Já passaram muitos anos desde aquele tempo… Lembro-me de când me reformei e, de repente, me vi mergulhada numa solidão profunda, difícil de suportar. Foi só já em idade avançada que reconheci que talvez não tivesse vivido a minha vida da melhor maneira.
Muitas mulheres imaginam que a solidão é o pior que pode acontecer. Acreditam que felicidade é ter uma casa cheia, família numerosa, confusões e preocupações constantes. Durante muito tempo recusei essa ideia. Sempre optei por mim, pelos meus sonhos. Nunca ninguém me exigiu nada. Não tinha obrigações senão comigo.
Depois de terminar o curso em Lisboa, comecei a trabalhar para uma grande agência de viagens que organizava excursões por toda a Europa. Ao mesmo tempo, colaborava como modelo para uma marca conhecida na cidade do Porto. Rapidamente passei a ganhar bastantes euros. À minha volta estavam amigas, mulheres independentes e ambiciosas, também prósperas.
Sentia-me realizada, com possibilidade de viajar para onde quisesse. Namorei alguns homens, e vivi momentos agradáveis, mas, sempre que deixava de me interessar, punha fim à relação sem remorsos. Ser mãe nunca esteve nos meus planos. Achava impensável trocar a minha liberdade e beleza por uma vida de preocupações constantes, tal como as mães que conhecia. O peso das responsabilidades assustava-me e mantinha-me afastada dessa ideia.
A verdade é que o tempo não perdoa voou sem que eu desse por isso. Hoje, sendo uma senhora reformada, o silêncio da casa pesa-me muito. Nunca me liguei ao compromisso do casamento, nunca tive filhos. Agora, já envelhecida, sinto realmente a falta de pelo menos uma criança na minha vida. Antes, não queria, não achava essencial. Depois, o tempo tornou-se inimigo e tornou-se impossível. Não via sentido nenhum na maternidade.
Vejo agora a minha irmã, Maria da Luz, rodeada pelos seus dois filhos e três netos. Eu, que tantas vezes julguei e não quis ouvir conselho de ninguém, agora anseio por dar um sentido novo ao que me resta da vida. Gostava de me reconciliar com a família, passar tempo com os sobrinhos e netos dela. Talvez até conhecer alguém que, como eu, sinta falta de partilha e companhia, e construir, finalmente, o calor de um lar. Será que ainda vou a tempo de ser feliz?







