Tínhamos grandes esperanças de que a minha mãe iria reformar-se, mudar-se para o interior e deixar p…

Tínhamos grandes expectativas de que a mãe se reformasse, mudasse-se para o campo e nos deixasse a mim e ao meu marido o seu apartamento de três assoalhadas!

Quero contar-vos sobre a minha vizinha, Dalila. Ela tem agora 68 anos. Costumava viver sozinha no seu apartamento espaçoso, cheio de plantas com nomes que nunca me lembro. Recentemente, Dalila arrendou o seu apartamento de Lisboa e partiu numa viagem estranha, quase como se tivesse sido levada por um sonho de verão.

A filha dela, Mafalda, veio até mim, com os olhos tão grandes como janelas abertas para o mar:
O que será que a minha mãe anda a fazer? Desiludiu-me tanto! Agora a minha sogra grita pelos cantos da casa que eu também vou enlouquecer na velhice. Diz ela que quem sai aos seus não degenera. Eu e o meu marido acabámos de pedir um empréstimo automóvel! Temos duas prestações de atraso, e fiquei a contar tanto com a ajuda da mãe. Mas agora a mãe arranjou inquilinos e foi ver o mundo!

Fiquei a olhar para Mafalda como quem vê a chuva cair em pleno agosto: por que motivo a mãe dela haveria de pagar o empréstimo do carro deles? A Mafalda continuava, como um rio que não se detém:
A minha sogra está furiosa por morarmos com ela, enquanto a minha mãe arrendou o seu T3!

Vi logo que Mafalda procurava simpatia, talvez um chá de camomila partilhado na cozinha. Mas, para mim, Dalila fez muito bem. Ela merecia viver como lhe apetecesse. Porque será que acham que, ao reformar-se, uma mulher deve viver apenas em função dos filhos e netos? Não é justo, disse-lhe eu:
Porque não confias em ti e no teu marido? Nas vossas próprias pernas? Tiveram quinze anos de casamento podiam ter dedicado esse tempo a comprar uma casa só para vocês. Assim, a tua sogra nem te tinha ditos amargos.

Mafalda contou-me então:
Eu acreditava tanto que, ao reformar-se, a minha mãe ia mudar-se para o Alentejo e deixar-nos o apartamento! Era o nosso sonho.

Decidi brincar com Mafalda, como se estivéssemos a sonhar acordados:
E se Dalila casasse novamente? Lembras-te da amiga que foi de férias ao Algarve, conheceu um senhor simpático numa esplanada e casou com ele lá mesmo? Agora vive alegre pelo sul de Portugal. Quem sabe se Dalila não faz o mesmo?

Mafalda olhou para mim como quem vê um peixe voador: num misto de espanto e incredulidade. Vi há dias umas fotografias de Dalila na internet. Ela dizia que estava a descansar no Douro e a aproveitar a vida. Fiquei feliz por ela. Acho mesmo que fez o certo. A idade não é muralha que separe a felicidade; é apenas mais uma porta para outras alegrias e para quem quer continuar a sonhar, até mesmo acordada.

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Tínhamos grandes esperanças de que a minha mãe iria reformar-se, mudar-se para o interior e deixar p…