Tenho vergonha de te levar ao jantar de gala – disse o Denis sem levantar os olhos do telemóvel. – V…

Tenho vergonha de te levar ao jantar, disse Duarte, sem sequer tirar os olhos do telemóvel. Vão lá estar pessoas. Pessoas normais.

Leonor estava junto ao frigorífico com um pacote de leite nas mãos. Doze anos de casamento, dois filhos. E agora, vergonha.

Eu visto o vestido preto. Aquele que tu próprio compraste para mim.

Não é do vestido que se trata, olhou-a por fim. É de ti. Deixaste-te ir. O cabelo, o rosto… estás apagada. Vai estar o Vasco com a mulher. Ela é estilista. E tu… já percebes.

Então não vou.

Ai é que fazes bem. Digo que estás com febre. Ninguém diz nada.

Duarte foi para o banho e Leonor ficou ali, no meio da cozinha. Na sala ao lado, os filhos dormiam. Martim, dez anos. Mafalda, oito. A renda, as contas, as reuniões de escola. Dissolveu-se naquela casa e o marido começou a ter vergonha dela.

Ele passou-se da cabeça? Matilde, a amiga cabeleireira, olhava-a como se Leonor tivesse anunciado o fim do mundo.

Vergonha de levar a mulher ao jantar? Quem é ele?

Chefe de armazém. Foi promovido.

E agora a mulher não chega? Matilde encheu a chaleira com água a ferver, brusca, zangada. Ouve bem. Lembras-te do que fazias antes dos miúdos?

Fui professora.

Não do emprego. Fazias bijutaria. De missangas. Ainda tenho aquele colar com a pedra azul. Toda a gente pergunta onde comprei.

Leonor recordou. Passava serões a compor bijutaria, quando Duarte ainda lhe lançava olhares curiosos.

Isso foi há muitos anos.

Mas sabes fazer. Voltas a tentar, Matilde aproximou-se. O jantar é quando?

Sábado.

Perfeito. Amanhã vens cá. Trato do cabelo e maquilhagem. Ligamos à Olívia tem vestidos. E tu levas as tuas bijus.

Matilde, ele disse…

Que se lixe o que ele disse! Vais ao jantar. E ele vai ficar sem chão.

O vestido que Olívia trouxe era de ameixa, longo, de ombros descobertos. Uma hora a experimentar, a ajustar, alfinetes por todo o lado.

Para esta cor precisas de um acessório especial, Olívia rodopiava à volta. Prata não fica bem. Ouro também não.

Leonor abriu uma caixa velha. No fundo, embrulhado em pano suave, estava o conjunto colar e brincos.

Aventurina azul, feito à mão. Fizera-o há oito anos para uma ocasião especial que nunca chegou.

Meu Deus, isto é uma peça única, Olívia ficou imóvel. Foste tu?

Fui.

Matilde fez um penteado ondas soltas, simples. Maquilhagem discreta mas marcante. Leonor vestiu o vestido, prendeu os acessórios. As pedras pousaram frias e pesadas ao pescoço.

Vai ver-te ao espelho, Olívia empurrou-a.

A mulher do reflexo não era a que passou doze anos a esfregar chão e fazer sopa. Era ela. Aquela que tinha sido.

Restaurante na marginal. Salão cheio de mesas, fatos, vestidos, música. Leonor entrou tarde, como planeado. As conversas calaram-se por segundos.

Duarte estava ao pé do bar, ria-se com um amigo. Viu-a o seu rosto congelou. Leonor passou sem olhar, sentou-se numa mesa ao fundo. Costas direitas, mãos calmas no colo.

Desculpe, este lugar está livre?

Homem de uns quarenta e cinco anos, fato cinza, olhos atentos.

Está.

Miguel. Sócio do Vasco noutro negócio. Pastelarias. E a senhora?

Leonor. Mulher do chefe de armazém.

Olhou para ela, depois para as joias.

Aventurina? Trabalho manual, reconheço. A minha mãe colecionava pedras. Raro ver algo assim.

Fui eu que fiz.

A sério? Miguel inclinou-se, examinando a peça. Isto está noutro nível. Vende?

Não… Sou dona de casa.

Estranho. Com talento desses não se fica em casa.

Passaram a noite a falar. De pedras, de criar, de como as pessoas se perdem a si mesmas na rotina.

Miguel convidou-a a dançar, trouxe espumante, riu. Leonor notava Duarte a observá-la de longe. O rosto dele escurecia a cada minuto.

Ao sair, Miguel acompanhou-a ao carro.

Leonor, se quiser voltar ao artesanato, ligue-me, entregou-lhe um cartão. Conheço quem precisa disto. A sério precisa.

Ela aceitou o cartão e acenou.

Em casa, Duarte perdeu a calma logo.

O que é que tu armastes lá dentro? O Miguel, toda a noite! Estavam todos a ver! Todos viram a minha mulher a armar-se para outro homem!

Eu não me armei. Conversei.

Conversaste! Dançaste com ele três vezes! Três! O Vasco perguntou o que se passava. Fiquei envergonhado!

Estás sempre envergonhado, Leonor tirou os sapatos, deixou-os junto à porta. Vergonha de me levar, vergonha de me olharem. Não há nada que não te faça vergonha?

Cala-te. Achas que um trapo novo faz de ti alguém? Não és ninguém. Dona de casa. Gastas o meu dinheiro, agora queres brincar às rainhas.

Antes teria chorado. Ter-se-ia deitado a um canto. Mas algo se partiu. Ou encaixou.

Homens fracos têm medo de mulheres fortes, disse ela baixinho. Tens complexos, Duarte. Tens medo que eu perceba quão pequeno és.

Sai daqui.

Vou pedir o divórcio.

Ele ficou calado. Olhou-a não era raiva que tinha nos olhos, era confusão.

Vais com os miúdos? Com as tuas miçangas não sobrevives.

Sobrevivo.

Na manhã seguinte, pegou no cartão e marcou o número.

Miguel não apressou. Encontravam-se num café, falavam de negócios. Contou de uma amiga com uma galeria de peças únicas. Que o feito à mão agora é apreciado, que já ninguém quer coisas sem alma.

É muito talentosa, Leonor. Raro encontrar talento e bom gosto juntos.

Começou a trabalhar de noite. Aventurina, jaspe, cornalina. Colares, pulseiras, brincos. Miguel recolhia e levava à galeria. Em uma semana, telefonava vendera tudo. Pediam mais.

O Duarte sabe?

Nem me fala.

E o divórcio?

Tenho advogada. O processo começou.

Miguel ajudou. Sem espetáculo, sem heróis. Deu contactos, ajudou-a a encontrar apartamento. Ao fazer as malas, Duarte riu-se na porta.

Uma semana e voltas de rastos.

Ela fechou a mala e saiu sem responder.

Seis meses. T2 na periferia, filhos, trabalho. Encomendas a chegar sem parar. Propuseram-lhe uma exposição. Leonor abriu página nas redes, publicava fotos. Seguidores aumentavam.

Miguel aparecia, levava livros aos miúdos, ligava. Nunca pressionava, não se impunha. Apenas estava lá.

Mãe, gostas dele? perguntou Mafalda um dia.

Gosto.

Nós também gostamos. Ele não grita.

Um ano depois, Miguel fez-lhe o pedido. Sem joelhos, sem rosas. Só disse ao jantar:

Quero que venham viver comigo. Todos.

Leonor estava pronta.

Dois anos passaram. Duarte andava pelo centro comercial. Depois do despedimento arranjou trabalho como descarregador o Vasco soube do comportamento dele pela boca de um colega e despediu-o em três meses. Quarto alugado, dívidas, solidão.

Viu-os à porta de uma ourivesaria.

Leonor de casaco claro, cabelo arranjado, ao pescoço a mesma aventurina. Miguel de mão dada com ela. Martim e Mafalda riam, falavam entusiasmados.

Duarte parou junto à montra. Viu-os entrar no carro. Miguel abriu a porta a Leonor. Ela sorriu.

Depois, olhou o seu reflexo no vidro. Casaco roto, rosto cinzento, olhos vazios. Perdera uma rainha. E ela aprendeu a viver sem ele.

E essa foi a sua maior condenação perceber, demasiado tarde, o que teve

Obrigada, queridos leitores, pelos vossos comentários tão certeiros e gostos!

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