Que bom que sugeriste finanças separadas. Nesse caso, fico eu com tudo o que é meu.

Ainda bem que foste tu a sugerir finanças separadas. Então vou simplesmente ficar com o que é meu.

Quando o meu marido afastou o prato ao jantar com o mesmo ar que teria se eu lhe tivesse servido uma intimação em vez de croquetes de bacalhau, percebi logo: ia fazer um discurso programático. Ricardo endireitou o guardanapo, pigarreou e disse, olhando-me como se já estivesse a planear o seu futuro iluminado de empreendedorismo:
Mafalda, pus os números todos em cima da mesa. O nosso orçamento está a rebentar por causa da tua falta de literacia financeira. Vamos passar a ter finanças separadas. A partir de amanhã.

Não houve suspense, mas o cheiro a disparate ficou no ar como a fritura de carapau. Larguei o garfo devagarinho.

Óptimo que tiveste essa ideia, Ricardinho sorri com a calma venenosa de uma cobra diante de um coelho idiota. Então olha, nem te preocupes: fico com o que é meu.

Ricardo piscou os olhos. A sua cabeça, onde os pensamentos batiam uns nos outros raramente mas com estrondo, não encaixou logo aquilo. Esperava lágrimas, acusações, se calhar até um escândalo, mas não aquele sossego letal.

Assim é que é, assentiu com superioridade, já a imaginar o dinheiro poupado comigo. Eu vou poupar para o meu estatuto. Um homem precisa de status, Mafalda. Tu bem, para as tuas meias deve chegar.

O meu marido, Ricardo Henriques, era um caso raro. Achava-se um tubarão dos negócios, sendo apenas gestor intermédio numa loja de alumínios. O tal “estatuto” traduzia-se quase sempre em gadgets que ele mal usava e frases motivacionais lidas no Facebook.

Perfeito, anui. Vais acabar o croquete? Ou já não conta no teu orçamento?

Comeu-o. De borla. Pela última vez.

Na primeira semana desta “nova política económica”, Ricardo desfilava pela casa orgulhoso, sem nunca me perguntar quanto é que o detergente custava. Comprou uma agenda premium de imitação de pele, para registar as suas despesas.

Quarta-feira apareceu em casa com um saco, onde tilintavam duas imperiais baratas e uma embalagem de rissóis congelados. Eu desfazia a entrega do supermercado fino: salmão, abacate, queijo, legumes frescos e uma garrafa de vinho verde de qualidade.

Ricardo encostou-se ao vão da porta com ar de soldado cansado.
A esbanjar, não? murmurou, olhando para o peixe. Depois queixas-te das finanças, ó gastadeira.
Não é “nós”, Ricardo, é “eu”, corrigi, cortando limão. Agora és tu que poupas para o teu estatuto, lembras-te? Já ocupaste prateleira no frigorífico? A tua é em baixo, na gaveta dos legumes. É a temperatura certa para os teus ativos.

Bufou, pegou nos rissóis e pô-los a cozer na minha panela.
O gás, avisei sem me virar.
O quê?
O gás, a água, o uso da panela, detergente Vamos dividir tudo, certo?
Oh Mafalda, não sejas mesquinha! afastou o assunto, com aquele tom paternalista típico. Não te fica bem esse pão-durismo.
Pão-durismo, Ricardo? Isto são relações de mercado.

Disfarçou um sorriso, mas queimou-se e ficou com um ar triste, como cão apanhado no acto.
Isto é porque te cortei o acesso ao meu cartão, é ou não? atirou ele, enquanto arrancava a massa dos dentes. As mulheres só se sentem mal quando perdem controlo.

No sábado veio visitar-nos a Dona Cândida. A minha sogra era única estimava-me na mesma medida em que desprezava a burrice do filho. Fora contabilista-chefe numa fábrica, mais leal aos números que às pessoas.

Tomávamos chá com queijadas. Ricardo mastigava uma bolacha Maria (comprada em promoção) e tinha ar de mártir de regime.

Ó mãe, imagina que agora até esconde o papel higiénico! lamentou-se, ávido de apoio materno. No WC tem lixa e ela tranca o papel fofinho de pêssego no armário! Isto é segregação!

D. Cândida pousou a chávena devagar.
Ricardinho, meu filho, quando decretaste essa tal segregação, pensaste com o sítio onde o papel faz falta?
Oh mãe! Quero poupar! Quero comprar carro!
Carro?! Sobrolho dela subiu tanto que desapareceu na franja. Com as migalhas que guardas da tua mulher? A poupar papel higiénico para pagar calhambeques de segunda mão e seres “rei da estrada”?
É investimento! exclamou Ricardo.
Investimento é a Mafalda aguentar-te nesta casa, tanso, cortou D. Cândida. Mafaldinha, este bolo está divinal.

Ricardo ia buscar um pedaço. Interpus o cortador gentil, mas firme.
Cinco euros, Ricardo. Ou fica-te pela bolacha.
Estás a falar a sério? Ao próprio marido? E à frente da minha mãe!?
O mercado é cruel, querido. E a faca custa mais cinquenta cêntimos a alugar.

Corou, agarrou a bolacha e saiu disparado.
Tinha de ser histérica, resmungou a sogra. Sai mesmo ao pai dele: tanto poupou, só ficou com a trouxa das cuecas. Força, filha. Agora vai começar a fase amuei e faço birra até congelar os próprios pés.

Duas semanas depois, o experimento entrou em colapso. Ricardo emagreceu, andava amarrotado as camisas por passar (amaciador e detergente eram meus), cheirava a desodorizante barato e olhava para mim como cão enxotado, sem perder a pose de lobo.

O fim chegou numa sexta. Cheguei cansada mas feliz ao ganhar um prémio no trabalho. Sobre a mesa, o surpreendente: um ramo de cravos murchos e uma garrafa de espumante barato.

Ricardo sorriu, a brilhar.
Senta-te, Mafalda. Temos de conversar. Decidi aliviar as condições. Vou pôr fez pausa dramática duzentos euros no orçamento familiar. Para comida.

Olhei: os cravos, mortos desde o 25 de Abril, e o espumante de causar azia.

Duzentos euros? Que generosidade rara, Ricardo. Um pormenor.
Peguei na pasta da mala. Dentro estava um Excel impresso.

O que é isso? alarmou-se.
A conta, querido. Olha: arrendamento quarto no centro de Lisboa (considerando que usas sala e cozinha) quinhentos euros. Despesas (tomas banhos de meia hora) cem euros. Limpeza (eu limpo, tu não) sessenta euros. Total: seiscentos e sessenta por mês. Duas semanas, trezentos e trinta. Mais desgaste dos eletrodomésticos.

Ricardo ficou pálido.
Vais cobrar-me por viver na casa da própria mulher?!
Na casa de uma pessoa com quem tens finanças separadas, corrigi, doce. Disseste tu: o meu fica comigo. A casa é minha. Logo, és inquilino. E sem contrato, posso despejar-te em 24 horas.

Isso é mesquinho! Eu sou homem! gritou, virando a cadeira.
Um homem que quis poupar à custa da mulher e esqueceu-se por quem vive alimentado, respondi, cada palavra cortante. Queres ser parceiro? Então paga. Ou procura onde estatuto sai mais em conta.

Silenciou, ficou vermelho. Tentou ripostar, só se mexia, bufava, nada saía.

Vais ver! gritou por fim. Vou-me embora! Vou encontrar alguém que valorize o homem que sou e não a área da casa!
Boa sorte, Ricardo. E leva os teus rissóis do congelador. Não mexo no alheio.

Circulava pelo apartamento a encher o saco de roupa, a gritar que eu era avarenta, que matei o amor, que ia para o frio da rua

Liga à tua mãe para abrir a cama, sugeri, servindo-me do vinho verde. E apanha um Bolt económico, não estragues o estatuto.

Fechou a porta como se fosse acordar a justiça universal, mas quem acordou foi só a vizinha do lado.

A casa ficou de um silêncio doce como mel. Sentei-me na poltrona, olhei Lisboa iluminada pela noite e por dentro sentia-me leve como nunca.

O telemóvel vibrou mensagem da Dona Cândida:
Já chegou. Furioso, esfomeado, exige justiça. Disse-lhe que justiça é cara e ele não tem crédito. Mandei-lhe a conta do jantar e dormida. Ponha-se preparado para o mercado. Como estás?

Sorri, respondi: Aguento, mãe. Vou investir em cortinados novos. Graças às poupanças.

Nunca expliques a alguém porque é tolo. Mais eficaz é deixá-lo pagar a conta. Se um homem quer independência, tem de saber sobreviver quando ela chega.

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