que veem problema em tudo. Era o típico português pragmático, engenheiro civil com experiência nas costas, habituado a confiar em orçamentos, plantas e, claro, no que lhe mostravam os olhos. Mas há cerca de meio ano, um bichinho inquieto começou a corroer-lhe a mente. Olhava para o filho Francisco o cabelo fino, um jeitinho meio ondulado na nuca, os olhos que lembravam lagos profundos e aquele riso escancarado, cabeça para trás como quem saboreia a vida e não reconhecia ali nada dele. Nem um trejeito, nem o queixo quadrado típico dos Costas família da mãe, de traços robustos, que não economizava nos bigodes. E ele, com aquele aspeto mais bruto, o nariz ao estilo do Zé Povinho, parecia ter-se diluído por completo nesse miúdo.

A primeira vez que tocou nesse assunto foi ao jantar, servindo-se de chá (com torradas de azeite, claro) e usando a máxima diplomacia. Mas a esposa, Mariana, era tudo menos diplomata: levantou-se como se ele tivesse acabado de lhe atirar água a ferver para a cara.

Estás maluco, João? A colher caiu-lhe para o chão e ecoou pelo azulejo da cozinha. Queres fazer um teste de paternidade? O nosso Francisco tem três anos e meio! O que é que achas que eu sou?

Oh Mariana, só fiz uma pergunta… tentou ele, esforçando-se por controlar o tom de voz, mas por dentro sentiu-se como uma francesinha mal feita: apertado e desconfortável ao extremo. Não é desconfiança, é só… querer ter certezas.

Desconfiança é pouco! ela disparou, empurrando a cadeira com tal força que quase a pôs de pernas para o ar. Olhas para o teu filho, que te adora, corre-te para a cama todas as manhãs, e pensas: será meu? Isso não é só feio, João, é… baixo!

Mariana desatou a chorar, e Francisco que estava na sala a ver a Patrulha Pata, agarrado ao boneco do Gato das Botas correu até à mãe, abraçando-se-lhe à perna, olhos escuros muito abertos, apavorados. João cedeu. Abraçou-os, resmungou qualquer coisa conciliadora, mas ficou-lhe cá dentro um peso, daqueles que nem com fado se alivia. E, claro, o bichinho das dúvidas voltou ao ataque.

Dois meses depois, eis que a ocasião surge por si: na consulta de rotina no centro de saúde, nova médica doutora Matos, com um olhar tão perscrutador que mais parecia detetive do CSI Lisboa pergunta pelo historial de doenças familiares do lado paterno. Mariana, com Francisco ao colo, responde convicta: Não, está tudo limpinho. Mas logo hesita, e acrescenta, a olhar para os sapatos: Quer dizer… não se sabe tudo com certeza.

João ficou ali, à porta do consultório, a segurar o casaco do miúdo. Aquilo espetou-lhe como um garfo nos lombos. A médica nem insistiu, mudou de conversa para as vacinas, mas para João já estava tudo dito.

O caminho até casa foi um silêncio sepulcral. Só quando Francisco já estava entretido com os Legos, João encostou-se à porta da entrada, firme como uma torre medieval:

Amanhã vamos ao laboratório, Mariana. Vamos tirar isto a limpo.

Mariana ainda estava a tirar o cachecol. Ficou branca como cal, só o nariz continuava vermelho do frio lá fora. O lábio inferior tremeu. Nos olhos, mais que medo, só fulgor de raiva.

Por causa da médica, é? É que disse aquilo porque não sei o que andaram a inventar na tua família. Não começares já!

Não é só a médica. João insistiu, olhos fixos nos dela. É que eu olho para o miúdo e não me vejo nele. E desculpa, mas alguém anda a mentir-me há quatro anos, talvez mais.

Como é que tens coragem?! Mariana quase gritava, e Francisco espreitou da sala, o bonequinho do Gato das Botas quase a cair da mão. Não confias em mim? Os casamentos vivem de confiança, João! E tu pareces um ciumento qualquer à procura de pretexto para arranjar confusão!

João olhou demoradamente para o filho, aninhado à perna da mãe. E, de repente, soube: aquele alvoroço era só cortina de fumo.

Francisco, vai brincar, querido. Amanhã vou à clínica.

Mariana ficou a olhá-lo fixamente, uma eternidade. Zangada, magoada, meio perdida, largou a luva em cima do aparador.

Faz como quiseres respondeu entre dentes.

Nessa noite, foi dormir ao lado do filho. João ouviu-a chorar pela parede fora. Francisco, a repetir: Mamã, não chores, em vez de boa noite.

Os resultados vieram passados sete longos dias. João foi buscá-los ao laboratório, a caminho do trabalho, parou o carro e abriu o envelope no elevador, sob a luz triste do neon. Probabilidade de paternidade: 0,00%. Era como se o chão lhe tivesse fugido dos pés. Ficou ali, de testa colada ao espelho frio do elevador, até a vizinha, dona Emília, entrar quase aos gritos.

Em casa, estava armado o arraial. Mariana não negou, nem fez o papel de vítima histérica. Sentou-se, muito quieta, e cada palavra parecia-lhe pesar toneladas:

E agora? O que é que dizes? Pronto, foi uma vez, um mês antes do casamento. Tive medo que descobrisses e não quisesses casar. Acreditei que não importava, que o que importava era o que tínhamos.

Pensavas… João ainda segurava o papel amarrotado. Achavas mesmo que eu ia criar um filho sem saber, enganado? Que não tinha direito à verdade?

Qual é a diferença? ripostou ela, numa raiva nova, de pé. Amavas o Francisco, não amavas? Agora já te é indiferente só porque diz no papel?

A diferença, Mariana, é que enquanto eu olhava para ele sem ver nada de mim, tu olhavas-me nos olhos e mentias, todos os dias.

Tentou manipular a conversa para o assunto do menino, das rotinas, dos sentimentos, mas João deixou de ouvir. Só restava mágoa.

No dia seguinte pediu o divórcio. Mariana, numa tentativa desesperada, mandou-lhe mensagens cheias de lágrimas, depois telefonou à mãe dele, à irmã Carolina, a amigos comuns, a ver se conseguia um circo de coitadinha. Mas João era teimoso como um burro velho.

O momento mais difícil foi quando Mariana apareceu à porta do seu novo T1, de mão dada com Francisco, vestido a preceito com camisola nova e um desenho uma casa aos trambolhões, duas figuras de palito: uma grande e uma pequena.

Pai, Francisco entregou-lhe o desenho, olhos enormes como pratos. É a nossa casa.

João, de cócoras, recebeu o desenho com cuidado.

Obrigado, miúdo, está lindo.

Pai, quando voltas para casa? a voz embargada, a tentar não chorar. A mamã chora todos os dias. Quero que fiques connosco.

Mariana assistia de lado, casaco caro, cabelo arranjado, mas as olheiras não mentiam. Olhar calculista: tinha ali o último trunfo.

João, começou, voz trémula, eu sei que errei. Não há desculpa. Mas olha para ele. Não tem culpa. Só te conhece a ti como pai. Vais mesmo cortá-lo da tua vida por uma estupidez minha?

João levantou-se devagar, desenho ainda na mão.

Trouxeste-o para falar por ti. Estás a usá-lo como escudo. Mariana, isso é feio até para ti.

Não estou! chorou ela. Ele pediu para vir! Só quero que saibas que ele não tem culpa de nada. Amavas-o antes, não amavas? O papel mudou alguma coisa?

Amor? João riu-se, triste. Não é culpa dele, nem minha. Mas contigo acabou-se o que havia. Vou deixar um mês pago no apartamento, arranjar as tuas coisas, deixar dinheiro para o que precisarem. Mas não há volta. Tu mataste isto no dia em que me enganaste.

Como és cruel… Falares assim do teu próprio filho…

Não é meu filho, Mariana. Francisco desata num choro sentido, daqueles que arrasam. João avança, instintivamente, mas trava a meio. Olha para o desenho. Baixa a mão.

Vai, Mariana. Não aqui, não à frente dele.

Ela agarra o menino, sai quase a arrastá-lo. Francisco olha em pranto por cima do ombro, gritando: Pai! Pai!. Fecha-se a porta, fica o silêncio. João senta-se no chão, no corredor, a olhar para o desenho das duas figuras de mãos dadas.

Carolina, a irmã, soube de tudo pela mãe. Florinda telefonou, a fungar, dizendo que ele abandonou a família, que Mariana ligou em prantos a pedir ajuda.

Carolina era advogada, mulher de factos, mas de coração mole quando se tratava do irmão. Apareceu no dia seguinte, carregada de sacos com mercearias.

Comeste alguma coisa? perguntou, pondo tudo em cima da bancada nova da cozinha.

Comi, mana, não precisavas. sentou-se à mesa, mãos enrugadas juntas.

Não vim para te consolar, João. Vim para perceber se tens mesmo a certeza disto tudo. Não a defendo que fique claro! mas o Francisco está agarrado a ti.

Eu sei, Carolina. Ontem ela trouxe-o, com um desenho… Chorou até não poder mais.

E pensaste reverter isto tudo?

João ergueu os olhos, com firmeza:

Já pensei muito. E pensei no nosso padrasto, que nos criou. Sempre o vimos como pai, mesmo não sendo de sangue. Se Mariana tivesse dito a verdade antes, ou mesmo grávida, talvez tivesse perdoado. Era outro tipo de escolha: minha. Não me foi dada. Preferiu anos de mentira e ainda atirou-me à cara o papel de marido desconfiado. Não consigo perdoar isso.

Mas o miúdo, João?

Não quero que ele cresça num ambiente de ressentimento. Prefiro afastar-me já, enquanto ainda pode adaptar-se, do que ficar, criar raízes e depois detestar-me ou detestá-la. Não quero que me seja só um lembrete de traição. Não seria justo para ele.

Os pais dela andam com as lamúrias todas à mãe, sabes? Já ligaram a dizer que tu é que arranjaste desculpa para escapar e deixaste o menino e a mulher à deriva.

Tolos, deixa-os falar. Dei dinheiro, deixei casa paga para um mês. Se quiserem cuidar do neto, força, está-se mesmo a ver que o verdadeiro pai nem sequer sabe ou quer saber. Não tenho de ser o responsável do bairro!

E se ela falar mal de ti ao Francisco?

João encolheu os ombros, exausto.

Vou pagar pensão, não sou obrigado, mas faço-o por vontade. Até abri uma conta do miúdo, pus dinheiro suficiente para a universidade, comprei umas ações muito jeitosas. Se ela gastar, enfim, ao menos tentei deixar-lhe bases para a vida. Mais que isso não faço. Quando tiver idade, se quiser saber, conto-lhe tudo. Se não quiser… é a vida.

Duas semanas depois, Mariana inventou uma telenovela digna da Praça da Alegria. Chorou baba e ranho à Dona Florinda, contou que João era ciumento e sempre a magoou com perguntas, agora queria sair para uma mulher mais nova. Os pais dela, a ouvirem a mesma bonecada.

Dona Florinda uivava Mariana, sentada na cozinha da sogra, lenço branco na mão como atriz em fase final de novela , ele deixou o menino. O menino chama por ele todos os dias. Dói vê-lo tão frio…

Florinda, matriarca com cabeça dura do Minho, respondeu firme após chorar pelo neto:

Mariana, sempre gostei de ti, mas ambos são adultos. Devias ter dito a verdade. O meu filho não é mau, só não aceita viver com quem lhe mente.

Então apoia-o?! Mesmo sabendo que abandonou o meu filho?

Apoio a honestidade. Tu não foste honesta, colhe o que semeaste. Gosto do meu neto, mas o João não é obrigado a viver enganado.

Mariana saiu de lá disparada. Passou então a intercalar dramas a Carolina, à saída do escritório, à hora do lanche, sempre com Francisco nos argumentos:

Carolina, preciso mesmo que me ajudes. O Francisco pergunta todos os dias pelo pai. Não dorme, não come… Faço qualquer coisa para manter a família unida! Será que não podes falar com ele, convencê-lo a dar-nos outra chance? Já nem responde sem ser pelo advogado…

Carolina olhou-a sem paciência:

Mariana, tu estás apavorada por perderes a vida fácil. O menino é a desculpa. Tens medo de ter de alugar casa, procurar trabalho a sério. Os teus pais vão atazanar-te pelo erro. E usas o Francisco como arma. Não contem comigo para esse teatro.

Mariana ficou lívida.

E tu, com o teu padrasto, não dizes nada?! Ele criou-vos sem laços de sangue!

O meu padrasto sabia onde se metia. A minha mãe foi sincera. O que fizeste com o João foi privá-lo dessa escolha. A diferença está aí.

O divórcio foi um calvário à portuguesa demorado, silencioso, cheio de coscuvilhice. João exigiu que ficasse explícito: não era o pai biológico. Mariana quis outras perícias, esperneou, mas a juíza, mais calejada que uma velhota de aldeia, não se deixou impressionar. João abriu poupança em nome do Francisco para pagar faculdade, comprou ações, tudo controlado para o miúdo só mexer aos 18 anos. O que dava para despesas do dia-a-dia ia para um cartão em nome do pequeno, mas João fiscalizava. Se notasse Mariana a abusar, bloqueava tudo.

Carolina, perplexa, notava no irmão uma frieza nova, o calor habitual dele perdido algures na estação de Santa Apolónia.

Vais superar isto, João. disse ela. A dor não dura sempre.

Se Mariana tivesse confessado antes, talvez perdoasse. Mas preferiu manipular desabafou ele, olhando para a chuva.

O mês terminou e o divórcio foi oficial. Nova vida. João voltou ao seu apartamento, Mariana já longe. Via Francisco duas vezes, em cafés de shopping, Legos e gelados. O miúdo já se habituava, menos lágrimas, só uma pergunta: Pai, vens viver connosco? João respondia sempre: Já não vou, mas vou estar sempre por perto.

Na terceira vez, Mariana não apareceu. Uma mensagem: Francisco está doente, não dá para ir. Passada uma semana, Andou cansado dos encontros, a psicóloga diz que precisa de uma pausa. João percebeu: agora era o jogo do afastamento. Mandou carta do advogado, exigindo cumprimento do acordo, mas do lado dela… silêncio.

Podia meter tribunal para um filho que nem seu era de sangue? Sim, mas decidiu, com conselho da Carolina, não atiçar o fogo. A paciência era a melhor arma. Continuou a pagar tudo, a tratar das compras online para o filho, ficou sem telefonar, sem forçar encontros. Passaram-se quase dois meses assim.

Um dia, Carolina liga-lhe aflita:

João, não te assustes. Mariana ligou à mãe. Diz que quer falar contigo, ela mesma, não advogados. O Francisco voltou ao xixi na cama, acorda de noite a chamar por ti. O médico diz que é psicológico. Mariana quer reatar as visitas.

João ficou tempos em silêncio do outro lado da linha.

Que venha amanhã ao parque, às três. Com o Francisco. Se vier sozinha, vou-me embora.

No dia marcado, João sentou-se no banco ao pé do lago do Jardim da Estrela, sol a baixar dourado. Esperou.

Mariana chegou, puxando o Francisco pela mão. O miúdo viu o pai e lançou-se, correndo, gritando Pai! num choro alto. João abraçou-o forte, sentiu-lhe o tremor.

Calma, miúdo, o pai está aqui.

Mariana ficou à distância. Olhos fundos, aspeto destruído.

João… murmurou, sei que errei. Fui estúpida ao afastá-lo de ti. Pensei que, se ficasses distante, tinhas saudades e voltavas. Foi outra asneira.

Pois foi. Mas agora não interessa respondeu sem tirar os olhos do filho, que de repente lhe contava uma história sobre o novo dragão de peluche.

Não te peço para voltares. Só peço… não desapareças da vida dele. Ele precisa de ti. Pensa que já não gostas dele…

Sentaram-se os três. Francisco entretido junto ao lago, a atirar migalhas aos pombos. João olhava, e por fim, sentiu que a ferida já não sangrava assim tanto.

À distância, Carolina supervisionava o irmão, pronta a ir lá se viesse novela. Mas percebeu que, afinal, aquilo já não era a antiga família. Era outra coisa estranha, imperfeita, mas de algum modo, mais honesta.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

Traí antes do casamento.