Sob o peso das expectativas alheias
Teresa sente-se completamente revoltada. Está agora mesmo diante da filha, com os punhos cerrados e o olhar severo pousado nas faces cobertas de lágrimas da Beatriz. Na sua voz ecoa uma raiva nua e crua, e o olhar é tão incendiário que parece trespassar tudo à sua frente.
Nem penses! diz ela, em voz alta e firme, marcando bem cada palavra. Olha só as tuas ideias! E o teu futuro, já pensaste nisso? Tens noção do quanto dei de mim para chegares aqui?
Beatriz ergue os olhos marejados de lágrimas para a mãe. Sente-se esgotada, mas esforça-se por não mostrar toda a confusão interior, tentando falar o mais confiante que consegue.
Mãe Não te entendo! responde, a voz embargada. Cala-se um instante, tentando compor as ideias, e recomeça: Tu própria sempre disseste que era cedo para pensar em família, que o importante era acabar o curso. Aproxima-se da mãe e junta as mãos num gesto de súplica. Sim, cometi um erro, confundi paixão com amor Mas não é razão para deitar a minha vida fora! Só tenho dezoito anos! Não sei nada do mundo, nem de mim
Teresa nem deixa a filha terminar. O semblante endurece ainda mais, tornando-se inflexível.
Ou casas com o Rafael e tens-me um neto, ou arrumas as tuas coisas e sais desta casa, diz seca, sem vacilar um milímetro. Afasta-se rápida para a janela, afasta a cortina num gesto brusco, e depois vira-se de novo para Beatriz, já num tom mais elevado: E esquece qualquer ajuda minha, hás de sobreviver sozinha. Não te dou nem um cêntimo! Talvez seja esta a minha última oportunidade de pegar um netinho ao colo, percebes? Não fico mais nova. Daqui a pouco faço sessenta anos e quero aproveitar para ver a família crescer antes que já não possa!
Beatriz sente o peito apertar de desespero. Solta, quase num sussurro:
Mãe
Não me venhas com “mãe”! corta-feira, e a dureza da voz faz Beatriz tremer. Já falei com o Rafael, ele concordou comigo, continua Teresa, assinalando que a decisão está tomada. Esboça um sorriso tenso, exibindo convicção de que agiu correctamente. Ele hesitou um pouco, mas soube bem pôr-lhe os pontos nos is. Eu tenho forma de convencer seja quem for, quando é preciso! diz, triunfante.
Tu fizeste o quê? Beatriz está incrédula, recua um passo, pálida e a tremer. Foste falar com o Rafael? Mãe, passaste todos os limites! Nem sentimos nada um pelo outro se casarmos, vai ser um suplício! Ele, decerto, há de trair-me, enquanto eu fico presa a um bebé recém-nascido! É isto que queres para mim? Que eu viva infeliz só para cumprir o teu sonho? A indignação faz-lhe a voz tremer.
A culpa é vossa. O bebé já está a caminho, e agora é tarde para voltar atrás, despacha Teresa num tom impaciente. Fazes uma pausa nos estudos e eu ajudo-te a cuidar do neto. Já está tudo pensado, e o tom dela é de quem considera o assunto resolvido, convicta de que está a fazer o melhor para a família.
Totalmente perdida, Beatriz limita-se a deixar cair os braços, sem perceber como a mãe pode ser assim tão severa. Sempre ouvira da própria Teresa que primeiro era preciso ter estabilidade e um diploma antes de pensar em filhos. Agora, de repente, tudo vira de pernas para o ar. Arfando de mágoa, Beatriz quase se arrepende de não ter guardado o segredo para si e resolvido tudo sozinha, em silêncio.
Também Rafael surpreendeu. Beatriz ainda não compreende o volte-face dele. Antes, ele nunca quis assumir nada e até afirmou: Isso não me diz respeito. Tudo indicava que não queria compromissos e agora, subitamente, aceita casar. Que terá a mãe feito ou prometido para o ver mudar tão radicalmente? Nunca ficou a saber: Rafael anda rabugento, foge das conversas e, se Beatriz tenta falar sobre o futuro, limita-se a resmungar sem responder a nada de jeito.
No fim, tudo acontece num abrir e fechar de olhos. Rafael leva-a ao registo civil, entrega à funcionária o atestado médico, e casam-se no próprio dia, sem festa, sem convidados. Compraram as alianças às pressas, baratas, e o ambiente era pesado. Beatriz recorda o momento como se tudo fosse estranho à sua própria vida: paredes nuas, luz fria, vozes indiferentes dos funcionários. Nada de música nem flores, apenas um carimbo no bilhete de identidade e a amarga certeza de que a vida dera a pior das voltas.
Teresa impõe, ainda, que vivam com ela. Controla ao pormenor o que a filha come, as horas de sono, até que livros deve ler para o desenvolvimento do bebé. As manhãs começam invariavelmente com Teresa de bloco na mão, a ditar o menu do dia e os suplementos que Beatriz tem de tomar. Enfia-lhe livros de puericultura enormes nas mãos, que só de olhar já lhe dão dor de cabeça.
Beatriz sente-se sufocada, prisioneira até nas mais pequenas rotinas: já não decide o que veste, quando vai dormir ou sequer que chá beber. Mesmo o respirar se torna cauteloso, com medo de provocar mais uma onda de conselhos exigentes. Aguenta-se estoicamente, sabendo que qualquer vestígio de rebeldia só irá provocar nova discussão.
Bem gostaria Beatriz de sair dali e recomeçar mas… não tem dinheiro. Mil vezes imaginou a mochila às costas e uma vida nova, mas esbarra na dura realidade. Quem nunca sofreu para pagar contas não compreende as dificuldades. Lá pelo bairro, a única residência de estudantes é assustadora: homens bêbedos à porta, confusão, polícia à noite. E arrendar apartamento? Impossível. Os preços rondam valores tão altos que nem trabalhando sem folga escaparia à miséria. Até calculou: depois de pagar o quarto a uma idosa, quase não sobrava para comer. Só lhe restava ir de um trabalho ao outro, sem tempo sequer para dormir, e mesmo assim mal chegava ao fim do mês.
Um dia, desabafa o desalento com uma colega, esperando apoio. Mas esta foi taxativa:
Há quem tenha filhos e se desenrasque tu é que não queres mexer-te! Se calhar até gostas deste mimo. Já tinhas mudado para uma residência qualquer, arranjado dois trabalhos, punhas-te a andar! Só resmungas!
A dureza das palavras fere Beatriz, que pensa como é fácil falar quando nunca faltou nada, com pais prontos a acudir. Residências? Uma vez passou por lá: homens bêbedos, zaragata, polícia nunca na vida teria coragem de viver ali. E as rendas em Lisboa, então? Proibitivo…
Por isso aguenta a mãe proíbe-a de trabalhar, e até para a faculdade vai escoltada, para não inventar disparates.
***************************
Rafael, podes ir ao supermercado? pede Beatriz, exausta, ao marido. A mãe foi dois dias à casa de uma amiga, deixando-os sozinhos, e Beatriz sente-se péssima: enjoada, zonza, sem forças.
Rafael nem desvia os olhos do computador dedos voam no teclado, fixo àquele mundo virtual.
Até te faz bem apanhar ar fresco, murmura, sem tirar os olhos do ecrã. Eu não preciso de nada.
Beatriz respira fundo e, encostando-se à ombreira da porta, sente a fraqueza crescer.
Somos casados, se já te esqueceste começa, engolindo as lágrimas , embora eu sempre tenha sido contra! Foste tu que aceitaste fazer a vontade à minha mãe! Prometeste ajudar, mas só jogas o dia inteiro!
Desta vez, Rafael afasta-se do monitor, roda a cadeira e fita-a com desprezo.
Assim que o bebé fizer um ano, divorcio-me, solta secamente. E a tua mãe sabe disso. O importante é o miúdo nascer de pais casados.
Beatriz fica estática, como se tivesse levado um soco no peito. Tem dificuldade em respirar.
És mesmo… nem sei o que te dizer! O que é que ela te prometeu? pergunta, a voz embargada pelas lágrimas.
O carro, pá! Não querias saber a verdade? A minha família não nada em dinheiro, sabes bem. Esta oportunidade não volta. A tua mãe queria um neto correu tudo fácil: duas conversas, promessas, e pronto casei. Vira-se de novo para o ecrã. Chega, já acabou a conversa. Deixa-me jogar.
Beatriz não insiste. As palavras não lhe saem, sente-se vazia, fraca. Sai da sala, fechando a porta sem grande ruído só para libertar uma réstia do desespero que se acumula.
Está grávida de apenas quatro meses, mas já alimenta um ressentimento, quase ódio, com aquele futuro bebé (que Teresa espera ansiosamente). No fundo sabe que a criança não tem culpa, mas associa a ela o princípio de toda a sua desgraça como se a vida lhe estivesse agora irremediavelmente condenada.
Sai à rua sem dar por nada ao seu redor: não sente o sol morno, nem escuta os risos das crianças na praceta ao lado, nem repara no perfume doce das tílias floridas pelos passeios de Lisboa. Sente-se alheia, perdida. Só quando um carro buzina com violência e os pneus guincham mesmo ao lado é que acorda, assustada. Olha para trás, a tempo de ver o carro deslizar em sua direção
***************************
Ah, acordou finalmente? ouve uma voz feminina, abafada como se viesse de longe. Vou já chamar a médica.
Faça favor, intervém Teresa, aproximando-se da cama onde Beatriz desperta. Corrige a alça da mala no ombro, e lança um olhar frio sobre a filha. O rosto está pálido, olheiras marcadas, mas os olhos brilham de zanga, cada vez mais intensa.
Beatriz pisca, tentando focar. O corpo parece estranho, os sons chegam distantes.
E agora, serviu-te de quê isto tudo? Que te faltava? Atirares-te para a frente dum carro… Fui eu que te criei para isto? diz Teresa, dura como aço. Cala-te! rebaixa Beatriz, antecipando qualquer resposta. Sabes ao que levaste com a tua estupidez? Perderes o bebé. O meu neto! Por quem esperei tanto! Agora nunca mais podes ter filhos. Vai tudo depender da tua irmã mais velha Mas não faz mal, arranjo maneira de a convencer.
O tom de Teresa é gélido, factual, como se falasse de coisas banais e não da maior tragédia da vida de Beatriz.
Mãe geme Beatriz, sentindo as lágrimas soltarem-se silenciosamente. Escorrem pelas têmporas, caindo na almofada. O peito dói, o corpo inteiro encolhe de uma dor sem nome. Queria explicar-se, justificar-se, mas as palavras perdem-se.
As tuas coisas estão ali preparadas; quando tiveres alta, que venhas buscar, diz Teresa, de costas, sem olhar para a filha. E não me olhes assim! Sempre sonhei ter um filho, mas só me calharam duas filhas inúteis, dirige-se agora ao vidro, voz de aço. Sonhei que, pelo menos, uma me dava um neto rapaz para criar à minha imagem E por momentos a voz adoça-se, tingida de saudade: Mas a mais velha fugiu assim que percebeu o que eu queria, dizendo que era jovem demais para se prender. E nunca mais teve namorado sério! Contigo tentei ser mais esperta e arranjei o Rafael. Finalmente vinha aí o Afonso e até isso estragaste! Não mereces mais o meu esforço nem dinheiro! Desenrasca-te!
Sem se despedir, Teresa ajeita o casaco e sai, deixando um vácuo gelado atrás de si.
***********************
Quem socorre Beatriz, logo que esta deixa o hospital, é a sua grande amiga Leonor a única a não lhe virar costas no momento mais negro. Surge no hospital com uma manta quente, fruta fresca, e senta-se silenciosamente a seu lado, pegando-lhe na mão. Torna-se o pilar de que Beatriz desesperadamente precisava.
Logo Leonor propõe dividirem um pequeno apartamento acolhedor numa zona sossegada da cidade. Arranja-lhe também trabalho na empresa onde está, primeiro a part-time, para Beatriz recuperar forças, e depois, devagarinho, aumenta-lhe o horário. Paciente, Leonor guia-lhe os passos no novo emprego, encoraja-a sempre que as dúvidas apertam, oferecendo palavras determinadas e afeto. Aos poucos, Beatriz começa a erguer-se, a ganhar coragem para recomeçar.
Na empresa, Beatriz conhece o senhor Manuel Moreira, chefe de departamento. Inicialmente vê nele um líder distante, mas totalmente justo: define tarefas com clareza, não eleva a voz, e se corrige, é sempre com respeito. O trato inspirava confiança falava pausadamente, nunca se perdia por pormenores, e sabia explicar até a tarefa mais complicada de forma simples.
À medida que o contacto cresce, Beatriz sente dela nascer não só respeito, mas uma admiração serena. Nota que ele lembra-se sempre dos aniversários dos colegas, é atento à saúde dos funcionários, ajuda quando vê alguém sobrecarregado.
Manuel é divorciado cuida sozinho dos seus dois meninos, Tiago e Simão, de quatro e seis anos. A mãe dos pequenos, cansada da rotina, saíra de casa certa noite, indo viver para o Porto, deixando tudo nas mãos do ex-marido. Manuel, embora cheio de amor, sente falta de uma presença materna para eles. Faz malabarismos entre trabalho, tarefas domésticas e filhos, mas acaba frequentemente a depender da avó dos meninos, já sem energia para os acompanhar a todo o lado.
Certa tarde, ao corrigir um relatório, Manuel convida Beatriz para beber um chá, e deixa transpirar um lado vulnerável. Sentados na sala de descanso, com Lisboa já a escurecer pelas janelas, a voz sai-lhe inesperadamente baixa.
Beatriz, sempre reparei no quão bondosa e dedicada é começa ele, olhando-a nos olhos. Tenho-lhe uma proposta que talvez soe estranha, mas espero que aceite: quer casar comigo? Não falo só de paixão ou romance embora a admire muito. Falo de construir uma família. Preciso que aceite ser mãe dos meus filhos. Eu dou-lhe estabilidade, apoio na faculdade se quiser estudar mais. Precisamos de afeto eu e os meninos.
Beatriz fica sem palavras. O coração bate forte, mal consegue respirar. Aquela proposta soa a uma reviravolta, mas nos olhos de Manuel vê apenas sinceridade, alguém que luta diariamente para proteger os filhos e pede ajuda humildemente.
Preciso pensar murmura, a voz sumida. Sente-se um nó na garganta: será capaz de ser mãe daqueles meninos? Terá força, maturidade? Mas lá no fundo já começa a nascer uma vontade genuína de tentar.
Claro, diz Manuel, compreensivo. Pense bem, não há pressa.
Ela sorri-lhe timidamente, aliviada por não ser pressionada. Sente, de súbito, que alguém a vê genuinamente, sem exigências nem cobranças, e isso reacende nela uma ponta de esperança.
Uma semana depois, Beatriz aceita o pedido. Custou-lhe decidir, pesou todas as dúvidas e receios. Mas percebeu: ou arrisca, ou vai arrepender-se para sempre.
O casamento é simples, apenas colegas próximos e os dois meninos. Beatriz veste um vestido claro, de linhas simples, Manuel opta por um fato discreto. Tiago e Simão, envergonhados, agarram-se à perna do pai ou escondem-se atrás dele, espreitando Beatriz entre risinhos. Bastaram poucos dias para que um já lhe chamasse mãe Beatriz e o outro lhe atirasse beijos do corredor. Para espanto dela, estava a apegar-se verdadeiramente aos rapazes: vibrava com cada pequena vitória deles, fazia-lhes bolos, lia-lhes histórias, surpreendia-os com biscoitos e livros ilustrados.
Agora sente finalmente que é querida não como projecto de vida alheio, mas como pessoa, com as suas fragilidades e sonhos. Junto daquela família podia ser ela mesma cansar-se, errar, calar-se e, mesmo assim, ser essencial.
Ao início, a relação com Manuel é de parceria: dividem tarefas, planeiam o orçamento, combinam as rotinas das crianças. Mas progressivamente, cresce algo mais: Manuel pega nos meninos ao fim da tarde para libertar Beatriz, assume a roupa para que ela descanse; e por vezes ela surpreende-se a sorrir só por vê-los felizes à sua volta. O tempo acende entre eles uma ternura madura, um amor discreto mas real.
Numa noite, depois de deitar os meninos, Manuel aproxima-se de Beatriz, que passa a ferro a roupa das crianças. Sob a luz cálida da sala, murmura, emocionado:
Eu pedi-te que fosses mãe deles, mas tu deste-nos tudo. Não podia estar mais grato amo-te, de verdade.
Beatriz ergue os olhos, lágrimas quentes nos olhos, e sente um alívio nunca antes sentido. O passado, com todas as suas feridas, começa a diluir-se devagar.
E eu a ti, sussurra, emocionada. Nunca imaginei que um acordo pudesse dar numa família de verdade.
Auxiliada por Manuel, Beatriz matricula-se numa licenciatura em regime pós-laboral treme de medo, receia falhar, mas ele nunca a deixa desistir. Arranja resumos, encontra artigos relevantes, incentiva-a nos prazos, traz-lhe livros da biblioteca universitária: Tu consegues. Acredito em ti.
Tiago e Simão florescem, cheios de alegria e confiança, seguros por terem pai e mãe. Juntos fazem bonecos de neve no inverno, apanham margaridas no verão, leem histórias à noite debaixo do mesmo cobertor. Tiago nunca se cala de perguntas, Simão distribui abraços e beijos por todos.
Por sua vez, Teresa nunca chega a ter os netos que tanto quis. A filha mais velha, cansada da pressão, faz as malas e parte para Bruxelas para seguir carreira, longe dos sonhos não seus. Só uma vez envia um recado: Mãe, estou bem. Agora sou eu a decidir. Teresa lê a mensagem, dobra o papel e guarda-o na gaveta, enterrando o assunto para sempre. Fica sozinha. Primeiro liga vezes sem conta a Beatriz, ouve apenas toques ou a gravação: O número que marcou não está disponível. Com o tempo, passa a escrever mensagens ríspidas, cheias de acusações e pedidos de culpa. Fala dos sacrifícios feitos, dos sonhos que despejou nas filhas. Beatriz, porém, decide firme cortar esse ciclo não vai mais sacrificar-se para preencher expectativas ou sentir-se culpada pelo que não é.
Finalmente, Beatriz encontra uma família onde é amada pelo sorriso, pela ternura, simplesmente por existir. Sente-se em casa pela primeira vez.
Vários anos volvidos, num dia de outono ameno, Beatriz passeia com Manuel e os meninos pelo Jardim da Estrela, em Lisboa. As folhas das árvores tingem-se de amarelo, laranja e vermelho, criando um tapete colorido. O ar cheira a terra húmida e flores tardias. Mãos dadas com Manuel, rodeada por Tiago e Simão, que ora fogem, ora voltam a correr para ela com novas descobertas.
Tiago, sempre cheio de energia, encontra debaixo de um arbusto uma folha de plátano gigante, bem vermelha, e grita:
Mamã, olha! Esta folha é maior que a minha mão! Corre orgulhoso até Beatriz, os olhos brilhantes, o rosto sujo de terra.
Beatriz ri, agacha-se para o abraçar, inala aquele cheiro de criança feliz. Olha para Manuel, encostado a um cipreste. Ele sorri-lhe, terno, e nesse sorriso cabe tudo o que ela sempre procurou.
Simão agarra-lhe a mão e puxa-a para uma poça:
Mamã, vamos ver quantas nuvens cabem aqui dentro? Acho que cabe o céu inteiro!
Ela levanta-se, pega-lhes nas mãos, e juntos caminham até à poça, onde se reflectem nuvens e árvores.
É isto pensa Beatriz , é isto o futuro de verdade. É isto o que sempre procurei.
Olha em redor: aqui está a sua família marido, meninos, o parque colorido, ar puro. É tudo real, quente, seu. E é tão feliz, tão feliz, que nem sabe como meter essa alegria em palavras.






