Sérgio foi à aldeia visitar a tia, irmã mais velha da mãe, a quem prometeu cuidar após o pedido da mãe antes de morrer.

Hoje voltei a lembrar da minha última viagem à aldeia para visitar a minha tia Laurinda, a irmã mais velha da minha mãe. Antes de partir deste mundo, a minha mãe tinha-me pedido para estar atento à tia, para não a deixar sozinha.

A tia Laurinda era já muito pequena e bastante envelhecida. Já por várias vezes lhe sugeri que viesse viver connosco para Lisboa. Disse-lhe que teria o seu próprio quarto, poderia passear no jardim do prédio, conviver com outras senhoras da sua idade, para não se sentir tão solitária. Mas a tia Laurinda nunca aceitou deixar a sua casa da aldeia de Árados não queria afastar-se das raízes, dos cheiros e das memórias.

Por isso, tenho que pedir cinco dias sem vencimento de três em três meses para ir vê-la. Dois dias perco-os só nas viagens de comboio e camioneta, os outros três ajudam-na com o que for preciso trato da horta, pinto o portão, arranjo o telhado. Felizmente sou o chefe do meu departamento e posso conceder-me estas licenças esporádicas. Ainda bem também que o dono da empresa é meu amigo de juventude.

Este ano, por causa de muito trabalho, não fui em março como de costume, só consegui ir no fim de abril.

Quando cheguei, percebi logo que a tia Laurinda estava muito mais frágil; soube pela vizinha, a tia Matilde, que até chamaram o INEM duas vezes. Quando lhes perguntei porque não me avisaram, respondeu-me:

Oh Simão, a tua tia proibiu-me de te dizer, não queria que te incomodasses no trabalho. Só para te avisar caso ela partisse, disse ela

Fui à mercearia buscar açúcar e sal, como a tia me pediu. Aproveitei e comprei arroz, grão, enlatados e leite condensado. Ao regressar, junto à escada de pedra, vi um cachorro pastor com cerca de cinco meses.

Era diferente, de cabeça grande e focinho alongado.

Tia Laurinda, foste tu que arranjaste este cão?

Ele apareceu aqui há um mês. Abri o portão e estava sentado, a tremer de frio e esquelético. Desde então fui cuidando dele, sabe bem ter companhia.

Acariciei o cachorro, que logo encostou a cabeça ao meu colo. Sempre adorei cães, quando era miúdo sonhei ter um amigo assim, mas os meus pais nunca permitiram. Agora não era possível mal tínhamos tempo para nós, e ainda quando a minha mulher, Beatriz, insistiu em ter um gato, o pobre animal desapareceu após três anos. Não tivemos filhos já aceitámos isso e, por isso, viajamos muitas vezes juntos.

Como se chama o teu novo amigo, tia?

Gil. Era o nome do meu antigo gato.

Desatei a rir:

Mas tia, chamar Gil ao cão, nome de gato?

Que importa? Ele reconhece-se e responde!

Durante minha visita, Gil não me largou. Quando chegou o momento de partir, pedi à tia Laurinda para me ligar se não se sentisse bem, sem hesitar. Se precisasse de qualquer medicamento, eu arranjaria.

Já te dei demasiado trabalho, estás sempre a vir cá por minha causa

Não diga isso, tia Laurinda, gosto de cá vir, não é sacrifício para mim. Quero que viva muito tempo!

Simão, só te peço uma coisa: se eu partir, não abandones o Gil. Ele pode não valer muito, mas é uma vida.

Não se preocupe, tia, arranjo-lhe um bom lar.

Não, peço-te mesmo que o fiques contigo. Acho que não apareceu aqui por acaso

Nesse instante, Gil colou-se às minhas pernas e olhou nos meus olhos, atento.

Está bem, tia, prometo.

Um mês depois, a tia Laurinda faleceu. Tratei de tudo, dos nove dias com os vizinhos, e fui com Gil ao cemitério, despedirmo-nos juntos.

No dia de ir embora, já tinha preparado trela e açaime para Gil. Comprámos bilhete no comboio que permite animais e, mal entrámos no compartimento, Gil arrepiou-se e rosnou para um homem sentado à janela.

O homem, assustado, disparou:

Mas agora anda-se de comboio com lobos?

Ouça lá, vê-se logo que está bêbado. É só um cão, chamo-lhe Gil.

Isso não é cão nenhum é lobo, eu sou caçador e conheço bem!

Gil rosnou de novo, ameaçador.

Tire esse bicho daqui antes que lhe faça mal!

Ó homem, acalme-se. Ninguém o incomodou. Sente-se no corredor, se tem medo!

O homem assim fez e ficámos sozinhos. Olhei para Gil, brinquei com ele:

Gil, és mesmo um lobo? Ele deitou a cabeça no meu colo, abanou a cauda. Não interessa, és espetacular como és.

Pouco depois entra a revisora:

O que traz aí, é lobo ou pastor?

Quem anda aí a inventar? É um cão de raça rara, treinado.

Tem documentos dele?

Tenho… só que, ai Jesus, deixei-os na bilheteira! Mas sabe tão bem como eu que sem documentos, nem bilhete teríamos.

Pois, é verdade, respondeu.

Na verdade, a funcionária da bilheteira era filha da Matilde, por isso tudo se resolveu facilmente. Chegámos a Lisboa. No mesmo dia levei Gil à clínica veterinária do bairro. A médica viu-o, e perguntou logo:

Trabalha no circo?

Não, porquê?

É que isso é um lobo…

Respirei fundo:

É, parece, mas não é do circo, veio da aldeia, da minha tia, falecida. Prometi que ficaria com ele.

A médica analisou-o com atenção, depois declarou:

Deve ser mistura, um dos pais deve ser pastor alemão. São cães dóceis, podem ser bem adaptados à cidade. Vou registá-lo e atualizar as vacinas.

A Beatriz afeiçoou-se de imediato ao Gil, tratava e passeava com ele todos os dias.

Dez meses passaram assim. Num fim de tarde nas férias de Natal, a Beatriz decidiu ir ao jardim próximo com o Gil, precisava de esticar as pernas e espairecer.

Enquanto caminhavam pelos trilhos, Gil de repente levantou as orelhas e disparou noite adentro. Beatriz chamou, gritou, mas ele desapareceu vários minutos. Quando já se preparava para me telefonar, viu Gil regressar, trazendo uma trouxa na boca.

Correu a seu encontro: era um bebé acabado de nascer, ainda quente e graças a Deus vivo! Embora fosse médica, ligou imediatamente para o 112 e para a polícia.

Chegaram rapidamente. Como não podia ir de imediato com eles por causa do cão, foi a casa, deixou o Gil comigo e juntos seguimos para o hospital. Lá soubemos que era uma menina, tinha cerca de um mês e estava bem de saúde.

Na trouxa estava um papel, a mãe chamava-se Leonor e pedia que entregassem a filha a boa gente. Beatriz implorou para ver a bebé e, mal a teve nos braços, apaixonou-se. Olhámos um para o outro entendi logo sem palavras o que ela queria.

Disse ao assistente social que a Beatriz era médica, tínhamos condições, queríamos ficar com a menina.

Dois meses depois, a Leonorzinha veio morar connosco. E, tal como a tia Laurinda disse, não foi por acaso que o Gil apareceu à porta dela.

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