Sou casada há vinte anos e nunca desconfiei de nada estranho. O meu marido viajava frequentemente a …

Sou casada há vinte anos e nunca me passou pela cabeça nada fora do comum. O meu marido viajava frequentemente em trabalho, e eu já estava tão habituada ao seu ritmo como ao cheiro do café acabado de fazer nas ruas de Lisboa. Respondia tarde às mensagens, voltava para casa sempre cansado, e dizia-me que as reuniões se arrastavam até à noite. Nunca fucei no telemóvel dele, nem o bombardeava com perguntas. Confiava nele.

Um dia, estava a dobrar uns lençóis na nossa sala com vista para o Tejo. Ele entrou, sentou-se na beira da cama com as sapatos ainda calçados, e disse:

Quero que me ouças, sem me interromper.

Nesse instante, sabia que algo pendia sobre nós, como nevoeiro sobre Alfama. Ele disse-me que tinha outra mulher. Perguntei-lhe quem era. Hesitou por uns segundos, depois disse o nome dela: Mariana. Trabalhava num escritório ali perto do Campo Pequeno. Era mais nova que ele, talvez com a alma mais leve. Perguntei-lhe se estava apaixonado. Respondeu que não sabia, mas com ela sentia-se diferente, menos exausto, como se caminhar nas calçadas fosse mais fácil. Perguntei se queria sair de casa. Ele disse:

Sim. Não quero mais fingir.

Nessa noite dormiu no sofá, enrolado numa manta de lã, como alguém perdido numa noite de Santo António. Saiu cedo no dia seguinte, e não voltou durante dois dias. Quando regresou, já tinha falado com um advogado. Disse que queria o divórcio quanto antes, sem dramas. Explicou-me o que ia levar e o que não fazia sentido levar, como se estivesse a dividir pão e azeite, sem emoção. Ouvi tudo em silêncio. Em menos de uma semana já não vivia ali.

Os meses seguintes foram estranhos, como um fado cantado sem guitarra. Tive de tratar sozinha de tudo aquilo que antes dividíamos papéis, contas, decisões, até as pequenas tarefas que parecem impossíveis quando feitas sem companhia. Comecei a sair de casa mais vezes, não por vontade, mas pela necessidade de respirar. Aceitava convites e passeios só para não ficar sozinha entre paredes que me lembravam outros dias.

Numa dessas noites surreais, conheci um homem numa fila para café num quiosque da Baixa. Falámos do tempo, das ruas cheias de turistas, dos atrasos dos autocarros. Os olhares foram-se cruzando como linhas do Elétrico 28.

Um dia, sentados numa das mesas minúsculas com vista para um jardim escondido, ele contou-me a sua idade era quinze anos mais novo que eu. Não fez comentários estranhos nem tentou brincar com isso. Perguntou-me a minha idade e continuou a falar como se não fosse importante. Voltou a convidar-me para sair, e eu aceitei.

Com ele tudo era outro sonho. Não prometia eternidade nem dizia palavras doces ao vento. Perguntava como estava, ouvia-me, ficava ao meu lado quando eu falava do divórcio sem mudar de assunto, como se houvesse tempo para tudo. Um dia disse diretamente que gostava de mim e que sabia que eu vinha de momentos difíceis. Eu disse-lhe que não queria repetir erros nem depender nunca mais de ninguém. Ele respondeu que não procurava controlar-me nem ser o meu salvador.

O meu ex soube por terceiros. Ligou-me, meses depois de um silêncio espesso como nevoeiro na Ribeira. Perguntou se era verdade que eu estava com um homem mais novo. Disse-lhe que sim. Questionou-me se não tinha vergonha. Respondi que vergonhoso era o seu abandono. Ele desligou, sem despedidas.

Divorciei-me porque ele me trocou por Mariana. Mas depois, sem procurar, encontrei-me ao lado de alguém que me valoriza, que me quer um presente inexplicável da vida, como descobrir um azulejo raro nas ruas da cidade, sem razão aparente, só porque existem encontros que desafiam todas as lógicas.

Será isto um presente dos meus sonhos?

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