Simplesmente Seguir em Frente com a Vida

Só continuar a viver

Mariana, uma menina traquina de olhos negros brilhantes e dois totós despenteados, corria pela ampla e luminosa varanda da casa de campo da família, nos arredores de Sintra. O seu riso ecoava entre as colunas brancas, o rosto corado pelo sol do verão e pelas brincadeiras sem fim. Naquele fim de tarde dourado, ao ver o amigo do irmão sair lentamente em direção ao portão do jardim, Mariana travou de repente, ofegante, e lançou-se atrás dele, sem pensar duas vezes.

Com destreza e impulso juvenil, agarrou-lhe a mão com as suas pequenas e quentes mãos, ergueu o olhar com uma sinceridade desarmante de criança e soltou uma gargalhada cristalina:

Nunca te vou deixar ir embora! Quando crescer, vou casar contigo, João! Promete que vais esperar por mim!

João ficou parado, surpreso, as sobrancelhas levantadas pelo espanto a que uma miúda de sete anos conseguia condenar qualquer adulto. Em seguida, um sorriso enternecido floresceu-lhe nos lábios. Com doçura e bom humor, respondeu:

Espero, prometo.

E, num gesto carinhoso, despenteou ainda mais os totós da pequena, fazendo com que ficassem ainda mais desalinhados. Mariana semicerrava os olhos, fingindo zanga, mas logo voltava a sorrir, não largando a mão de João.

Mas entretanto continuou João, baixando-se para a fitar nos olhos tens de estudar muito e obedecer aos teus pais. Só assim podes ser digna de ser minha noiva.

O tom era meigo, cúmplice, com aquele calor especial que os adultos guardam só para os miúdos. Mariana fez ar sério, como quem pondera algo verdadeira e profundamente importante, mas acabou por acenar energicamente, apertando ainda mais forte a mão de João.

Prometo! Vou ser a melhor de todas!

Na brisa do fim de tarde pairava a alegria ingénua dos sonhos infantis, tão palpáveis naquele instante solarengo, como se nada jamais pudesse feri-los…

************************

Já adolescente, Mariana estava sentada no seu quarto, folheando distraidamente as páginas do caderno de matemática. Lá fora, o entardecer descia devagar sobre os telhados de Lisboa, e em casa reinava uma paz estranha que por vezes era cortada pelos murmúrios da sala ao lado. Mariana ouviu o irmão, Francisco, a falar ao telefone, a voz cheia de animação pouco habitual.

Inquieta, foi aproximando-se da porta, tentando perceber o que se dizia. Quando o nome do João lhe chegou aos ouvidos, o coração disparou. Ficou completamente imóvel, atenta. Francisco comentava um encontro, um café, e falava de sorrisos. Não havia dúvida: falava de uma nova namorada do João.

Quase sem pensar, Mariana levantou-se e colou o ouvido à porta do quarto do irmão, sedenta de apanhar cada palavra. O peito doía-lhe, mas lutava contra os pensamentos sombrios se calhar é só impressão minha, tentava convencer-se.

Quando Francisco finalmente desligou e saiu para o corredor, Mariana endireitou-se bruscamente, como se tivesse sido apanhada em flagrante. Mas já era tarde.

O João tem outra namorada? disparou, tentando parecer descontraída apesar da voz lhe trair a emoção.

Francisco pousou um olhar atento na irmã e suspirou, resignado, sem esconder o cansaço de quem vê o mesmo filme vezes demais.

Lá estás tu Mariana, tens dezasseis anos! Já está na altura de passares essa paixãozinha de criança, não achas?

Mariana ergueu o queixo, os olhos brilhando de indignação e desafio. Cruzou os braços, determinada:

Nunca! fez um gesto largo com a cabeça, abanando os caracóis dourados. Tu não percebes nada! Ele vai apaixonar-se por mim, ainda vais ver! Isto não é coisa de criança, Francisco. É verdade!

Dizia-o com tanta convicção que até parecia acreditar. Lembrava-se dos olhares fugazes do João, dos sorrisos discretos que lhe dirigia, de um ou outro toque acidental guardava tudo como pequenos tesouros de esperança.

Francisco limitou-se a olhar para aquela paixão obstinada, sem resposta. Por mais que dissesse, sabia que nada mudaria. Aquela paixão deixara de ser uma brincadeira há muito tempo para Mariana…

***************************

Um raio de sol atravessou a janela, enchendo de ouro a sala. Mariana entrou como um vendaval, olhos a brilhar, o sorriso tão largo que fazia doer as bochechas. Correu até ao irmão, que tomava o café da manhã lendo as notícias no telemóvel.

Ele pediu-me em namoro! exclamou, quase sem fôlego, os punhos cerrados de euforia. Trouxe-me uma caixinha de música lindíssima, com o meu nome gravado, no meu aniversário. Disse que agora que faço dezoito, pode finalmente confessar-se. O João gosta de mim!

Saltitava de felicidade, mexendo nos cabelos, como quem quer garantir que está tudo perfeito na sua aparência. O entusiasmo era contagiante.

Francisco largou o telemóvel e sorriu de felicidade genuína. Já esperava por este momento não só por Mariana, mas também porque o próprio João andava há semanas a meter conversa sobre ela. Umas vezes a perguntar se estava bem, outras a querer saber as flores preferidas dela, ou a sugerir que fossem todos juntos a Cascais.

Ela é tão bonita ouvia Francisco repetidamente da boca do amigo. E é esperta, generosa Mal posso esperar que faça dezoito. Não te importas, pois não?

Francisco respondia sempre: Se ela for feliz, eu só posso apoiar. Conhecia João há anos, sabia que era de confiança, dedicado. E agora, vendo Mariana resplandecente, não restavam dúvidas do acerto.

Muitos parabéns disse finalmente, levantando-se e abraçando a irmã. Fico mesmo feliz por vocês.

Mariana abraçou-o com força, sem acreditar ainda que aquele era o seu novo mundo. Sentia-se abençoada. Ao fundo, como em fundo musical improvável, ouvia-se o ronronar preguiçoso do gato preto, esparramado ao sol na janela

*******************

Dias depois, na sala de espera fria e estreita de um hospital de Lisboa, Mariana estava sentada num banco de plástico, imóvel. As paredes em tom bege pareciam ainda mais sombrias ao fim do dia chuvoso, e a janela deixava entrar uma luz branda. Mas Mariana não via nada. Olhava para um ponto indefinido, como se o mundo tivesse deixado de existir.

As mãos jaziam sobre as pernas, inertes. O cabelo, geralmente bem apanhado, caía-lhe desalinhado pelos ombros. Era como se toda a energia e calor da sua vida tivessem desaparecido. Quebrava a cabeça, presa à lembrança da noite anterior: ela e João à mesa, a escolherem as fitas do salão de casamentos, a rirem, a sonharem. Ele prometera-lhe o mundo E naquele dia, João não regressara mais.

O acidente foi brusco e sem sentido. Um condutor desgovernado, três carros e ninguém sobreviveu nem João, nem os outros dois ocupantes, nem sequer o culpado. Um segundo apenas, e tudo se partiu em mil fragmentos.

Os passos arrastados de Francisco ecoaram no corredor. Apareceu com os olhos avermelhados, o rosto pálido. Sentou-se ao lado da irmã, abraçando-lhe os ombros, tentando não desabar.

Mariana Chamou-a num sussurro, como se receasse quebrar o pouco de paz que restava nela. Fala comigo, querida, por favor.

Mariana virou-se devagar, os olhos secos mas cheios de dor, quase transparentes. O olhar perdido, distante, como se ele não estivesse ali.

Sobre o quê? a voz era oca, quase sem vida.

Francisco procurou palavras que não ferissem ainda mais.

Sobre o que quiseres apertou-lhe ligeiramente os ombros. Diz o que sentes. Chora, pelo menos! Não guardes tudo só para ti!

Ela abanou a cabeça. Os lábios tremeram, mas não chorou. Olhou para as mãos, como se o corpo já não lhe obedecesse, como se fosse de outra.

Não consigo murmurou, encolhendo os ombros. Não tenho lágrimas. Nem vontade de viver.

As palavras ficaram suspensas no ar, pesadas como nuvens cinzentas. Francisco cerrou os olhos, lutando para não ceder à sua própria dor. Agora precisava de ser forte, por ela.

Depois disso, Mariana fechou-se sobre si própria. Permaneceu ausente, apática, alheada de tudo. Não reagiu às perguntas dos enfermeiros, aos toques cuidadosos do irmão. Ficava sentada, imóvel, olhando para um ponto fixo, como se fosse invisível.

Uma enfermeira, compadecida, administrou-lhe um calmante. Mariana sentiu o corpo ficar pesado; as pálpebras tombaram, os pensamentos diluíram-se numa névoa escura.

Despertou horas depois, não no hospital, mas no próprio quarto. Reconheceu os cortinados, a estante, a fotografia antiga numa prateleira. Tudo parecia ao mesmo tempo familiar e estranho, como se regressasse a um lugar de que já não fazia parte.

Viu o irmão sentado no pequeno sofá, curvado, barba por fazer e olhos inchados. Falava baixo com a mãe, regressada às pressas de uma viagem de trabalho. O rosto da mãe era sombrio, com olheiras fundas mas voz determinada.

Estou tão preocupada com ela ouviu Francisco murmurar. Sempre viveu para o João, nunca quis olhar para mais ninguém. O que vai ser agora?

O tempo cura respondeu a mãe, sem convicção. Também ela sabia que essas palavras soavam ocas. A vida de Mariana girava em torno do João; tudo nela respirava esse amor. Vamos cuidar dela acrescentou, tentando convencer-se.

Mariana ouviu, sem coragem de mostrar que tinha acordado. Sentia-se vazia, como se lhe tivessem roubado a alma. Manteve os olhos fechados, fingindo dormir, porque não sabia como responder àquela preocupação. A dor não passava, só se escondia atrás do cansaço.

Francisco permaneceu mais um pouco, depois saiu de mansinho. A mãe ficou sentada junto à cama, acariciando a mão da filha, numa tentativa silenciosa de dar-lhe força. O silêncio reinava, interrompido apenas pelo tique-taque impaciente do relógio e pela respiração pesada de Mariana

*******************

Nove dias. Quarenta dias. O tempo arrastava-se com uma lentidão quase cruel, grudando-se a cada pensamento. Mariana não saía do lugar passava as horas sentada à janela do quarto, as pernas encolhidas, os olhos fixos no jardim.

O olhar deteve-se no velho banco de madeira, debaixo do plátano. Foi ali, numa noite morna de setembro, que João tomara coragem e lhe pedira em casamento. Recordava cada detalhe: as mãos dele a tremer, as frases interrompidas, o brilho nos olhos. E ela, rindo de felicidade, respondendo sim antes mesmo de ele terminar.

Agora o banco parecia abandonado. As árvores, despidas pelo inverno, o pátio devoluto. O tempo tinha parado no instante em que tudo se desmoronou.

Mariana, vens comer qualquer coisa? a voz suave da mãe irrompeu pelo nevoeiro dos pensamentos.

Chegou junto à filha e pousou-lhe a mão no ombro, mãos frias, marcadas pelo sofrimento. O olhar brilhava de lágrimas que insistia em reprimir sabia que não podia mostrar fraqueza.

Não quero murmurou Mariana, sem se virar. A voz era neutra, como se falasse de outra pessoa.

Tens de comer insistiu a mãe, tentando soar firme, mas a voz a tremer. Ontem também não tocaste em nada. Tens de cuidar de ti.

Para quê? Mariana virou-se, o olhar despido. Não devo nada a ninguém.

A mãe vacilou, atingida pelas palavras. Quis reagir, mas faltaram-lhe as forças. Suspirou fundo, resignada, e afastou-se em silêncio.

No corredor, Francisco já a esperava. Bastou-lhe um gesto para mostrar que ouvira tudo.

Já falei com o médico murmurou a mãe, apertando o avental nas mãos. Precisamos mesmo de ajuda. Sozinhos, não vamos conseguir.

Francisco assentiu. Já percebera há muito que não bastava força de vontade. Ver a irmã assim, perdida, era insuportável. Apertou os punhos, lutando contra a raiva do destino.

Vou ligar à dra. Soares garantiu, mexendo no telemóvel. Ela disse que ajudava se a Mariana piorasse.

A mãe acenou, o olhar preso na porta do quarto, onde a filha continuava imóvel, feita sombra do que fora.

Quando o céu escureceu e a lua desenhou manchas pálidas no chão, Mariana finalmente se levantou do parapeito. As pernas mal sustentavam o corpo enfraquecido. Mudou-se para a cama, deitou-se, puxou o edredão até ao queixo.

O silêncio de casa varria a noite. Mariana fechou os olhos, desejando um sono sem dor. Mas o sonho foi diferente.

Viu João. Estava ali, igual a sempre sorriso cálido, camisola cinzenta de capuz, mas o olhar agora sério.

Mariana a voz límpida, como se ele estivesse verdadeiramente junto dela , olha para ti. O que andas a fazer?

Tentou responder, sem sucesso. João continuou, mais próximo:

Já te viste ao espelho? Não podes continuar assim.

Tentou tocá-lo, mas o gesto ficou suspenso no ar.

Eu… não sei viver sem ti sussurrou Mariana, as lágrimas escorrendo-lhe pela cara.

Sabes, e vais conseguir respondeu João, firme. Sempre foste forte. Tens de continuar a viver, Mariana.

Aproximou-se ainda mais, e ela jurou sentir-lhe o calor da mão na face.

A tua vida não parou. Virão dias bons e dias maus, faz parte. Mas não deves parar. Eu vou estar sempre aqui. Olha para o céu estou entre as estrelas. E, se precisares, chama por mim. Estarei sempre a ouvir.

Mariana soluçou, ávida por o reter, mas a imagem desfez-se devagar.

Não vás! gritou, os braços esticados. Por favor!

Só restou um sussurro:

Vive, Mariana. Promete.

Acordou de rompante. O quarto era o mesmo, iluminado pela luz pálida da lua. A almofada molhada de lágrimas, o peito em convulsão.

Gritou, no silêncio sombrio da casa. Instantes depois, mãe, pai e o irmão entraram alarmados.

Mariana, minha filha, que foi?

Onde dói? Francisco procurava alguma explicação.

Mas Mariana não respondeu. Encolheu-se a um canto e chorou baixinho, o rosto banhado de lágrimas. Viu ainda o olhar severo mas terno de João e os seus últimos conselhos.

Promete ecoou-lhe na mente.

E, entre soluços, murmurou:

Prometo

A mãe aninhou-a nos braços, embalando-a como em menina pequena, e Francisco tocou-lhe no ombro em silêncio. Não sabiam o que dizer, mas estavam ali.

E Mariana, encostada ao colo da mãe, começou a tentar entender: como se continua a viver? Respirar, comer, andar, sorrir sem ele? Mas, lá no fundo, uma ideia ténue despontava: se ele acreditava nela, se lhe pediu para viver, tinha de tentar.

Pelo menos, por ele.

************************

Num desses fins de tarde de chuva, a família reuniu-se na sala. Chá na mesa, as canecas intocadas. Sabiam todos que era preciso mudar algo.

Acho que o melhor é mudarmos de cidade Francisco falou baixinho, olhando para Mariana. Lisboa tem memórias em cada esquina. Cada lugar é uma ferida aberta.

Mariana enroscava-se na poltrona, sem protestar. Olhava as gotas de água a escorrer nos vidros, desfazendo o contorno dos prédios vizinhos. O rosto estava pálido, mas dessa vez, os olhos traziam outra luz.

Um novo sítio vai ser melhor concordou a mãe, acariciando-lhe a mão. Gente nova, outros caminhos. Pode ser um recomeço.

Para onde? perguntou Mariana, a voz fraca mas agora já dela própria.

Porto. O Pedro, meu amigo, consegue arranjar-me emprego numa empresa lá. Arrendamos uma casa e depois vemos.

Vais ter faculdade também garantiu a mãe. Tudo se arranja. O que importa é melhorarmos.

No seu íntimo, Mariana viu desfilar as imagens daquele passado: as gargalhadas com João no banco do jardim, os passeios em Alfama de mão dada, os ramos de flores à porta da escola. Tudo, até as árvores, falava dele. E a dor só aumentava.

Está bem murmurou. Vamos.

Dizer aquilo custou-lhe tudo. Mas era uma decisão. A primeira, em muito tempo.

As semanas seguintes foram ocupadas pelo rebuliço da mudança. Mariana pouco intervinha olhava os outros a encaixotarem livros, a separar roupas, a limpar armários. Pegava, aqui e ali, num porta-chaves dado por João, numa fotografia antiga, num bilhete de cinema e demorava-se antes de guardar.

No dia da partida, ficou no terraço, lançando um último olhar ao jardim. O peito apertou-se, mas não sucumbiu. Consigo. Tenho de conseguir.

O Porto acolheu-a com céu de chumbo e ruas apressadas. O apartamento era amplo e luminoso. Mariana demorou-se à janela do quarto novo, a ver a cidade estranha e desconhecida. Era tudo diferente, mas esse desconhecimento era reconfortante. Não havia memórias, só espaços por ocupar com algo novo.

Os primeiros dias foram árduos. Mariana acordava sem sentir que a vida era dela. Sentia saudades da cidade antiga, dos amigos. Às vezes sonhava com o João ele aparecia, sorria, dizia coisas encorajadoras, e ela chorava em silêncio.

Aos poucos, começou a reparar nas pequenas coisas. Um canteiro de tulipas no parque, um café em frente, onde o empregado recordou o seu pedido. Minudências, que a faziam seguir em frente.

Nunca esqueceu o João e nunca o esqueceria. Mas compreendeu enfim: continuar a viver não era trair a memória dele. Era, antes, cumprir a sua última vontade.

Frequentava aulas preparatórias, ajudava a mãe em casa, passeava com Francisco pelas ruas novas. Cada dia era um desafio, um recomeço não para apagar o passado, mas para o honrar.

E, lá bem fundo, sabia: ele olhava por ela.

E estava orgulhoso.

Porque ela resistia.

Porque continuava a viver.

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