Saída da Cozinha
Dona Vera Soares, outra vez pôs a panela no sítio errado disse o Graciano, o cozinheiro novo, com as mãos sempre húmidas, apontando para a prateleira em cima do lava-louça. Aqui é só para limpo. O sujo fica ali.
Graciano, já cá trabalho há três meses. Sei muito bem onde ficam as coisas.
Então faça favor de mudar.
A Vera mudou a panela, em silêncio. Não tinha forças para discussões, já se tinham evaporado junto com a vida que tinha antes, lá naquele gabinete de redação, com a cadeira confortável e o candeeiro de abajur verde que ela tanto gostava, ou naquele atelier que teve de entregar a estranhos, tudo para poder pagar à mãe, as injeções, a empregada que tomava conta dela.
Naquela noite, no restaurante Império, tudo decorria como de costume. Do salão, para além da porta, vinha um burburinho constante: risos, vozes, o tilintar de copos, cheiro a carne bem passada, com molho de vinho tinto. A Vera estava ali, ao lado do grande lava-louça de inox, a lavar pratos empilhados, ainda quentes, com restos de comida que ela própria não tinha como pagar. As mãos, vermelhas da água e sabão, e o avental encharcado até à cintura.
O pensamento dela estava sempre no álbum. O álbum ficava no cacifo dela, ali no balneário. Pequeno, de capa mole verde-erva seca e argolas. Comprou-o em fevereiro, com os últimos euros do adiantamento, porque sem ele nem aguentava. Sem aquele álbum, sentia que enlouquecia, ou simplesmente esquecia quem era. Ajudanta de copa, com cinquenta e sete anos? Não. Quer dizer, sim, agora era, por fora. Por dentro, era outra pessoa.
À noite, no quarto alugado na Rua das Flores, onde o radiador fazia barulho de gente, e os vizinhos ocasionalmente falavam alto demais, ela sentava-se, acendia o candeeiro de secretária e desenhava. Só para ela. As mãos, doridas da água quente, subitamente ficavam hábeis, precisas. Desenhava ruas, pessoas a passar, uma velhota com um cão que via todas as manhãs à porta, o ramo da faia coberto de neblina, o rosto exausto, mas bondoso, da senhora da caixa no supermercado em frente. Os traços saíam fáceis, como se a mão se lembrasse de tudo, ainda que a cabeça duvidasse já de quase tudo.
Durante quase vinte anos, tinha sido ilustradora. Começou numa revistinha, depois foi para a editora Atlântico, a fazer livros infantis, coisa que sempre amou. Inventava coelhos e raposas, que não eram só bichos, eram pessoas em pelo, cada qual com sua mania, sua tristeza, sua vontade. Adorava quando recebia as provas de autor e podia pegar no livro feito, folhear e pensar: este fiz eu.
Depois veio a crise. Primeiro reduz o número das edições, depois cortam secções, até que um dia: Dona Vera, apreciamos muito o seu trabalho, mas… Depois desse mas, nunca vinha coisa boa. Tinha quarenta e quatro anos quando, pela primeira vez, ficou sem emprego, sem rendimento fixo e com aquela sensação de que o chão fugia dos pés.
O casamento já estava por um fio. O António, homem simpático, mas pouco decidido; enquanto houve dinheiro, foi um marido alegre e generoso. Quando o dinheiro fugiu, vieram as irritações, as discussões, e depressa as chegadas tardias a casa. A Vera não quis acreditar, depois já não conseguiu não acreditar. Separaram-se sem barulho, quase num suspiro; como quem larga devagar o que já não consegue segurar.
Depois veio a doença da mãe.
AVC, lado esquerdo. Primeiro hospital, depois em casa, depois hospital outra vez. Todos os dias, Vera cruzava Lisboa de um lado ao outro, a pagar à empregada, aos remédios, aos tratamentos. O que ganhava de freelances era pouca coisa, nunca dava para tudo. O pequeno atelier que ela alugava para trabalhar tornou-se impossível. Teve de largar. Procurou emprego a sério, com salário fixo e horário bem marcado. O que apareceu, foi o que aceitou.
A mãe morreu em outubro. Tranquilo, dormindo, como se tivesse ficado cansada de tudo e não quisesse mais acordar. Vera ficou sozinha, cheia de dívidas, no quarto alugado e com a pilha de pratos do restaurante para lavar cinco dias por semana.
Assim foi parar ali.
Dona Vera, já está outra pilha à espera! gritou o Graciano, da zona das frigideiras.
Já vou.
Ela levou o tabuleiro para o lava-louça.
Os clientes do restaurante Império eram como sempre. Senhoras de vestido, homens de blazer, por vezes algum grupo de jovens, barulhentos e convencidos, outras vezes casais de trabalho, sentados frente a frente a olhar para o telemóvel em vez de se olharem um ao outro. A Vera não via quase nada disso. Estava trancada na cozinha por detrás das portas de aço inox. Ouvia risos, vozes, sons de pratos, o resto era rotina.
Um cliente, no entanto, vinha quase todas as semanas. Vera só sabia isso porque a Silvinha, a empregada de mesa, comentou um dia no balneário:
Aquele do canto, na mesa seis, vem sempre sozinho. Pede sempre o mesmo, come devagar, nunca mexe no telemóvel nem nada, só olha lá para fora. Estranho.
Se calhar, só está sozinho disse Vera.
Sozinha também estou eu, mas ao menos vou ao café com amigas às vezes.
A Vera não discutiu. Afinal, solidão é coisa diferente para cada pessoa. Às vezes é não ter companhia para ir jantar, outras é estar rodeada de gente e continuar só, porque quem te ouvia de verdade já não está cá.
O homem da mesa seis vinha à quarta e sexta. Pedia borrego ou novilho, um copo de tinto, às vezes sopa. Dava sempre boa gorjeta, mas sem espetáculo, só deixava junto da conta. Chamava-se Alexandre Gomes. Vera soube do nome depois. Por agora, era só mais um prato para lavar, e mais um pensamento no álbum.
Nessa sexta-feira estava tudo igual ao costume. Vera na pia, água quase escaldante, vapor a irritar os olhos. Graciano com o telemóvel no canto, a máquina de lavar a roncar. O salão do outro lado mantinha o zumbido habitual.
Depois esse zumbido mudou.
Não foi de repente, mas ficou diferente. Sentiu que algo estava fora do sítio. E de repente ouviu um grito, breve, assustado. Depois vozes mais altas, o tom urgente, e outro grito.
Secou as mãos às pressas no avental e espreitou para o corredor.
A porta do salão estava entreaberta. Vera empurrou-a.
Na mesa seis, um homem de meia-idade, largo, de casaco cinza escuro; dava logo para perceber que algo não estava certo. Não caía nem desmaiava, mas o rosto mudou, e ele tentava puxar ao pescoço, um movimento que Vera reconheceu: já tinha visto igual no hospital da mãe, com um senhor no quarto ao lado.
Dois empregados estavam ali perto, sem saber o que fazer. A dona Marina, a gerente, tapava a boca a dizer: Chamem o INEM, agora! Um dos clientes levantou-se.
Vera não pensou em nada. Só foi até lá, ficou por trás do homem, abraçou-o com força por baixo do peito, fechou a mão e comprimiu. Uma vez. Outra. O homem era grande, ela quase que saltava para fazer força. Mais uma, e ele tossiu, algo voou, e conseguiu finalmente respirar. Primeiro arfou assustadoramente, depois devagar, até ficar normal.
Vera largou-o, deu um passo atrás.
Três segundos de silêncio. Depois toda a gente começou a falar ao mesmo tempo. Marina correu para o senhor, a Silvinha trouxe água. Um dos clientes começou a bater palmas, e logo se juntou mais alguém.
A Vera ficou parada ali, com o avental molhado e as mãos ainda vermelhas, sem muito saber o que fazer.
A senhora é enfermeira? perguntou Marina.
Não. Lavo a loiça.
Virou costas e foi de volta para a cozinha.
As mãos tremiam enquanto as lavava à pressa. O Graciano olhava meio incrédulo.
Que se passou?
O senhor engasgou-se, mas já está tudo bem.
Salva-lo-e, foi?
Graciano, chega de olhar, toca a pegar na loiça.
Pegou na esponja e voltou ao trabalho. Pratos não faltavam.
Vinte minutos depois, a porta da cozinha abriu-se. Estranho, porque clientes nunca entram ali a Marina fazia sempre questão disso. Mas lá estava o homem da mesa seis, de casaco cinza, a olhar à volta à procura de alguém.
Desculpe, posso saber quem… quem me salvou agora mesmo?
O Graciano apontou para Vera.
Ele veio direito à pia. Vera ainda estava a lavar uma taça funda, por isso não se virou logo. Quando levantou a cabeça, viu-o de perto: alto, ombros largos, talvez uns cinquenta e muitos anos, cabelo escuro já com fios de prata, o rosto cansado, de quem já não acha graça a tudo, os olhos cinzentos e fundos, o ar de quem apoquentado. Habituada a ver sofrimento.
Vera, é a senhora?
Sou.
Ficou calado um instante, parecia não saber o que dizer. Depois saiu-lhe:
Queria agradecer-lhe. Sério. Não sei como mas obrigado.
O senhor não tem que agradecer. Ficou tudo bem.
Não ficou bem. Eu podia ter parou, esfregou a testa Se não fosse a sua rapidez
Qualquer pessoa tinha feito. É só saber o que fazer.
Mas foi a senhora. E sabia.
Vera pousou a taça, pegou noutro prato. Ele não arredou pé.
É seu? perguntou de repente.
Ela olhou: ele reparava no álbum que ela tinha deixado na bancada. Trouxera-o do cacifo, tencionava desenhar durante uma pausa, mas não teve tempo.
É.
Posso ver?
Ela encolheu os ombros. Ele pegou no álbum, abriu na primeira página. Era a velha com o cão, da rua de manhã. Vera desenhou-a durante várias noites, sempre acrescentando algo as rugas, as botas largas, o jeito de segurar a trela, não forte, só de rotina.
O homem foi folheando. Depois mais uma página, e outra.
Ramo de faia, miúdo num baloiço inventado, mas parecia real. Croqui rápido da feira de sábado. Mãos em várias poses Vera sempre gostara de desenhar mãos, desde o curso artístico, era treino e prazer ao mesmo tempo.
Ele folheou tudo em silêncio, devagar.
A senhora é artista disse. Nem perguntou, afirmou.
Fui. Agora lavo loiça.
Porquê?
Motivos vários.
Ele assentiu. Olhou mais uma vez para o desenho da feira, fechou o álbum e pousou devagar. Ficou ali. Vera pensava que ele se ia embora, que agradecia outra vez e pronto. Mas disse:
Chamo-me Alexandre Gomes. Sou arquiteto. Tenho uma proposta para si, mas primeiro pergunto: não consegue mesmo trabalhar acenou com a cabeça para o álbum como ilustradora a sério?
Vera olhou-o sem fugir ao olhar. O Graciano fingia descascar batatas mas ouvia tudo com os dois ouvidos.
Depende do que chama profissional.
Trabalhar. Receber pelos desenhos.
Olhe, senhor Alexandre, acabou de se assustar a sério, devia ir para casa descansar.
Descanso. Mas diga: quer trabalhar mesmo? De verdade, no que sabe fazer?
Havia qualquer coisa no tom dele que não deixava dizer não de ânimo leve. Não era insistência, nem pressa. Só uma franqueza desarmante.
Depende do trabalho.
Ele concordou, tirou um cartão do bolso. Simples, branco, nome e telemóvel.
Ligue-me amanhã. Ou dou-lhe o meu número, posso ligar eu. Explico tudo direitinho. Não é obrigado, não é por favor. Preciso mesmo de alguém com a sua maneira de ver.
Como assim?
Apontou para o álbum.
Assim. Com esse olhar.
Despediu-se, quase com um aceno, e saiu. O Graciano acompanhou com os olhos, depois voltou-se para Vera.
Isto é que é um filme murmurou.
Vai mas é descascar mais batatas respondeu ela.
Guardou o cartão no bolso do avental. Mãos molhadas de novo. Do outro lado da porta, o salão voltava ao seu barulho normal, como se nada tivesse acontecido.
Nessa noite, Vera demorou a adormecer. Deitada no colchão do quarto alugado, olhou o tecto, ouviu o barulho do radiador a zumbir. Pensou em tudo. No álbum. No modo como ele folheou as páginas. Fazia tanto tempo que ninguém olhava os desenhos dela assim, com calma, sem apenas ser simpático, mas mesmo atento. Ele não elogiou, só olhou. E o rosto dele mudou, aos poucos, enquanto via cada folha.
Por fim, sábado de manhã, ficou de olhos postos no cartão durante minutos. Ligou-lhe.
Atendeu logo, como se lhe estivesse à espera.
Bom dia, Dona Vera.
Como sabe o meu apelido?
Perguntei à gerente. Ontem. Fale-me um pouco de si, se quiser. Eu explico também o projeto.
Ela contou tudo, resumido: editora, ilustrações, crise, mãe, divórcio. Ele ouviu, em silêncio. Depois contou a história dele.
O gabinete de arquitetura tinha sido criado por ele, adverso a grandes empresas. Trabalham em equipa pequena, projetos de prédios a espaços públicos. Há um ano ganharam concurso para reabilitação do parque à beira-rio, em Lisboa projeto grande, a sério. Fizeram plantas, tudo conforme as regras. Quando puseram as plantas em cima da mesa acharam tudo seco.
Os desenhos estão mortos disse ele. Sabe o que quero dizer? Tecnicamente certo, dentro da lei, mas olhas para aquilo, não vês pessoas ali, não sentes o lugar. Falta vida. Precisamos de ilustrações vivas, diferentes para que na apresentação a comissão veja o sítio, imagine pessoas ali: ali sentadas, a ler, a correr, velhas a conversar, crianças a brincar… Percebe?
Percebo.
Os seus desenhos têm isso. Dão vida ao sítio.
Ela ficou calada mais um bocado. Perguntou:
E o prazo?
Quatro semanas. Daqui a um mês é a apresentação. Se convencer, vamos pôr o plano em andamento. É um parque grande. Mesmo real as pessoas vão, vivem, gostam.
Aquela ideia tocou-lhe fundo. Mais fundo do que pensava.
Está bem respondeu ela. Quando posso ver as plantas?
Hoje, se quiser.
O gabinete ficava num prédio antigo, no Chiado. Terceiro andar, escadas com corrimão branco. Salas grandes, pé-direito alto, paredes cheias de plantas e modelos de maquetes nas estantes. Cheirava a papel, lápis e qualquer coisa de café.
A equipa: um rapaz novo com auscultadores gigantes, não os tirava nunca; uma mulher de quarenta, séria e cabelo muito curto, a Inês, fazia cálculos estruturais; um senhor mais velho, o Domingos, fazia maquetas; e o Paulo, mais novo, responsável pela parte digital.
Alexandre abriu as plantas do parque em cima da mesa de reuniões, segurou os cantos com réguas, e explicou sem grandes palavras técnicas: alameda principal, fonte, zona infantil, bancos, árvores.
Vera olhava e tentava transformar linhas em vida. Via: de manhã cedo, alguém com cão; depois, ao almoço, mãe com carrinho de bebé; à sexta ao fim do dia, dois sentados a ver o rio.
Posso passar lá? perguntou.
Ao parque? Claro. Agora mesmo, se quiser.
Quero.
Foram a pé, ali perto. Andaram quase calados. Vera levou o álbum. Alexandre caminhava devagar, mãos nos bolsos, atento ao redor. Deve ser coisa de arquiteto.
Na beira-rio, sábado ao meio-dia, não havia quase ninguém. Ainda não era bem primavera, as árvores despidas, mas o Tejo já brilhava, tranqüilo. Uns quantos passeavam. Onde seria o novo parque, só dois bancos verdes antigos e duas árvores; chão esburacado.
Vera tirou do álbum.
Vai desenhar já? perguntou Alexandre.
Só um esboço. Quero recordar o cheiro.
Ele olhou-a intrigado.
Cheiro?
Sim, o rio, a terra, as folhas secas. No desenho nota-se depois quem sabe ver, sente.
Não respondeu. Vera rabiscou depressa, sem pensar só para a mão guardar o lugar. Margem, árvores, silhuetas junto à água, homem de bicicleta, duas crianças com a mãe.
Alexandre ficou a olhar o rio, com ar de quem pensa longe.
A sua mulher gostava destes lugares? arriscou Vera, a desenhar. Desculpe, se não devia perguntar.
Não faça mal. Ela gostava era de praia, dizia que o rio era triste, parado. Calou-se. A Gal foi-se há oito meses. Cancro. Rápido, nem deu tempo para nada.
Lamento.
Obrigado.
Não falaram mais disso. Vera desenhou. Alexandre ficou por ali. O vento soprava frio, mas já sabia a água e não a inverno.
Voltaram ao gabinete, tomaram café, ele mostrou-lhe o que precisava: cerca de vinte folhas, para zonas diferentes do parque, vários horários do dia, com pessoas diferentes. Não ilustrações de postal, mas desenhos vivos, quase reais, para dar à comissão a sensação de que o parque já respirava.
Percebi disse Vera. Dê-me uma semana para cinco folhas. Vê se é isso.
Combinado.
Vera regressou ao quarto da Rua das Flores. O radiador zumbia. O chá frio na caneca desde manhã. Vera pôs o álbum na secretária, pegou no lápis, a pensar como começar.
Acabou a primeira folha já de noite: alameda ao nascer do dia, quase ninguém, homem idoso com cão, ao longe uma mulher, árvores com folhas novas e bancos e uma figura com livro, serena, feliz por estar ali.
No outro dia mostrou o desenho a Alexandre. Ele olhou devagar.
Isto mesmo.
Inês, a mulher de cabelo curto, veio espreitar. Ficou parada.
Perfeito disse, sem mais.
Vera sentiu algo que há muito lhe faltava. Não era alegria, mas próximo: satisfação, ter feito bem, ter atingido o que queria.
Durante duas semanas trabalhou todos os dias. Ia à beira-rio de manhã, no frio ou no sol, sentava-se, observava. Fazia esboços. Depois, em casa ou no gabinete, passava tudo a limpo. Alexandre aparecia, às vezes mandava pequenas mudanças: Esta árvore aqui, melhor ali, ou só olhava em silêncio.
Aos poucos, começaram a conversar. Não só trabalho. Iam juntos ao parque de vez em quando. Ele falava de como o projeto ganhou forma, a lógica dos caminhos, bancos, árvores. Falava com paixão, sem tecnicismos chatos. Vera gostava de ouvir, percebia: ele amava aquilo, mesmo.
Sabe qual a diferença de um bom espaço público para um mau? perguntou ele um dia, caminhando com ela.
Não.
O bom permite escolher onde sentar, não porque é o que resta, mas porque é o melhor sítio para ti ali e agora. Se as pessoas fazem essa escolha felizes, é porque o lugar está bem feito.
Vera sorriu.
E pensa assim há muito tempo?
Desde o terceiro ano da faculdade. Um professor dizia: arquitetura não é edifício, é o sentimento das pessoas ao lado dele. Tinha razão.
Bom mestre.
Faleceu há muito, mas lembro bem da voz.
Conversavam assim. Sobre coisas pequenas, mas reais. Vera contou como criou personagens de livros infantis, que um dos seus raposos preferidos perdeu-se numa mudança, e que pena teve disso. Alexandre ria, não de troça, mas com estima.
Também tenho um projeto assim disse ele Um murozinho numa aldeia, para um senhor só. Nada de especial, mas saiu tão certo Lembro dele melhor do que de prédios grandes.
Porquê?
Às vezes o pequeno toca mais fundo.
Num dia chuvoso entraram num café a aquecer. Beberam chocolate quente. Alexandre olhou pela janela, disse:
Não parece pessoa que goste de lavar pratos.
Não gosto.
Porque fez isso tanto tempo? Podia ter tentado só como ilustradora.
Podia, sim. Mas é inconstante: hoje há trabalho, amanhã não. E eu tinha dívidas para pagar.
Já as saldou?
Quase todas.
Ele assentiu.
Sabe que se demitiu do Império?
Só pedi licença sem vencimento, até acabar o projeto.
E depois disso?
Vera olhou a chávena.
Logo se vê. Há-de aparecer algo. Agora, já sabe que eu desenho.
Ele ficou calado. Ela percebeu que não dizia tudo, mas não quis forçar.
O trabalho avançava. Vera entrou em ritmo: parque de manhã, secretária à tarde, no atelier ou em casa à noite. Desenhava casais jovens, idosos a dar pão aos pombos, adolescentes em bicicletas, grupo de cães no domingo, mulher com carrinho de bebé sob ramos floridos.
Alexandre analisava cada desenho:
Esta senhora pode ficar mais perto da fonte; vai haver banco ali.
Está bem.
Aqui ficava melhor ao anoitecer, com os candeeiros acesos. Vamos ter luz suave.
Mostre-me como são.
Mostrava-lhe o plano. Vera acenava e voltava ao desenho. Às vezes discutiam.
Alexandre, esta alameda é direitinha demais! As pessoas quando andam em linha reta fartam-se, sempre o mesmo à frente. Um pequeno curva, pode ser?
Não consigo, aquilo está todo em cima das infraestruturas.
Mas as árvores, ao menos, podem não estar à risca.
Ele hesitava; depois, consultava Inês.
Pode, sim dizia ela.
Moveram as árvores no papel, demorou um dia inteiro em alterações, mas na folha da Vera a alameda ficou com sombras irregulares e ar de quem promete surpresa.
Cá está disse ela ao Alexandre.
Ele olhou durante muito tempo.
Tinha razão.
No gabinete foi recebida com calma, sem vaidades. Paulo, o rapaz das tecnologias, um dia perguntou:
Sempre papel? Nada digital?
Também sei, mas o papel a mão sente. Ajuda a pensar.
Ele acenou, como quem aprende algo.
Domingos, o das maquetas, um dia trouxe chá para Vera, pôs à frente dela e saiu sem dizer palavra. Disse mais assim do que qualquer elogio.
Nem tudo era fácil. Três folhas da zona infantil simplesmente não saíam. A Vera rabiscava, deitava fora, começava de novo; sentia que os miúdos nos desenhos eram inventados, sem vida.
Num sábado de manhã foi ao parque infantil do bairro, só sentou-se num banco a observar. Miúdos corriam, caíam, riam, mães conversavam distraídas mas olho vivo. Um garoto de cinco anos construía castelos na areia com solenidade, como se fosse obra importante.
Vera desenhou esse miúdo. Depois outro pendurado de cabeça para baixo, depois duas meninas, depois uma mãe a apanhar o filho fujão e os dois a rir.
As três folhas fez em dois dias.
Quando mostrou ao Alexandre olhou-as devagar.
Onde foram buscar estes?
Parque aqui ao lado. São reais.
Nota-se.
Faltava uma semana. As folhas estavam quase todas, preparava-se tudo para a apresentação. Alexandre fazia horas extras, às vezes via Vera a acabar tarde no atelier.
Uma noite, ficaram só os dois, os outros já tinham saído. Alexandre trabalhava numa mesa grande, Vera compunha o último desenho. Só se ouvia arrastar de lápis e o suspiro de quem pensa.
A Gal chegou a ver este projeto? perguntou-lhe Vera, quase sem pensar, só para quebrar o silêncio.
Demorou:
Viu o início. Ganhámos o concurso quando ela já estava doente. Ficou feliz por mim. Dizia que ia passear no parque. Não chegou.
Por isso é que andou tão cabisbaixo? Ia ao restaurante sozinho, já sem vontade a nada?
Ele olhou-a.
Sabia isso?
A Silvinha disse. Tinha pena de si.
Um sorriso breve.
Nem dei por isso.
Quando estamos sozinhos, achamos que ninguém vê. Mas vêem.
Ficou em silêncio.
A senhora também sente solidão?
Sentia. Agora não sei. Agora tenho trabalho de que gosto. Só isso já é isso tudo.
É verdade.
Ficaram calados, mas era confortável. Saíram juntos, já noite, frio. Vera apertou o casaco.
Vai a pé? perguntou Alexandre.
Vou de autocarro. A rua é longe.
Acompanho-a até à paragem.
Foram lado a lado até ao autocarro.
Dona Vera
É só Vera.
Vera. Depois da apresentação, venha o que vier, quero propor-lhe lugar aqui. Não só para este projeto. Temos mais coisas a vir, precisamos mesmo de quem veja pessoas no sítio. É sério.
Ela parou.
Não é só agradecimento?
Para agradecimento, oferecia flores. Isto é contrato.
Ela riu, baixinho, mas como há muito não ria.
Pensei nisso então.
Mas não demore muito.
Chegou o autocarro. Ela entrou, na janela viu-o parado ali, a ver se ela ia mesmo.
Chegou o dia da apresentação, quinta-feira.
O ambiente era de nervos. Inês confirmava tudo. Paulo tratava do que era digital. Domingos trouxe maquete, com árvores de esponja verde. Alexandre andava de um lado para outro, cafezinho, sem falar muito.
Vera sentou-se a rever as suas folhas. Vinte e duas ao todo. Tudo junto: manhã na alameda, fonte à tarde, parque infantil, bancos à noite, menino no banco, casais no rio, velhota com pombos, chuva sob o telheiro, ciclistas.
Está nervosa? sussurrou Alexandre.
Um bocadinho.
Vão correr bem. São bons.
Quem, as folhas ou a comissão?
As folhas.
Ela sorriu.
A comissão reunia-se num edifício largo, com sala tipo salão nobre, janelas até ao chão. Oito pessoas à mesa, vários de fato cinzento, cara séria. Alexandre começou por apresentar plantas e mapas, falou claro e sem rodeios, Inês ajudou com a parte técnica. Paulo passou desenhos digitais ao ecrã.
À certa altura Alexandre anunciou:
Temos ainda uma série de ilustrações à mão livre, feitas, no local, para mostrar o ambiente que projectamos.
Foi mostrando folha a folha, uma a uma, sem pressa, sem blá blá.
Silêncio. Um dos membros, homem de sobrancelhas fortíssimas, pegou na folha da alameda ao nascer do dia, examinou com calma.
Isto são desenhos? Não fotos?
São, sim. A nossa artista desenhou lá.
Vivos murmurou o homem. Não para ninguém especial, mas Vera ouviu.
Vieram depois as perguntas técnicas, detalhes, datas e tudo mais. Alexandre respondeu, Inês ajudou. Vera, calada, sabia não ser a sua parte. Mas a certa altura, uma das senhoras da comissão, de colar de pérolas, pediu para ficar com a folha da velhota e dos pombos; Vera riu-se involuntariamente.
A decisão veio logo: aprovado. Com umas observações práticos que Alexandre aceitou sem protestar.
No corredor, depois, Inês cumprimentou Alexandre, depois Vera. Paulo disse só fixe. Domingos não apareceu, mas mandou sms: Bravo.
Por fim, Alexandre aproximou-se da Vera, junto à janela, a ver já a primavera lá fora, árvores verdes, gente sem casacos.
Pronto disse ele.
Pronto repetiu ela.
Vamos à beira-rio?
Agora?
Agora. Quero olhar o lugar, depois disto tudo.
Foram a pé. Lisboa cheia de gente, tráfego, cheiro a árvores e a asfalto quente. Alexandre caminhava ao lado, sem pressas. Vera automatizou, levou o álbum consigo sem pensar.
O Tejo brilhava ao sol e ao vento. Bancos ocupados, pessoas a passear cães. Aquele pedaço que será parque, por agora igual: chão despido, duas árvores velhas. Mas já era diferente porque Vera conhecia agora cada centímetro, desenhou-o vinte vezes, não era mais só chão.
Ficaram ali, junto à água. Vento leve. Ela fechou o casaco.
Vai ser um bom parque disse ela.
Vai, sim.
Silenciaram. Passou uma mãe apressada com carrinho e telemóvel ao ouvido.
Vera disse Alexandre.
Diga.
Ele olhava o rio, não para ela.
Vivi muitos anos rodeado de gente, trabalho, movimento, mas sempre vazio. Percebe?
Percebo.
Estas semanas não sei explicar. Voltei a querer vir trabalhar de manhã. Não só por obrigação. Por querer mesmo.
Vera seguiu o olhar dele na água. O Tejo seguia lento, escuro, indiferente às coisas pequenas.
A sua Gal não gostava de rios, era?
Dizia que eram tristes. Muito parados.
Pois eu sempre gostei. Desde criança, adoro o devagar.
Ele virou-se para ela. Olhar sério, sem rodeios.
Fico tão contente que tenha saído da cozinha, naquele dia.
Também eu. Embora na altura, só quisesse mesmo era evitar que morresse engasgado.
Eu sei. Por isso mesmo.
Ela demorou a perceber o que ele queria dizer. E de repente percebeu: falava não só daquele jantar, ou só daquele engasgamento.
Alexandre disse, cautelosa.
Sim?
Não sou boa nestas conversas.
Também eu.
Ficamos ambos empatados, então.
Ele riu-se. Pela primeira vez, Vera ouviu uma gargalhada autêntica dele. Não curta, nem tímida alegre, quente, de verdade.
Vera disse ao acalmar.
O quê?
Posso convidar-lhe para jantar? Não no Império. Um sítio qualquer.
O Império tem boa comida.
Tem, mas agora é estranho para mim olhar para a cara da gerente
Ela pensou na cara da dona Marina e acenou, a sorrir.
Justo.
Então, aceita?
Vera abriu o álbum, procurou folha limpa. Olhou o rio, as árvores, as pessoas nos bancos. Rabiscou qualquer coisa. Ele ficou a ver.
Aceito disse, sem tirar os olhos do desenho.
Ele não respondeu mais nada. Só ficou ao lado dela, a ver o Tejo seguir, juntos.






