— Quero viver para mim e descansar, — disse o marido ao sair. Três meses — foi quanto durou este tu…

Lisboa, 18 de Março

Hoje, regresso ao meu caderno para pôr ordem aos pensamentos que, durante meses, têm inundado a minha cabeça. Não consigo dormir. Nem viver. Sinto-me um fantasma na minha própria casa.

Quando o Jorge saiu, disse: Quero viver para mim, dormir em paz. As palavras martelam. Três meses de loucura. Três meses a ouvir o Martim chorar noite fora, de tal forma que até a vizinha do lado batia à parede. Três meses de olhos vermelhos e mãos trémulas. Vivo como uma sobrevivente, e o meu marido, em vez de ser porto seguro, é só outra tempestade.

Jorge anda pela casa com ar soturno. Uma noite, depois do banho, olhou-se ao espelho e desabafou: Sabes como pareço um sem-abrigo no trabalho? Olha para estas olheiras! E eu, a embalar o Martim, calada É um ciclo sem fim: dar de comer, acalmar, trocar fraldas, dar de comer outra vez. E sempre o Jorge a rondar, mas nunca a ajudar. Só se queixa.

E se a tua mãe ficasse cá uns dias? sugeriu, esticando-se confortável. Podia passar a semana na casa do Rui, em Sintra. Preciso de escapar, de descansar. Já nem sei o que é dormir uma noite inteira.

Como se eu dormisse Mal me deito e lá começa o Martim a chorar. Quatro vezes numa noite, já é rotina.

Também tenho dificuldades, Jorge, murmurei.

Eu sei, eu sei, mas o meu trabalho exige muito de mim. Não posso ir assim para reuniões.

De repente, vi-nos de fora, como quem vê um filme: eu, desgrenhada, de roupão encardido, a segurar um bebé que grita, ele a fazer a mala e a fugir.

Preciso de tempo para mim e de dormir, disse, sem sequer me encarar antes de bater a porta.

Fiquei ali, perdida, com o Martim a berrar nos braços, a sentir tudo desabar cá dentro.

Passou uma semana. Depois outra.

Jorge ligou três vezes. Voz distante, como se falasse a uma conhecida de café.

Vou no fim-de-semana.

Não veio.

Amanhã vou mesmo.

E nada.

E eu, sentada, abalada, só a conseguir mentir quando alguém pergunta: Está tudo bem, Mariana?

Está. Minto. Por vergonha de admitir que o marido me abandonou. Que estou sozinha com o nosso filho.

Mas o mais difícil ainda estava para vir. No supermercado, encontro a colega dele Ana Paula.

O Jorge não veio hoje? pergunta.

Está a trabalhar muito.

Pois, os homens quando nascem bebés parece que vivem no trabalho. E o Jorge vai muitas vezes fora em serviço?

Serviço?

É que ele mostrou fotos de um seminário no Porto na semana passada!

Porto? Nem sabia. Naquela semana nem me ligou. Estive ocupado, disse. Mentira.

Chega sábado. Jorge aparece com flores.

Desculpa ter demorado. O trabalho Lá está.

Foste ao Porto?

Fica parado, bouquet na mão.

Quem te disse?

Não importa quem. Importa que me mentiste.

Não te menti Não queria que ficasses triste por não ir contigo.

Ir comigo? Eu com um bebé que nem dorme!

Jorge, preciso de ajuda. Não durmo há semanas.

Contratamos uma ama.

Com quê? Não dás dinheiro.

Como não dou? Pago a casa, a luz

E para comida? Fraldas? Remédios?

Silêncio. Depois:

Podias voltar ao trabalho. Nem que fosse a meio tempo. Contratamos ama.

Como se eu descansasse em casa.

Olhei para o Jorge e soube, finalmente: ele nunca me amou. Nem agora, nem nunca.

Vai-te embora.

O quê?

Sai. E não voltes até decidires se queres ser família ou viver só para ti.

Jorge saiu. Dois dias depois, manda mensagem: Estou a pensar.

Eu penso, também. Não durmo. Finalmente, estou só com os meus pensamentos.

A minha mãe liga:

Mariana, como estás? O Jorge não está?

Em serviço. Outra mentira.

Vou aí ajudar-te.

Não é preciso.

Ela aparece mesmo.

Mas o que se passa aqui, Mariana?! Olha para ti

Olhei ao espelho. Um caco.

E o Jorge?

Trabalha

Às oito da noite?

Não respondi.

Até que desabei a chorar, alto, como nunca. Ele foi-se embora, mãe. Disse que quer viver para ele.

Ela ficou muda. Depois murmurou:

Que desgraçado. Sempre achei o Jorge fraco, mas não pensei que fosse tanto.

E se eu estiver errada mãe? Não devia ter tentado entender?

Mariana, está-te a custar?

A pergunta simples fez-me ver: sempre pensei no Jorge, no seu desconforto, no seu cansaço. E nunca pensei em mim.

O que faço?

Vives. Sem ele. É melhor estar sozinha que assim.

No sábado, Jorge regressa. Bem disposto, bronzeado certamente a pensar em qualquer retiro.

Falamos?

Sim.

Senta-se, formal: Mariana, sei que te custa. Também não é fácil para mim. Podemos combinar? Ajudo com dinheiro, vejo o Martim. Mas para já, quero viver sozinho.

Quanto?

O quê?

Dinheiro. Quanto?

Bem Uns mil euros.

Mil euros. Para tudo.

Jorge, vai à tua vida.

Estás a gozar?!

Ouvistes bem. E não voltes.

É um bom acordo!

Acordo? Queres liberdade, e eu?

E aí Jorge disse aquilo que pôs tudo a nu:

Que liberdade tu tens? Tu és mãe!

Olhei-o, Magoei-me: ali estava o verdadeiro Jorge, egoísta, infantil, que vê a maternidade como castigo.

Amanhã peço pensão um quarto do teu ordenado. Por lei.

Não te atreves!

Atrevo.

Saiu, batendo a porta. E eu, pela primeira vez, respirei. Martim chorou, mas senti que podia conseguir.

Passou um ano.

Jorge tentou voltar duas vezes.

Vamos tentar?

Agora é tarde.

Jorge chama-me de má, mas nem parece acreditar.

Encontrei uma ama, comecei a trabalhar como enfermeira. No hospital conheci o Dr. André.

Filhos?

Um Martim.

O pai?

Vive sozinho, para si.

Juntou-se a nós, trouxe um brinquedo para Martim. Brincam juntos. Passeamos todos pelo Jardim da Estrela.

Jorge descobriu, ligou enraivecido:

O miúdo tem um ano, já estás com outro!

Esperavas que te esperasse eternamente?

Mas és mãe!

E então?

Não tornou a ligar.

André é diferente. Quando Martim adoece, vêm rápido. Quando estou exausta, leva-nos para descansar na quinta dele.

Hoje, Martim tem dois anos. Chama André de tio. Nem se lembra do Jorge.

Jorge casou outra vez. Paga pensão.

Não me zango.

Agora também vivo para mim. E sabe tão bem.

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