Quem Vai Querer-te com “Extra”?

Tens mesmo a certeza, filha?

Matilde pousou a mão sobre a da mãe e sorriu.

Mãe, eu amo-o. E ele ama-me a mim. Vamos casar-nos e tudo vai correr bem. Vamos ter uma família, percebe?

O meu pai empurrou o prato de caldo verde meio comido para o lado e ficou a olhar sério pela janela. Ficou calado uns segundos, que para a Matilde pareceram uma eternidade.

Só tens dezanove anos disse enfim. Devias era pensar nos estudos, numa profissão, não em casamentos.

Pai, eu consigo. Matilde falou com calma, embora tudo dentro dela implorasse para que eles acreditassem, para que vissem o que ela via. O Tiago trabalha, eu estou na faculdade. Não vos estamos a pedir que nos sustentem. Só queremos estar juntos. Ser uma família.

O pai abanou a cabeça devagar, mas não disse mais nada.

Eles não aprovavam, isso via-se pelas linhas no rosto do meu pai, pela forma como a minha mãe endireitava nervosamente o guardanapo. Mas também não se opunham. Talvez porque se lembrassem deles próprios na juventude. Ou porque sabiam que proibir só ia empurrar a Matilde para o contrário.

Casaram-se em maio. Uma cerimónia simples, mas das mais calorosas que vi. Nada de restaurante para duzentas pessoas, nem carros de luxo ou pombos brancos. Só família e amigos, alegria genuína. Eram felizes.

A lua-de-mel foi no Algarve. Apenas uma semana, porque o Tiago não podia tirar mais dias e também não havia muito dinheiro. Mas para Matilde aqueles dias pareceram um encantamento. Dormiam até tarde, tomavam pequeno-almoço na varanda do pequeno quarto, olhavam o mar, passeavam na marginal até anoitecer, comiam bifanas das roulotes e beijavam-se como se o mundo fosse acabar.

Depois chegou a vida a sério, sem véu romântico. Um T0 arrendado, onde no inverno corria um frio por causa das janelas velhas e os vizinhos de cima faziam barulho até tremer o candeeiro. O Tiago saía para o trabalho às sete da manhã, a Matilde ia para as aulas, à noite encontravam-se cansados, esquentavam qualquer coisa para jantar e adormeciam mal encostavam a cabeça.

No meio daquele cansaço havia sempre algo certo, verdadeiro.

Meio ano depois, os pais ligaram a convidá-los para o almoço de domingo. Matilde ficou a imaginar o que se teria passado desde tragédias a disparates. Quando chegaram, os pais sentaram-nos à mesa, serviram chá e empurraram um envelope na direção deles.

É para vocês disse o pai, a olhar para outro lado. Para ajudarem na compra da casa. Nem que seja um T1 pequenino, mas pelo menos vosso. Chega de deitarem dinheiro fora com a renda.

Matilde olhou para o envelope, sem coragem de o pegar. Sentiu um nó na garganta e os olhos encheram-se-lhe de lágrimas.

Pai… começou, mas ele interrompeu.

Pronto, aceita. Não faças disso um drama. Considera um presente de casamento, atrasado.

Encontraram casa em trinta dias. Vinte e oito metros quadrados num terceiro andar de um prédio da periferia de Lisboa. Janelas para o quintal, cozinha minúscula, casa de banho pequena. Para muitos não era nada de especial. Para Matilde, era o seu universo inteiro. Escolheu os cortinados, falou com os pedreiros, colou os autocolantes nas paredes e encheu a cozinha de vasos de flores comprados no mercado.

Um ano depois, já no terceiro ano de faculdade, Matilde começou a sentir-se estranha. Primeiro achou que se tinha sentido mal de qualquer comida. Depois culpou o stress dos exames. Comprou um teste de gravidez, quase só para ter a certeza que não era aquilo.

Duas riscas, sem enganos.

Matilde sentou-se na banheira, olhando para o teste, incapaz de acreditar que a vida tinha dado mais uma reviravolta. Curso quase feito, dois anos até ao diploma. Finalmente estavam estáveis. Porquê agora?

O Tiago chegou do trabalho e percebeu logo. Ela estendeu-lhe o teste, sem saber o que dizer.

Ele ficou calado, fitando aquelas pequenas linhas intermináveis minutos. Depois olhou-a com algo no olhar que a fez quase perder o ar.

Vamos ter, disse baixinho, mas resoluto.

Tiago, estou no terceiro ano… Como é que eu…

Vamos ter repetiu, apertando-lhe as mãos nas dele. Pedes uma pausa nos estudos. Eu trabalho. Vamos conseguir. Matilde, é nosso filho.

Ela chorou. Chorou de medo, de insegurança, talvez das hormonas, mas também de felicidade uma felicidade crua, quase inexplicável, que despontava entre todo aquele caos.

Tratar da pausa na faculdade foi fácil.

O Dioguinho nasceu em março, ainda com os restos da chuva e o cheiro a terra húmida, mas já com um prenúncio de primavera. Três quilos e duzentos, cinquenta e um centímetros.

Matilde olhava para aquele ser minúsculo nos braços, aquela carinha encarnada e enrugada, ainda sem acreditar que era mesmo dela. O filho dela e do Tiago.

A felicidade parecia tão grande que até doía.

As mudanças chegaram sem aviso, como os primeiros frios ontem ainda estava calor, hoje já se vê vapor ao falar.

Tiago começou a chegar tarde a casa. Primeiro meia hora, depois uma inteira, e depressa Matilde deixou de contar. Ele entrava, atirava o casaco sem um olhar para o filho. O Dioguinho no berço, de olhos escuros iguais aos do pai, olhava à espera daquele abraço de outros tempos, mas Tiago nem reparava.

Ao menos cumprimentavas o menino perdeu a paciência ela um dia.

O Tiago revirou os olhos, irritado.

Está a dormir, vou acordá-lo para quê?

O Diogo não dormia. Olhava o pai em silêncio. Mas o Tiago nem percebia, ou não queria.

Vieram as bocas. Ao início, disfarçadas. Matilde convencia-se que era impressão dela.

Vais assim para a rua? perguntou ele, uma manhã, olhando-a de cima a baixo.

Ela olhou para si uns jeans normais, uma camisola de lã. Nada de especial.

Não gostas?
Não, só… deixa.

A cada dia, piorava.

Olha-te ao espelho alguma vez? atirou certo dia, numa noite enquanto ela se trocava. Estás gorda, pesada. Nem pareces ter vinte e dois, pareces cinquenta.

As palavras doeram a sério. Ela ficou no meio do quarto, na camisola velha, sem saber o que dizer. Sim, tinha engordado depois do parto, não tinha recuperado. Mas será que tinha mesmo de ouvir isto?

Tiago, acabei de ter um filho sussurrou, já só para dentro.

Há um ano! Um ano! Outras ao fim de três meses já parecem modelos, e tu…

Ele virou costas. O Dioguinho chorou na cama, assustado com as vozes.

Vai calá-lo! gritou da cozinha. Sempre aos gritos, não se pode dormir!

Matilde pegou no filho, cheirou-lhe o cabelo, deixou as lágrimas caírem-lhe pelo rosto. O Diogo acalmou-se, e ela ficou ali, no escuro, embalando-o e tentando embalar-se também.

Não tinha a quem desabafar. Ou melhor, tinha aos pais. Mas cada vez que pegava no telefone, recordava o olhar do pai, o Devias era pensar nos estudos, não em casamentos. Eles avisaram-na. E ela não quis ouvir. Pensou que o amor vencia tudo.

Como voltar agora? Admitir que tinham razão e que ela, tola e sonhadora, arruinou a própria vida? Imaginava a conversa, as lágrimas da mãe, o silêncio pesado do pai. E adiava sempre, convencida que tinha de aguentar sozinha.

Numa tarde, saiu com o Diogo a passear pelo bairro, deu a volta ao jardim, sentou-se num banco debaixo dos plátanos. E só aí, ao procurar as bolachas para o lanche, viu que se tinha esquecido delas.

Teve de voltar a casa.

Abriu a porta com a chave, a pensar em ir só apanhar o lanche do miúdo e sair. Mas reparou nuns sapatos de salto alto, vermelhos, mesmo junto ao tapete da entrada.

Foi pelo corredor, contra todo o bom senso.

A porta do quarto estava entreaberta.

Viu tudo quanto bastava. Uma mulher estranha na cama dela, nos lençóis dela. E o Tiago, indiferente, nem sequer tentou disfarçar.

Olhou-a com enfado.

O que querias, Matilde? disse. Olha para ti. Eu tenho vinte e cinco anos, achas mesmo que vou ficar preso a uma mulher acabada? Quem é que há-de querer-te, ainda por cima com um filho atrás? Aguenta-te.

Matilde mal se aguentava de pé, escorada no caixilho da porta enquanto a outra se vestia à pressa. O Tiago só olhava com aquele ar de desprezo.

Sai da minha casa. Agora.

A mulher fugiu dali. O Tiago encolheu os ombros.

Não faças dramas. Isto é normal. Toda a gente faz. Até o pai da tua mãe, achas que não traía? E as mulheres aguentam, porque sabem que não têm saída. Quem é que te vai querer assim? Por isso pára com a cena.

De resto, não me lembro bem como saí dali. Não me lembro de vestir o Diogo, de chamar o táxi, de dar a morada dos meus pais. No caminho, olhei pela janela e só consegui passar a mão pelas costas do meu filho, sentindo um vazio profundo.

A minha mãe abriu-me a porta. Bastou olhar para mim para perceber tudo. Abraçou-me como quando era criança e chegava a casa com os joelhos esfolados.

Mãe, eu… comecei, mas ela abanou a cabeça.

Depois, filha. Agora entra.

O meu pai veio da cozinha. Olhou para mim, pegou no neto ao colo. Ficou sério, impenetrável.

O que aconteceu?

Eu contei tudo. Aos soluços, às vezes sem perceber o que dizia as palavras más, a frieza, os sapatos vermelhos, o quem é que te quer assim.

O meu pai ouviu tudo sem um som. Quando acabei, foi buscar o casaco.

Vamos embora.

Onde? perguntei.

Falar com ele.

Pai, deixa estar… Eu trato…

O Diogo fica com a tua mãe. Tu vens comigo.

O Tiago abriu a porta como se nada fosse.

O meu pai entrou, olhou à volta. Depois virou-se para ele, a voz baixa mas tão firme que me gelou.

Vais agora fazer a mala e sair daqui. Da casa da minha filha. Que nós comprámos, com o nosso dinheiro. Aqui, não voltas.

O Tiago ainda tentou falar de direitos, do que era dos dois. O meu pai cortou logo.

Direitos? Queres falar de direitos? Vamos falar de como trataste a minha filha, de como a rebaixaste, de como trouxeste estranhas ao lar dela? Se daqui a meia hora ainda cá estiveres, chamo a polícia e acredita, tenho dinheiro para bons advogados. Agora rua.

O Tiago foi-se embora. Pegou numa mala e desapareceu, sem olhar para trás.

Por que não vieste logo para casa? perguntou-me o pai quando ficámos sós.

Pensei… vocês avisaram. Achei que iam dizer que a culpa era minha.

Ele virou-se e vi nos seus olhos o mesmo fundo de sempre, como quando eu era criança.

Tu és minha filha. Entendes? És a minha menina. Podes sempre voltar. Sempre.

Voltei a abraçar o meu pai, como noutros tempos. Chorei tudo ali, lavei as dores dos meses que vivi.

… Dois anos depois, Matilde sentava-se no tapete da mesma casa, a ver o Diogo construir uma torre de cubos coloridos. O diploma do curso tirado a estudar à distância, com nota máxima repousava no aparador. O telemóvel apitou com a notificação da transferência da pensão de alimentos.

O Diogo olhou para ela e sorriu com uma expressão igual à do pai. Mas já não me doía.

Mãe, olha!

Estou a ver, filho. Que torre tão bonita.

O sol punha-se cá fora, enchendo a sala de luz dourada. Matilde sorriu ao ver o filho. Tudo ficou bem. Não como ela tinha sonhado, mas ficou bem.

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