Corta para a salada mais fininho, disse Dona Helena e logo se interrompeu. Ai, desculpa, filha. Lá estou eu a repetir-me Não, sorriu Mariana. Tem razão, o Rui realmente gosta que fique bem miudinho. Mostre lá como faz. A sogra mostrou
Olá, Mariana! O Rui está em casa?
Dona Helena estava à porta, com o seu casaco de lã antigo, sempre impecável, gola de pelinho de arminho, olhos cinzentos realçados, batom nos lábios, os cabelos brancos bem arranjados. Na mão direita, cintilava aquele anel velho de ametista baço.
Ele está em trabalho, respondeu Mariana. Não sabia? Em trabalho? Dona Helena ficou séria. Não me disse nada disso. Pensei em passar aqui o dia, ver os netos antes do Ano Novo.
Da sala, apareceu a Sofia tranças louras, olhos castanhos vivos, aquela janelinha divertida entre os dentes. Avó!
E Dona Helena já entrava, já tirava o casaco, já beijava a neta no alto da cabeça. E Mariana olhou aquilo, sentindo o aperto habitual no peito. Seis anos. Seis anos a aguentar esse controlo.
Só fico um bocadinho, disse Dona Helena, inspeccionando o hall de entrada. Quero apenas ver os miúdos e sigo.
Mas o destino decidiu de outra forma.
A coisa deu-se passadas duas horas. Dona Helena foi fumar à varanda respeitava que ninguém o fizesse à frente das crianças, e Mariana apreciava e não viu o degrau gelado.
Mariana ouviu o grito e o baque. Correu para fora e viu a sogra sentada na calçada, branca como cal, agarrada à perna.
Não se mexa, correu até ela, angustiada. Vou chamar o INEM.
As quatro horas seguintes juntaram-se numa só: hospital, raio-x, fila das urgências, cheiro a desinfectante. Fratura no tornozelo. Nada muito grave, mas gesso por seis semanas nada de brincadeiras.
Ela não vai a lado nenhum, disse o médico jovem, preenchendo a ficha. Pelo menos uma semana de repouso absoluto. Depois, canadiana. Não vai entrar num comboio assim.
Mariana assentiu em silêncio.
No carro, a caminho de casa, não disseram uma palavra. Dona Helena olhava pela janela, mexendo nervosamente no anel. Mariana conduzia, só a pensar que as festas estavam, de vez, estragadas.
Sete dias. No mínimo sete dias. Debaixo do mesmo teto. Sem o Rui. Só as duas. Bem, quatro se contar com os miúdos. Mas filhos não contam quando se trata de guerra fria em família.
No dia 31 de dezembro, Mariana levantou-se às seis da manhã.
Tinha de preparar as saladas, assar carne, pensar num prato quente. Os miúdos iam acordar e pedir comida. Dona Helena ia acordar e começar os conselhos.
E assim foi.
Estás a cortar muito grosso, insistiu a sogra, mancando devagar para a cozinha. A salada fica melhor bem fininha, mais delicada. Eu sei, respondeu Mariana baixo. E é maionese a mais, depois fica tudo ensopado. Eu sei. O Rui gosta que ponhas mais milho.
Mariana pousou a faca.
Dona Helena. Faço esta salada há doze anos. Sei como se faz. Só queria ajudar Obrigada, não é preciso.
Dona Helena fez aquele trejeito com os lábios Mariana já conhecia de cor e saiu devagar para o quarto. O gesso brilhou branco nos batentes, as canadiana bateram com pena no chão. Mariana pegou no telemóvel e foi à varanda.
Lá fora estava tudo calmo agora os festejos já não têm foguetes, só algumas luzes nas janelas.
Ó Leonor, eu não aguento mais, sussurrou ao telefone à amiga. Eu não aguento. Ela vai estar cá uma semana, o Rui foi-se embora como não fosse nada. Eu já aguento há seis anos. Não aguento mais. Se isto continua assim, pego nos miúdos e vou embora.
Ela não sabia que, atrás da porta da sala, sentada numa poltrona ao pé da árvore, Dona Helena estava. E ouvia cada palavra.
A passagem de ano foi em silêncio.
Sofia e João adormeceram antes das onze, nem esperaram pela meia-noite. Mariana e Dona Helena ficaram à mesa as saladas, os enchidos, a televisão baixinha com cantores. Nem se olhavam.
Feliz Ano Novo, disse Mariana quando o relógio bateu as doze. Feliz Ano Novo, respondeu a sogra.
Tocaram os copos. Só um gole. Cada uma seguiu para o seu quarto.
No dia 1 de janeiro, o Rui telefonou.
Mãe, estás bem? Mariana, como ela está? Está tudo bem, disse Mariana. O gesso. Uma semana deitada, depois vê-se. Vocês estão a dar-se bem por aí?
Mariana ficou em silêncio a olhar para a porta fechada da sala.
Estamos a dar-nos bem.
Mariana, eu sei que isto é difícil
Estás em trabalho, Rui. Estás aí, eu cá. Com a tua mãe. Nas festas. Não vamos falar disso.
Desligou e chorou. Bem baixinho, para ninguém ouvir. Na casa de banho, com a torneira aberta à força. Os olhos castanhos, com olheiras, olhavam de volta do espelho.
Trinta e dois anos, dois filhos, seis de casamento. E aquele sentimento de estar presa numa vida fria que não é a dela.
Nesse mesmo dia, Dona Helena pediu que Mariana fosse buscar os documentos à carteira. Preciso do cartão e do NIF, explicou. Quero marcar consulta pelo SNS.
Mariana abriu a velha bolsa de pele e começou a procurar. Uns recibos, um caderninho, o cartão E de repente uma fotografia. Tirou, pensando que seria algum papel antigo.
Era uma foto antiga, o canto dobrado. Uma jovem de vestido de noiva. Uns vinte e sete, talvez mais. Bonita mas a chorar, olhos inchados, máscara borrada, lábios tremendo.
Mariana virou a foto. No verso, a tinta desbotada: Dia em que percebi que nunca ia ser aceite. 15 de agosto de 1990.
Ficou a olhar para aquilo muito tempo. Depois para a foto. Depois para a frase. 1990. Trinta e quatro anos atrás. Dona Helena agora tem sessenta e um. Então tinha vinte e cinco. Noiva. A chorar.
Já encontraste os documentos? Mariana sobressaltou-se. Dona Helena estava à porta, apoiada nas canadiana. Eu Mariana quis esconder a foto, mas já não deu. A sogra viu.
O rosto mudou num instante. Passou dor nos olhos cinzentos, medo ou uma velha vergonha.
Dá cá isso.
Mariana pôs a foto na mão dela sem dizer nada. Dona Helena olhou muito tempo, depois guardou no bolso do robe.
O cartão está no bolsinho lateral. À esquerda. E saiu.
Na noite de dia três, Mariana acordou com um ruído. João dormia ao lado desde que o pai saiu passava para a cama dela. A Sofia ressonava no quarto dela. O barulho vinha da sala.
Mariana levantou-se. No escuro, só iluminada pela luz azul da árvore, lá estava Dona Helena. A perna engessada esticada num pufe. Na mão, a fotografia.
Não consegue dormir? perguntou Mariana baixinho. A sogra estremeceu. A perna dói E tudo o resto também.
Mariana sentou-se no apoio do braço da poltrona. Cheirava a tangerinas e resina. A luz azul e amarela piscava.
É mesmo você na fotografia? No vestido de noiva?
Longo silêncio.
Sou.
O que aconteceu nessa altura?
Dona Helena falou devagar. A voz baixa, rouca. Olhava para lá da árvore.
A minha sogra. A mãe do Vítor. Ela ela destruiu-me. Três anos bastaram. Mariana prendeu a respiração.
Ela odiou-me desde o começo. Eu não era do nível deles. Rapariga simples da periferia, eles gente de bem. O Vítor escolheu-me, e ela nunca aceitou. E mostrou todos os dias.
Tudo o que eu fazia, cada palavra. Nem sabia juntar sopa, nem passar a ferro, nem educar o Rui. Dizia que eu não valia o filho dela. Dizia à frente dele. À família. À vizinhança.
Mariana ouvindo, reconhecia-se em cada frase.
Passados três anos fui parar ao hospital.
Colapso nervoso. Comprimidos às mãos cheias. As mãos tremiam, nem sopa conseguia tirar. Os médicos disseram ao Vítor: ou ela sai, ou não resiste. E ele escolheu-me. Pôs à mãe um ultimato. Ela foi-se embora.
E depois? Depois, ela morreu. Meio ano depois. O coração Nunca consegui nada. Nem perdoar, nem despedir-me. Só deixou este anel. No testamento escreveu À nora que me roubou o filho. Tenho-o há trinta anos. Todos os dias. Para lembrar.
Lembrar o quê? Dona Helena olhou, finalmente, para Mariana. À luz dos piscas, tinha os olhos húmidos.
Jurei nunca ser assim. Nunca ser o tormento da mulher do meu filho. Nunca destruir a família dele por ciúme.
Baixou a cabeça.
E não reparei que me tornei pior.
Na sala, só se ouvia o fraco ruído da tomada da árvore.
Ouvi-te, murmurou Dona Helena. No balcão. Naquele dia. Disseste que ias embora. Levavas os miúdos. Por minha causa.
Mariana prendeu o suspiro.
Dona Helena
Não digas nada. Eu percebo. Seis anos a vir cá e a estragar-vos a vida. A ensinar, a implicar, a meter-me onde não sou chamada. Sempre achei estou a ajudar! Vejo o melhor! Sou mãe! Na verdade, só tenho medo. Medo de perder o Rui. Medo que ele te escolha e me esqueça. Como o Vítor me escolheu e esqueceu a mãe. E deste medo faço tudo para o perder mais depressa.
Mariana ficou calada.
Nem sabia o que responder.
Nessa fotografia estou a chorar porque, um minuto antes, a minha sogra disse: Nunca serás parte desta família. És estrangeira e sempre serás. Eu disse-te o mesmo?
Mariana baixou os olhos.
Palavras não. Mas
Mas fiz sentir.
Sim.
Dona Helena assentiu, lentamente, com dificuldade.
Desculpa, Mariana, minha menina. Não queria. Juro que pensei que era diferente. Mas não reparei como o medo me tornou igual.
Ficaram assim até o sol nascer. Conversaram. Silenciaram. Depois, voltaram a conversar. Dona Helena contou do Vítor, que já há sete anos morreu.
Do medo na casa vazia, com receio que o único filho esqueça, deixe de ligar
Mariana contou do cansaço. De sentir-se invisível na própria casa. De tentar ser boa, e falhar sempre.
Com o dia a clarear, Dona Helena suspirou:
Sabes do que tenho mais medo? Que um dia a Sofia se case, e eu vire para o marido dela uma sogra igual a que fui para ti. É como uma doença, passa de geração em geração. A minha sogra fez-me isto, eu fiz a ti. Alguém tem de quebrar a corrente.
Mariana agarrou-lhe a mão. Pela primeira vez, em seis anos.
Quebre-a então.
Vou tentar, minha filha. Vou mesmo tentar.
No dia cinco, cozinharam juntas.
Corta mais fino, disse Dona Helena e logo se encolheu. Ai, desculpa, filha. Já ia eu meter-me
Não, sorriu Mariana. Tem razão. O Rui gosta mesmo miudinho. Mostre-me lá.
A sogra mostrou. Explicou como pôr o sal, como mexer para não desfazer os legumes. A Sofia girava por ali, roubando milho.
O João brincava no quarto.
Avó, perguntou a mais nova, porque é que antes não vinha cá por tanto tempo?
Dona Helena olhou para Mariana. Ela sorriu de forma calorosa:
Porque a avó estava sempre ocupada. Agora vai vir mais vezes. Não é verdade?
É sim, respondeu Dona Helena.
Se me chamarem.
Chamamos! Sempre!
À noite, Dona Helena chamou Mariana ao quarto.
Senta-te aqui, filha.
Mariana sentou-se ao seu lado no sofá. A sogra tirou o anel de ametista do dedo. Rodou-o nas mãos.
Este anel era da minha sogra. Só me deixou isto. Trinta anos a usá-lo como marca de mágoa. Para lembrar que era estrangeira, de fora.
Pegou na mão de Mariana e pôs-lhe o anel no dedo.
Agora é teu. Mas deixa-te lembrar outra coisa. Que tudo pode mudar. Que mágoas velhas podem ir embora.
Dona Helena
Mãe. Podes chamar-me mãe. Se quiseres, claro.
Mariana quis responder, mas sentiu o nó na voz. Só a abraçou pela primeira vez em seis anos.
Lá fora caía neve miúda, raro milagre nas festas de Natal por cá. A árvore brilhava. Da sala vinha o riso da Sofia.
E Mariana percebeu, subitamente: afinal, as festas não estavam estragadas. Só agora é que começaram.
É assim a vida: às vezes é preciso escorregar no degrau gelado para finalmente chegar ao coração de alguém. Os nós mais complicados só se desfazem com um sincero desculpa-me.
Feliz Ano Novo, querido amigo! Que haja paz e amor para todos nós!
E tu, alguma vez encontraste entendimento com alguém precisamente no momento que já tinhas perdido toda a esperança?







