Se achas que não faço nada por ti, experimenta viver sem mim!” — a esposa explodiu

Se achas que não faço nada por ti, experimenta viver sem mim! a mulher desabafou.

Naquela noite, o silêncio em casa parecia mais pesado que o habitual. Beatriz mexia devagar a sopa, ouvindo o tique-taque do relógio na parede. Antes, aquele som a irritava nos tempos em que a casa estava cheia dos risos dos filhos, das brincadeiras e da agitação constante. Agora, era o único som que quebrava o vazio daquele lar outrora cheio de vida.

Ela lançou um olhar rápido ao marido. Tiago, como sempre, estava mergulhado no telemóvel. A luz do ecrã refletia nos seus óculos, criando reflexos estranhos. Antes, achava aquilo reconfortante ali estava ele, o seu marido, em casa, ao seu lado. Agora, só lhe causava uma irritação surda.

O jantar está pronto disse Beatriz, tentando manter a voz firme.

Ele assentiu sem levantar os olhos. Ela pousou os pratos os bonitos, do jogo de porcelana que guardava para ocasiões especiais. Mas que ocasiões especiais havia agora? Os filhos vinham raramente, netos ainda não tinha. Ficavam apenas os dois, naquela casa grande, onde cada canto guardava memórias de tempos melhores.

Beatriz serviu a sopa, colocou delicadamente os temperos frescos salsa e coentros que cultivava no parapeito da janela, só para ele. Ao lado do prato, pousou o pão acabado de cortar.

Tiago afinal largou o telemóvel e pegou na colher. Ela ficou parada, à espera de uma reação. Primeira colherada. Segunda. Na terceira, ele franziu a testa.

Outra vez sem graça resmungou, afastando o prato.

Algo dentro dela se partiu. Beatriz olhou para as próprias mãos vermelhas da água quente, com a pele áspera. Passara o dia todo em pé: a lavar as suas camisas, a passar as calças, a preparar aquela maldita sopa. No fogão ainda estava o seu chá preferido aquele que ela fazia de um jeito específico porque “senão não tem sabor”.

Ela olhou para a pilha de roupa passada cada peça dobrada como ele gostava. Vinte e cinco anos. Vinte e cinco anos a dobrar camisas daquela maneira porque “senão ficam amarrotadas”.

Sabes o quê… a voz dela tremeu, não de chorar, mas de raiva. Se achas que não faço nada por ti, experimenta viver sem mim!

Ele levantou os olhos pela primeira vez naquela noite, olhou para ela como se a estivesse a ver. Havia surpresa no seu olhar, como se não acreditasse que aquela mulher calada e obediente pudesse levantar a voz.

Beatriz levantou-se bruscamente. A cadeira raspou no chão, mas ela já não se importava. Agarrou o casaco velho, comprado há três anos porque “para quê um novo, este ainda tem muito uso”.

Onde vais? a voz dele tinha um travo de preocupação, mas ela já não estava a ouvir.

A porta da frente bateu atrás dela. O ar fresco da noite acertou-lhe no rosto, e pela primeira vez em muitos anos, Beatriz sentiu que conseguia respirar fundo. Não sabia para onde ia. Não sabia o que faria a seguir. Mas pela primeira vez em muito tempo, não sentia medo do desconhecido apenas uma sensação estranha, embriagante, de liberdade.

O pequeno apartamento no quinto andar recebeu-a com um silêncio diferente. Não aquele sufocante que a perseguia em casa, mas um silêncio leve, quase luminoso. Ali não havia relógios a marcar os minutos da sua vida, nem olhares reprovadores, nem os costumeiros “porque é que não…”.

Acordou cedo o hábito de anos de se levantar às seis para preparar o pequeno-almoço, passar a camisa, arrumar a pasta… Mas hoje era diferente. Beatriz ficou deitada na cama desconhecida, a observar os raios de sol a subir pela parede. Ninguém a apressava, ninguém exigia a sua atenção, ninguém esperava que ela servisse.

Posso ficar aqui deitada sussurrou, e riu-se baixinho da própria ideia.

Mas os velhos hábitos não se iam facilmente. As mãos pareciam querer arrumar a cama, limpar o pó, começar a rotina. Ela parou-se:

Não. Hoje faço o que eu quiser.

Ficou muito tempo em frente ao espelho da casa de banho, a observar o próprio reflexo. Quando foi a última vez que realmente se olhara? Não de relance, não para ver se estava tudo em ordem antes de sair, mas a sério? As rugas em volta dos olhos estavam mais profundas, os cabelos mais grisalhos. Mas os olhos… os olhos pareciam vivos.

Na rua, o ar era fresco. A manhã de outubro cheirava a folhas caídas e a café da pastelaria mais próxima. Antes, passara por ali centenas de vezes, sempre apressada para as compras. “Desperdício de dinheiro”, dizia sempre Tiago. E ela concordava, convencendo-se de que o café em casa era melhor.

O sino da porta tilintou. Lá dentro, o cheiro era de pastéis acabados de sair do forno e de canela. Beatriz hesitou à entrada, sentindo-se uma intrusa naquele espaço acolhedor.

Bom dia! sorriu a jovem que estava atrás do balcão. O que vai querer?

Eu… Beatriz hesitou. Tantos anos a fazer café para outros, sem nunca pensar no que ela própria gostava. O que me recomenda?

Posso sugerir o nosso latte especial, com caramelo e canela. E temos croissants de amêijo

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Se achas que não faço nada por ti, experimenta viver sem mim!” — a esposa explodiu