Todos ajudam, mas tu és sempre a especial
Querido diário,
Marisa, achas que vocês podiam vir cá hoje? perguntou a minha irmã, Joana, com aquela voz cheia de esperança. O Miguel foi para Lisboa, e estou tão aborrecida sozinha com os miúdos.
Fechei os olhos e esfreguei a cana do nariz, buscando rapidamente em pensamento uma desculpa convincente. Se dissesse que tinha trabalho urgente, a Joana não ia acreditar é sábado. Se inventasse que estava cansada, ia começar o interrogatório: conselhos, sermões e tudo mais. Mordi o lábio, inspirei fundo e preparei-me para responder.
Joana, hoje não vai dar mesmo tentei pôr pesar na voz. A Beatriz está constipada, ficamos por casa, nem pusemos o pé fora.
Do outro lado, uma pausa comprida. Depois ouvi um suspiro pesado e, logo a seguir, um lamento:
Que pena… podíamos conversar enquanto eles brincavam…
Revirei os olhos, ainda bem que ela não me via a expressão. Os miúdos a brincarem juntos? Claro. A Beatriz, como sempre, era quem ficava a tomar conta dos mais pequenos, enquanto nós as duas ficávamos de chá na mão na cozinha.
Sim, é mesmo pena acenei, como se ela pudesse ver. Quando a Beatriz melhorar combinamos.
Joana ainda ficou um bocado cheia de suspiros, desejou rápidas melhoras à Beatriz e desligou. Fiquei a olhar para o telemóvel com uma sensação agridoce. Aquela chamada não tinha passado dos quatro minutos e nem uma palavra sobre mim: nem sobre o meu trabalho, nem a minha saúde, nem sequer se estava bem. Só queria saber se íamos lá. No fundo, queria era uma ama grátis.
A Beatriz apareceu à porta da sala, olhando-me com atenção.
Foi outra vez a tia Joana, não foi? perguntou ela.
Assenti, pousando o telemóvel na mesinha. Beatriz sentou-se ao meu lado, enrolando as pernas por baixo dela. Tinha no rosto uma expressão entre irritação e alívio.
Mãe, não quero mais ir à casa dela desviou finalmente toda a frustração.
Ela fez uma careta e desabafou:
Ela manda-me sempre tomar conta dos primos! Obriga-me a andar atrás deles, brincar, entretê-los… O mais velho tem cinco anos! Não sou ama deles, mãe.
Olhei para a Beatriz, que só tem nove anos, e sorri sem conseguir evitar. Já sabe o que quer, o que não aceita, e sabe dizê-lo com clareza e coragem. Senti-me orgulhosa dela.
Não te preocupes afaguei-lhe o cabelo. Isso não volta a acontecer.
A Beatriz sorriu-me e retirou-se, deixando-me ali com os meus pensamentos.
Tudo é estranho na nossa família, pensei. A Joana é quatro anos mais nova e já tem quatro filhos! Eu só tenho a Beatriz. Quantos anos e energia ainda preciso para investir na minha filha? E a Joana, quatro de uma vez…
Suspirei, massajando as têmporas com os dedos. A Joana sempre achou que a responsabilidade por criar os filhos era de todos: os nossos pais, os sogros, os vizinhos, os amigos… Toda a família empenhada em ajudar nos seus quatro filhos. Todos menos ela.
Eu sempre fiz diferente. Só pedi ajuda à mãe em situações limite: quando estava doente, quando o trabalho me afogava e temia perder o emprego, ou quando já não aguentava mais. No resto, desenrasquei-me sozinha. Custou, especialmente nos primeiros anos. Mas consegui. A minha filha é uma miúda desenrascada, inteligente, cheia de garra.
Com os anos, a Joana só ficou mais exigente.
Sacudi os pensamentos pesados e levantei-me do sofá. Já tinha despachado a questão da Joana, e isso já era uma pequena vitória. O sábado chamava pelos meus afazeres: arrumar, cozinhar, tratar da roupa. Fui para a cozinha arrumar a máquina da loiça.
…
Os dias passaram com o habitual entre o trabalho e a lida doméstica. Na sexta à noite, o telemóvel vibrou: outra vez a Joana. Respirei fundo e atendi.
Marisa, então e a Beatriz, já está boa? a voz era um mel, cheia de uma preocupação fingida. Já se sente melhor?
Sim, já está uma maravilha encostei-me à parede. Anda pela casa cheia de energia.
Ótimo! Então têm MESMO que vir cá este fim de semana e ficar para dormir!
Revirei mentalmente os olhos. Lá vem outra vez o jogo do costume.
Sozinha não aguento mais insistia, num tom lastimoso. Os miúdos dão-me cabo da cabeça, o Miguel está sempre fora…
Joana, passar cá a noite não dá neguei, abanando a cabeça, mesmo que ela não visse. Mas posso aparecer de manhã para um bocadinho.
Do outro lado, outra pausa de aborrecimento. Percebia que ela queria mais. Mas depois de uns minutos lá aceitou, resignada.
…
Sábado amanheceu cinzento e fresco. Vesti o casaco, saí sozinha de casa, apanhei o autocarro para a zona dela Odivelas, meia hora até lá, mais dez minutos a pé.
Assim que abri a porta, a Joana deitou logo o olhar pelas minhas costas.
A Beatriz não veio? franzindo o sobrolho.
Está ocupada entrei, tirando o casaco. Tem testes para estudar.
Ela fez uma expressão ácida, batendo a porta com força.
Anda mesmo difícil a tua filha, hein? Nem telefona, nem aparece…
Pendurei o casaco e ouvi, ao fundo, o barulho dos miúdos aos gritos. Olhei Joana diretamente nos olhos.
Está cansada de ser a ama dos teus, Joana. É natural que não queira vir.
A Joana ficou vermelha em segundos parecia carvão a pegar lume. Olhos apertados de irritação.
É normal os mais velhos ajudarem com os pequenos! exclamou ela, voz a subir o tom.
Não é nada normal, pelo menos com filhos que não são dela respondi, sem vacilar.
Que conversa! Joana atirou as mãos para o ar. São primos dela!
Tem só dez anos, Joana reprimi a vontade de gritar. Ela é uma criança, não uma criada.
Ela chegou-se mais perto, o olhar ameaçador. Lá atrás, começou a chorar um dos pequenos, mas nem pestanejou.
Só lhe faz bem! apontou-me o dedo. Assim aprende a lidar com crianças!
Não precisa desses ensinamentos respondi, já a voz mais alta. Ela nem irmãos tem, não é obrigação dela!
Exatamente! Por isso pode muito bem aprender com os meus!
Dei um passo atrás, atónita. Nem disfarçava o propósito.
Ouves-te, Joana? Queres transformar a minha filha numa ama gratuita!
E depois, qual o problema? Estou sozinha, não dou vazão!
Então para que tiveste quatro filhos? escapou-me, sem querer.
Ela quase ficou sem ar, a cara a ficar ainda mais rubra.
A tua filha já é quase crescida! Podia muito bem vir aqui ajudar-me depois da escola!
A gota de água. Rebentou uma indignação que já vinha a crescer faz tempo.
Passaste de todos os limites murmurei furiosa. Queres que todos carreguem o peso por ti!
Só quero ajuda! não largava o osso.
Não, tu EXIGES agarrei o casaco. Achas que o mundo gira à tua volta.
A mãe ajuda! A sogra ajuda! Só tu é que não! gritou.
A mãe já não tem idade para andar atrás dos teus vesti o casaco. Merece é descanso.
Eles até gostam! tentou agarrar-me pelo braço.
Soltei-me, meti-me à porta.
Mais, Joana, nunca vais ver. Arranja outra ama.
Não olhei para trás. Saí, ouvindo os gritos e a porta ficou a tremer com o estoiro.
…
A mãe ligou ao final do dia, a voz carregada de mágoa.
Marisa, o que foste fazer? A Joana está em lágrimas, de rastos! Trouxeste a tua irmã ao ponto de um ataque de nervos!
Mãe, só disse a verdade sentei-me no sofá.
Que verdade? Que te recusas a ajudar a tua própria irmã?! a voz dela subia de tom.
Ajudar não é ser escrava, mãe.
Ela está sozinha com quatro crianças! O Miguel não está. É tão difícil para ela!
Ela escolheu isso disse-lhe, firme. Não fui eu, nem a minha filha.
A Beatriz podia dar uma ajuda de vez em quando!
Não, mãe interrompi. A minha filha não vai ser ama de ninguém.
São da família! quase gritava.
Levantei-me, fui até à janela. Caía o crepúsculo e as luzes acendiam-se na rua.
Se querem dar a vida pelos filhos da Joana, estão à vontade disse, sem rodeios. Mas eu não, mãe.
És egoísta! acusou-me.
Tenho a minha família. O meu marido, a Beatriz. Não vou viver para a tua filha.
Desliguei, o telefone caindo-me das mãos no sofá. Escondi a cara nas mãos, suspirando.
Senti uns braços pequeninos abraçarem-me por trás. Era a Beatriz, encostou a cabeça no meu ombro.
Ouvi tudo, mãe murmurou.
Virei-me, abracei-a com força. O cheiro do shampoo dela, tão familiar.
Faço tudo por ti. Sempre.
Ela olhou-me, sorriu com aquela ternura que me desarma.
Eu sei, mãe. Obrigada.
Ficámos assim, abraçadas, a olhar para Lisboa acender-se lá fora. Imaginava a Joana, algures na cidade, a queixar-se à sogra. A mãe, certamente, a contar a história à família. Mas ali, naquele apartamento, havia silêncio e paz.
Tomei a minha decisão e não volto atrás. Mesmo que me custe a relação com elas. A Beatriz é o mais importante. A infância dela, a liberdade, o direito de ser criança.







