Toalha de linho branca, vida cinzenta

Toalha branca, vida cinzenta

O caldo-verde estava bom. Filipa sabia disso porque provou três vezes enquanto cozinhava, e em todas ficou satisfeita. A couve era nova, da feira, o chouriço bem escolhido, as batatas amassadas até quase desaparecerem, e o fio de azeite no fim, como manda a tradição. No centro da mesa, ardiam velas, a toalha branca de linho aquela, especial, que só usava mesmo quando era dia de ocasião. Quinze anos. É ocasião.

Lá fora anoitecia. Outubro em Coimbra era assim: cinzento, húmido, cheirava a folhas podres e ao fumo dos autocarros. Filipa ajeitou o garfo à direita do prato, alisou o canto da toalha mesmo já estando direito. Depois parou, ficou no meio da cozinha, ouvindo o tique-taque do relógio acima do frigorífico.

Rui chegou às oito e meia. Filipa ouviu o som da chave, o saco a cair no chão, o estalido do interruptor no hall.

Então, que tens tu aí? espreitou ele na cozinha, nem se tendo despido, o nariz rubro do frio.

Anda, lava as mãos, senta-te sorriu Filipa. Caldo-verde, frango assado, salada.

Rui despira o casaco mesmo à porta, atirando-o para uma cadeira. Olhou em redor.

Velas? Para quê?

Então, Rui É aniversário de casamento.

Ele ficou em silêncio, passou à banca, lavou as mãos à pressa, sentou-se. Filipa serviu o caldo, pousando-lhe um naco de broa ao lado, como ele gostava.

Rui cheirou o caldo, levou a colher à boca, mastigou.

Tá assim meio ácido.

Filipa sentou-se em frente.

Achas? Para mim está bem.

A minha mãe faz diferente. O dela é não sei, tem mais sabor. Verdadeiro.

Filipa pegou na própria colher.

Come, está quente.

Estou a comer girou ele o prato. Mas para quê a toalha branca? Vais sujá-la.

Não vou sujá-la.

Sim, sim resmungou Rui. A minha mãe usa sempre a bordô nas festas. Prático. E bonito.

Filipa olhava as velas. As chamas tremiam com o movimento de Rui à mesa.

Rui, disse, serena, hoje fazemos quinze anos de casados.

Eu sei.

Não disseste nada quando entraste.

Ele olhou para ela. Surpreso, quase magoado.

Era suposto? Parabéns, é isso? Vivemos juntos, não é aniversário de nascimento.

Não sei Quinze anos, Rui

Quinze anos interrompeu. Olha, e o frango?

Filipa levou o frango do forno. Dourado, com ervas no topo Rui gostava sempre de ervas.

Ficou seco disse ele, cortando.

Tirei agora.

Então deixaste demasiado tempo. A minha mãe diz que tem de ser com prata.

Filipa tirou um pouco do frango para si. Mastigava. Lá fora, um carro riscou o teto com luz.

Viste a tua mãe hoje? perguntou.

Fui lá depois do trabalho. Que foi?

Nada. Só perguntei.

Ele voltou à toalha.

Devias ter posto uma escura, Filipa, ficas logo toda séria A minha mãe sabe pôr uma mesa. Loiça certa, toalha certa, pão cortado fininho. E tu, apontou ao pão, olha só o tamanho das fatias.

Filipa pousou o garfo, não com brusquidão, apenas devagar, ao lado do prato.

Por dentro, algo contraiu e depois soltou, como um punho.

Rui, disse, a voz calma percebes o que estás a dizer?

Ele olhou aborrecido, como quem é interrompido durante o jantar.

O quê? Só disse que a comida da minha mãe é melhor. Não é ofensa.

Entraste, não disseste nada. Criticaste a sopa, a toalha, o pão, o frango. Estive três horas a cozinhar, Rui.

Pronto, e então? Queres que bata palmas? É teu dever.

Filipa calou-se um segundo.

Dever repetiu, experimentando a palavra.

Sim. Estás em casa, cozinhas. Eu trabalho, trago dinheiro. Faz sentido.

E os quinze anos? São só circunstância?

Queres o quê? Que faça poesia? sorriu Rui. A minha mãe sempre disse: menos romantismo, mais ordem, é isso que faz uma família.

A chama vacilou, um momento. Como se ouvisse algo.

Filipa levantou-se. Pegou no prato, foi à janela, olhou os telhados encharcados, as janelas amarelas, a árvore já quase despida no pátio.

Depois virou-se.

Rui, arruma as tuas coisas.

Ele levantou a cabeça.

Quê?

Arruma as tuas coisas, por favor. Vai-te.

A cara dele era de quem escuta um idioma desconhecido. Riu, seco, como tosse.

Estás a falar sério?

Estou.

Por causa do caldo-verde?

Não é por causa do caldo-verde.

Então porquê? Porque falei da minha mãe? É ridículo, Filipa.

Não acho graça.

Ofendida, é? Linkou os braços. Olha, desculpa. Senta-te e come.

Não, Rui.

Ela permanece calma à janela. Ele hesita; esperava talvez lágrimas, voz a subir, portas a bater. Não o silêncio.

Não brincas diz, devagar.

Não.

Silêncio. O relógio tica. As velas ardem.

Por causa desta conversa

Não responde Filipa. Por causa de quinze anos da mesma conversa. Vai. Leva o que precisares, o resto vens buscar depois.

Rui ficou mais um minuto. Depois foi ao quarto. Ela ouviu o barulho do armário, sacos a mexer. Sentou-se, olhou para as velas, queimavam imóveis.

Quando ele voltou, mala em punho, parou à porta.

Vais arrepender-te disse.

Talvez respondeu Filipa. Adeus, Rui.

A porta fechou-se. O trinco rodou. Ela ficou parada a ouvir os passos desaparecerem nas escadas.

Depois apagou as velas já não fazia sentido tê-las acesas e lavou a louça. Guardou o caldo-verde no frigorífico. O apetite tinha ido.

O apartamento cheirava a cebola frita misturada com humidade, típico de outubro, quando se abrem as janelas do prédio e os radiadores ainda não aquecem o suficiente.

Deitou-se quase às onze. Não dormiu logo; olhou o teto, ouviu a televisão dos vizinhos, e só conseguia pensar numa coisa: não estava a chorar. Que estranho.

***

Dona Jacinta abriu a porta antes que Rui tocasse outra vez. Sempre assim, como quem já adivinhava.

Ruinzinho! ergueu os braços. Olhou a mala. Meu Deus, que se passa?

Fui posto fora murmurou.

Quem? Aquela? Dona Jacinta recuou para o deixar passar. Não te disse? Que não era mulher para ti? Vem cá, fiz sopa como gostas, com frango.

Descalçou-se, sentou-se na cozinha. O apartamento cheirava a comida e àquele odor particular de casas de idosos: um pouco a naftalina, um pouco a remédio, por cima disso tudo, a comida.

A mãe ia de um lado para o outro, sem parar de falar.

Eu sempre vi que ela não era para ti. Mulher fria, Rui, entendes? Mulher fria não tem filhos, a natureza sabe. Come, vê como cortei o pão.

O pão, cortado em fatias fininhas. Rui fixou o olhar em si Filipa cortava sempre espesso.

Mãe sussurrou , agora não.

O quê agora? Digo a verdade! Quinze anos a aguentar-te e de que valeu? Nem filhos, nem casa decente. Prova a sopa.

Era quente, encorpada, como ela dizia. Rui comia em silêncio.

Os primeiros dias passaram como um sonho. Iam e vinham do trabalho, jantavam juntos, viam televisão. Dona Jacinta cozinhava com gosto, de manhã cedo. Trazia os croquetes da arca, punha o prato, dizia: «Tens de comer em condições, estás tão cinzento.»

Ao terceiro dia, desfez a mala dele sem lhe perguntar.

Essa camisa não leves mais, está amarrotada. Vou passar a azul, fica-te melhor.

Gosto da cinzenta disse Rui.

Gosta mas não fica bem. A azul é que é.

Calou-se. Engoliu os croquetes, o chá. A mãe arrumava, falava da vizinha do 4º, «olha, foi à vida dela e está bem», claramente insinuando algo sobre Filipa, mas Rui não escutava.

Ao fim de uma semana a mãe decidiu que os sapatos dele estavam «um desastre» e que iam à sapataria sábado.

Estão bons, mãe.

Não estão nada, já vi a sola.

Está agarrada.

Está a descolar. Sábado vamos.

Foram. Ela experimentou nele vários pares, só dos que gostava. Rui queria pretos, rasos, simples. Ela pegou nos castanhos, com fivela.

Ficam-te tão bem disse.

Não gosto.

Pareces um miúdo. Estes sim.

A vendedora fingia não ver. Rui olhou-se ao espelho da caixa: homem de meia-idade, sapatos castanhos com fivela, expressão nenhuma.

Comprou os castanhos.

À noite a mãe sentava-se em frente, contando como ele era bom rapaz, como o criara sozinha, como Filipa nunca quisera saber. Rui assentia.

Pensava, às vezes, na toalha branca. Nas velas. Não percebia porquê eram quinze anos, e daí? Festa para quê?

Pensava nisso. E no facto de ela não chorar. Não gritou, não implorou apenas ficou à janela e pediu-lhe para sair. Não compreendia onde nascera aquela calma. Esperava outra coisa, aprendeu com outra coisa, mas não com isso.

Ao fim do mês a mãe estabeleceu-lhe rotina. Não chamou rotina, só dizia: «terça tens médico, marquei», «quinta vamos à tia Zé», «sexta não chegues tarde, faço tarte.»

Rui chegou tarde numa sexta, porque houve reunião. Telefonou à mãe do autocarro, ela falou sem largar, ele com o telemóvel à orelha a olhar a noite.

A tarte estava feita. Era boa. Tudo era bom.

Rui sentou-se à mesa e sentiu um peso no peito. Não era dor. Era só um peso, constante, estranho, como se o ar ali dentro fosse pouco.

***

Três semanas Filipa viveu em nevoeiro.

Ia trabalhar, voltava, fazia algo simples para jantar, deitava-se. À noite era mais difícil: silêncio demais, ao início assustador, depois só silêncio.

A amiga Sílvia ligava dia sim, dia não. Fili, como estás? Queres vir cá? Filipa respondia que não era preciso. Sílvia veio de qualquer forma no primeiro sábado, trouxe vinho e bolachas, ficaram até tarde a falar da sopa, das velas, da mãe, da toalha certa; Sílvia escutou e dizia só «que estúpido», baixinho, e isso aliviava.

Fizeste bem disse Sílvia, antes de ir. Fizeste mesmo bem, Fili.

Tenho medo admitiu Filipa.

Passa.

Depois ficou a olhar as cortinas azul-escuro da sala Rui as escolhera, dizia: «bloqueiam bem a luz, práticas». Estavam ali há oito anos. Filipa nunca pensara nelas. Eram só cortinas.

No dia seguinte tirou-as.

Levou hora e meia o varão era pesado. Guardou-as. De repente, debaixo daquela cinzenta luz de outubro, a sala mudou. Era fria, sim, mas melhor que o breu do veludo azul.

Mudou o sofá de sítio pediu ajuda ao vizinho Sr. Aníbal, já idoso, sempre disponível. Agora, junto da janela, a luz caía-lhe de outro lado.

Estranho, mas bom.

Dormia melhor, a partir da segunda semana. Não era perfeito, mas pelo menos já não ficava a olhar o teto até às três.

No trabalho, nada mudou. Filipa era uma ótima contabilista organizada, de confiança. Não se atrasava, os documentos em ordem. Os colegas respeitavam-na, especialmente a D. Margarida, a chefe, mulher baixa, firme, sempre com brincos de pérola, que nada contava sobre si mas valorizava Filipa.

No fim de outubro, D. Margarida chamou-a.

Filipa disse, direta. Para o ano saio. Vou para casa da filha. O diretor quer que fiques no meu lugar, chefe de contabilidade.

Filipa calou-se. Depois:

Eu? perguntou, só para dizer algo.

Tu. Não vejo quem faça melhor. Aceita.

No autocarro pensou nisto. Chefe de contabilidade. Outra responsabilidade. Tinha sempre receio. O Rui, lembrava-se, disse-lhe uma vez: «Para quê carreira, se não vives sozinha, eu trago dinheiro». Aceitara isso.

Agora olhava as luzes do autocarro e pensava: porquê não?

Novembro passou com arranjos. Pintou o quarto num amarelo pálido, trocou as cortinas por linho claro. Comprou um abajur novo, laranja quente, e punha-o à noite em vez da luz do tecto. Tinha outra casa agora. Casa dela.

Comprou gerânios, colocou-os na varanda. Cheiro verde e suave, combinava com o linho e as paredes.

Trataram papéis com Rui via advogado. Calmo. O apartamento ficava para ela. Ele não barafustou talvez a mãe o convencera, talvez já não quisesse lutar.

Dezembro, aceitou ser chefe. D. Margarida apertou-lhe a mão.

Parabéns disse, e pela primeira vez sorriu mesmo.

Passou o fim de ano em casa de Sílvia, em festa barulhenta, com filhos, cães, três saladas russas. Bom, um bocadinho triste, aquela tristeza especial dos feriados. Bateu uma taça, olhou os fogos e pensou: passou um ano, estou viva, e até, quem diria, bem.

***

Para Rui, o inverno não correu bem.

A mãe quis médico. Marcou tudo clínico, cardiologista, gastrenterologista, «estás com mau aspecto, Rui, deves ser visto». Ele foi. Não encontraram nada e a mãe abanava a cabeça, aborrecida como quem queria que encontrassem, só para ter sobre que se preocupar.

O trabalho tornava-o irritável. Os colegas viam. O Gonçalo, companheiro de cigarros na escada, perguntou:

Que se passa, pá?

Nada respondeu Rui.

É de casa?

Não.

Gonçalo afastou-se. Rui ficou a olhar pela janela suja para o pátio industrial. Neve suja, calcada, manchas de óleo. Não lhe apetecia voltar nem para dentro nem a casa. Não lhe apetecia para lado nenhum.

Pensou: para onde queria ir, afinal?

Nenhuma resposta.

A mãe recebia-o todos os dias com jantar. Era bom, sim, era cuidado, sabia-o. Mas junto vinha um guião: o que vestir, onde ir, quando chegar. Se demorava, ligava. Se não atendia, voltava a ligar. Após três vezes: «Estou preocupada, Rui, onde andas?»

Numa noite de fevereiro ficou em casa do Gonçalo, viram hóquei, beberam umas cervejas. Chegou a casa quase às onze.

A mãe estava sentada na cozinha às escuras, acendeu a luz ao vê-lo e olhou de modo desconfortável.

Onde estiveste?

Mãe, avisei.

Disseste “vou-me atrasar”. Não chega. Não sabia onde estavas. Preocupei-me. Subiu-me a tensão.

Mãe

Come, guardei para ti levantou-se, pôs-lhe hambúrgueres no prato. Da próxima mantém o telefone ligado. Liguei-te três vezes.

Não desliguei, só não ouvi. Era o hóquei.

O hóquei pôs ênfase, como se fosse coisa indecente.

Rui comia e olhava a toalha.

Ultimamente justificava-se por tudo. Por chegar tarde, por aquela camisa, por não ligar, por não querer comer ou comer o errado.

Lembrava-se de dizer: «A mãe sempre sabe fazer bem». Dizia com orgulho. Agora parecia-lhe embaraçoso.

Em março, pensou arrendar um quarto. Viu anúncios, achou um barato, perto do trabalho. Contou à mãe.

Ela chorou.

Sem gritos nem acusações só lágrimas baixas. Então não te faço bem. Incomodo-te, percebo Rui.

Não arrendou o quarto.

Às vezes sonhava com Filipa. Nada de amor ou saudade, só imagens: ela na cozinha, ou num carro. Imagens banais. Acordava a olhar para o teto do apartamento da mãe, onde não havia nada.

Pensava: o que fará ela? Como estará?

E logo a seguir: há-de estar bem, já com outro talvez.

E isso irritava-o.

***

Fevereiro brilhou sem explicação. Neve limpa, branca, nas manhãs o sol doía nos olhos. Filipa pensava que devia comprar uns óculos de sol decentes.

Comprou. Rosa, de aro fino. Riu-se no espelho da ótica, porque era um riso bom, leve.

O trabalho continuava. Custava-lhe a nova responsabilidade, mas aguentava. Por vezes ficava até tarde, a fechar contas, a falar com o diretor, Sr. Manuel, homem sério, poucas falas, que prezava a ordem. Estava satisfeito, sentia-se.

Os colegas apoiavam. A estagiária, Joana, olhava-a quase admirada e às vezes trazia café sem pedir só punha na secretária. Filipa sorria, Joana corava.

Em março Sílvia insistiu: «Vens ao aniversário da minha amiga Inês». Filipa, a custo não conhecia ninguém, barulho, pose. Sílvia: “Vá, Fili, sai de casa vai valer a pena.

Inês era risonha, acolhedora, um apartamento cheio de gatos e um ficus imenso. Uma dúzia de pessoas. Nos primeiros minutos Filipa colou-se a Sílvia; depois, sentou-se ao lado de uma professora de matemática, e falaram toda a noite de livros.

O Miguel estava do outro lado da mesa. Só o notou mais tarde. Um daqueles homens discretos: baixo, cabelo já a grisalhar, camisola de lã cinzenta. Falava pouco, escutava muito. Sorria, às vezes, com verdadeira graça.

No fim da noite cruzaram-se junto à janela com chávenas de chá. Conversa fácil, descontraída. Engenheiro, trabalhava em reabilitação de edifícios, viúvo, sozinho há quatro anos a esposa morrera de doença, contou sem emoção.

Conhece a Inês há muito? perguntou Filipa.

Por causa do marido dela. Depois ficou a amizade. A Filipa é amiga da Sílvia?

Desde a faculdade.

Sorte ter assim amigas.

Muita acordou Filipa.

Trocaram contactos. Sem promessas. Ele escreveu-lhe três dias depois, convidou-a para café. Aceitou.

Encontraram-se numa pastelaria discreta perto do trabalho dela. Conversaram duas horas. Falou do divórcio, ele ouviu, sem conselhos. Depois ele falou dele. Saíram à rua, o frio já mais suportável. Perguntou se podia voltar a ligar, ela disse que sim.

Passearam à beira-rio, foram ao cinema, um jantar em abril.

***

O Miguel vivia no quinto piso de um prédio antigo. Filipa subiu com uma garrafa de vinho e um nervoso pequeno espera confusão de solteiro, disfarça tudo. É o tipo de ansiedade de quem teme ser avaliado e condenado.

Tocou.

A casa cheirava a maçã. Doce, quente, talvez canela.

Entre sorriu Miguel. Antecipei-me, há tarte no forno. Gosta de tarte de maçã?

Gosto muito.

A casa era simples. Não perfeita, só viva: livros e ferramentas nas estantes, um jornal na mesa. Sem encenações, sem vitrinas. Só vida.

Ajudou-o na salada. Cortava tomates, ele queijo. Falaram e ficaram em silêncio silêncio bom, sem pesos.

Filipa deu por si a esperar a crítica: Ficava melhor com pepino, devia ser outro molho, ou o olhar crítico que tão bem conhecia.

Mas não. Sentaram-se, ele verteu vinho, olhou a mesa, depois a ela.

Obrigado por vir.

Três palavras. Só. Bastaram.

Filipa baixou os olhos e sentiu o corpo soltar-se, uma leveza tão rara. Como se sempre segurasse algo, e agora, enfim, pudesse largar.

Já era noite. Os candeeiros acesos, via-se um ramo alto a oscilar, já com as primeiras folhinhas. O forno suspirava baixinho.

Conversaram longo tempo. Ela falou da infância, do desejo antigo de ser professora, nunca concretizado. Ele do trabalho, a recuperar prédios velhos: pensou Filipa, que trabalho bonito, reconstruir ruínas.

Quando se foi embora, ele acompanhou-a à porta.

Fico contente por nos termos conhecido disse.

No regresso pensou não nele, ou não só; pensou na tarde, na tarte, em como afinal se pode aceitar um convite sem receio de pancada. Só jantar. E sair mais leve.

***

O verão correu manso e bom.

Filipa e Miguel viam-se com frequência, mas sem pressa. Ninguém apressava ninguém. Iam juntos à feira aos sábados ela comprava hortaliça e natas, ele peixe. Cozinhavam juntos era agradável, diferente de tudo o que sabia, cozinhar sem julgamento.

Num julho, Filipa ficou a dormir em casa dele. Porque era tarde, porque era bom. De manhã, Miguel trouxe-lhe café à cama. Não como nos filmes só trouxe e sentou-se.

Vais trabalhar hoje?

Às doze.

Queres ir cedo à feira? Deve ter cereja boa.

Filipa segurou a caneca entre as mãos. Lá fora, manhã azul de verão, cheiro a terra nova, gritos distantes de andorinhas. Apeteceu-lhe chorar, mas não de tristeza: foi aquela vontade que só vem quando se percebe que se está bem.

Quero respondeu.

No outono, Miguel sugeriu a mudança para a casa dele. Sem joelhos, sem flores apenas, enquanto lavavam pratos, disse:

Filipa, e se viesses morar aqui? Acho que ias gostar. Temos muito espaço. E eu gostava.

Tenho de pensar.

Claro. Pensa.

Pensou duas semanas. Aceitou.

Em novembro mudou-se. Arrendou o apartamento, não vendeu. Levou livros, gerânios, o abajur laranja e as cortinas de linho. Miguel mudou uma estante para os livros dela. Arrumaram juntos, romances ao lado das engenharias, ficou bonito.

Em dezembro casaram, só com Sílvia e um amigo dele, Jorge, por testemunhas. Festejaram num restaurante foi simples, bom, tocante, Sílvia chorou de alegria.

Janeiro: Filipa descobriu-se grávida.

De pé na casa de banho, ficou a olhar as duas riscas. Sentou-se na borda da banheira e ali ficou.

Tinha quarenta e três anos. Sempre pensara não ter filhos Rui não quisera, ou ela, nunca falaram a sério, e o tempo passou. Os médicos não proibiam, mas ela convencera-se há muito: não calhou.

Mas sim.

Miguel estava na sala a trabalhar. Ela foi, ficou à porta. Ele percebeu logo.

Que foi? sussurrou.

Ela estendeu-lhe o teste. Ele leu, demorou uns segundos. Depois levantou-se e abraçou-a sem falar, firme e longo.

Por fim disse:

Isso é bom, Filipa. Muito bom.

Ela enterrou-se-lhe no ombro e chorou, mesmo a chorar, como há muito não fazia. Ele não se assustou, não disse “pára” segurou-a, e murmurou: “Está tudo bem. Está tudo bem”.

***

Outra vez abril. Outra vez pastelaria, outra vez à beira-rio, só que agora Filipa caminhava devagar, de lado por causa da barriga, Miguel atento ao seu braço.

Seis meses de gravidez. No emprego todos sabiam. O chefe, Sr. Manuel, disse: Parabéns, Filipa. O teu lugar está seguro não te preocupes. Joana olhava-a diferente, com aquela admiração própria das mulheres novas pelos exemplos que as inspiram.

A casa agora a casa deles enchia-se de coisas novas. Pequenas compras para o bebé: berço desmontado, um candeeiro suave em forma de lua, pilhas de roupinhas, dobradas numa gaveta. Filipa abria-a, só para ver, só para sentir. Havia ali verdade, e confiança.

De manhã, bebia chá à janela, vendo a relva despontar lá em baixo. Cheiro a terra húmida, um eco a maçã do quintal do vizinho, primeira floração. Bom, sereno.

Mas às vezes, à noite, quando Miguel dormia e ela escutava o bebé a mexer-se lá dentro, lembrava-se do passado. Não doía, não era lamento, era só como olhar uma velha fotografia: houve uma vida, pessoas. Tinha pena. De quê, não sabia bem. Talvez dos quinze anos sem resultado. Talvez de si mesma, mais nova, tão empenhada no caldo-verde e na toalha branca.

Não sabia de Rui. Sílvia contou que o vira no mercado, parecia envelhecido. Filipa anuiu, nada disse. Não lhe queria mal. Era só outra história.

***

Rui sentava-se na cozinha da mãe.

Era abril, mas ali parecia sempre inverno: cortinas pesadas, pouca luz, os mesmos objetos de sempre, o cheiro velho, a remédio, caldo e qualquer coisa mais antiga.

Dona Jacinta junto ao fogão, mexendo a sopa, a falar como sempre.

Pareces doente, Rui. Tinha dito para ires ao médico. Não àquele dos exames, esses fazem tudo mal, mas ao especialista na policlínica sete. Vou marcar.

Sinto-me bem, mãe.

Não sabes avaliar, os homens nunca sabem até ser tarde. O teu pai também dizia que estava bem

Rui olhava a toalha de quadrados azuis e brancos. Prática. Não suja, a mãe tem razão.

Ela pôs-lhe o prato à frente.

Come enquanto está quente. Hoje é de trigo sarraceno, com vaca. Gostas tanto.

Gosto disse Rui.

Pegou na colher. Era boa sopa. A mãe sabia cozinhar.

Rui sentou-se ela com chá pensaste naquela conversa da Lurdes?

Rui levantou os olhos.

Não.

Devias. Mulher decente, viúva, casa dela. Perguntou de ti.

Mãe.

O quê? Tens quarenta e cinco anos. Não é de homem estar sozinho.

Tenho mulher disse Rui, surpreendendo-se a si próprio.

A mãe olhou-o.

Onde?

Em lado nenhum. Enfiou-se de novo no prato. Quer dizer, não quero a Lurdes. Trato disso.

Como, sentado a olhar para nada? Eu vejo. Pensas na Filipa, sempre na Filipa. Para quê? Mandou-te embora! Sabes, mulheres assim

Mãe interrompeu, e ela calou-se.

Ficaram em silêncio. O relógio falava. Um pardal chilreava à janela, teimoso.

Come, arrefece disse ela, afinal. Quem mais te dá de comer, Rui?

Rui olhou o prato.

Sopa boa, mesmo. A mãe sabia, não há dúvida.

Pegou na colher e pensava. Pensava na noite de outubro, quando entrou e ralhou pela toalha, pela sopa. A mãe é que sabia.

Não sabia nada naquela altura não era a toalha. O que era, só agora começava a adivinhar. Demasiado tarde, como tudo.

Estava numa gaiola. A palavra apareceu-lhe e quase largou a colher, surpreendido. Gaiola. Antes achava que era a Filipa a comida errada, o feitio errado. No fundo, ela só cedia, sempre cedeu. A gaiola era dele, sempre foi. Trazia-a da casa da mãe, levou-a para o casamento, trouxe-a de volta.

Está bom? perguntou a mãe.

Está bom, mãe.

Sabia.

Estava satisfeita. Sem mim, perdias-te, Rui.

Ele nada disse.

O pardal gritava ainda. A primavera forçava a janela, uma faixa de luz brilhante, completamente inútil, escapava pelo tecido pesado.

Rui curvou-se sobre a sopa e acabou de comer.

***

Naquela noite de abril, Filipa estava na varanda da casa agora deles e olhava o pôr-do-sol. A barriga era grande, desconfortável, mas precisava de ar. Lá em baixo, cheiro a terra molhada, a algo jovem e sem nome, que só há na primavera.

Dentro, Miguel falava ao telefone do trabalho, tom de quem resolve. Na cozinha, esperavam duas canecas e o abajur laranja aceso, aquele mesmo.

Filipa pousou a mão na barriga. O bebé deu um pontapé, suave, lento, de fim de dia.

Olá sussurrou ela, para ninguém.

Tinha medo. Sentia-se bem. Um sossego inquieto, honesto, felicidade sem promessas nem garantias só isto: o pôr-do-sol de abril, cheiro a terra, a luz quente da casa e uma vida pequena, viva, a agitar-se por dentro.

Ficou mais um pouco.

Depois entrou.

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Toalha de linho branca, vida cinzenta