Revolta Tardia

Olha, sabes aquela história que te prometi contar aquela da minha amiga? Pronto, senta-te porque isto é quase uma novela portuguesa, mas daquelas mesmo com alma.

Estavam a chover aquelas pingas frias que já avisam o outono, sabes como é Lisboa nestas alturas as pessoas vão apressadas, de guarda-chuva, sem se olharem. E a Maria dos Anjos, encostada à janela da sala, olhava cá para fora, meio perdida nos seus pensamentos, como só ela sabe estar.

A filha, Matilde, estava sentada no sofá daquela sala antiga, cheia de móveis que já vinham da casa dos pais dela. Imagina, ainda tinha mantas de lã e aquela cera de móveis que cheira a infância.

Percebes o que estás a fazer? perguntou a Matilde, num daqueles tons cortantes mas sem levantar a voz. Sabes quando o silêncio pesa mais que o grito?

A Maria dos Anjos nem se virou logo. Mandou só:

Sei o que isto significa para mim, pelo menos.

A Matilde repetiu, “Para ti”, aquela maneira dela de sublinhar cada sílaba, como se quisesse pesar a palavra na mão.

E nós? lançou ela, meio suspensa no tempo.

A mãe encolheu os ombros.

Vocês já são crescidos, Matilde.

Oh mãe, tens sessenta e um anos

Eu sei muito bem quantos anos tenho.

E não se falou mais nisso naquela altura. Mas o ambiente lá em casa ficou como uma trovoada pronta a rebentar.

***

Tudo começou quando, em março passado, a Maria dos Anjos foi passar um fim-de-semana a Évora com a melhor amiga, a Vera Maria. A Vera está lá já há uns oito anos, desde que ficou viúva. Comprou uma casinha no fim da cidade, plantou um pequeno quintal, e diz que só aí é que realmente respirou. A verdade? A Maria dos Anjos visitava-a sempre no verão, naquele ritmo de quem cumpre os rituais, mas desta vez sentiu aquele chamamento estranho cá dentro: “Vai agora, não esperes pelo calor”.

Era daqueles outonos meio frios, céu cinzento e ruas vazias. A Maria dos Anjos sentiu logo a diferença de silêncio, sabes? Não é vazio. É daquelas quietudes boas, que às vezes até apetece guardar num frasco.

A Vera estava à porta em chinelos de feltro, com um casaco antigo. Recebeu-a com aquele ar maternal, Ah, já chegaste, até já aqueci as pataniscas, anda daí. Sentaram-se na cozinha, beberam chá, e foi-se falando de trivialidades, da terra, dos vizinhos, e do novo plano da Vera: comprar uma cabra.

A Maria dos Anjos engasgou-se a rir: Uma cabra, a sério? Nunca viste uma ao vivo, quanto mais ordenhar!

A Vera só se riu e respondeu: Mais vale conhecer agora do que nunca.

Conversaram imenso sobre tudo e nada, mas a Maria dos Anjos notava: a vida dela parecia gastar-se por entre os pratos lavados e as novelas vistas.

No dia seguinte, lá foram ao mercado tradicional, sabes aqueles, com bancas de velhinhas a vender grelos, queijo e cogumelos secos. E ao lado das cebolas, quem é que ela vê? O Carlos Manuel.

Ela esteve uns segundos a tentar reconhecê-lo. Há quanto tempo não via aquele homem? Trinta anos, pelo menos! Mas lá estava ele, igualzinho em certas coisas: o jeito de meter as mãos nos bolsos, o olhar atento.

Maria dos Anjos? perguntou ele, a hesitar.

Carlos Manuel

E pronto, foi daquelas cenas de reencontro em que as palavras não fazem falta porque a memória faz o resto.

Foram tomar café, à noite, num daqueles sítios com bolos de maçã caseiros e chá forte. Falaram como nunca sobre o passado, sobre os amigos do liceu e sobre os anos perdidos. O Carlos contou-lhe que estava viúvo já há três anos. Ela ficou calada, mas percebeu. Cada um de nós carrega as suas cicatrizes.

Quando voltou a Lisboa, pensou que aquilo ia ficar por ali. Mas nem uma semana passou e recebeu mensagem dele: “Chegaste bem a casa?” E daí até começarem a trocar mensagens todos os dias foi um instante. Ela, que nem era dada a telemóveis, percebeu um novo entusiasmo sempre que o telefone apitava.

Ele dizia-lhe coisas simples, mandava-lhe fotos da Évora: igrejinhas brancas, o gato ao sol, um café humejante em cima da mesa de madeira.

A Matilde percebeu logo:

Mãe, tu andas agarrada ao telemóvel? Sempre disseste que dava cabo da vista!

Olha, enganei-me respondeu a Maria dos Anjos, a tentar disfarçar o sorriso.

Depois foi o Carlos que lhe propôs: “Tenho de ir a Lisboa tratar de uns papéis de restauro, vamos tomar um café?”

E encontraram-se ali junto ao Terreiro do Paço, um sol fresco de abril, vento do Tejo. Ela com o casaco preferido e o sorriso quase envergonhado.

Foram dar um passeio à beira rio, falaram mais uma vez de tudo e de nada. Ele elogiou-lhe o jeito de falar dos miúdos do clube de leitura, e ela, quase sem se dar conta, sentiu-se viva outra vez como há muito tempo não sentia.

O verão chegou, o Carlos passou a ir a Lisboa, ela a Évora. Foram a feiras, museus, a comer caracóis em tascas pequeninas. Um dia, ele levou-a ao ateliê onde restaura imagens e santos: cheiro a madeira, tintas, luz a atravessar as janelas altas.

A certa altura ele soltou:

Já pensaste em mudar de cidade?

A Maria dos Anjos ficou a olhar para ele, sem saber se o mudar era convite ou só uma pergunta. Explicou-lhe que não era fácil: os filhos, os netos, a casa, o clube de leitura, tudo ali. E ele, sempre com aquele respeito pelo tempo dela.

A filha, entretanto, começou a desconfiar. Ligou-lhe, desconfiada e meio zangada. Começaram os interrogatórios: “Quem é ele? Onde foste?” Quando ela disse que Por agora, só caminhamos juntos, a Matilde não lhe largou o juízo. O irmão, o Tiago, por sua vez, foi mais prático: “Ele trata-te bem, mãe? Então tudo bem.”

O verão passou, levando velhos receios e trazendo novos. A Maria dos Anjos sentia-se rejuvenescida, mas também exausta com as dúvidas dos outros. Ia pensando e repensando: “E se? E se não?”

Em setembro, o Carlos quis levá-la a Coimbra para uma exposição. Ficaram em quartos separados, passearam, jantaram num pequeno restaurante à beira Mondego. E foi aí que ele lhe disse directamente: Não pressiono, nem te peço nada. Quero só que saibas que é sincero.

Ela ainda hesitou, muito tempo, até que em outubro ganhou coragem e contou tudo à filha.

A conversa foi tensa, longa, cheia daqueles silêncios de quem não quer ouvir o que já sabe. A Matilde acusou-a de estar a correr riscos, de esquecer a família, de pensar só nela. E a Maria dos Anjos, com uma calma construida nos tropeços de uma vida inteira, respondeu: Quero fazer isto por mim, não para provar nada a ninguém.

Até a antiga sogra, dona Arminda, veio pôr a colherada, mas, para surpresa, só lhe disse: Tu mereces, Maria dos Anjos. Não deixes que a família te prenda. Os netos hão de entender.

A Maria dos Anjos, claro, sentiu-se um pouco perdida. Em casa, o silêncio nunca tinha pesado tanto. Perguntou a si própria se ainda era ela mesma, ou só a soma das funções: mãe, avó, professora aposentada.

A neta, a pequena Mariana, foi a última a notar. Um dia, ligou-lhe sozinha:

Avó, tu vais-te embora?

Talvez, Mariana. Ainda não sei.

Se fores, prometes que voltas sempre?

Prometo.

Nestes pequenos pactos é que a vida se joga.

***

No fim de janeiro, a Maria dos Anjos já tinha arranjado inquilinos, desmontado livros e tralha, avisado a Matilde e o Tiago, chorado um bocado e decidido: ia experimentar viver em Évora com o Carlos.

A despedida no clube de leitura foi uma ternura. Os miúdos ofereceram-lhe um cartaz gigante, onde cada um desenhou, ao seu jeito. O menino das metáforas, que sempre dizia que os livros são janelas, desenhou uma janela colorida e escreveu: “Para veres por dentro”.

***

Na casa de Évora, a Maria dos Anjos foi-se habituando. O tecto baixo, o cheiro de lareira acesa, o quintal com figueiras e um vaso de gerânios na janela.

A Vera, sempre ela, trouxe-lhe companhia e apresentou-a a meio mundo por meia Évora, que é fácil conhecer toda a gente. Lá entrou para o clube de leitura da vila. Sentiu-se útil outra vez.

Os telefonemas da Matilde começaram a ser menos tensos, mais naturais. O Tiago continuava a perguntar: Tudo bem, mãe? Precisas de alguma coisa?” E a Mariana escrevia cartas, cheias de desenhos de igrejas, casas e até da cabra Primitiva da Vera, a nova mascote da zona.

A própria Matilde um dia lá foi visitá-la, trouxe dúvidas e medos, mas saiu com um “Estou a tentar perceber-te, mãe. E vou continuar a tentar”.

***

No fim, era tudo muito simples e muito português: há sempre lugar para recomeçar, mesmo quando já nos dizem que a nossa vida devia estar arrumada. A Maria dos Anjos não sabia se era felicidade, mas estava bem. Estava viva. Descobria que amar também pode ser ter saudade, e que se se sente saudade é porque o que se viveu valeu mesmo a pena.

E às vezes é só isto: uma sopa quente, uma casa cheia de luz, um gerânio florido, uma neta a perguntar “Avó, vais voltar?”

E ela sorria. Sabia que, mesmo sem certezas, estava finalmente a viver sua própria história. E isso, querida, ninguém lhe tirava.

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