Sob o peso das expectativas alheias

Sob o peso das expectativas alheias

Lembro-me com nitidez daqueles dias em Lisboa, quando tudo me parecia pesado e indefinido. A minha mãe, Teresa, nunca foi de me dar descanso. Já não me recordo de a ver sorrir sem a sombra das exigências no olhar. Numa dessas tardes, sempre cinzentas para mim, estava ela diante de mim, as mãos fechadas em punhos, olhos fulminantes de raiva, e gritava de um modo que me fazia desejar nunca ter existido.

Nem penses! bradou com uma voz cortante, fria. Achas que é assim tão simples? Já pensaste no teu futuro? Sabes sequer quanta energia investi em ti, Mariana?

Na altura, eu tinha só dezoito anos e chamava-me Mariana, nome escolhido pela minha avó, acreditando que traria sorte. Mas, naquele instante, sorte era coisa que eu desconhecia. Os meus olhos marejaram de lágrimas, mas tentei não mostrar o desespero profundo que me ia por dentro.

Mãe Eu não te compreendo! balbuciei, a voz trémula, suprimindo o medo. Não eras tu que sempre disseste que, antes da família, eu devia estudar, tirar a licenciatura? Que me devia fazer à vida? É verdade que confundi paixão com amor, mas isso não justifica que eu destrua tudo o que podia ser meu. Tenho só dezoito anos! Ainda não vivi nada, não sei quem sou, nem o que quero

Mas Teresa era pedra. Interrompeu-me de imediato, o rosto endurecido, o tom implacável.

Ou te casas com o Ricardo e me dás um neto, ou então fazes as malas e sais desta casa. E que ficas completamente por tua conta nem um cêntimo te dou! Era o meu único sonho antes de envelhecer. Quase sessenta anos tenho eu, e ainda queria ver crescer um netinho antes que o tempo me leve a alegria de o acompanhar. Percebes?

O meu peito apertou-se de um modo impossível de descrever. Mal consegui sussurrar um Mamã…, mas ela nem me deixou terminar.

Poupa-me! Já falei com o Ricardo, ele concordou. Não foi fácil, fez-se difícil, mas lá lhe expliquei o que era bom para ele. Tenho meios de convencer quem for preciso, não duvides!

Fiquei a olhar para ela, sem conseguir mexer-me. O que seria que a minha mãe lhe tinha dito, que o fez mudar de opinião? O Ricardo sempre fugiu à responsabilidade lembro-me bem das palavras frias: Isso não é comigo, e de insinuações que me arrepiavam até aos ossos. Agora, de repente, dizia sim ao casamento. Que segredo guardava a minha mãe? Ele sorria menos, evitava olhar-me nos olhos, resmungava, respondia torto.

No final, tudo se processou de forma quase automática. Ricardo levou-me ao registo civil, apresentou o atestado médico, e casámo-nos ali mesmo, sem festa, sem vestidos bonitos, sem convidados. As alianças eram da ourivesaria do bairro, baratas e compradas à pressa, e a sala do registo cheirava a desinfetante em vez de flores. Não houve música, nem flores, nem os parabéns felizes. Apenas o selo no bilhete de identidade e aquele peso, como se a minha vida tivesse tomado um rumo que nunca desejei.

Por ordem da minha mãe, passámos a partilhar o apartamento dela, numa rua sossegada de Alvalade. Ela ditava tudo: os horários, as refeições, os comprimidos e vitaminas, os livros sobre maternidade que me empurrava para as mãos. Logo pela manhã, lá estava ela, de bata e bloco de notas, a recitar-me o menu do dia, a avisar para não me esquecer do ferro, dos iogurtes, das horas do repouso.

Nunca me senti tão presa. Parecia refém da vida dela. Não podia escolher nem o chá que bebia ou o pijama que vestia. Até o respirar baixo se tornou um hábito, para não provocar uma nova lição ou crítica. O desgosto era tanto que cheguei a desejar poder desaparecer dali. Fugir era impossível; não tinha dinheiro. Já imaginei mil vezes que corria para a estação de Santa Apolónia e apanhava o próximo comboio para o Porto ou para qualquer lugar onde pudessem recomeçar. Mas a vida, na verdade, não permite estes voos.

Contei um dia as minhas angústias a uma amiga, Sofia, esperando consolo. Ela limitou-se a responder:

Olha, tanta gente se desenrasca com filhos! Se quisesses mesmo, já tinhas fugido, arranjavas um quarto barato, um part-time ao final do dia, qualquer coisa. Só não vai quem não quer!

Ouvi-a, calada, sentindo um nó de revolta. Ela cresceu num lar onde nunca lhe faltou nada, nunca soube o que era contar os euros para a merenda. Em Lisboa, os quartos custavam uma fortuna! Vi uma vez o bairro das Olaias, onde se arrendavam quartos ao desbarato: homens sentados nos degraus, garrafas vazias, música aos gritos, polícias sempre por ali. Fora isso, arrendamento era impossível os salários de estudante não cobriam nem metade.

As alternativas desapareciam. O meu pai há anos que se julgava isento de responsabilidades; avós não tinha. Restava-me obedecer, aceitar, e sonhar com alguma fuga futura.

A gravidez arruinou-me todos os planos. Proibiam-me de trabalhar, de sair, e até a universidade só frequentava com a mãe na retaguarda.

******

Ricardo, podias ir ao Pingo Doce buscar pão? pedi, já sem voz, numa daquelas manhãs em que a mãe saíra para casa de uma amiga. Sentia-me cada vez pior e só precisava de um pouco de cuidado.

Ele nem se virou da secretária perdido no computador e nos jogos, como sempre.

Vais apanhar ar, ficas logo melhor, resmungou, sem tirar os olhos do ecrã.

Fechei-me ainda mais na minha tristeza, apoiada ao batente da porta.

Olha que somos casados, mesmo contra a minha vontade! Foste tu que aceitaste a chantagem dela! Disseste que me ajudavas, mas passas os dias a jogar e eu a sufocar sozinha!

De má vontade, largou o jogo e olhou-me finalmente.

Desculpa lá, mas mal o bebé faça um ano, divorcio-me. A tua mãe sabe. O que interessa é que nasce casado! afirmou, sem qualquer emoção.

Tive vontade de gritar. E a ti o que te prometeu ela? O que te deu para te convencer? Às lágrimas subia agora o riso nervoso.

Um carro quase novo. A minha família não podia sonhar com isso, e achei que não podia desperdiçar a oportunidade. E voltou ao computador. Agora deixa-me. Não me chateies.

Não consegui responder. Fui para o outro lado da casa e fechei a porta, a raiva presa nos ossos, a impotência ainda maior. O tempo era curto, quatro meses de gestação, e eu já odiava aquele filho que, inocente, se tornara símbolo de todos os sacrifícios que eu não queria fazer.

Numa dessas tardes andava sozinha pelas ruas, perdida nos meus pensamentos, sentindo que andava no meio de ninguém. Não vi a luz do sol nos jacarandás, não ouvi as crianças a brincar nos baloiços do jardim. Andava ali, ausente, até ouvir um carro travar bruscamente, o som dos pneus a queimar o alcatrão. Virei-me a tempo de ver o perigo, mas não consegui fugir.

******

Quando abri os olhos, ouvi vozes distantes, sentia-me envolta em nevoeiro.

Ó doutora, veja lá a menina comentou alguém perto da cama.

Teresa, com a sua presença de sempre, aproximou-se da cama, o rosto cinzento com olheiras profundas, mas nem por isso menos dura.

E agora, foi isto que conquistaste? Devias era ter vergonha! Mandar-te para debaixo das rodas do carro Foi para isto que tirei noites sem dormir? disparou ela, fria, quando tentei abrir a boca. Cala-te! Descansa as poucas forças que te restam. Sabes o resultado disto tudo? Perderam-se dois: o meu neto, o único que eu podia ter, e tu, que nunca mais terás filhos. Agora só tenho esperança na tua irmã mais velha… Hei de arranjar maneira de ela me dar um neto!

O seu tom era o de quem lê um relatório. Olhei para ela, mas já se afastava.

As tuas coisas já estão arrumadas. Quando estiveres pronta, passa a buscá-las. A sua última frase foi dita sem olhar para mim, fria como um veredicto. Passei a vida a sonhar com um filho homem. Vieram duas filhas, nenhuma quis alinhar com os meus desejos. A Sílvia fugiu logo para Inglaterra assim que pôde, e tu, bem, tentei ser mais esperta. Convenci o Ricardo, mas tu estragaste tudo. Não vale a pena gastar mais dinheiro nem tempo contigo. Desenrasca-te sozinha.

Saiu, fechando a porta devagar, mas deixando atrás de si um frio que nunca pensei sentir.

******

A minha amiga Vera, a única que ficou ao meu lado, levou-me para sua casa até eu recuperar. Veio logo ao hospital, trouxe fruta e uma manta e simplesmente ficou ali, a segurar-me a mão.

Vera sugeriu que partilhássemos uma casa pequena nos arredores do Campo de Ourique simples e barata, mas calorosa. Arranjou-me um lugar na livraria onde trabalhava. No princípio, eu só ajudava a arrumar livros e a servir café, mas a Vera foi paciente, ensinou-me tudo, apoiou-me quando duvidava.

Foi ali que conheci o Manuel Duarte, o chefe de secção. Era rígido no trabalho, mas nunca levantava a voz, sabia explicar as tarefas sem fazer ninguém sentir-se inútil. Tinha uma atenção especial para os colegas: lembrava o aniversário de todos, perguntava se as pessoas estavam bem, e sempre estava pronto a ajudar se alguém precisava de tempo ou descanso.

Manuel era divorciado, pai de dois rapazes Miguel e Tiago, com 4 e 6 anos. A mãe deles partira, cansada do peso da casa e das crianças, para o Porto o Manuel ficou com os filhos e o peso de tudo. Conseguia ser pai carinhoso e trabalhador dedicado, mas a avó dos meninos, já idosa, não conseguia dar-lhes tudo o que precisavam.

Num serão em que fiquei até mais tarde, corrigi algumas contas num relatório. Manuel convidou-me para tomar chá. Na sala de descanso da livraria, ao entardecer, ele deixou cair a pose de chefe e falou, com uma sinceridade inquietante:

Mariana, vejo que tens um coração bom, delicado. Quero pedir-te algo diferente casa comigo. Não por paixão ou sonhos cor-de-rosa, mas por família. Por estes meninos. Ajudo-te a acabar a licenciatura, garanto que não te faltará nada. Só queria que fosses mãe para eles que lhes desses o carinho que já não têm.

Fiquei estática, com o peito apertado. Nunca imaginara um pedido tão direto e despojado de malícia. Ele era sincero. Não me queria impressionar pedia ajuda, companhia.

Preciso de tempo para pensar, consegui responder, engolindo as lágrimas.

Natural, acenou ele, sorrindo de leve. Reflete bem, Mariana. Se aceitares, quero que seja por convicção, não por obrigação.

Uma semana depois, dei-lhe a resposta. Hesitei, temi, pesei todos os prós e contras, mas achei que, se não tentasse, arrepender-me-ia para sempre.

O nosso casamento foi singelo: Vera, uns colegas da livraria, os meninos. Levei um vestido branco simples, Manuel um fato azul-marinho. Miguel e Tiago eram tímidos, escondiam-se atrás das pernas do pai ou espreitavam-me de longe. Mas, dias depois, já corriam a chamar-me mamã Mariana, tão espontaneamente que era difícil não sorrir.

De repente vi-me, genuinamente, a gostar deles: cuidava das constipações, fazia bolos simples, contava-lhes histórias à noite.

Pela primeira vez na vida, sentia-me bem, não porque era útil aos sonhos de alguém, mas porque era eu com as minhas dúvidas, falhas e ternura. Sentia, enfim, que ali podia respirar fundo.

Ao início, eu e Manuel éramos só parceiros, gerindo tarefas, orçamento, horários. Mas aos poucos nasceu algo mais. Ele repensava horários para que eu descansasse, ficava com os miúdos para eu estudar, e eu retribuía com doces ou brincadeiras caseiras. Aos poucos fui notando que sorria só de me ver brincar com os meninos. E eu sentia-me renascer.

Uma noite, enquanto dobrava a roupa dos pequenos, Manuel chegou perto, hesitou e falou baixinho:

Sabes pedi-te que fosses mãe dos meus filhos, mas acabaste por ser tudo para nós. Amo-te, Mariana. Com verdade.

Os olhos encheram-se-me de lágrimas mornas e boas. O gelo dentro de mim desfez-se. Não há dor maior do que viver sem se ser amada mas naquele instante soube o que era ser feliz.

E eu a ti, respondi. Nunca imaginei que um acordo por necessidade virasse família de verdade.

Mais tarde voltei à universidade tinha medo de não conseguir conciliar tudo. Mas Manuel apoiou sempre, trouxe livros, preparou refeições e fazia questão de me lembrar que eu era capaz.

Os rapazes cresceram firmes, sorridentes, rodeados de afeto. Juntos, fazíamos piqueniques no Estádio Universitário ou líamos contos nas noites frias do inverno, com o aquecedor ligado e os gatos enrolados aos pés. Miguel era curioso a ponto de perguntar tudo, e Tiago era o primeiro a dizer: Gosto tanto de vocês!

De Teresa, nem sinais. A minha irmã Sílvia, cansada das pressões, emigrara para França, onde construiu os seus próprios sonhos. Uma vez, mandou um postal curto, dizendo apenas: Mãe, sou feliz agora. Deixei de seguir as tuas regras. Teresa leu e nunca mais falou nisso.

Ela continuou só e amarga tentei ao início responder às mensagens, todas de crítica e cobrança, mas calei esse capítulo também. Não queria mais ser peça na engrenagem dos sonhos de outra pessoa.

Anos mais tarde, num outono luminoso, estávamos todos a passear no Jardim da Estrela. As folhas das tílias caíam em tapetes dourados, cheirava a terra húmida e castanha. Caminhava de mãos dadas com Manuel, os rapazes corriam à frente, ora a recolher folhas, ora a saltar poças. De repente, Miguel apareceu debaixo de uns arbustos com uma folha de plátano gigantesca.

Mamã, olha o que encontrei! gritou com voz alegre, sujo de terra mas cheio de orgulho.

Abracei-o com força, aspirando o cheiro de infância e de Lisboa nas tardes de outono. Manuel apareceu ao meu lado, sorrindo com ternura inusitada.

Tiago puxou-me para uma poça de água espelhada: Conta quantas nuvens cabem aqui, mãe!

Agarrei nas mãos dos meus dois filhos e seguimos juntos. Manuel pôs a mão sobre o meu ombro, olhámos juntos o reflexo das árvores.

É isto, pensei. O meu verdadeiro futuro. A minha verdadeira felicidade. Olhei à volta, vi a minha família: marido, crianças, amor. Era tudo tão sereno e sincero que as palavras nunca chegariam para o descrever.

Finalmente, pertencia.

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