Todos enganavam o irmão, mas quem se sentia traída era a Vera…

Todos mentiam ao irmão, mas quem se sentia enganada era Celina…

O telefone tocou na madrugada.
Filha, está a arder, a casa está a arder pelo choro da mãe, ouviam-se crepitar das chamas, barulho e gritos distantes.
O sono dissipou-se no instante.

A casa da mãe ficava a quinze quilómetros do Porto, grandiosa, mas já cansada. A cidade engolia a aldeia, o campo avançava ao encontro das estradas novas e Celina recompunha na mente quantos anos já pesava aquela casa… Tantos.

Quem a construiu fora o bisavô paterno; ao lado, o avô levantara o segundo piso, de verão, depois, obras e mais obras, e esse andar tornou-se quente, digno de inverno rigoroso.

E assim a casa cresceu na largura, ergueu da varanda uma extensão, mostrava-se sólida, mas só parecia: fria no inverno, húmida no verão.

Apodrecia devagarinho, ruía aos poucos. Todos sabiam. Deviam demoli-la, mas a mãe teimava obras! Era a dona, viúva, decidia ela.

O dinheiro só chega para arranjar, não para fazer tudo de novo.

Mãe, para que te serve uma casa tão grande? Para uma mais pequena chega, há projetos baratos em qualquer engenheiro. Sobra espaço para as tuas flores, argumentava Celina.

Célininha, não percebes o irmão Afonso logo aparecia isto é a casa da nossa linhagem, ninho da família, património como deixar perder isto? Obras de fundo e fica nova.

Afonso era sempre o preferido da mãe; e ela, dele. Os conselhos de Celina acolhiam-se sempre com ar de má vontade, apesar de serem os melhores no momento.

Celina já percebera: cada vez que um plano do irmão caía no vazio, apoiado aliás pela mãe, ela só encolhia os ombros fizeram como quiseram.

Obras? Pois façam como entenderem.

Filha, mas precisamos de ti. Só mais um pouco, a faltar dinheiro. Vendi o apartamento que era da tia, herdámos juntas. Que ia eu fazer com aquilo longe?

Vendeste o apartamento em Lisboa? Para arranjar isto tudo? Com isso compravas quantas casas!

Só metade era minha, a outra era do primo dela. Vendi-lhe a minha parte, bem mais barata do que devia, mas não tinham outra hipótese.

Expulsaste o sobrinho do apartamento?

Não empurrei ninguém, ele quis ficar e comprou. Vendi o que podia, nem mais.

Mãe! Não precisavas. Nem nós precisamos

Deixar assim? Eu tenho a minha família.

Talvez tenhas razão. Façam vocês as obras, se querem. Se não precisam de mim, já vou.

Um mês depois, outro telefonema insone. A casa ardia. Celina e o marido Nicolau chegaram só ao que restava: cinza, madeiras calcinadas, ecos mudos.

Celina, podíamos pôr a tua mãe numa das nossas casas. O apartamento da Rua Camões está vago, sai-lhe bem.

Já pensei nisso… mas a casa é tua.

Célininha, as casas são dos dois, tudo nosso. A tua mãe tem de ser ajudada. Perdemos algum rendimento, mas sobram-nos outras. E nós temos uma.

Mas esta é mesmo tua…

Ora, não penses nessas coisas, tudo é partilhado. Fica a tua mãe, com tudo o que precisa, ajudamo-la a comprar o resto.

Levaram a mãe, renovaram-lhe o enxoval. Um dia, Celina apareceu sem aviso, com frutas e pão fresco. Uma televisão brilhava na sala que a casa não tinha. Na cozinha cheirava a café.

Mãe, disseste que tudo ardera. É a televisão que te demos nos teus anos. E esse café? Não me digas que a máquina sobreviveu?

Não ando a roubar, filha! Guardámos tudo antes das obras. Fiquei só com paredes nuas. E tinha seguro. Por isso disse que tudo desapareceu. Os móveis foram para Afonso.

Ele que tem casa nova, sem móveis?

Aqui tudo está, eles precisam mais do que eu dos lençóis velhos.

Afonso comprou casa? Com quê?

Não sei, filha! Comprou e pronto.

Celina pressentiu as omissões da mãe. Não lhe diria, mas o tempo tudo revela. Celina sempre soubera quem a mãe defendia.

O menino sempre foi azarado, tudo corria mal, toda a gente o enganava. Só Celina é que se sentia trapaceada. Até nos pequenos detalhes, ela via as manobras.

E as ruínas, mãe? O terreno é bom, dinheiro não te falta, e o seguro

O que vou eu fazer? Queimou tudo, vendo o terreno. Ainda bem que a filha é rica. Só o menino é que tem azares e dívidas.

Não queres antes comprar casa nova, com esse dinheiro?

Então esta? Vais pôr a tua mãe na rua?

Esta casa é do Nicolau.

Não vão à falência!

Podíamos reconstruir, fazer tudo bem feito, como as casas dos vizinhos, todas modernas.

Não, já decidi, vendo o terreno. Está no destino, era casa de homens, e Afonso não quer nada. Quer é cidade, facilidades.

Não te vou contrariar.

Nicolau, a mãe vai vender o terreno.

É dela. Eu punha-me já a construir. Gosto daquele lugar, era tão bom para o teu pai. Ele adorava as tardes debaixo daquela velha tília.

Custou-me tanto quando a árvore secou. Parecia sinal. Talvez devamos nós próprios erguer nova casa?

Gostava imenso. Sempre sonhámos com casa e quintal, os miúdos brincariam soltos. Depois levavam netos nossos…

Lá estás tu a sonhar alto.

Porque não? E a tua mãe podia viver ali, connosco.

Mas o terreno é dela. Temos de garantir que não nos arrependemos. Compramos-lhe o terreno.

Mas é a tua mãe!

Por isso mesmo, tem de ser tudo direito. Não pode querer mudá-lo depois. Esqueceste o meu azarado irmão?

Eu trato disso, mal ela o ponha à venda, compro. Ou pergunto-lhe já?

Não. Ela dá a volta, nunca faz de frente.

Pronto, compramos. Ela vende-nos.

Por que não me pediram logo?

Mãe, ficas com dinheiro, ainda podes comprar casa boa.

Ela calou-se, mas não comprou casa nenhuma.

Celina e Nicolau ergueram a casa, puseram ali todo o dinheiro debaixo do colchão, mais um empréstimo do banco. Pagavam sem aperto trabalho, alugueres, salários.

Quando se mudaram, ficou mais fácil: alugaram o terceiro imóvel. A mãe não comprou habitação; entregou o dinheiro a Afonso, ele acabou por perder tudo, nem o empréstimo aguentou.

Do seguro não viram cêntimo, o incêndio não foi obra do acaso. Tudo foi tirado antes, alguém deitou fogo. Nada saiu conforme os planos de ninguém.

A mãe vinha às vezes visitar.

Aqui é tudo espaçoso, mas o Afonso anda apertado, as crianças crescem, faltam quartos, só tem dois.

Bem avisei, que precisava de casa maior. A culpa foi minha, devia ter aceite reconstruir.

Eu disse, mãe, antes do incêndio. Terias tido conforto, não luxo, mas estarias segura.

Disseste. E eu agora digo: voltem para o Porto, dou-vos o vosso apartamento, vou eu viver aqui. Pode ser que o Afonso aceite vir também. Estas casas deviam passar de pai para filho.

Estás a falar a sério? Fomos nós que construímos e agora vai para os homens? Se a casa antiga não tivesse ardido, Afonso já a tinha vendido.

Direito dele. Assim é a tradição, sempre foi.

Sempre? A casa tinha só oitenta anos…

Não se discute mais. Quando fazemos a troca?

Trocar a nossa casa pelo apartamento? Nem pensar, mãe. Só te pusemos lá registada, e podíamos não o ter feito.

Pois claro, nunca vais comprar nada, deste tudo ao azarado do Afonso. Aqui, quem herda é outro. Não é ele.

Vocês têm de tudo, só ele é que não tem sorte!

Azar? Todos os bens do pai ficaram para ele, carro, poupanças, dinheiro da casa de Lisboa, até o seguro ia para ele, se houvesse. Mas nós, Celina e Nicolau, trabalhámos para isto!

Ele é só ingénuo, enganam-no!

Ingénua fui eu, sempre. Esta casa é nossa, foi paga, está no nome certo. O Afonso que venha visitar, se quiser.

Um dia, receberam visita do primo Duarte, emigrante em Lisboa.

Vim visitar os pobrezinhos. Diz a tia que vivem na miséria, sempre a precisar de esmola. Mas vejo um palacete…

Minha mãe disse isso? Pois…

Tive de pedir dinheiro emprestado, só agora paguei. Trouxe-te umas argolinhas, Celina. Mãe pediu que fossem para ti.

O resto… a tia disse logo no funeral que toda a filigrana prometera à irmã. Escondi a caixa a tempo, ela procurou, mas não achou.

Então não acreditei; hoje acredito. Estas argolas são para ti, requereu que fosse eu a entregar.

Fizeste bem esconder. Se não, tudo era para o Afonso. É sempre a mesma coisa, só ele precisa, nós trabalhamos…

Não a deixes tirar-te nada. Fica contigo, se quiseres vende, precisas mais. A tia mentiu naquela altura, cem por cento.

A sério? Vais contar?

Conto, pois.

A mãe já raramente vinha, queixava-se das pernas. Afonso não tinha tempo, estava sempre a queixar-se dos malandros. Celina e Nicolau viviam felizes, os filhos contentes. Duarte passava-lhes pela aldeia, trazia novidades. A vida seguia o seu passo, e cada um forjava a sorte como conseguia…

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Todos enganavam o irmão, mas quem se sentia traída era a Vera…