Que bom que sugeriste finanças separadas. Sendo assim, eu fico com tudo o que é meu.

Fantástico que tenhas sugerido separação de finanças. Nesse caso, fico simplesmente com tudo o que é meu.

Quando o meu marido afastou o prato ao jantar com uma expressão de quem tinha acabado de receber não rissóis, mas uma intimação judicial, percebi logo: vinha aí discurso solene. O Tomás ajeitou o guardanapo, pigarreou, e fitando-me com aquele olhar vago provavelmente a imaginar o seu glorioso futuro capitalista anunciou, de voz firme:
Filipa, estive aqui a fazer contas. O nosso orçamento está por um fio por causa da tua falta de literacia financeira. Vamos passar a ter finanças separadas. A partir de amanhã.

A surpresa morreu antes de nascer, mas o cheiro a disparate no ar era tão óbvio quanto o aroma de carapaus fritos numa tasca. Larguei o garfo devagar.

Ótimo que tenhas sugerido finanças separadas, Tomás respondi, sorrindo com a serenidade de uma jibóia a cumprimentar um coelho ingénuo. Então, fico apenas com o que é meu.

Tomás piscou. No seu cérebro, liso como uma mesa de snooker e onde os pensamentos batiam uns nos outros raramente, esta frase parecia não encaixar. Ele esperava lágrimas, recriminações, talvez uma cena, mas jamais tal aceitação pacífica.

Só fazes bem acenou com a cabeça, exalando aquela autossuficiência de novo-rico mental, já a imaginar gastar à vontade os euros “poupados” a meu cargo. Eu vou começar a investir no meu estatuto. Todo o homem precisa de estatuto, Filipa. Tu bem, contigo chega para as tuas meias de vidro.

O meu marido, Tomás Silva, era um espécime raro. Achava-se um tubarão dos negócios enquanto era apenas um gestor intermédio numa empresa de persianas. O seu estatuto traduzia-se em compra de aparelhos que só sabia usar a 3%, e entusiasmo por frases motivacionais da internet.

Fechado acenei. Vais acabar a cotolete? Ou também já não está nos teus gastos?

Ele comeu. À borla. Pela última vez.

A primeira semana da “nova política económica” decorreu sob o signo do orgulho. O Tomás pavoneava-se pela casa, evitando indagar quanto custava o detergente da roupa. Comprou um agenda premium (em imitação barata de pele) e começou a anotar despesas.

Na quarta-feira chegou com um saco onde tilintavam duas minis e uma embalagem de rissóis do desconto. Enquanto isso, eu tirava de um cabaz vindo do mercado: robalo fresquíssimo, abacates, queijos bons, legumes, uma garrafa de Alvarinho.

Tomás postou-se à entrada da cozinha, apoiado no batente como um guerreiro exausto.
Andas a esbanjar, hã? lançou, fitando o peixe. É por isso que nunca poupamos. Despilfarro.
Não é nunca poupámos, Tomás, é eu não poupei. Agora estás a poupar para o teu estatuto. Já arrumaste as tuas coisas no frigorífico? A tua prateleira é aquela debaixo, na caixa dos legumes. Temperatura certa para os teus activos.

Bufou, tirou os rissóis e pô-los na minha frigideira.
O gás murmurei sem olhar.
O quê?
O gás, água, desgaste da frigideira e do detergente. Isto de dividir é para tudo, não?
Ó Filipa, não sejas tão miúda! abanou a mão, como um fidalgo a enxotar moscas. Essas minhudices não ficam bem.
Minhudice é contigo, Tomás. Isto são só… leis de mercado.

Tentou esboçar um sorriso, mas queimou-se na primeira dentada e saiu-lhe um esgar lastimável, como cão rasteirinho a roubar limões.
Só estás chateada porque fechei a minha conta, tens inveja as mulheres quando perdem o controlo, perdem a cabeça! atirou, descascando massa da palha.

Ao sábado, veio cá a Dona Augusta, minha sogra mulher de gênio. Amava-me tanto quanto se irritava com a parvoíce do filho. Fora chefe de contabilidade num grande armazém e dava mais valor aos números que a pessoas.

Estávamos a lanchar bolinhos, o Tomás do outro lado da mesa a destruir uma carcaça comprada em promoção e com ar de mártir.

Mãe, imaginas? A Filipa agora até esconde o papel higiénico! Só temos lixa no WC, mas ela guarda um fofinho de pêssego no armário. Isso é segregação!
Dona Augusta pousou a chávena no pires, com precisão cirúrgica.
Tomásinho começou doce. Quando andaste a proclamar segregação, o que estavas a usar para pensar? O mesmo sítio onde te limpas com a lixa?
Ó mãe! Estou a otimizar orçamento! Quero comprar carro!
Carro? a sobrancelha disparou quase até ao couro cabeludo. Com os cêntimos que aforras da tua mulher? Para teres um chaço e andares a sentir-te rei da estrada?
É um investimento!
O investimento é a Filipa, que ainda te atura em casa dela retorquiu Augusta. E este bolo está divino, filha.

Tomás tentou esticar a mão para o bolo.
Minha mão com a faca de manteiga interceptou delicadamente.
Cinco euros, Tomás. Ou come o pão.
A sério? Da mulher? Com a mãe a ver?
O mercado é cruel, amor. Aluguel do garfo vai mais cinquenta cêntimos.

Atirou-se à carcaça e saiu fulminante.
Que histeria! sentenciou a sogra. Sai ao pai. Sempre quis juntar capital, até que o mandei para a mãe de cuecas e mala. Aguenta, filha. Agora vem a fase do vou fazer birra até congelar as orelhas para todos verem.

Duas semanas depois, o experimento chegou ao ponto crítico. Tomás emagreceu, desfez-se mas a vaidade não largava. Usava camisas amachucadas (o detergente era meu e o sabão azul que comprara cheirava mal), e um desodorizante barato. O olhar o de cão batido que julga ser lobo.

Tudo chegou ao clímax numa sexta-feira. Voltei do trabalho cansada mas feliz: tinha recebido prémio. Sobre a mesa, esperava-me um ramalhete de cravos murchos e uma garrafa de espumante barato.

Tomás fazia pose de medalha polida.
Filipa, senta-te. Temos de falar. Acho que podemos aliviar a coisa. Estou disposto a contribuir a pausa teatral, com cem euros. Para a comida.

Olhei para ele, para os cravos que pareciam um arranjo funerário, para o espumante que dava azia só de olhar.
Cem euros? Esplêndido, Tomás, mas há um pormenor.
Tirei da carteira uma pasta, lá dentro uma folha de Excel primorosamente impressa.

O que é isso? desconfiou.
Conta, querido. Alojamento no centro (incluindo cozinha e sala): quatrocentos euros. Utilidades (gostas de banhos de 40 min): oitenta euros. Limpeza (eu limpo, tu não): sessenta euros. Total mensal, quinhentos e quarenta euros. Duas semanas: duzentos e setenta. Mais danos nos pequenos eletrodomésticos.

Tomás empalideceu.
Vais vais cobrar-me por viver na casa da minha mulher?!
Da mulher com orçamento separado, corriges. Disseste tudo o que é meu, fica comigo. A casa é minha. Logo, és inquilino. Não temos contrato, portanto posso rescindir com 24 horas de aviso.

Isso é mesquinhez! É baixo! Sou homem!
És um homem a tentar poupar à minha custa, esquecendo que vives com o meu dinheiro falei bem baixo, mas cada palavra pesada. Queres ser parceiro? Então paga. Ou procura onde o estatuto fica mais barato.

Quase sem ar, a abrir e fechar a boca, a gesticular.
Vais-te arrepender! Vou-me embora! Vou encontrar quem me valorize, não pelos metros quadrados!
Boa sorte, Tomás. Leva o saco de rissóis do congelador. É teu ativo, nem cobiço.

Desatou a correr pela casa, a enfiar roupa num saco. Chamou-me de materialista, assassina do amor, disse que ia para a rua, para o frio
Telefona à tua mãe recomendei, servindo um copo de Alvarinho. E chama o Bolt ou o Uber Económico, não esqueças o estatuto.

Bateu a porta como se quisesse acordar a minha consciência; só acordou a vizinha de baixo.

O silêncio ficou espesso como mel. Sentei-me na poltrona, a olhar a Lisboa iluminada, sentindo um alívio leve como penas. O telemóvel tilintou. Mensagem da Augusta:
«Chegou. Chateado, com fome, pede justiça. Disse-lhe que a justiça custa caro, e ele não tem dinheiro. Cobrei o jantar e a dormida. Tem de se habituar ao mercado. Estás bem?»

Sorri e respondi:
«Estou ótima, mãe. Vou comprar cortinas novas. Com as poupanças.»

Nunca expliquem a alguém porque é burro. Mais sábio é deixá-lo pagar, até ao cêntimo, pelo disparate. Se um homem vos propõe independência, certifiquem-se de que sabe sobreviver nela.

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Que bom que sugeriste finanças separadas. Sendo assim, eu fico com tudo o que é meu.