Senta-te! Não estamos em casa! – disse Pedro calmamente.

Senta-te! Não estamos em casa! disse João calmamente.
Mas estão a tocar à campainha! Maria ficou em silêncio, meio levantada do sofá.
Que toquem, respondeu João.
E se for alguém importante? perguntou Maria. Ou por algum assunto urgente?
É sábado, meio-dia, João falou. Tu não convidaste ninguém, eu também não espero visita. Não há dúvidas.
Só vou espreitar pelo óculo! murmurou Maria.
Senta-te! a voz de João era firme como ferro. Não estamos em casa! Seja quem for, que volte para onde veio!
Mas tu sabes quem é? insistiu Maria.
Desconfio, por isso digo para não te mostrares à janela!
Se for quem estou a pensar, não vão desistir assim! disse Maria com um encolher de ombros.
Depende de quanto tempo resistirmos sem abrir a porta, João respondeu tranquilo. Mais cedo ou mais tarde, hão de ir-se embora. Não vão passar a noite no prédio. E nós não temos que sair de casa. Portanto, senta-te, põe os auscultadores, liga o telefone e vê um filme.
João, é a minha mãe a telefonar, mostrou Maria o ecrã do telemóvel.
Então, está lá a tua tia Carla com o filho desmiolado, deduziu João.
Como é que sabes isso? admirou-se Maria.
Se fosse o meu primo, e João pronunciou o i de primo de maneira tão irónica que até soou desagradável, era a minha mãe a ligar-me!
Não vês mais hipóteses? perguntou Maria.
Se fossem vizinhos, não quero conversa. Se fossem amigos, depois de tocarem duas vezes, já tinham ido à vida deles. E, sendo pessoas de respeito, teriam avisado antes a perguntar se podíamos recebê-los! Só os familiares chatos é que conseguem tocar à campainha meia hora sem parar!
João, é mesmo a minha tia disse Maria num tom resignado. A mãe escreveu agora: pergunta onde andamos metidos. A tia vai ficar cá uns dias, tem uns assuntos na cidade!
Escreve-lhe que em Lisboa há hotéis para todos os gostos, riu João.
João! Maria protestou num tom de censura. Não posso responder isso.
Eu sei, pensou João. Diz antes que não estamos em casa, que tivemos de ir para um hotel porque andaram a desinfestar a casa contra baratas!
Boa! Maria escreveu e enviou a mensagem.
João, ela diz para reservamos dois quartos para ela e para o Rui Maria ficou atónita.
Diz-lhe que não temos dinheiro. E diz ainda que só conseguimos arranjar duas camas num hostel, com mais quinze trabalhadores na mesma sala, João sorriu satisfeito com a sua imaginação.
A minha mãe pergunta quando regressamos, disse Maria olhando para o marido.
Diz que só daqui a uma semana, despachou João.
Deixaram de tocar à campainha. O casal suspirou de alívio.
João, a minha mãe escreveu que a tia Carla vem para cá daqui a uma semana, disse Maria desanimada.
E nós voltamos a não estar em casa, retorquiu João.
João, sabes que isto não resolve nada, não é? Não podemos fugir deles para sempre!
E se aparecerem a meio da semana? Ou se esperarem por nós depois do trabalho? Tia Carla ou o teu primo são bem capazes disso!
Pois, admitiu João tristemente. Quem nos mandou comprar um T3?
João, compramos para a família que queremos ter disse Maria baixinho.
Está na hora de termos um filho! completou João com seriedade. Ou melhor, dois de uma vez!
Achas que não quero? protestou Maria. Sabes bem que temos de nos examinar primeiro! Não está a resultar
É preciso é menos stress, e conseguimos, disse João sério. Alternadamente, são os teus nervos ou os meus! Se os pusermos todos fora de cena, vai correr tudo bem!
Maria não discutiu. Sabia que João estava certo.
***
Quando se prepararam para casar, gastaram-se numa consulta cara para exames de compatibilidade e doenças genéticas. Até a fertilidade foi analisada.
Na altura estava tudo ótimo. Mas logo após o casamento tiveram de adiar os planos para filhos, pois era preciso ganhar dinheiro para a casa.
Não valia a pena esperar por heranças. Antes do casamento, tanto João como Maria viveram com as mães em apartamentos de um quarto. Só podiam contar com eles próprios.
Foram cinco anos de trabalho duro e de poupanças apertadas até conseguirem comprar um apartamento maior.
O prédio já era antigo, mas investiram nas renovações, mobilaram tudo quase do zero. Mas foi uma felicidade imensa!
Na cabeça, Maria recordava aquela velha música popular: É tão boa a minha casinha
Pouco depois da festa de inauguração da casa, apareceu logo a tia Carla com o filho Rui à porta.
Como se não bastasse, vinha acompanhada pela sogra de Maria.
Aqui tem espaço, cabem à vontade! Não é como nós e a Maria, sofridas a dividir um quarto!
Ótimo, aprovou tia Carla. Fico com um quarto e o Rui noutro!
Ninguém dorme na sala, advertiu João. A sala é só para relaxar!
Eu também não quero trabalhar, quero é descansar! riu-se tia Carla. Maria, diz lá ao teu marido que nós não conseguimos dormir juntos, ele ressona!
E ainda por cima, com visitas em casa, nem uma mesa têm posta?!
Nós não estávamos à espera de ninguém, Maria ficou encabulada.
E o frigorífico está vazio, ajudou João.
Está bem, tia Carla mostrou benevolência. João, vai ao supermercado! Maria, mexe-te na cozinha!
Então, estão à espera de quê? ralhou a sogra. É assim que recebem as visitas?!
Mas vocês passaram-se João ia explodir, mas Maria agarrou-o e levou-o para outra divisão.
Quando conseguiu que Maria lhe soltasse a mão da boca, perguntou indignado:
Maria, não se confundiram aqui? Eu vou mesmo pô-los na rua! Junto com a tua mãe, se for preciso!
Já que vieram visitar, comportem-se como tal! Isto é absurdo!
João, ela é simples, de província! Lá no campo é costume…
Eu conheço gente do campo, mas má educação não é normal em lado nenhum!
Amor, não arranjes brigas com a minha mãe e a tia! Depois fazem-me a cabeça em água!
Tu ficas logo o vilão da história! Queres isso para ti?
Por mim, podem pensar o que quiserem! Se me tratam mal, não faço questão nenhuma de estar com eles! Até me faziam um favor se desaparecessem!
João, querido! Olha por mim! Se agora correr com a tia Carla, a minha mãe nunca me perdoa. E eu só a tenho a ela!
Este argumento acabou por convencer João. Cerrou o maxilar e foi ao supermercado de má vontade.
A estadia da tia Carla, que devia ser de três dias, estendeu-se a duas semanas. E ao fim do segundo dia, João já tomava valeriana para os nervos.
Quando finalmente partiram, o casal celebrou a partida com uma limpeza a fundo que durou três dias.
Mas passaram só umas semanas e repetiu-se a situação, agora pelo lado de João.
Ó mano, venho só por uns dias, o primo Miguel deu-lhe um grande abraço. Tenho uns assuntos para tratar, depois vou-me embora!
Não podes tratar dos teus assuntos sozinho? perguntou João.
Achas? Tenho a família comigo! Deixava-os lá na vila enquanto vinha a Lisboa sozinho? Nem pensar! E se me meto em sarilhos? A mulher quer controlar!
Por isso é que trouxeste os filhos todos? estranhou João.
E deixava-os com quem? Eles gostam de se divertir! Bora lá animar Lisboa como nos velhos tempos!
Miguel! gritou a mulher, Patrícia. Se me deres problemas, nem te atrevas a voltar tão cedo!
Mal o primo chegou com a família, Maria ficou KO com dor de cabeça.
As crianças correram o apartamento de lés a lés aos gritos. A Patrícia só falava aos berros. E o Miguel não parava de querer sair à noite, o que fazia Patrícia gritar ainda mais.
João, tu só tens este primo por parte da mãe, não é? murmurou Maria já acamada.
É, mas chamo-lhe primo à força do hábito, resmungou João.
Chamem-lhe o que quiserem, mas não dava para ele ir embora?
Se dependesse só de mim respondeu João, mão ao peito, mas é tal e qual com a tua tia. A minha mãe acabava comigo!
Mal recuperavam de uma visita, logo outra batia à porta. A tia Carla e o filho arranjavam sempre motivos para ir à cidade. O primo Miguel e a família apareciam de tempos a tempos para tratar de coisas. As mães nunca deixavam os filhos em paz. Uma infernizava o genro, a outra a nora.
E aquele constante entra-e-sai acabava com a saúde mental do casal.
Claro que, no meio dessa confusão, não havia condições para pensar em bebés. Não só a saúde já andava afetada, como era impossível pensar em como
***
E se mudássemos de casa? sugeriu Maria.
Para um manicómio? riu-se João. Qualquer dia vão nos internar!
Não, Maria sorriu triste. Mudávamos para outro apartamento igual deste, mas noutro bairro. Há pessoas que querem troca de zona! Assim, ficávamos sem dizer nada a ninguém e desaparecíamos temporariamente!
Era só um adiamento, João deu de ombros. O meu primo e a tua tia apanhavam os novos moradores e descobriam onde fomos. Depois ainda faziam pior!
Mas talvez desse tempo para engravidar disse Maria com esperança.
Precisamos não só disso, como de criar o bebé! E nem assim param
Dá vontade de fugir daqui lamentou Maria. Vamos pedir aos amigos para ficarmos lá uns tempos? Ao menos escondemo-nos lá!
Fala da Marta e do Luís? perguntou João.
Sim, eles até têm um quarto vago!
Lá mora a Tera, a pastora alemã! sorriu João. Já esqueceste?
Antes dormir com um cão do que com os nossos parentes, respondeu Maria.
Espera! João pegou logo no telefone. Luís, emprestas-me a Tera?
Irmão! Salvas-me a vida! Eu e a Marta vamos ao Algarve e não temos com quem deixar a bicha! Ela não gosta de estranhos, mas vocês ela adora! Levo-lhe a comida, cama, brinquedos! Até vos pago!
Tráz já tudo! vibrou João.
Voltou-se para a esposa, com o sorriso de uma manhã de primavera:
Liga à tua mãe, avisa que a tia pode vir amanhã! Eu vou já avisar o Miguel para virem esta semana!
Tens a certeza? Maria arregalou os olhos.
Claro! Vamos recebê-los com todo o gosto! Se não gostarem da Tera, não é culpa nossa!
O primo Miguel e família bastou ouvirem um au-au para preferirem logo um hotel da cidade.
Trancai esse animal em algum lado! guinchou Patrícia, escondendo-se atrás do filho.
Tia Carla, está a brincar? sorriu João. São quarenta e cinco quilos de puro músculo! Isto não é um caniche, é uma pastora alemã! Até arromba portas!
Por que é que ela me abana os dentes? perguntou a tia Carla, já pálida.
Não gosta de estranhos, encolheu os ombros Maria.
Tirem-na daqui! Não vou viver com esse monstro!
Tirá-la? João indignado. Esta querida cadela é o nosso animal de estimação. Como ainda não temos filhos, temos que dar amor a alguém! E é mesmo querida!
Nunca a largamos! acrescentou Maria.
Depois, ambas as mães ligaram a questionar porque tinham recusado receber os familiares.
Não recusámos, respondiam a ambas, eles é que não quiseram ficar! Venham quando quiserem! Serão sempre bem-vindos!
E a cadela?
Mãe, em nossa casa ninguém é rejeitado!
Mas, curiosamente, as mães deixaram de aparecer.
Um mês depois, a Tera voltou para os donos originalíssimos, mas já pronta a regressar, se fosse necessário.
Não foi preciso. Maria estava grávida de gémeos.
A maior lição de tudo isto: às vezes, para proteger o próprio lar e a saúde da família, é preciso aprender a pôr limites, mesmo às pessoas mais chegadas. E o verdadeiro amor começa por saber dizer não, quando é para o bem de todos.

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Senta-te! Não estamos em casa! – disse Pedro calmamente.