**Queria o melhor**
Sim, eu sei que não têm obrigação! Mas é o vosso próprio sangue! Vão deixar o rapaz passar o inverno sem roupa quente? Tiago, foi isso que eu te ensinei em miúdo? insistia a sogra.
O telefone estava em cima da mesa. Depois de alguns conflitos familiares, Tiago aprendera: quando a mãe ligava, era melhor atender em alta voz e falar com a Dona Lúcia Maria juntos. Senão, ela acabaria com cada um à vez.
Dona Lúcia, não estamos a recusar ajudar argumentou a Inês. Mas se está tão difícil cuidar do Duarte, então deixe-o ficar connosco. A Ana não se importa, já falei com ela.
A sogra calou-se por alguns segundos. Devia estar a calcular o que lhe convinha mais: livrar-se das responsabilidades ou manter o controlo sobre a filha. Acabou por escolher a segunda opção.
Vocês não fazem ideia no que se estão a meter! respondeu Lúcia, com desdém. Nunca tiveram nem filhos nem um gato. Passam o dia a trabalhar, quem vai ficar com ele? Acham que as crianças crescem sozinhas, como ervas daninhas? Precisam de atenção, carinho, amor!
Eu percebo disse a Inês, calma. Mas se for preciso, arranjamos maneira. Eu podia demitir-me. Ficava em casa, como se fosse a Ana em licença de maternidade.
Ah, e vão viver do quê, ricos?
A senhora mesma diz que eu ganho tostões. Dá para nos safarmos sem esses tostões.
A sogra ficou em silêncio. Tiago suspirou, cansado: a Inês ainda era nova na família, mas ele já estava farto daquela pressão.
Está bem. Estão a dar-me um ultimato resmungou Lúcia, afinal. Pois, façam como quiserem. São jovens, não percebem no que se estão a meter. Eu é que quero ajudar, carrego tudo sozinha. Mas insistem. Saibam só que, enquanto fazem birra, o miúdo está a congelar e a ficar doente por vossa causa.
Desligou. A Inês sentou-se ao lado de Tiago, abraçou-o e lembrou-se de como tudo começara.
…No início, a Dona Lúcia parecia uma mulher bondosa, simpática, ainda que teimosa. Recebia a Inês em casa com sorrisos, antes mesmo de ela ser nora. Enchia a mesa de comida, e quando o casal partia, enchia-lhes sacos de compras.
Integrou-se depressa na vida da Inês. Ligava todos os dias, perguntava se estava tudo bem, se o Tiago a tratava bem, convidava-a para jantar. Certa vez, até ajudou a internar a mãe da Inês, arranjando médicos conhecidos. A Inês ficou-lhe imensamente grata.
Mas notava também outras coisas. Se não atendesse o telefone ou interrompesse a conversa por pressa, a futura sogra transformava-se. Passava semanas sem ligar, falava com frieza, esperando desculpas.
Já percebi, estão tão ocupados que já não precisam de mim dizia Lúcia, magoada.
A Inês ria, tentando amenizar, mas sentia que a “preocupação” da sogra era pegajosa, sufocante.
Lúcia tinha também uma filha, a Ana. A cunhada deixava a Inês dividida. A Ana nunca sorria, assustava-se com barulhos, fugia para o quarto. A Inês atribuía à idade a Ana tinha só dezasseis anos.
Do que é que a Ana gosta? perguntou a Inês uma vez, antes do Natal. Estou às voltas, não sei o que lhe oferecer.
Nada respondeu Lúcia, irritada. Passa o dia no telemóvel. Tudo é difícil, tudo é chato. Não quer nada da vida. Preguiçosa…
Foi aí que a Inês percebeu que algo estava errado entre mãe e filha. A sua própria mãe nunca falaria assim dela.
Com o tempo, viu que Lúcia desprezava a Ana. Sorria para a nora e, no instante seguinte, gritava com a filha por louça mal lavada. Más amizades, jeito de andar, música inadequada… E isso era só o que a Inês presenciava.
Não surpreendeu quando, aos dezoito, a Ana casou às pressas. Não por amor, mas para fugir de casa.
Estúpida! berrava Lúcia. Meteu-se com um aleijado! Acha que a felicidade está lá fora. Ele vai largá-la num mês!
Com a Ana fora de alcance, Lúcia virou-se para Tiago e Inês. Conselhos invasivos, visitas surpresa, perguntas sobre netos… O pacote completo.
Inês, porque não deixas essa loja? Ganhas uma miséria disse Lúcia certa vez. Arranjava-te algo melhor, por conhecidos.
A Inês já sabia: se aceitasse, ficaria eternamente em dívida. E seria ingrata, pois Lúcia exigiria submissão total.
Obrigada, mas gosto do meu trabalho. E as minhas colegas são óptimas.
Lúcia franziu os lábios, virou-se para a janela.
Faz como quiseres resmungou. Só quero o vosso bem. Mas se preferes estagnar, não posso fazer nada.
Quanto à Ana, Lúcia quase acertou. O casamento durou não um mês, mas um ano e meio. E nesse tempo, a Ana teve um filho.
Apesar de não serem próximas, a Ana acabou por desabafar com a Inês.
Ele quase não vem para casa queixou-se. Diz que fica com amigos, mas não sou parva… Já o apanhei a mentir. Não sei onde anda, mas não é com amigos. E isso é só o começo… Já levantou a mão para mim.
Ana, isso é grave. Deverias sair disso.
Para onde? Para casa da mãe? Antes morrer.
Disse tudo. A Ana preferia traições e medo a voltar para Lúcia.
Pouco depois, o marido pediu o divórcio. Disse que não estava pronto para a família. Na verdade, arranjara outra.
A Ana voltou para casa da mãe com o filho. E então começou o inferno. Lúcia chamava-lhe inútil, má mãe, previa-lhe pobreza. Mas ao menos cuidava do neto enquanto a Ana trabalhava.
Até que a Ana cansou-se. Um dia, fugiu, deixando o Duarte para trás.
Queria levá-lo, mas para onde? confessou à Inês. Estou em casa de uma amiga. Preciso de me recompor. E talvez de um psicólogo… A minha mãe levava-me ao limite. O Duarte não tem culpa, mas quando me sinto assim e ele chora… Preciso de tempo.
Enquanto a Ana se reerguia, Lúcia voltou-se para Tiago e Inês. Queixava-se da filha e exigia ajuda com o neto. Dizia que as finanças apertavam e a saúde fraquejava.
A Inês via tudo e sabia que o Duarte não teria futuro ali. A Ana ainda sofria com o “amor” da mãe. Tiago raramente se impunha.
Foi ele, no entanto, quem sugeriu ficar com o miúdo. Mas não o dizia à mãe. Talvez por medo, talvez por achar inútil. A Inês, porém, acreditava que, juntos, resolveriam.
Ana, queres que o Duarte passe pelo mesmo que tu? Leva-o da tua mãe, traz-o pra cá. Cuidamos dele até te recompores insistiu a Inês.
Fácil dizer… suspirou a Ana. Não vou arrancá-lo à força. E o escândalo que ela faria…
Podes contactar a segurança social.







