Sem Direito a Fraqueza

Sem direito à fraqueza

“Por favor, vem… estou no hospital.”

Beatriz mal perdeu tempo a pensar no que vestir. Enfiou o casaco de lã sobre a camisola caseira com uma pressa nervosa, nem reparando como o tecido subiu-lhe nas ancas. Nem sequer passou pela frente do espelho a mensagem curta de Greice, recebida há meia hora, saturava-lhe o pensamento todo.

O medo apertou-lhe o peito mal leu as palavras. Ficou parada um instante, tentando adivinhar o que teria acontecido, mas logo sacudiu a indecisão: agora, mais do que tudo, Greice precisava era dela. Agarrou do móvel as chaves, o telemóvel, e saiu quase a correr, calçando os sapatos já no patamar.

O caminho até ao Hospital de São José, a mesma Avenida Almirante Reis de sempre, agora parecia não ter fim. Os semáforos demoravam-se eternidades no vermelho, os autocarros arrastavam-se como lesmas, e os transeuntes, indiferentes à inquietação de Beatriz, passeavam-se sem pressa. Olhava para o telemóvel às vezes nada. Só silêncio. E cada momento sem resposta fazia crescer uma angústia mansa e sem nome: o que tinha acontecido? Era grave? Porque o hospital? E esse mutismo só aumentava o nó no peito.

Caminhou devagarinho naquele corredor frio onde os sons ferrugentos ecoavam. Parou frente ao quarto e abriu a porta com todo o cuidado. O olhar caiu imediatamente sobre Greice, estendida na cama estreita. Os olhos fixos no teto como se buscasse ali alguma explicação. O cabelo, que de costume ela apanhava num elegante coque, caía agora desgrenhado pela almofada, num abandono raro.

Ao reparar melhor, Beatriz notou o rosto pálido da amiga, as olheiras profundas, os sulcos secos de lágrimas nas faces. Toda aquela imagem tresandava a tristeza funda, e Beatriz sentiu o coração contrair-se violentamente.

Aproximou-se, sentou-se ao de leve na beira do colchão. A voz saiu-lhe num sussurro, quase reverente:

Greice… o que aconteceu?

Greice virou a cabeça lentamente. Os olhos estavam secos, mas neles morava uma dor densa, que enchia o quarto de silêncio. Beatriz assustou-se ao ver como, de repente, a amiga lhe pareceu pequena e tão frágil.

Ele foi-se embora sussurrou Greice, e os dedos crisparam-se à volta dos lençóis. Os nós dos dedos esbranquiçaram, como se ela quisesse agarrar-se a qualquer coisa neste mundo que, de súbito, desabava. Arrumou as coisas, disse que não aguenta mais.

Quem…? O João? o nome saiu automaticamente, e Beatriz apanhou-lhe a mão sem pensar, querendo puxar Greice daquele abismo silencioso para onde mergulhava.

Greice concordou com um gesto lento, e, naquele momento, finalmente uma lágrima brotou-lhe no olho e escorreu rosto abaixo. Não a limpou. Já não tinha força para isso.

Beatriz sentiu um nó apertar-lhe a garganta. Procurou palavras mas as ideias dispersavam-se, como folhas ao vento. Como podia, alguém como João, que tanto tinha lutado por aquela família, fazer isto?

O silêncio apenas era cortado pelo tique-taque distante do relógio de parede. Greice tremia ligeiramente; as mãos unidas, como quem reza. Depois cobriu o rosto, fugindo do mundo naquele gesto pequeno e resignado. Aquela fadiga, tão humana, fez Brotar lágrimas nos olhos de Beatriz.

Passaram minutos ou talvez horas, pois nestes momentos o tempo corre fora do compasso dos relógios. Aos poucos, o tremor sossegou, a respiração estabilizou. Greice baixou as mãos, limpou as lágrimas com as costas da mão e olhou Beatriz nos olhos ainda havia dor, mas também uma lucidez amarga, de quem aceita a inevitabilidade.

E porquê…? sussurrou Beatriz, escolhendo bem cada palavra, receando azedar ainda mais a ferida. Ele ao menos… ele explicou alguma coisa?

Greice soltou uma espécie de riso, curto e seco só amargura.

Os miúdos murmurou, e a voz tremeu. Disse que não aguenta mais noites sem dormir, gritos, a preocupação constante. Imagina, Beatriz! Ele, que tanto insistia em que devíamos continuar a tentar, dizia sempre: “Vamos conseguir, é o nosso destino, temos de lutar”.

Interrompeu-se, como quem revê, num relance, promessas que agora pareciam piadas cruéis.

Andámos em médicos, análises, tratamentos… Tantas dores, tanto cansaço, tantas lágrimas!

A voz falhou, mas Greice retomou o tom, decidida:

E eu, que pensei que depois de passar isto tudo juntos, ele ficaria até ao fim. Fosse o que fosse. Enganei-me.

Olhou para a janela. A cidade lá fora escurecia, os tons dourados do entardecer iam-se. E murmurou, quase sem se ouvir:

Doze anos. Oito tentativas. Tudo para isto?

***************************

A história deles parecia saída de uma comédia romântica das antigas. Inês conheceu João num jantar de amigos, daqueles boémios lisboetas. O apartamento em Arroios fervilhava de vida gargalhadas, música, conversas cruzadas. João, de copo de sumo na mão, olhava os outros com ar distraído, quando entrou Inês, contagiando o quarto com a sua energia inquieta. Falava gesticulando com Iris, e quando reparou nos olhos de João, lançou-lhe um sorriso límpido, impossível de ignorar.

João foi ter com ela. A conversa brotou fácil, natural, com intimidade de quem se reencontra muitos anos depois. Falaram sobre filmes, viagens, os tiques peculiares de cada um. O tempo voou tanto que, quando a festa acabou, João soube que não podia deixá-la ir. Sugeriu um passeio, e vaguearam pela Baixa lisboeta até ao romper da manhã, partilhando sonhos.

Em três meses partilhavam já casa. O apartamento encheu-se depressa de rotinas: livros dele nas estantes dela, perfumes dela na cómoda dele, dois pares de sapatos à entrada. Tudo encaixava com uma naturalidade feliz. Casaram-se dentro de seis meses. Foi um casamento simples, rodeados de amigos e família, muitos risos, brindes e bailes populares até ao cansaço.

Na primeira celebração do aniversário de casamento estavam na varanda, chá e pastéis de nata na mão. João olhou Inês nos olhos, pegou-lhe na mão e disse:

Quero filhos. Muitos, uma equipa de futebol, até.

Ela riu-se, abraçou-o pelo pescoço e prometeu:

Vamos ter. Uma casa cheia de alegria.

Parecia simples: amor, vida partilhada, filhos seria só esperar.

Nos dois primeiros anos, deram prioridade à carreira: Inês era designer num atelier de Campo de Ourique, João subia nos meandros de uma empresa informática. Passeavam muito: no verão iam para o Algarve, no inverno à Serra da Estrela, nos fins de semana exploravam capitais europeias. Entre ambos, crescia uma cumplicidade tranquila e feliz.

Depois decidiram: era hora de começar uma família.

Vieram os obstáculos. Ao início, ninguém se preocupou muito. Consultaram o ginecologista na CUF Descobertas.

Não se preocupem, é comum. Muitas vezes demora mesmo tranquilizou o médico.

Tentaram. Nada. Meios meses passaram exames, análises, consultas e receitas. Sempre novas esperanças e novos receios.

Talvez precise de tratamento foi ouvindo Inês, cada vez mais a absorver informação, a seguir rotinas, a ser otimista. João apoiava fazia exames, cumpria prescrições, mantinha-se presente.

A primeira perda veio às seis semanas. Só houve tempo para sonhar; quase de imediato, a notícia amarga. Inês lembrava-se: o frio da sala de ecografia, a indiferença do médico, a força bruta da mão de João na sua, as marcas roxas nas falanges.

Um ano depois, a mesma notícia, a mesma dor agora, com uma sensação de injustiça insuportável. Era de mais.

Insistiram. Mais exames, mais consultas, mais métodos. Todos os meses Inês esperava o atraso, fazia o teste, guardava mais um negativo. João via-lhe a dor, sentia-se inútil. O seu apoio era silêncio, chás quentes, presença.

O tempo passava; não desistiam. Acreditavam que acabaria por acontecer.

Quando ouviram “infertilidade”, o médico disse-o friamente. Para Inês e João, foram como estocadas. Sentaram-se, ouviram as orientações, mas pouco processaram. As mãos de Inês cravaram-se na de João; ele nem pestanejou. Os dois perguntavam-se apenas: e agora?

Não baixaram braços. Após discussões, dúvidas, segundos pareceres, decidiram: FIV. Primeira, segunda, terceira tentativa esperas, esperanças, análises, consultas, ecografias… e desilusões.

Houve mais uma perda. Inês tornou-se mais reservada ria menos, perdia-se a olhar crianças no parque, calava-se à noite. João animava-a o melhor que sabia, mas sentia que estavam ambos esgotados.

Mais uma FIV, mais um ciclo de desgaste. Inês mantinha um diário, acompanhava cada sintoma. João não falhava uma consulta, trazia lanches, estava sempre por perto. Tentavam parecer normais mantinham os jantares, pequenas viagens, mas a obsessão não dava tréguas.

Uma noite, Inês fechou-se de mais na casa de banho. João bateu entrou, e ela estava sentada, com um teste apagado na mão. Olhar vazio.

Não aguento mais, murmurou. Estou exausta. Física, mentalmente… esgotada.

João sentou-se ao lado, encostou-a ao peito. Não prometeu nada só ficou ali, a sentir-lhe a fragilidade no tremor dos ombros.

Estamos quase lá sussurrou. Mais uma vez. Última. Por favor.

Inês fechou os olhos, respirou. Sabia o que a esperava: meses de esperança, exames, medo. Mas no olhar de João via-se o amor, a esperança. Aceitou porque o amava. Porque queria acreditar.

Prepararam-se para a oitava tentativa: exames, planos, disciplina rigorosa. Inês já não sonhava fazia, apenas. Seguia as indicações, bloqueando recordações.

O momento chegou. A espera foi longa, os testes ansiosos. Finalmente, positivo.

Na ecografia, Inês apertou a mão de João tão forte que ele estremeceu mas deixou. O médico sorria ao monitor:

Vejam dois corações.

Inês chorava; olhava o ecrã, via duas luzes, vibrantes, batendo. Uma felicidade nova e desconcertante.

É um milagre, murmurou, olhos fixos no milagre.

João chorou também lágrimas sinceras de quem, no casamento, prometeu estar nos bons e maus momentos. Era alegria, era justiça, merecida depois de tanto caminho.

Depois…

Tudo mudou numa noite comum. Nada previa tempestade: foi um dia pacato; os gémeos jantaram, brincaram, tomaram banho. Greice embalava um deles, sussurrando-lhe canções. O aroma do leite misturava-se ao cheiro de creme, o projetor desenhava estrelas no teto.

João chegou atrasado ultimamente andava sempre assim. Tirou os sapatos, lavou as mãos; silêncio. Greice esperava vê-lo agarrar os meninos, beijá-los, perguntar pelo dia… mas ele ficou à porta, sem avançar.

Sentiu o olhar dele nas suas costas. Virou-se. João parecia mais cansado que nunca olheiras fundas, ombros caídos, mãos desamparadas. Greice sorriu-lhe, mas ele foi mais rápido.

Vou-me embora.

Greice bloqueou. O filho agitou-se no colo, mas ela nem se mexeu.

Como…? foi só um fio de voz incrédulo.

Estou cansado. Não suporto mais noites e noites sem dormir, o barulho, a ausência de tempo para mim. Eu… não consigo.

Greice pousou o filho despacio, voltou-se para o marido. Não fazia sentido nenhum, depois de tudo pelo que passaram. Os filhos eram o sonho, a promessa cumprida.

Mas lutámos juntos, lembras-te? Foste tu que disseste que não desistias, que ias lutar. Quando soubemos que eram gémeos, escolheste os nomes, montaste os berços…

João baixou a cabeça, fugiu ao olhar dela.

Pensei que ia conseguir, mas não consigo… É pesado demais. Sinto-me a afundar.

Greice deu um passo hesitante a ver se ainda encontrava dúvidas na cara de João.

Vais simplesmente abandonar-nos? A mim e a eles…?

João respirou fundo, passou a mão pela cara.

Preciso de tempo tornou. Não sei se volto.

Disse-o sem raiva, nem vozes; só uma certeza cortante. Greice ficou, ali, a sentir o frio invadir-lhe as entranhas. Quis gritar “e nós?”, exigir, mas nada saiu. Só olhou a tentar perceber quando se perderam assim.

Atrás dela, dois bebés dormiam em paz, sem saber que o mundo deles acabara de partir-se ao meio.

João fechou a porta atrás de si, sem ruído. Seguiu-se um tipo de silêncio novo, denso parecia que até a cidade lá fora parara. Greice ficou, incrédula, imóvel no meio do quarto. Aproximou-se da janela, ajeitou como sempre a cortina, foi até aos berços. Os bebés dormiam, respiração tranquila, mãos minúsculas mexendo-se às cegas. O toque da pele deles era normalmente fonte de consolo; agora, só tremor.

Pela primeira vez em anos, sentiu-se só. Não apenas cansada, mas profundamente só. Em todas as noites difíceis, as tarefas, os esquecimentos, João sempre estivera presente. Agora, restava-lhe apenas o eco do seu vazio.

O silêncio era só interrompido pelo ressonar dos bebés. Greice ficou a olhar para eles a tentar reconstruir-se. Que viria agora? Como atravessar o que se seguia?

As lágrimas vieram, devagar uma, duas, depois várias. Silenciosas; caíam-lhe pelo rosto e pingavam nas roupas dos filhos. Não tentou travá-las, nem conjugar forças. Deixou-se estar, sentada no chão, a embalar a filha e a chorar pela primeira vez em muitos anos permitindo-se ser fraca.

Lá fora, Lisboa adormecia sob um negro profundo. E Greice ali permaneceu imóvel, a abraçar aquilo que restava da sua vida, em silêncio.

****************************

Greice, naquela manhã, sentada junto à janela do hospital, enroscada em si. Cá fora, pequenos flocos de chuva caíam sobre o asfalto. Observando-os, Greice via apenas imagens anos de tentativas, esperanças, alegrias pequenas e derrotas pesadas. As palavras finais de João rodopiavam-lhe na mente, cortantes como navalhas.

Não percebo murmurou, sem desviar do céu. Como é que se desiste assim? De tudo, de nós… depois de tanto?

A voz fraquejou, mas desta vez já não vinham lágrimas. Sobravam perguntas, vazias de respostas.

Beatriz, sentada perto, ergueu-se e apertou-a nos braços, sem palavras. Sempre vira João como marido dedicado, pai apaixonado, mas afinal as coisas não eram tão simples. Ele partira assim, sem mais.

Greice aninhou-se-lhe no ombro, o corpo a tremer fininho.

Não sei como vou aguentar segredou. Mas tenho de o fazer. Por eles.

Não era bravata só determinação, feroz mas serena. Sabia do que viria: noites sem dormir, mil preocupações, o cansaço de quem não pode largar. Mas ali, nas caminhas do hospital, jaziam aqueles pequeninos que precisavam dela mais do que nunca.

Beatriz apertou-lhe a mão com força. Também ela não tinha palavras milagrosas. Bastava estar presente. Iriam vencer, uma de cada vez, porque ter-se-iam uma à outra.

***********************

Um ou dois dias depois, a mãe de João entrou, sem se anunciar. Levava um saco com fruta, gesto de cortesia estranhamente frio. Parou junto à porta, avaliou Greice com olhos críticos e pousou a bolsa.

Então… Vejo que já fizeste desta cama casa, assinalou secamente, sem azedume nem calor distante, como se falasse a uma desconhecida.

Greice ergueu o olhar calou-se.

A sogra aproximou-se, mas não se sentou. Cruzou os braços, fitando Greice como quem sopesasse decisões.

Sabias que isto ia acabar assim, murmurou por fim. O João sempre valorizou a sua liberdade. Filhos, barulho, noites acordado, vida posta de pernas para o ar… Não aguentou.

Greice inspirou fundo, a divisão por dentro fria como pedra. Quis atirar-lhe tudo à cara lembrar-lhe as noites, os sonhos, a alegria nas primeiras ecografias, a escolha dos nomes. Mas calou-se, já nada adiantava.

Endireitou-se na cama com custo sentia-se frágil ainda, cada gesto era um esforço. O gelo interior mantinha-a à tona. Esperou.

Tens de entender continuava a sogra, voz sem variação o João não quer ser pai. Quer ajudar, sim… financeiramente.

Os dedos de Greice agarraram a chapa dos lençóis. Era tudo demasiado confuso.

O que está a insinuar? perguntou, esforçando-se pelo tom neutro.

A sogra desviou o olhar para a janela, sem coragem de enfrentar Greice.

Ele vai ceder a parte do apartamento explicou considera isso a pensão, e assim ficas protegida financeiramente, por muito tempo. Não vai voltar, mas não quer que te falte nada.

Formou-se um silêncio pesado, cortado só pelo rumor distante do hospital.

Portanto… quer comprar a liberdade? saiu da boca de Greice, já nem revolta apenas cansaço.

A senhora endireitou-se.

Não fales assim! Ele está a ser justo. Está numa fase difícil. Não rejeita o dever só não está à altura de ser pai. É a vida. Habituar-te-ás.

E eu estou…? Preparada? ficou Greice a olhar o vazio Depois de 12 anos de luta?

A questão ecoou, enchendo o quarto de lembranças e dor consultas, medos, esperanças, o milagre. De repente tudo ficou longínquo e dolorosamente real.

A escolha é tua cortou a sogra, seca. Mas aconselho-te: não faças barulho, não demores o divórcio. Ou…

Pausou e o que ficou no ar foi ameaça e nada mais. Greice agarrou-se ao lençol.

Ou…? forçou-se a manter o controle.

Ou perderás este apoio. Até… hesitou, calculando as palavras até as crianças. O João tem bons advogados. Ele não quer isto, mas se fores para a guerra…

Frio e direto, como uma sentença final. Greice sentiu o chão fugir-lhe.

Só te digo o que ele pensa acrescentou, um pouco mais meiga. Pousou o saco de fruta na mesinha um gesto oco, sem cor. Pensa bem. É o melhor que ele te pode dar.

Saiu, fechando a porta suavemente.

Greice ficou sozinha. O cheiro do perfume caro que a sogra trouxe consigo pairava, mas logo se dissolvia em nada, deixando só o vazio metálico.

Ficou a olhar a noite que caía para lá da janela, Lisboa a transformar-se em azul-escuro carregado. As sombras cresciam. E soube então a sua vida estava partida em antes e depois.

Por muito tempo ficou assim, imóvel. Depois buscou o telemóvel, compôs o número de Beatriz. Os dedos tremiam, mas eram firmes como se uma hesitação pusesse tudo a perder.

Bia… procurou o tom mais constante e calmo que pôde. Vem. Preciso de falar.

Beatriz chegou depressa. Greice já estava sentada, costas direitas, olhos secos nem força para máscaras. A amiga sentou-se ao lado, pegou-lhe na mão.

Greice virou-se, falou firme, num tom quase administrativo:

Percebi uma coisa começou. Não vou deixar que me assustem. Já percorri demasiado para recuar agora. Ele que fique com a casa, que pague a pensão. Os filhos não leva. Vou aguentar. Por eles.

Não havia ódio ou teatralidade só a firmeza de quem já conheceu o fundo. Deixara de procurar respostas, justificações, culpados. Agora tudo era para a frente, apenas.

Beatriz apertou-lhe a mão com mais força, e disse baixinho:

Vais, sim. E eu vou contigo. Sempre.

Greice olhou-a, agora decidida. Não havia lágrimas só aquela determinação gélida e tranquila. Sabia o que a esperava: noites brancas, solidão, decisões. Mas também sabia que, em casa da mãe, havia dois bebés à sua espera, duas razões para não ceder.

Ninguém lhos tiraria. Nem ameaças, nem medo, nem solidão. Ela era mãe. E agora, sabia-o, isso fazia dela mais forte do que tudo.

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