SEM ALMA…
Ermelinda Augusta regressou ao seu apartamento em Lisboa, ainda sentindo o perfume doce do salão de beleza. Apesar dos seus 68 anos recém-celebrados, fazia questão de se mimar com rotinas elegantes: corte de cabelo, manicure, pequenos rituais que elevavam o seu ânimo e davam cor aos dias. No prédio antigo, já o marido Joaquim aguardava, entediado.
Ermelinda, veio cá uma senhora, disse que era tua família. Eu expliquei que ias chegar mais tarde. Prometeu que voltava, relatou Joaquim, os olhos a navegarem entre curiosidade e desgosto.
Família? Só se for alguma prima em quarto grau… Quase não tenho ninguém. Sempre vêm pedir qualquer coisa. Devias ter dito que fui de férias para o Algarve, respondeu Ermelinda, impaciente, movendo-se pela cozinha.
Ora, não era preciso mentir. Parecia ser do teu sangue, alta, distinta, fazia lembrar a tua sogra, paz à sua alma. Não me parece pessoa de pedir nada, muito educada, roupa cara, bem apresentada, tentou sossegá-la Joaquim.
Quarenta minutos depois, ouviu-se a campainha. Ermelinda própria abriu a porta. A mulher lembrava mesmo a mãe falecida, o casaco de lã azul, botas perfeitas, luvas de camurça, brincos de ouro com diamantes miúdos detalhes que Ermelinda reconhecia de longe.
Sentaram-se à mesa já posta, pratos de bolo de laranja e chá fumegante.
Então, se somos parentes, vamos pôr cartas na mesa. Eu sou Ermelinda, o Joaquim é meu marido. E tu, como é que nos encontramos? perguntou, directa, a anfitriã.
A visitante hesitou, corou levemente.
Eu chamo-me Filomena… Filomena Duarte. Há pouca diferença entre nós. Fiz 50 anos no dia 12 de junho. Esta data não te diz nada?
Ermelinda empalideceu, os olhos fixos num ponto invisível.
Vejo que percebeste. Sim, sou tua filha. Não te preocupes, não venho buscar nada. Só queria ver a mãe que nunca conheci… Passei a vida à procura de respostas, sem perceber porque é que nunca tive carinho de mãe. A minha já partiu há oito anos. Sempre pensei: porque só o meu pai me amava? Ele faleceu há dois meses… Só aí, contou-me sobre ti. Pediu-me que, se puderes, o perdoes, explicou Filomena, a voz trémula.
Não estou a entender nada. Tens uma filha? perguntou Joaquim, espantado.
Pelos vistos, tenho. Explico-te mais tarde, rematou Ermelinda, seca.
Então és minha filha? Olha que bem, vieste ver-me. Se pensas que vou chorar ou pedir perdão, estás enganada. Eu não sou culpada de nada, disse Ermelinda a Filomena. Espero que o teu pai tenha contado tudo. Se achas que vais acordar em mim algum amor materno, esquece, não tenho nem quero!
Posso voltar? Moro numa vivenda aqui perto, em Cascais. Tenho um filho e uma neta, podia mostrar-te fotografias? Se quiseres, visitas-nos, pediu Filomena, quase murmurando.
Não. Não quero. Não voltes cá. Esquece-me. Adeus, respondeu Ermelinda de forma cortante.
Joaquim chamou um táxi para Filomena e foi acompanhá-la ao portão. Ao voltar, Ermelinda já arrumara a mesa e seguia um programa de televisão como se nada tivesse acontecido.
Tens um coração de pedra! Devias chefiar batalhões. Não tens mesmo alma nenhuma? Sempre achei que eras dura, mas não tanto, disse Joaquim, exasperado.
Conheceste-me aos 28 anos, não foi? Já naquela altura, a alma estava velha e esvaziada. Fui criada numa aldeia do interior, sempre sonhei com a cidade. Esforcei-me, fui a única da turma a entrar na universidade. Tinha dezassete anos quando conheci o Artur. Era mais velho doze anos, mas isso nunca me impediu de me apaixonar. Depois de uma infância de pobreza, Lisboa parecia-me um conto ambulante. Entre estudos e refeições contadas, aceitava alegremente os convites do Artur para cafés ou gelados.
Nunca me prometeu nada, mas convencia-me de que me amava, e que inevitavelmente me ia casar com ele. Quando me levou a uma quinta nos arredores, aceitei sem hesitar, achando que, depois de tudo, ele ficaria comigo. As visitas tornaram-se frequentes, e logo senti que estava grávida.
Contei a novidade, ele ficou radiante. Mas, ao dizer que queria casar, agora com 18, apareceu o choque:
Eu prometi casar contigo? perguntou Artur, com o tom frio. Não prometi, nem vou prometer. Sou casado.
Fiquei atónita. E o bebé? E eu?
Tu és jovem, saudável, tens físico para ser modelo. Pede licença na universidade, depois vens morar connosco. A minha mulher não pode ter filhos, é mais velha. Quando o bebé nascer, ficaremos com ele. Os detalhes não são problema teu. Sou alguém de importância na Câmara Municipal, e ela trabalha num hospital grande. Por isso, não tens de te preocupar. Depois das dores, voltas aos estudos e damos-te dinheiro.
Ninguém falava de barriga de aluguer nesse tempo. Mas fui, sem alternativa, talvez a primeira mãe de aluguer em Portugal. Não podia envergonhar a família na aldeia. Morei na casa deles até ao parto. A mulher nunca me visitou, talvez por ciúmes. Tive a menina em casa, trouxeram parteira, tudo digno. Não lhe dei de mamar, foi logo levada. Nunca mais a vi. Passada a semana, despediram-se de mim com delicadeza. Artur deu-me umas notas.
Voltei à faculdade, depois para a fábrica de moldes, recebi quarto no bairro dos trabalhadores. Fui de operária a chefe de turno. Tive muitos amigos, mas casamento só te apareceu aos 28. Não era plano, mas aconteceu.
A partir daí sabes a história. Vivemos bem, três carros trocados, casa farta, quintinha caprichada, férias todos os anos. Na crise dos 90, a fábrica aguentou-se, porque só ali faziam peças especiais para tratores. Cercada por arame farpado e torres de vigia até hoje.
Aposentados com regalias. Temos tudo. Sem filhos, e ainda bem. Olhando os miúdos que por aí andam terminou Ermelinda a sua narrativa.
Vivemos mal. Sempre tentei aquecer o teu coração, mas nunca consegui. Nem filhos, nem animais: nunca quiseste gato, cão, nada. A minha irmã pediu-te ajuda para a sobrinha, recusaste até uma semana de abrigo. Hoje a tua filha veio filha, tua! e como a recebeste? Fria. Se fosse mais novo, pedia divórcio, mas agora nem vale a pena. Estar contigo é gelado, gelado, lamentou Joaquim, triste.
Ermelinda assustou-se um pouco. Nunca o ouvira assim.
A filha estragou-lhe a serenidade.
Joaquim mudou-se para a quinta e vive lá até hoje. Lá tem três cães, resgatados de abrigos, e tantos gatos que a Ermelinda perdeu a conta. Mal aparece em casa. Ela sabe que ele visita Filomena, conhece todos, adora brincar com a bisneta.
Sempre foi lunático, continua a ser. Que viva como quiser, pensa Ermelinda.
O desejo de conhecer melhor a filha, o neto, a bisneta nunca floresceu nela.
Ermelinda vai ao mar sozinha. Descansa, recupera forças e sente-se inexplicavelmente bem.







