Também me faltava o ar
O Sérgio anunciou aquilo num domingo à noite, enquanto Inês dividia as camisas engomadas em pilhas organizadas pela cor. Ele entrou no quarto, sentou-se à beirinha da cama e largou a notícia como quem se queixa de uma torneira a pingar.
Inês, estou a sufocar.
Ela não levantou os olhos, apenas pousou uma camisa e pegou noutra.
A sufocar com o quê?
Com isto tudo. Com a rotina. Isto de ser sempre a mesma coisa. Acordar, comer, conduzir, voltar, jantar, ir para a cama. E depois, repetir.
Inês endireitou os punhos, acertou o colarinho. Tinha cinquenta e um anos, o Sérgio cinquenta e três. Vinte e seis anos naquela casa na Avenida das Laranjeiras, criaram o filho Bernardo, que agora vivia no Porto e telefonava nas datas festivas.
E o que sugeres? perguntou ela, tão calma como se pedisse o sal.
Acho que preciso de sair.
Ali ela parou. Não por medo, mas porque ficou a olhar para ele com a cara de quem ouve algo há muito anunciado.
Sair para onde?
Alugar um apartamento. Ficar sozinho. Respirar.
Está bem disse Inês, já a pegar em mais uma camisa.
Sérgio esperava outra reação. Avançou ligeiramente no colchão.
Não tens nada a dizer sobre isto?
O que queres que diga? Já és crescido, Sérgio. Se queres ir, vai.
Não vais fazer nenhum drama?
Ela terminou a pilha, pousou a camisa e olhou-o de frente.
Não. Mas tenho um requisito.
Qual?
Não me telefones com dúvidas domésticas. Onde está isto, como ligo aquilo, para que lado meti o ferro de engomar. Se foste embora, que seja à séria.
Ele ficou em silêncio um bocado.
Só isso?
Só.
Sérgio ficou perdido, desarmado. Esperava lágrimas, acusações, talvez um discurso sobre os anos juntos, o filho, as tardes de domingo, o que é suposto fazer-se. Até tinha respostas ensaiadas. Mas ela limitou-se a continuar a engomar camisas.
Pronto disse ele, por fim. Então vou arrumar as minhas coisas.
Força.
Ele foi até ao roupeiro. Ficou lá dentro, a olhar para as prateleiras como se esperasse que a roupa se arrumasse sozinha. Depois começou a pôr na mala uns jeans, T-shirts, meias. Pegou na máquina de barbear, no carregador do telemóvel, num livro que estava parado há meio ano. Apareceu no corredor. Inês já estava na cozinha a fazer barulho com a loiça.
Vou andando disse ele, num tom de quem vai só ali ao café.
Boa sorte respondeu ela, sem se virar.
A porta fechou-se atrás dele. Ele ficou no patamar, na expectativa. Nada. Nenhum passo apressado, ninguém a abrir a correr para impedir. Silêncio absoluto.
Carregou no botão do elevador.
***
Arranjou casa em dois dias, pelo primo Manel. Um T1 modesto na zona da Penha de França, no quarto andar, com janelas para o quintal das traseiras. O senhorio, um senhor já com bigode à antiga, mostrou-lhe tudo em cinco minutos, recebeu dois meses de renda seiscentos euros por mês, um assalto e despediu-se. A casa tinha um sofá já com marcas de outros corpos, mesa, dois cadeirões de vime, um frigorífico que devia ter saído diretamente das páginas do Cuide da sua casa de 1982, e um fogão a gás que ameaçava explodir só de olhar para o botão. Nas janelas, cortinas cor de mostarda entristecida.
Sérgio pousou a mala, sentou-se no sofá e inspeccionou.
O silêncio era total. Ninguém a andar de um lado para o outro, ninguém a ligar a televisão na telenovela, ninguém a chamá-lo para jantar. Deitou-se de costas, cruzou os braços atrás da cabeça, e pensou: é isto. Liberdade, finalmente.
Os dois primeiros dias: óptimos. Acordava quando lhe apetecia, comia aquilo que bem lhe desse na gana basicamente o que comprara às três pancadas no supermercado e vagueava pela casa só de meias sem dar satisfações. À noite, ligava ao Abel, o amigo das estopadas do Politécnico, e ficavam à conversa. O Abel dava-lhe sempre força: Fizeste tu muito bem, pá, já era altura!. O terceiro dia, ali no meio do entusiasmo, foi quando percebeu que já não restavam meias limpas.
Olhou para a máquina de lavar em modo desafio, plantada na casa de banho. Pequena, redonda, o olho de vidro a prometer mais complicações do que um hipermercado ao domingo de manhã. Abriu a porta, espreitou para dentro, fechou, voltou a abrir. O senhorio dissera qualquer coisa sobre um detergente no armário das limpezas. Encontrou um pacote Para roupa branca e de cor e despejou a olho no compartimento que lhe pareceu certo. Escolheu um programa, carregou no botão.
A máquina começou a dar luta, a tremer como se dançasse corridinho.
Uma hora depois, estava a pendurar as meias húmidas e desconfiadamente cor de rosa no aquecedor. Tudo graças à brilhante ideia de lavar também a t-shirt vermelha do Benfica junto com as meias brancas. Toda uma obra de arte. As meias acabaram de secar já na noite seguinte.
No quarto dia, resolveu cozinhar uma refeição à sério. Comprou peito de frango, batatas, cebolas. Vasculhou as prateleiras, encontrou uma frigideira com todo o revestimento na casa de banho Clorox. Pôs no fogão, deitou óleo. O óleo guinchou, atirou o peito inteiro (fatiar para quê?), que ficou imediatamente colado à frigideira. Descasca batatas às três pancadas, metade foi para o lixo agarrada à pele. A cebola arranjou maneira de o pôr a chorar de modo tão deprimente que até os vizinhos devem ter ouvido.
No prato, o resultado era uma mistura bege-escura, rija por fora, crua por dentro.
Comeu metade só para enganar a fome, o resto atirou ao lixo e acabou a encomendar um bacalhau à brás do café ao lado.
Ao fim de uma semana começou a fazer contas ao dinheiro gasto em entregas. Dava quase o mesmo que o orçamento mensal de supermercado que tinha com a Inês. Resolveu que era hora de puxar dos galões: cozeu arroz, saiu-lhe bem; animou-se um pouco.
Mas a vida doméstica foi-se instalando, pegajosa, lenta, como o nevoeiro em março no Douro.
***
O clique deu-se ao décimo dia.
Tomava banho, reparou que a água dos pés deixara de correr. Olhou: uma poça turva a subir-lhe pelos tornozelos. Fechou a torneira, esperou, nada. Esfregou o ralo com o pé, nem sinal. Era o sipe, lembrou-se aquela coisa que a Inês dizia sempre: Precisas de limpar o sipe, senão isto entope! e ele acenava com a cabeça, só para se despachar.
Ajoelhou-se, pôs a cabeça debaixo do lavatório, viu dois canos, uma peça de plástico a ligar. Deu-lhe um toque meio displicente e aquilo cedeu logo, de repente, e saiu uma ventania de água fria, escura e revoltada pelo chão da casa de banho.
Levantou-se num pulo, escorregou, agarrou-se à toalha, que logo caiu e ficou encharcada. Tentou aparafusar tudo outra vez, mas a água não parava. Corria para o tapete, e este chupava a enxurrada como se a vida dependesse disso.
Ainda de meias molhadas e cuecas, foi a correr ao telemóvel à procura de tutoriais. Depois lembrou-se do que o senhorio tinha dito sobre uma válvula debaixo da banca da cozinha. Lá foi desligar, finalmente.
De volta à casa de banho: cenário pós-inundação. Tapetes, toalhas e chão a chorar água. Do sipe pingava.
Sentou-se no hall, de cuecas ensopadas, a contemplar o universo. O primeiro pensamento foi: Vou já ligar à Inês, ela que diga o que se faz. Já com o nome dela carregado, ouviu-lhe a voz ecoar: Não me chames para coisas da casa.
Largou o telefone.
Acabou por ligar, claro está, ao Abel.
Ó Abel, sabes consertar um sipe?
O quê? Abel sempre tão prestável.
O sipe da banheira. Está tudo a alagar-se!
Epá, eu nisso sou como os padres: chamo sempre o picheleiro. Dá cá um número, conheço um impecável.
Lá veio o picheleiro, enroscou um vedante novo numa rapidez e cobrou vinte e cinco euros.
Isto é o preço normal? arriscou o Sérgio, já sem dignidade.
É o que é disse o homem, saindo.
Sérgio ficou a pensar que a Inês nunca chamava ninguém por estas ninharias. Ela mesma ia à loja dos chineses, desenroscava, trocava. Ele nunca esteve atento ao como ou ao quando; acontecia, ponto. Como a chuva em Lisboa.
***
Entretido nestes dramas, ocorreu-lhe uma ideia que lhe parecia genial.
Pegou no telemóvel e ligou à Cláudia, velha amiga, com quem quase tinha tido um romance antes de conhecer a Inês, lá pelos idos dos anos 90. Estava divorciada há já algum tempo, sabia-o das histórias do Abel. De vez em quando cruzavam-se em festas de anos alheias.
Cláudia, olá, sou o Sérgio Santos.
Ó Sérgio! Ela soou surpresa, mas não desagradada. Há quanto tempo!
Olha, eu agora… estou por minha conta. Pensei, se calhar podíamos jantar um destes dias, pôr a conversa em dia.
Ela hesitou.
Por tua conta… estás separado?
Andamos por aí, a fazer por isso.
Pois. O tom dela ficou um tantinho profissional. Vamos a isso, sem pressas.
Encontraram-se numa pastelaria do Chiado. Cláudia de gabardine novo, ar elegante, cabelo curtinho. Ele reparou que estava melhor que nunca. Pediram um copo de tinto, revisitaram conhecidos comuns. Depois ela perguntou:
E então, o que fazes agora?
Continuo na construtora. Chefe de aprovisionamento.
E a viver onde?
Aluguei ali um T1 na Penha de França.
Está bem lá?
Quis dizer sim, disse antes:
É… tolerável. A máquina de lavar é uma desgraça e o fogão caprichoso.
O olhar que ela lhe devolveu era de uma compaixão cinzenta, distante. Uma dessas que se tem para alguém que tem a vida meio remendada.
Pois repetiu ela.
A conversa já não deslanchou. Ela falou da filha, ele do Bernardo. Bebeu-se um segundo copo para encher. Disse que se ia levantar cedo, separaram-se à porta.
Ele voltou à casa desterrada. Geladeira vazia, lojas já fechadas, encontrou um pacote de noodles instantâneos e viveu de água fervida para o jantar.
Nunca mais telefonaram um ao outro.
***
Por essa altura, tentou combinar com os tugas do café. Telefonou ao Abel: Sexta, pode ser? Mas só até às oito, a Leonor tem reunião de pais. Telefonou ao Ricardo: Tudo bem, mas levas-me depois, amanhã vou com a mulher a casa da sogra, não posso beber.
Acabaram à mesa de um bar de bairro, cerveja para enfeite. Falaram de futebol, do governo, de eleições, de nada. Ao terceiro copo, Abel:
Então, como é essa vida de solteiro temporário?
Faz-se.
E a Inês, nada?
Nada.
Foram duas caras entrevelhadas, com a compaixão de quem antevê o destino dos outros.
Nem uma mensagem, nada? perguntou Ricardo.
Absolutamente nada.
Isso é estranho, pá Abel rodava o copo. Lá em casa, se for eu, já tinha chamado a PSP de preocupação.
Não liga mesmo insistiu Sérgio.
Ou é ótimo, ou é mau sinal murmurou o Ricardo.
Em que sentido?
No sentido em que ela está bem assim.
Sérgio terminou a cerveja. Não queria pensar nisso. Ou melhor, só pensava nisso, mas não o admitia.
Pelas oito eles despediram-se. Cada um para casa, para a mulher e filhos, para a sua vida organizada.
Sérgio ficou sozinho até ao fecho.
***
Inês, nos primeiros dias, sentiu-se, na verdade, mais desorientada do que triste. Não era a falta do Sérgio em si, era a estranha pontada de espaço extra. Como quando mudam os móveis e fica aquele vazio difícil de catalogar.
Telefonou à Zinaida, vizinha e melhor amiga desde os tempos do liceu.
Foi-se disse Inês.
Foi-se para onde?
Arrendou casa. Diz que se estava a sufocar.
Zinaida respirou fundo.
E tu, Inês?
Surpreendentemente bem. Nem sei explicar.
Choraste?
Nada. Estranho, não é?
Sabes lá se não desaba mais tarde?
Logo se vê.
A seguir veio a Irene, a companheira do curso de preparação para mães, há vinte e cinco anos.
Aleluia! exclamou a Irene. Inês, há dez anos que te digo!
Que dizes?
Que andavas ali como criada sem ordenado!
Não exageres, Irene.
Quando foi a última vez que fizeste algo só para ti?
Inês engasgou-se. Não sabia responder.
Em setembro, cortei o cabelo.
Bem me parecia.
Na semana seguinte, Irene arrastou-a para uma aula de yoga. Inês hesitou primeiro, mas lá foi. Vestiu um fato de treino com o cheiro a naftalina, percebeu que não dobrava nada.
É assim no início com toda a gente disse a instrutora, uma miúda energética.
Duas semanas depois, já conseguia tocar quase nos pés. Três vezes por semana, e ainda se encontravam no café, a conversar durante uma hora. Inês achou estranho já não ter de voltar a correr para casa para pôr o jantar na mesa à hora do costume.
Depois, leu. Antes, adormecia ao fim de meia dúzia de páginas. Agora devorava livros sem pressas nem remorsos.
Num desses dias, o Bernardo ligou.
Mãe, o pai disse que está a viver sozinho.
Verdade.
E tu?
Olha, por incrível que pareça, estou bem.
Do outro lado, silêncio de digestão lenta.
Vocês vão divorciar-se?
Ainda não sei. Não pensei nisso.
Não estás triste?
Estou mais espantada do que outra coisa.
Bernardo voltou a calar-se.
Pronto, mãe. Liga se precisares.
E tu, filho. Não só nos aniversários.
***
Houve um momento. Parada a meio da cozinha, de vólei de esponja na mão, ficou a olhar pela janela, estática. Dois minutos, cinco, não importa. Lembrou-se: vinte e seis anos isso é tanto tempo. A maior fatia da vida adulta. Tudo lá dentro: o bom, também. O primeiro apartamento, que pintaram juntos; o Bernardo, de joelhos esfolados; a semana no Algarve há quinze anos, quando riram por tudo e por nada.
Tudo agora era só passado, álbum de fotografias sorriu com nostalgia sem mancha.
Deixou passar o sentimento. E foi-se equipar para yoga.
***
O aparecimento de Eugénio foi acidental.
A vizinha do rés-do-chão, Dona Glória, octogenária de ferro, apanhou Inês no patamar. Precisava de ajuda com a lâmpada de escadas, porque o filho só vinha de Fanhões para a semana. Inês trocou a lâmpada, ainda bebeu chá. De repente, quem chega? O tal filho, mas não o esperado.
Chamava-se Eugénio, quarenta e oito anos, bom ar, barba farta, cara de quem trabalha demais.
Mãe, estás a explorar a vizinhança outra vez? Perguntou quando a viu com a lâmpada na mão.
A Inês ofereceu-se respondeu Dona Glória, com aquele orgulho matriarcal.
Eugénio agradeceu, quis abonar com uns chocolates, bateu-lhe à porta três dias depois para agradecer. Conversaram dez minutos à entrada. Trabalha também na construção civil, como ela soube logo. Ela disse que era contabilista.
Poucos dias depois, voltou a tocar à sua porta. Trazia compras para a mãe, e uns bombons para Inês, em sinal de gratidão.
Não precisava, a sério sorriu ela.
Desculpe lá, posso entrar só um minuto? Preciso de um contacto do seu Sérgio, que acho que trabalha ou trabalhava em abastecimento. Tenho aí uma questão de fornecedores.
Inês hesitou.
O Sérgio agora está a viver noutra casa. Mas dou-lhe o número.
Não a incomodo mais.
Passado uma semana, Eugénio voltou a ligar resolvido o problema e propôs um café, apenas como vizinhos. Ela disse sim.
Foram a uma cafetaria ali perto. Conversaram sobre trabalho, filhos, mudanças. Eugénio era tranquilo, ouvia bem, às vezes ria das próprias piadas antes de acabar. Gostou disso.
Viveu muitos anos casada? perguntou, sem manhas.
Vinte e seis. Ou melhor, vivi. Agora não sei.
Acontece respondeu ele, sincero.
Ela agradeceu mentalmente essa falta de pressão.
Voltaram a encontrar-se algumas vezes. A leveza de não ter contratos nem obrigações fazia-lhe bem. Vinte e seis anos de rotina davam sede de liberdade.
***
Sérgio, por seu lado, começou a notar coisas sobre si. Não sabia esperar por nada. Antes, tudo acontecia: as roupas limpas apareciam, a comida chegava à mesa, as avarias curavam-se. Agora, tinha de esperar que a roupa secasse, a panela fervesse, o sr. Joaquim do gás viesse. E, para mais, apanhou uma gripe e ficou enfiado na cama, sozinho, a transpirar e beber chá morno, numa solidão seca.
Notou ainda que não sabia comer em silêncio. Sempre se comia à mesa com alguém; primeiro com o Bernardo, depois só com a Inês, mas mesmo os silêncios eram silenciosos de quem está presente. Ali, o silêncio era só vazio.
Começou a ligar a televisão para ter companhia ao jantar.
Na terceira semana, ligou ao Bernardo.
Olá, filho.
Olá, pai. Estás bem?
Sim, vivo na Penha de França agora.
A mãe já me contou.
E a mãe, como está?
Bernardo demorou-lhe a resposta.
Diz que está bem. Anda a fazer yoga, sai com as amigas.
Sérgio digeriu aquilo.
Não sente a minha falta?
Pai… telefonaste só para saber se a mãe sente a tua falta?
Não, só queria saber.
Está bem, ela. E tu também. É isso que importa.
Desligou e ficou sentado, com a sensação de quem entrou num quarto e esqueceu o motivo.
***
No vigésimo terceiro dia, encontrou no elevador a vizinha do lado, rapariga de trinta e tal, sempre de ar animado. Chamava-se Filipa, ela apresentou-se.
É novo cá, não é?
Provisório.
Separou-se?
Ele ficou surpreendido pela franqueza.
Sim admitiu.
Acontece. Fica na casa do Danilo? A dos cortinados mostarda?
Mesmo essa.
Filipa trabalhava numa clínica veterinária, tinha um gato chamado Eusébio e a janela cheia de suculentas. Ele, ao ajudá-la um dia com os sacos do Pingo Doce, foi de chá a pretexto. A casa dela cheirada a canela e era arrumadinha. Conversaram. Era simpática, cheia de vida. Mas ele só conseguia pensar na loiça por lavar que o esperava em casa.
Foram-se cruzando pela entrada, mas nunca passou disso. Ele era uma ideia a meio um pensamento interrompido antes do verbo final.
Um dia, ela perguntou:
Vai ficar muito tempo aqui?
Não sei confessou ele.
Tem ar de quem ainda não descobriu para onde vai.
Provavelmente, não descobri mesmo.
Também já estive assim. O importante é não ficar parado. Eu fiquei dois anos a pensar nas voltas que não dei.
Ficou-lhe essa frase.
***
No trigésimo primeiro dia, foi ao Mercado de Arroios e, não se sabe bem porquê, comprou um ramo de crisântemos. Não porque alguém pedisse, nem por data nenhuma, mas porque ali estavam, brancos, e a Inês sempre dizia: Flores, só crisântemos, as rosas dão muita responsabilidade.
Deu pela quantia exorbitante: dezoito euros. Foi bater à porta da Avenida das Laranjeiras.
No metro, as pessoas olhavam-no de lado a lado, cada um com a sua história sobre homens e flores. Ele só pensava no que dizia, como ela reagiria, se ela sorriria. Afinal, vinte e seis anos.
Tocou à campainha. Era nova, reparou nisso.
Por trás da porta: passos, vozes dela e de outra pessoa, masculina. Ficou gelado.
Porta entreaberta pela corrente, o rosto justo da Inês na greta. Olhou-o, depois ao ramo. A cara dela impassível como um padre ao domingo.
Sérgio.
Inês, vim cá.
Estou a ver.
Trouxe-te isto. Ergueu os crisântemos, já sem jeitinho nenhum.
Ela olhou-o sem raiva, sem lágrimas, só um cansaço digno.
Sérgio, hoje não te posso abrir.
Porquê?
Mudei de fechadura.
Percebi Mas porquê?
Nas costas dela, passou uma sombra de homem. Ele fixou o olhar. Respiração presa.
Quem é?
Isso já não te diz respeito, Sérgio.
Espera… Eu percebi tudo agora.
Percebeste o quê?
Engoliu em seco.
Que estava bem contigo. Que não valorizei. Que isto tudo foi um erro.
Ela esteve calada. Fitou-o na corrente.
Sérgio, tu percebeste que estavas bem. Mas não percebeste porquê. Achas que era de mim que sentias falta, mas era das camisas passadas, da comida feita, das coisas no sítio.
Isso é injusto.
Talvez. Mas é verdade.
Foram vinte e seis anos
Eu sei. Foram bons anos, também. Mas não quero mais vinte e seis assim.
Não me dás outra oportunidade?
Ela olhou-o demoradamente.
Sabes qual é a melhor parte, Sérgio? Eu também respiro melhor agora. Afinal, eu também estava a sufocar. Só que nunca o disse.
Ele ficou ali, de ramo na mão.
Inês…
Vai, Sérgio. Liga ao Bernardo. Fala com ele. Não de mim, fala só para conversar.
Porta fechada com um fecho seco de corrente.
No patamar, silêncio. De uma das portas, ouvia-se a novela num volume demasiado alto.
Sérgio virou costas e chamou o elevador.
***
O elevador chegou depressa. Olhou-se no espelho: um homem de bom casaco, amassado pela vida, com um ramo de crisântemos na mão alguém a quem acabou ou a começar qualquer coisa, ou talvez as duas.
Saiu para a rua já noite. Candeeiros acesos, rua quase vazia. Caminhou até ao metro com as flores ainda na mão. Parou junto a um banco de jardim.
Uma velhota, lenço de lã, dava migalhas aos pombos do saco do pão.
Sérgio pousou os crisântemos ao lado do banco.
Se quiser, pode levar disse ele.
A senhora olhou para as flores, depois para ele.
São muito bonitos. Não quiseram, foi?
Pois, não quiseram.
Também acontece respondeu ela, voltando aos pombos.
Seguiu caminho. As ruas igualzinhas, a vida seguia sem pedir licença. Nalgum lado da cidade, Inês fechava a porta por dentro, regressando ao seu serão uma vida nova, que parecia ser-lhe confortável.
Nalgum lado, Bernardo regressava ao seu apartamento, sem motivo para telefonar ao pai.
Em casa do Danilo, as cortinas cor de mostarda guardavam pratos por lavar.
Sérgio tirou o telemóvel.
***
Já no metro, ficou a olhar para o vidro escuro da janela. Apenas o reflexo baço de um homem com mais interrogações do que certezas.
Coisa estranha, pensava ele, sem grandes pensamentos para concluir. Simplesmente estranha.
O comboio seguia, as estações passavam. Passageiros entravam, saíam, todos com as suas encomendas e rotinas, ninguém a querer saber das flores no banco, dos vinte e seis anos, da porta fechada.
Saiu na sua paragem, subiu.
O ar cheirava àquela mistura de chuva e frio, promessas de neve que em Lisboa nunca se cumprem.
Sérgio ficou a olhar para o céu escuro, vulgar.
Depois, caminhou para casa.
***
Nessa noite, já passava das duas, continuava acordado, a observar o teto. O apartamento igual a si, cortinas mostarda, frigorífico a zumbir. Tudo igual há trinta e um dias.
Recordou-se então.
Uns oito, talvez dez anos antes, passaram um fim de semana na aldeia da mãe dela. Tarde soalheira, chá na varanda, um silêncio bom, daqueles cheios ela calada, ele calado, e era tão bom.
Nesse dia pensou: Isto é felicidade.
Nunca disse nada. Só pensou e esqueceu-se.
Agora, deitado naquele apartamento alugado, tentava lembrar-se da última vez que sentira aquilo. Não conseguia.
Lá fora, qualquer coisa parecida à neve hesitava cair. A primeira do ano.
Dentro de casa, o calor era só silêncio.
***
De manhã, levantou-se, pôs água ao lume e pensou que precisava de comprar chávenas decentes. As dali tinham lascas no bordo e beber nelas era uma aventura.
Pensou ligar ao Bernardo.
Pensou na pilha de trabalho atrasado para o fecho do trimestre.
Pensou na frase da Inês: que também ela começou a respirar. Afinal, também andava sufocada.
Nunca pensara nisso a sério. Ela sempre ali, sempre a fazer acontecer, ele nunca perguntou se era isso que ela queria. Para ele, era a vida. Para ela, talvez fosse uma prisão de ferro de engomar na mão.
A chaleira apitou.
Verteu água para uma chávena lascada, bebeu.
Lá fora, a neve a tentar pegar-se ao parapeito.
Pegou no telemóvel, abriu a lista: Bernardo.
Guardou. Depois, voltou a pegar.
Bernardo, sou eu, pai. Só liguei para conversar, sem motivo. Não estás ocupado, pois não?
Não, pai, fala à vontade.
Estás bem? Trabalho? Já há neve aí?
Começou agora mesmo.
Aqui também.
Ficaram calados uns segundos. Silêncio bom.
Pai, estás bem?
Sérgio ficou a olhar a neve.
A tentar perceber, filho.
Liga-me sempre, pai. Agora não é só nos Natais.
Está combinado, rapaz.
Despediu-se. Acabou o chá. Estava aceitável.
A neve caía.
***
Ao mesmo tempo, noutro canto da cidade, Inês espreitava a rua com uma chávena de café. A casa quente, tranquila. O Eugénio já tinha saído, não ficava a dormir um acordo tácito, sem pressa para coisa nenhuma.
Pensava no Sérgio, sem magoa, nem alegria especial: como se pensa numa pessoa com quem se partilhou a vida. Viu-o à porta, flores na mão, grande, tonto, com o rosto de quem foi ensinado pela vida, mas ainda sem cábula.
Não estava zangada. O tempo da zanga já tinha passado. No início sentiu algo parecido, e espantou-se: sempre tão serena por fora, mas furiosa por dentro, com as rotinas invisíveis. Ele, cansado da rotina: esquecia-se de que a rotina era feita por ela. Ele, entediado; ela, tão ocupada que nem sabia se estava entediada ou não.
Agora, só ficou algo mais sereno.
Pegou no telemóvel, enviou mensagem à Zinaida: Yoga amanhã?
Veio resposta: Só esperava que dissesses! Vamos.
Inês sorriu e pousou a chávena.
Do outro lado da vidro, continuava a nevar.
***
Essa noite, Sérgio telefonou ao senhorio, pediu para prolongar o contrato mais dois meses.
Pode ser respondeu o senhorio. Mas é para pagar antes.
Comprou chávenas novas, desta vez sem lascas. Duas. Depois, voltou atrás e pegou mais uma terceira.
Foi ao supermercado, comprou legumes para fazer sopa receita rápida, quatro passos, no final mandava salgar a gosto.
Ficou ali, de volta do tacho, a ponderar o que aquilo queria dizer: a gosto. Provou, salpicou mais. Ficou puxada a sal, mas aceitável.
Pegou numa das novas chávenas, percebeu que não era para sopa, usou um prato fundo, sentou-se.
Silêncio.
Na solidão, a sopa soube-lhe mais ou menos.
***
E a vida foi andando, como sempre faz: sem perguntas, sem respostas. Inês ia ao yoga, encontrava-se com o Eugénio de vez em quando, sem pressão, sem combinações fechadas. Sérgio continuava na Penha de França, agora com sopa caseira, telefonava ao filho, encontrava-se com o Abel e o Ricardo agora sem as mulheres, a conversa mais lenta.
O divórcio nunca foi oficializado, não por decisão filosófica, apenas porque cansa mover papéis.
Uma vez, cruzaram-se no supermercado da Avenida das Laranjeiras, o mesmo de sempre. Ele estudava com ar científico o rótulo do kefir.
Ela encostou-se.
Ó Sérgio.
Ele virou-se. Olharam-se nos olhos. Estava magro, o olhar mais atento.
Olá, Inês.
Olá. Estás com bom ar.
Tu também.
Pequeno silêncio.
Vais levar kefir?
Ya, mas não sei qual é o melhor.
Este indicou ela.
Obrigado.
Ele pegou, ela despachou-se. Ele seguiu para outra secção.
Na caixa, calhou ficarem em filas paralelas. Trocaram um aceno.
Então, até à próxima.
Até à próxima.
Ela virou à direita, ele à esquerda.






