Todos enganavam o meu irmão, mas a enganada sentia-me sempre eu, Aurora
O telefone tocou em plena madrugada.
Filha, está a arder! Temos fogo em casa ouvi por entre os soluços da minha mãe e o crepitar das chamas, o barulho, os gritos ao fundo.
O sono evaporou-se num instante.
A casa da minha mãe ficava a quinze quilómetros da cidade, uma casa grande mas já velha. A cidade crescia e a aldeia vinha-lhe ao encontro. Comecei a pensar em quantos anos teria aquela casa em quantas histórias sonolentas ouvira sobre ela.
Construída ainda pelo bisavô do meu pai, depois ampliada pelo avô, que fez um segundo piso de verão e, anos depois, o tornou habitável e acolhedor para o inverno. Mais tarde ainda, estenderam-na para o lado com uma marquise.
A casa era robusta de aspeto, mas só de aspeto. No inverno, sentia-se um frio húmido, no verão era abafada e escura. A estrutura já mostrava sinais de podridão e derrocada, e todos o sabíamos muito bem. Só que derrubá-la era impensável para a minha mãe era teimosa, insistia que era melhor fazer obras. O meu pai, já falecido, não estava ali para contrariar. Ela decidia.
Dinheiro há apenas para obras, não para construir de novo.
Mas mãe, para quê precisares de uma casa tão grande? Com menos ficavas bem, até um projeto de dois pisos consegues encontrar a preços bem acessíveis agora. E mais espaço para flores, as tuas queridas flores argumentava eu, pacientemente.
Não percebes, minha filha interrompia-me logo o meu irmão Artur esta é a casa dos nossos antepassados, é o ninho da família. Tem de ser preservada! Nós só precisamos de uma boa recuperação e fica tudo como novo.
O Artur estava sempre do lado da mãe, e ela sempre do lado dele. Os meus conselhos eram recebidos sempre de má vontade, mesmo que visassem ajudar realmente toda a gente não só naquela situação, mas em tantas outras.
Aprendi isso à força. Quando mais um plano mirabolante do Artur, com apoio da mãe, ia por água abaixo, eu limitava-me a encolher os ombros foi decisão deles.
Obras, pronto. Façam as obras.
Mas filha, precisamos de uma ajuda tua uma pequena ajuda se não chegarmos para tudo. Vendi o apartamento da tua tia, aquele que herdámos. Para quê um apartamento em Lisboa, tão longe?
Vendeste o apartamento em Lisboa? Para arranjar esta casa? Dá para construir mais do que uma!
Só metade do apartamento era minha, a outra ficou para o filho dela.
E obrigaste o rapaz a vender? Enfim, deixaste-o sem nada.
Não o obriguei, ele comprou a minha parte. Até vendi por menos, mas era tudo o que conseguiam.
Oh mãe, nem tu nem nós precisamos desse dinheiro, podias tê-lo dado ao menos
Dar?! Eu tenho a minha família.
Talvez tenhas razão. Façam as obras. Mas se de mim não precisarem, vou-me embora.
Passou-se um mês e recebi aquele telefonema de madrugada. A casa estava a arder. Chegámos, eu e o Paulo, já só havia escombros. Nada a fazer.
Aurora, sugiro levar a tua mãe para um dos nossos apartamentos. O T1 da Av. da Liberdade está livre, os inquilinos saíram agora.
Pensei nisso, mas o apartamento é teu.
Nosso, Aurora. Todos os apartamentos são nossos. A tua mãe precisa de ajuda. Menos renda de um, mas sobramos dois além do nosso.
Mas esse é mesmo teu.
Não te inquietes, tudo nosso. A tua mãe vive lá. Tem móveis, tem as coisas essenciais. Se faltar algo, compramos.
Levamos a minha mãe, tratámos do que faltava. Um dia fui lá sem avisar, com sacos de compras, só para ver como estava. O que encontro? A televisão que lhe oferecemos no aniversário e o cheiro da sua marca habitual de café.
Mãe, mas disseste que tudo tinha ardido. Esse é o televisor que oferecemos no teu aniversário. E essa máquina de café, não era a tua antiga?
Achas que roubei alguma coisa? Levámos tudo antes das obras. Só estavam as paredes. Havia seguro, por isso disse aquilo. Os móveis ficaram com o Artur.
Ele tem casa nova, não conseguiu arranjar móveis a tempo. Aqui já havia tudo, eles precisavam. As minhas coisas já tirei.
O Artur comprou casa nova? Com que dinheiro?
Lá saberá ele! Comprou, e eu nunca perguntei.
A verdade é que percebi: a minha mãe escondia-me alguma coisa. Nunca me diria, mas eu acabaria por descobrir. Sempre soube que tudo o que fazia era pelo Artur.
O meu irmão sempre foi azarado, nunca nada lhe saía bem, todos o enganavam. Nunca percebia, ou fingia. E, no entanto, quem sentia o verdadeiro engano era eu. Sempre suspeitei que havia alguma manha escondida.
E o que vais fazer agora? O terreno é bom, ainda tens dinheiro, e há o seguro.
Agora? Está tudo ardido, vendo o terreno. Casa já tenho. Filha rica é outra coisa, mas o pobre do Artur, só dívidas, dívidas
Não queres usar o dinheiro para comprares um apartamento para ti?
E este? Vais deitar a mãe à rua?
Este é do Paulo.
Não hão de ficar a perder!
Então reconstroem-se as casas, fazem-se novas e bonitas. Os vizinhos todos já têm mansão.
Não, já decidi, vendo o terreno. Era a tradição: a casa passava sempre para os homens, mas ao Artur não interessa. Só quer coisas da cidade.
Não te vou convencer.
Paulo, a minha mãe vai vender o terreno.
É o que ela quiser, mas até preferia construir lá uma casa. O sítio é ótimo, sempre me lembro de passear lá. O teu pai gostava tanto de estar debaixo da velha tília.
Também me custou quando secou. Senti quase como um aviso. Talvez devêssemos construir nós. Sempre sonhámos com uma casa
Eu adorava viver lá. E os miúdos iriam adorar, podiam crescer com espaço, quando viessem os netos seria uma alegria.
Sonhador
Porque não? Que viva lá a tua mãe, depois. Mas temos de comprar o terreno para ser legal. Sabes como são as coisas.
Mas é a minha mãe!
Pois, e com isso tudo legal, depois não pode contestar. Já te esqueceste do teu irmão?
Trato disso, logo ela põe à venda. Ou talvez tentamos comprar diretamente.
Assim talvez, se a apanharmos de surpresa.
Porque não vieram ter comigo diretamente?
Mãe, tu precisas de dinheiro. Assim podes comprar um bom apartamento.
A minha mãe calou-se, mas comprar apartamento ficou para as calendas
Eu e o Paulo construímos o nosso lar. Para isso esgotámos as poupanças e ainda fomos ao banco pedir crédito. Mas corria tudo bem, entre ordenados e as rendas dos outros apartamentos.
Quando mudámos, tornou-se tudo mais fácil alugámos o T3 onde vivíamos. A mãe acabou por entregar o dinheiro ao Artur, que se afogou na hipoteca.
O seguro nunca saiu; soubemos depois, o incêndio não tinha sido por acaso, haviam retirado tudo antes, a casa foi posta a arder de propósito. O resultado não foi o que esperavam.
A mãe vinha a nossa casa poucas vezes.
Está aqui tudo tão cómodo mas o Artur, coitado, vive apertado, os meninos cresceram, falta espaço, só têm dois quartos.
Avisámos para comprarem uma casa maior, mas não quiseram ouvir. A casa era boa, foi pena não termos construído outra logo de início.
Disseste, sim. Eu, para dizer a verdade, bem sugeria que vocês voltassem para a cidade. Dava-vos o vosso apartamento, eu ficava aqui, talvez o Artur viesse comigo. A casa deveria passar para o filho homem, ou seja, para o Artur.
Estás a falar a sério, mãe? Nós é que fizemos tudo, mas a casa passa para o Artur?
Era a tradição. Se não tivesse ardido, ele já teria vendido.
É direito dele. Assim foi sempre.
Sempre a casa nem chega ao século, mãe
Não vamos discutir. Quando fazemos a troca?
Trocar a nossa casa pelo nosso apartamento? Registámos-te lá para te ajudarmos, mais nada. Não tínhamos de o fazer.
Tu já não vais comprar casa nenhuma, deste tudo ao azarado do Artur. A herança desta casa será outra e não para ele.
Têm muito mais do que ele, nunca teve sorte!
Sorte? O dinheiro do apartamento de Lisboa foi para ele, o seguro também seria, tudo o que ficou do pai, poupanças, carro, tudo. Ele não teve sorte e nós temos? Isto foi fruto do nosso trabalho, meu e do Paulo!
Ele é ingénuo, enganam-no!
A verdadeira enganada fui sempre eu, pronto! Esta casa agora é nossa, esta terra é nossa, tudo legal, tudo comprado. O Artur que venha visitar se quiser.
Um dia apareceu o Joaquim primo direito, vindo de Lisboa.
Vim ver os pobres da família, tia disse que viviam mal, a precisar de dinheiro Chego cá e vejo isto.
Foi isso que a mãe disse? Pois, claro.
Tive de pedir empréstimo, agora é que acabei de pagar. Trouxe-te uns brincos, Aurora, a mãe pediu para ta entregar.
O resto logo a tia, ainda no funeral da tua mãe, queria tudo que era ouro, disse logo que a irmã lhe prometera. Escondi a caixa, andava feito lince à procura.
Ainda bem que a escondeste, senão era mais para o Artur. Trabalhadores somos nós, a mãe só dá ao filho.
Não lhe devolvas nada, fica para ti, vende se precisares. Foi tudo mentira, isso posso garantir.
A sério? Vais contar-me?
Vou
A mãe raramente vinha, as pernas doíam. O Artur, como sempre, andava ocupado era sempre enganado, dizia-se. Eu e o Paulo vivíamos tranquilos e felizes, os nossos filhos contentes, o Joaquim agora vinha sempre visitar-nos. A vida continua, cada um vai fazendo a sua sorte, como podeUm dia, numa tarde de outubro, sentei-me no jardim novo, as folhas castanhas dançavam ao vento. O Paulo brincava com as crianças, e eu olhei tudo à minha volta a casa era realmente nossa, mas não era a casa antiga. Era diferente até nos cheiros e nas janelas viradas ao sol.
Pensei na mãe, no Artur, nas histórias repetidas de enganos e azares. Sorri. Era tudo passado. Não herdámos paredes, mas herdámos a mania de cuidar dos outros, de oferecer sempre um pouco mais do que podíamos. No fim, não era o ouro nem a terra que pesava, mas a liberdade de fazer a nossa própria história.
Recebi uma mensagem curta do Artur: Aurora, emprestas-me dinheiro? Nem fiquei triste, nem zangada. Enviei-lhe uma foto das crianças, do jardim, escrevi: Vem, aparece. Casa cheia, mesa farta, chão seguro. Ficam sempre amigos à espera.
A verdadeira herança, percebi ali, era saber fechar a porta atrás do que ardeu e abri-la para quem quisesse regressar.







