Erro Meu
Não acredito! Deve ser brincadeira!
Mal disfarcei o susto quando vi o jipe escuro a passar e quase bati no carro parado ao lado do meu bolinhas. Aquele carro, enorme, era-me mais que familiar. Assim é fácil reconhecer o veículo do vizinho, ainda por cima sabendo que é nele que eu envio os meus filhos à escola com ele todas as manhãs.
Só que, no lugar do lado do Sérgio e reconheci-o de imediato, já nos conhecemos há anos não vinha a mulher dele, mas sim uma rapariga que eu nunca vira na vida.
Boca feita arco, chapéu moderno… Se não dizia tudo, dizia muito.
Que lata! Não estou a acreditar! Saí do parque atrás do carro do Sérgio. Pensando bem, achei que não podia ficar calada perante tal situação.
Segui as instruções que aprendi nos meus policiais preferidos: deixei passar à frente um Audi, encaixei-me atrás e, dali, via perfeitamente o camion do Sérgio. Era impossível não reconhecer aquele trambolho rodoviário.
Era mesmo o Sérgio quem o chamava assim. Esse carro ele herdou do pai, e trocá-lo estava fora de questão, era um vínculo sentimental.
O pai do Sérgio faleceu há mais de dois anos, e ele nunca mais se recompôs totalmente. Tinham sido muito próximos, sobretudo porque o pai criou o filho sozinho desde que a mãe do Sérgio morreu subitamente. O Sérgio tinha apenas dois anos. A mãe, jovem e bonita, estava a fazer-lhe papas e, de repente, soltou um suspiro estranho, escorregou pelo chão e não respondeu ao pequeno quando, assustado, começou a gritar por ela.
O choro do menino durou até que o pai, esquecido de algo em casa e sem conseguir ligar para a esposa, chegou a correr do trabalho. Apanhou o filho nos braços e ligou para o INEM, mas já era tarde.
Foi um choque horrível. O pai do Sérgio, que praticara boxe muitos anos, sabia bem o que é ficar sem ar com um golpe seco o mundo apagou-se-lhe. A sua luz foi enterrada com a mulher que tanto amava. O coração dela, supostamente saudável, simplesmente parou.
E se as avós do Sérgio moravam longe, recusar-se-iam ambas a mudar-se só para criar o neto. A tia da mãe, Natália, insistiu:
És homem, tens de trabalhar, cuidar da tua vida… O menino é tão pequeno, precisa de cuidados. Como vais fazer?
Não sei, admitiu o pai do Sérgio, sempre pragmático.
Deixa-me ficar com o Sérgio. Trabalho no jardim de infância, ele estará bem cuidado
Só o veria de tempos a tempos Não posso, Natália. Ele perdeu a mãe, mas pai tem, e não o largo. Havemos de nos arranjar. E não deixou espaço para discussão.
Por sorte, encontraram solução logo: a vizinha, Dona Maria da Graça, recém-reformada, aceitou ficar com o pequeno enquanto o pai trabalhava. Mais tarde, entrou para o infantário, e a vida estabilizou. Todo o tempo livre era para o Sérgio. Nunca houve outra mulher na vida do pai, e o Sérgio cresceu sem madrasta.
A Dona Maria da Graça, que nunca casou nem teve filhos por razões que só ela sabia, começou a tratar o Sérgio como neto, e ele devolvia-lhe o carinho.
És minha avó? perguntava.
Não, amor. As tuas avós são a Ana e a Alice. Eu sou tua ama.
É tipo avó?
Parecido.
Gostas de mim?
Muito, és o meu menino preferido!
Então deixa ser avó também, pode ser?
Como recusar este apelo? Com a bênção do pai do Sérgio, e recusando aceitar dinheiro pela ajuda, Dona Maria deixou-se chamar avó. O que gerou perguntas.
Porque desenhas três cartões no Dia da Mulher, Sérgio? estranhavam as educadoras na creche. Mas assim ficava tudo explicado e as perguntas cessavam.
As solteiras suspiravam, secretamente apaixonadas pelo pai do Sérgio, mas ele não desviava a atenção: o seu foco era criar o filho. E fazia-o como ninguém.
Passaram-se anos, Sérgio terminou o liceu, escolheu a faculdade e partilhou uma dúvida com Dona Maria:
As raparigas não gostam de mim.
Isso dizes tu! Não foi contigo que a Aninhas estava aos beijos ali no largo? sorriu Dona Maria da Graça, trocista.
Mas ela acabou comigo. Diz que falta algo entre nós. Sabes lá tu o que é? Nem eu!
Sérgio, tu és inteligente, bonito e bom rapaz. Só não encontraste ainda a tal. Procura, sem pressas. Ela anda por aí, de certeza.
E Dona Maria tinha razão.
Uma colega de curso, recatada, ajudava-o com os trabalhos porque ele já trabalhava na firma do pai durante os estudos. Era tímida, nunca ousou dar o primeiro passo, e o Sérgio, habituado a raparigas despachadas como a Aninhas, não pescava bem o que ela queria dele.
Foi Dona Maria da Graça quem resolveu:
Lenita passou em casa dela a deixar uns apontamentos pedido do Sérgio mas hesitava, corando, sem fazer perguntas. Dona Maria percebeu logo tudo.
Não há ninguém, Lénita. Segundo sei, está disponível.
Bastou isto para a Lénita ficar radiante. Quando, à noite, Sérgio apareceu por lá para buscar uns cadernos, a Dona Maria agiu, à boa maneira de avó portuguesa: deu-lhe um calduço.
Então, avó!?
Não faças a miúda sofrer!
Quem?
A Lénita! Ai, rapaz, a tua felicidade anda aqui à tua volta e tu nem notas. Repara nela, rapaz. Miúdas destas só nascem de cem em cem anos.
Casaram discretamente. O pai queria uma festa grande, mas Sérgio argumentou:
Pai, a Lénita não quer, e a mãe dela vive sem grandes luxos. Não a quero pôr em constrangimento.
Eram uma família unida. O pai de Sérgio tinha receio da sogra nova por experiência própria não confiava nas sogras, pois a sua nunca lhe perdoara perder a filha tão cedo e mantinha o neto à distância. Dedicar-se para mudar isso foi uma batalha, mas venceu-a.
As férias do Sérgio passaram a ser com a avó materna, mas o menino ia contando os dias para o pai o buscar. Foi assim que aprendeu quão pesada pode ser a memória.
Não tive tempo de dizer tudo à tua mãe, Sérgio. Nem o quanto a amava. Andava sempre ocupada com as rotinas E agora, já nada posso fazer. Devia ter ajudado mais, devia ter estado mais presente quando ela tanto precisava confessava-lhe a avó, já idosa.
Para Sérgio, era difícil ouvir aquilo. Conhecia a mãe através das histórias do pai e das fotos pela casa. Um dia, ao escolher um perfume para a Dona Maria da Graça, reconheceu um cheiro e, inexplicavelmente, seguiu uma desconhecida pela loja, até que pediu à senhora o nome do perfume e comprou igual. Só em casa o pai explicou:
Os preferidos da tua mãe Onde os encontraste?
E desde então, aquele frasco ficou sobre a secretária do Sérgio como uma ponte para o passado.
Entretanto, a mãe da Lénita acolheu o genro. Era simples e bondosa, e só queria ver a filha feliz. Seria impossível pedir mais.
Viviam felizes, modestos, mas nunca lhes faltou harmonia. Os pais sonhavam com netos, mas os filhos foram de médico em médico: nada funcionava. Quando já era uma obsessão, foi Dona Maria da Graça a trazer sensatez:
Oh Sérgio, tens de te acalmar! Não foi para ter filhos que casaste com a Lénita, foi? Se amas, então apoia-a como é. Nem sempre é possível E às vezes, o problema és tu!
Os médicos dizem que está tudo certo
Então espera. Viajem, estejam juntos, deixem as coisas fluir. Às vezes só falta serenidade, rapaz! O homem tem de ter paciência para si, para a mulher, e para todos à sua volta. És o pilar, és o chefe. Não te deixes ir abaixo que ainda desanimas a tua mulher ela quer tanto ser mãe quanto tu queres ser pai, e carrega uma culpa que não é dela
Como é que sabes?
Porque já estive desse lado. Também quis muito, mas não consegui. Era outro tempo, sem diagnósticos. Diziam para esquecer e eu aceitei. Ele só queria casar se eu estivesse grávida No fundo, não me amava. Mas depois percebi que assim foi melhor. Se tivéssemos tido filhos, não seriam felizes. E vocês são diferentes: têm amor e têm esperança. Esperem!
Sérgio acatou o conselho: tranquilizou-se, apoiou mais Lénita. Foi difícil, mas com ajuda da família, tudo se tornou suportável. Pela primeira vez, pararam de falar do assunto, tentaram relaxar, e o impossível aconteceu.
Quase dez anos depois, durante umas férias, Lénita começou a sentir-se mal, foi ao médico e a notícia caiu do céu.
Um bebé? Sério?
Quando realmente percebeu, já a Lénita chorava de emoção no consultório.
Olha aqui, Sérgio! É tão pequenino, mas já é nosso
O primeiro filho veio grande e saudável: mais de quatro quilos de felicidade. Lénita, tão franzina, fez tudo o que os médicos recomendaram e, logo após o parto exclamou:
Venho cá o ano que vem para o segundo! Preparem-se!
E assim nasceu a filha e ainda outro menino. Parece que, nesta vez, a natureza decidiu compensar a espera e tudo veio a tempo e horas.
A família cresceu, a casa já era apertada.
Tu precisas de uma casa, Sérgio! declarou o pai. Vamos construir!
Encontraram terreno, iniciaram obras, mas vieram crises sucessivas e foi preciso segurar a empresa familiar, deixando de lado o projeto. Foi nessa altura que Dona Maria da Graça interveio:
Bem, já que têm uma casa pequena a valer e eu tenho um T3, mais espaçoso, trocamos! Eu fico com o teu pai, não precisamos de muito e já não gosto tanto de estar sozinha E ainda te curei a casa toda com aquele último restauro. Tu, Lénita e os miúdos vêm para o meu apartamento e eu e o teu pai tomamos conta um do outro.
Mudámo-nos. Lénita dedicava-se à casa, aos filhos e à família. Eu trabalhava dia e noite para salvar o negócio.
Consegui. O pai, porém, não resistiu. Escondia o seu estado de saúde para não preocupar ninguém, mas um dia chamou-me para uma conversa séria:
Vou passar o apartamento para a Maria da Graça. Já somos quase de família, ela foi mais mãe para ti do que qualquer outra E não quero que lhe falte casa quando eu já não estiver cá. Já que ela já passou tudo para o vosso nome, eu faço igual As coisas devem ficar em ordem, filho.
O quarto filho nasceu um mês depois da morte do meu pai querido. O pequenito, Alexandre, conheceu o avô apenas pelas histórias mas foi batizado em sua homenagem.
A vida foi avançando, não sem tropeços e lágrimas. Os filhos deram-nos amor de sobra: por vezes, parecia que era tanto que até o sol nunca mais se punha.
Lénita, de natureza comunicativa, escolhia as amizades a dedo. Conheceu a minha vizinha e tornou-se logo confidente de confiança a Sofia. Ambas gostavam de teatro, de bons livros, e quase nunca tinham tempo para esses prazeres. Sofia também tinha dois filhos, tão traquinas que pareciam dez, e o marido dela era o típico sedutor, apaixonado pela vida e por outras mulheres.
Sofia convivia com as escapadelas do marido. Achava que todos eram iguais e preferia tapar os olhos para manter a família unida. Afinal, os rapazes precisavam do pai.
Por isso, ao ver Sérgio com aquela mulher desconhecida, a mente de Sofia precipitou-se: havia ali coisa estranha. A Lénita deveria ser avisada.
Segui o Sérgio até um restaurante pequeno, que conhecia bem dos jantares com o marido. Era famoso pelos pratos e pelos concertos de jazz ao vivo.
Vi Sérgio ajudar a mulher a sair do carro e desapareceram debaixo do toldo do restaurante. Fiquei com dúvidas. Contava já tudo à Lénita? Ou esperava ver mais alguma coisa?
Quanto mais pensava, menos certeza tinha.
E se eu falasse e estragasse tudo? Quatro filhos, Dona Maria da Graça que agora mal saia de casa, a mãe da Lénita que andava a tratar da saúde em Lisboa ainda o Sérgio a tinha levado a consultas caras… Tanta responsabilidade em jogo. E afinal, quem era aquela mulher? Podia ser um caso de nada, como tantos do meu próprio marido. Ia destruir uma família só porque me parecia?
Sem saber, dei um murro no volante e, ao tocar a buzina potente (presente antigo do meu marido), os pombos fugiram assustados. Acordei dos pensamentos.
São todos iguais Mas será que vale a pena destruir a felicidade de uma amiga por um erro talvez passageiro? Se fosse comigo, se alguém me dissesse, nunca mais perdoava. Uma coisa são rumores, outra é ter certeza E, de repente, já não és nada e outra ocupa o teu lugar
Continuei parada no estacionamento. Lá em casa esperavam-me os filhos e a ama, que já devia ter ido embora há uma hora.
O telemóvel tocou.
Sim? Quando? Claro, Sérgio! Muito obrigada pelo convite, estaremos lá.
Pousei o telefone, toquei nas faces como para acordar.
O que foi isto? Agora vejo-o com uma e depois liga-me a convidar para a festa do aniversário de casamento dele e da Lénita. Eu sabia que era data redonda, já tinha até escolhido prenda.
Nunca celebravam com amigos. Iam sempre a dois, para comemorar a sós.
Pois claro que aceitei. Boa amiga tem de estar lá, mesmo a ferver por dentro.
Vestido novo, sapatos a condizer, cabelo e unhas. O meu marido, a olhar-me todo vaidoso:
Porque tão séria? Daqui a uns meses faço-te eu uma surpresa destas!
Fingi que procurava o batom, para não rir.
O Sérgio estava inspirado. O salão era lindíssimo, flores frescas, velas, porcelana, toalhas brancas. A Lénita, encantada, agradecia cada detalhe.
Sérgio, até as flores! Azul e prata como eu gosto! Lindo!
Dei-lhe o ramo e o presente, ela puxou-me para a casa de banho feminina.
Vi-lhe o anel novo uma jóia cara.
O Sérgio deve estar a compensar alguma coisa pensei amarga.
Na escada para a casa de banho, cruzei-me com a tal mulher.
É você?!
Desculpe? Conhecemos-nos?
Desta vez vinha de fato escuro, saltos baixos, cabelo apanhado.
O que está aqui a fazer? sibilei.
Só espero que a Lénita nem sonhe!
Trabalhar. Sou a organizadora do evento. O Senhor Sérgio contratou-me para decorar tudo O meu primeiro grande trabalho. Até o meu marido veio ajudar ontem, pôs flores, montou luzes Agora não posso subir a escadas.
Está grávida?
Só há umas semanas descobri. Estou uma pilha de nervos. Tem filhos?
Sim, dois.
Dá trabalho?
Muito dei por mim a sorrir espontaneamente. Não se preocupe, é despachada, vai dar conta disto tudo. Precisa do contacto de um bom obstetra? Foi com o mesmo da Lénita.
Ela tem quantos?
Quatro!
Céus, tanto amor acumulado.
Mesmo!
Ai, desculpe, já vão começar! Vem?
Já desço.
Voltei a entrar na casa de banho, olhei-me ao espelho e senti-me finalmente leve.
Lénita! Anda daí. Queres perder o casamento outra vez? Sósia tua, de certeza!
Na festa, entre brindes pela felicidade dos amigos, apercebi-me de como tudo pode ruir por um só erro, uma má interpretação, um impulso tolo. Aquilo que quase destruí a alegria no rosto da Dona Maria da Graça, os filhos aos gritos com versos de parabéns, os corações cheios.
Um erro, sussurrei para mim, ao acabar afinal o champanhe de um trago, e virei-me para o meu marido: É doce ou amargo, o nosso?
Amargo, Sofia! Ainda é amargo!







