Paulinha, despachaste-te? Vou chegar atrasada à escola! grita Vitória, sacudindo a última camisa do Quim para pôr a secar no estendal do varandim. Apesar de não ter vidros e ter as paredes cheias de tinta a descascar, era o cantinho preferido da casa para ela.
Aproxima-se do corrimão e, uma vez mais, suspende-se naquele momento breve de admiração. Do sétimo andar vê-se o Tejo ao longe, Lisboa a acordar. A alvorada já cobre tudo de uma luz vibrante de primavera. Vitória semicerrra os olhos e aperta o ferro frio do corrimão. Aqui está ela, a vida! Brilhante, intensa, como se todo o futuro coubesse naquele sol. Também para ela é assim. Tudo vai acontecer, se for rápida a despachar-se!
Uma nuvem cobre o astro por instantes. Vitória estremesse e desperta do sonho. Tudo à volta ganha contornos comuns, prosaicos. Sempre a mesma coisa uma onda de esperança, e logo, a rotina. Mas como dizia a Sónia? A realidade é feita por nós próprios? Só depende do que quisermos? Se calhar era verdade. Sónia, a vizinha, mulher sábia e licenciada, sempre dizia que Vitória era capaz de entrar na faculdade, tinha todas as condições. O problema era querê-lo a sério. Só querer não basta Vitória suspira. É preciso pensar, ponderar. Agora, então? O pai tem de fazer tudo sozinho. Os mais novos são ainda crianças, dinheiro mal há para as despesas. Querer a Universidade é um luxo que, pelas contas, teria de ficar de lado pelo menos, por enquanto, Vitória adia sonhos em prol de trabalhar e apoiar o pai.
Olha para o reloginho barato que o pai lhe ofereceu quando estava na primária. Estão atrasadas! Levanta a bacia vazia da roupa e entra no interior encostando a porta da varanda.
A Paulinha dorme, mão pequenina sob o rosto, tão tranquila e doce que Vitória não consegue evitar um carinho no cabelo. Linda, a irmã. Os caracóis loirinhos espalham-se na almofada, uma trabalheira para pentear, mas Vitória não tem coragem de cortar é preciso guardar estes tesouros. Eram iguais aos da mãe. Vitória franze-se; não gosta de pensar nela. Perdoar, talvez, mas o abandono é difícil de esquecer. A mãe partiu, deixou tudo para trás, Paulinha era ainda bebé. Nem se lembra do rosto da mãe, chamava mamã a Vitória, o que causava comentários cruéis das senhoras do bairro. Lembra-se bem do primeiro escândalo que apanhou por causa disso.
Mudaram-se para este prédio depois da morte da avó, quando o apartamento ao Bairro de Alvalade passou para o pai. Na antiga casa, dois quartos, era impossível meter tanta gente, por isso a casa grande da avó, com quatro, foi uma benção.
A avó, professora de universidade, de feitio rígido e distante, raramente convivia com os vizinhos: considerava-os ignorantes e superficiais. Vitória, em pequena, nem percebia bem, mas depois foi fugindo às visitas obrigatórias. O modo como a avó tratava as pessoas incomodava-a. Quase nunca respondia, sofria os comentários em silêncio, depois, assim que podia, despedia-se com pressa e fugia porta fora. Uma só vez é que explodiu e respondeu.
Tu não és da família! Aqueles teus irmãos nem do teu pai são. Não quero ouvir falar de bastardos na minha casa, ouviste?
Então também não venho cá mais! respondeu Vitória, punhos cerrados.
O que disseste? O espanto da avó gelou o ar. Ela sempre a ralhar, a exigir, nunca perdoava fracassos ou má conduta. Tinha tanto orgulho na coleção de porcelanas como desconforto com crianças ou barulho, proibiu desde logo que os mais novos lá fossem.
Não volto cá! Vitória saiu a correr, ainda a engolir as lágrimas. Em minutos estava em casa, encontrou Paulinha sentada no parque e pegou-lhe ao colo.
Tu és minha! E o Quim também! Somos todos uma família! sussurra ao ouvido da irmã.
O pai vêm à porta da casa de banho, onde lavava a roupa das crianças, espantado pela agitação. Paulinha, admirada, passa os dedinhos pelo rosto molhado da irmã. Certificando-se de que as lágrimas são de verdade, começa a chorar ainda mais alto. Quim, que fazia os TPC na cozinha, aparece à porta.
Que raio se passa aqui?
Sei lá!
Mulheres! remata Quim, abraçando as irmãs. Vá, venham jantar! Eu e o pai fizemos umas massinhas.
Uma hora depois, toca o telefone. Vitória larga a loiça na pia e fecha a torneira. O pai atende e a conversa passa de surpresa a raiva em poucos minutos. Vitória encosta-se à cadeira, abraça as pernas em espera. Escândalo? Não. O pai entra só, senta-se ao seu lado, dá-lhe um beijo no alto da cabeça.
Não vais mais à tua avó, Vitória.
Porquê?
Porque ninguém tem o direito de humilhar-te, nem de ofender os teus. Nem por ser família.
Vitória abraça-o. Uma estranha leveza rompe nela. Acabaram-se as visitas, os olhares de condenação. Agora pode dedicar-se aos irmãos, à vida.
Passados dezoito meses, a avó adoece gravemente e Vitória, depois de ir ao hospital com o pai, quebra a distância e começa a visitá-la. De corpo pequenino na cama, quase não parecia a severa matriarca de outrora. Só a voz, fria, não mudava com as enfermeiras. Vitória, nervosa, aperta a mão do pai.
Eu fico, pai.
As enfermeiras suspiram de alívio; agora, ao menos, há quem traduza ordens e amacie os choques. Vitória estuda de tarde, mas de manhã está sempre cedo na enfermaria. Só com ela é que a avó baixa o tom e as outras podem trabalhar em paz.
És uma menina especial! diz-lhe a enfermeira-chefe, abraçando-a. A tua avó não lhe guardes rancor. Quem não teve amor não conhece felicidade. Acaba por partir e não entende nada.
No último dia, já perto do fim, a avó está estranhamente calma. Fica a olhar o céu cinzento, Vitória acaba de escrever uma composição, arruma o caderno e levanta-se.
Já vou, Avó.
Espera… um sussurro frágil.
Perdoa-me, filha… Por tudo… A vida foi parva… Protege o teu pai.
Vitória acena, pega na mochila, sai, mas retorna para um beijarinho na face enrugada.
Descansa. Venho à tarde.
Vê a avó virar o rosto e sai a correr. Um aperto no tempo; a escola é longe. A notícia chega nessa noite. Vitória ouve, abraça os irmãos e fecha-se com eles no quarto. Para si, é talvez um alívio. Mas para o pai era a mãe Ela sabe que ele vai ficar horas sentado à cozinha, imóvel, para só depois se levantar, esconder as lágrimas e tratar do jantar seguinte.
A mudança para o novo apartamento custou. Paulinha anda sempre doente, Quim faz disparates e não quer estudar, o pai anda entre o trabalho e os filhos. Vitória arruma tudo em caixas, reza baixinho para que aquela casa lhes traga melhor sorte, embora nem saiba a quem reza.
Na casa maior, com tempo, cada um encontra um canto. Só que Paulinha, que dorme mal, volta sempre para a cama da irmã. Quim ocupa a cozinha, onde Vitória faz grande parte dos trabalhos de casa. Partilham a mesa, livros, tarefas.
Tempera a batata! Vitória está presa num problema de física, odeia números.
O caldo está a ferver, o que faço agora?
Calma, já vou!
Isto não dá certo, os negativos baralham-me… Vais-me ajudar, Vitória?
Paulinha, numa mesinha ao lado, desenha em silêncio, imitando os crescidos.
Viver sozinha com os irmãos exige de Vitória um esforço novo. Quim ainda vai à escola, mas com Paulinha é mais difícil, mesmo indo ao jardim de infância ela está frequentemente doente e Vitória falta, por isso, algumas manhãs às aulas. Tudo muda com a entrada de Sónia na sua vida.
Conhecem-se por acaso, no pátio. Primeira semana, Vitória aparece na rua com a irmã. O parque está cheio, mães, avós, vizinhas, todas muito curiosas. Paulinha pede para ir ao baloiço, mas está cheio.
Mãe! grita Paulinha, e toda a gente arregala os olhos.
Que idade tem esta miúda? Grávida na adolescência Que vergonha! As más línguas não tardam. Ali, todos têm opinião. Paulinha chora para ir ao baloiço e Vitória não sabe como arrancá-la dali, quando se ouve uma voz:
Que se passa aqui?
A rigidez cala o grupo. É Sónia, bem arranjada, com filho ao colo.
Calma, vizinhos! Temos nova moradora e já começou o tribunal?
Traz o filho pela mão, atravessa o parque, fria.
O que aconteceu? pergunta, avaliando as caras.
Uma das velhas leva-se toda e atira:
Olhe, Sónia, veja bem. Nisto vai dar a liberdade, só tragédias! Uma miúda com uma criança. Não acha que é causa para castigo?
Já acabou? Sónia diz, soprando de aborrecida.
Olha para Vitória:
Quem é esta menina para ti?
É minha irmã.
Tudo se cala. As mulheres dispersam, inseguras.
Como te chamas? Sónia abaixa-se.
Vitória. Esta é a Paulinha.
O resto é história. Ninguém percebe bem como, mas Sónia torna-se fiel amiga de Vitória quem diria, uma jovem de trinta e uma miúda, mas assim decide o destino. Sónia, advogada de direito de família, respeitada no bairro, pouco fala mas é atenta.
Percebes o que sei sobre toda a gente aqui? ri-se ela, limpando cortinas na sala da Vitória. E porque me temem? Como advogada, conheço segredos. E cada um quer parecer melhor do que realmente é. Se se soubesse que alguém não paga a pensão a um filho imagina a desgraça!
Vitória percebe, e para o bem dos irmãos, também prefere o anonimato. Foram para ali também para esquecer a mãe.
Foi a Sónia quem ouviu primeiro, de boca de Vitória, a dura verdade do abandono.
Um dia, Sónia pede-lhe ajuda para dar de comer ao seu gato Bolacha.
Vou estar fora diz-lhe Tenho audiências, médico, aquela confusão. Se não deres de comer, ofende-se e não me deixa dormir em paz.
Riem-se as duas; Sónia mostra-lhe o lugar do ração.
Nesse dia, Vitória atrasa-se dos recados. Em casa, Quim pede ajuda matemática, Paulinha faz fita para sair do infantário. Só chega à Sónia passadas oito horas.
Desculpa, Bolacha, mas foi assim!
Enche o prato ao gato, regista o olhar ofendido, quando Sónia entra, cansada, largando a mala e sentando-se exausta.
De repente, desata num pranto. Vitória surpreende-se; afinal, até a vizinha mais forte é humana. Aproxima-se e envolve-a num abraço.
Desculpa, esgotei-me. Tive um dia ruim, não há com quem falar. A minha mãe já cá não está
Então, e eu não conto? Vitória sorri.
Sónia sorri e afaga-lhe os caracóis.
Sempre quis ter cabelo assim. As mulheres querem sempre aquilo que não têm. Sempre sonhei ter um filho.
Sónia para, secando mais uma lágrima. Vitória, direta:
Mas não podes mesmo? Tens a certeza?
Sónia mostra um envelope e documentos.
Isto é a minha sentença. Não posso ter filhos. E foi por caminhos tortos, culpa minha e do tempo.
Sónia engravidou cedo, depois de muito adiar. Era casada com Márcio, amigo de infância; viveram muito juntos, pais a sonhar, poupar para o apartamento novo, para viagens. Quando finalmente se autorizam a tentar, ela engravida logo. Mas há um acidente numas férias no Algarve um embate, uma perna partida, e perde tudo. Seguem-se dores, lágrimas, afastamento; Márcio não aguenta, divorciam-se.
Ficam anos sem se falar, mas retomam o respeito. Nunca mais foi possível ter família. Sónia sente o peso do destino e não quer dar falsas promessas, mesmo depois de Márcio lhe voltar a pedir em casamento. Hesita.
Não seria justo, Vitória. Ele queria tanto uma criança
E se os médicos se enganarem? Não queres arriscar?
As probabilidades são mínimas, percebes? E se não der?
Então sim, choras. Mas o pior é não tentar!
Sónia abraça-a.
De onde te vem tanta maturidade, menina? Nem tens vinte anos
Bons professores Vitória responde, sorrindo.
E tu? Porque só falas do teu pai? Conta-me de ti. Vamos trocar confidências.






